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12 de mai. de 2013

vossos filhos não são vossos filhos


Não é nada, não é nada, chegou maio, chegou Dia das Mães (alô, mamãe!) e, em meio à avalanche de "quem acha que mãe devia ser eterna, compartilha!" no Facebook, aproveito pra dar também minha colaboração.

"Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós.

E, embora vivam convosco, não vos pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos. Porque eles têm seus próprios pensamentos. Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a Sua força para que Suas flechas se projetem rápidas e para longe. Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria: pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável."

De "O Profeta" - Gibran Khalil Gibran

8 de fev. de 2013

essas crianças que nos dominam‏


De Marina Colasanti, em sua coluna de ontem no Estado de Minas (via):

A menina aparece de repente na esquina entre duas gôndolas de produtos de beleza, passa por mim correndo, desvia de um carrinho, para, pega num produto, larga de volta na prateleira, fala sozinha e sai correndo. “Sofia!”– chama a mãe, empenhada na leitura de uma embalagem. Sofia não responde. “Sofia, vem pra cá”, ordena a mãe sem convicção. Sofia não vem. A mãe acabou a leitura, empurra seu carrinho repetindo ordens de que Sofia não toma conhecimento. Sofia, calculo quando torna a passar por mim correndo, deve ter uns 4 anos. E já sabe que quem manda ali é ela.

Adam Mansbach, um americano esgotado pelas manhas da filha de 2 anos, acabou transformando-as em dinheiro ao vender mais de 500 mil exemplares do seu livro Go the fuck to sleep (Vai para a porra da cama "Vai dormir, porra"). Não li o livro, mas o título soa mais como um rompante humorístico do que como o enunciado de uma tese sobre educação. E 500 mil pais o compraram, ávidos para saber como se manda um filho de apenas 2 anos para a cama.

Poderiam ter lido o livro da mãe tigresa Amy Chua, que com um decálogo de apenas cinco pontos mostra, em termos domésticos, como e por que a China ganha tantas medalhas de ouro em esporte e tantos lugares de destaque nas orquestras. É simples, desde pequeno deve-se proibir ao rebento: dormir fora de casa, brincar com outras crianças, assistir à TV ou jogar videogame. E exigir: ser sempre o primeiro em tudo, tocar piano ou violino com perfeição. Como arremate: qualquer nota escolar abaixo de 10 não deve ser tolerada.

Na década de 1960, embarquei na educação da minha primeira filha com o olhar iluminado de quem ouviu vozes. Eu e a minha geração tínhamos ouvido o apelo libertário de Alexander S. Neil, que, com sua experiência em Summerhill, nos exortava a romper os grilhões educativos das crianças. Liberdade sem medo era o lema. Somava-se à famosa frase da psicanalista francesa Françoise Dolto: “As crianças têm só direitos; os pais, obrigações.”

Assim, de soma em soma, chegamos ao ponto que nos desespera, o império das crianças dominadoras.

Elas não obedecem, porque os pais acham que obedecer é submeter-se e a submissão enfraquece o caráter. Elas exigem veementemente tudo o que querem, porque os pais estão convencidos de que negar seus desejos equivale a criar frustrações. Elas questionam a autoridade, porque os pais não a exercem com convicção. Elas não conhecem limites porque nenhum limite lhes é imposto. Como escreveu um jornalista francês, são desde cedo “drogadas no prazer imediato”.

Programados, esperados ansiosamente, fotografados desde o útero, nomeados bem antes de nascer, louvados, treinados para o fascínio das marcas e o exercício da posse, adestrados em aulas e cursos para brilhar em qualquer domínio, esses filhos muitas vezes únicos, e para quem se quer dar tudo o que não se teve, não são exatamente mais felizes do que o foram as crianças de outros tempos. E nada nos leva a crer que venham a ser mais aptos para a vida.

Educar os filhos é uma lenha, sobretudo porque só nos é permitido acertar. Mas parece evidente que, entre a rigidez da mãe tigresa e o pobre pai em desespero, existe um ponto intermediário mais equilibrado, aquele que, sem tantas fórmulas ou decálogos, se deixa guiar pelo bom senso.

13 de dez. de 2012

a boa mentira

André Dahmer

O melhor conselho que recebi quando estava grávida já não lembro quem deu, mas tenho repetido como um mantra nos últimos 14 anos. Alguma mãe mais sábia e experiente me disse apenas isso: “Confia no teu instinto”.

Seguir os próprios instintos obviamente não garante que se vá acertar sempre, mas assinala a importância de conceder aos pais a liberdade para criar seus filhos como lhes parece mais adequado e não conforme a cartilha que tias, vizinhas e amigas bem-intencionadas tão graciosamente ditam a partir do momento em que alguém anuncia que está grávida.

Uma das situações em que segui meu instinto – mais ou menos contra a corrente dominante – diz respeito a esta época do ano: nunca consegui mentir a respeito do Papai Noel. Pronto, falei.

Especialistas em psicologia infantil garantem que por volta dos oito anos, quando a maioria já percebeu que aquele Papai Noel magricelo que distribui presentes todos os anos é, na verdade, o tio Oscar metido em um traje ridiculamente inapropriado para o calorão de dezembro, as crianças já são capazes de distinguir dois tipos de mentiras contadas pelos adultos.

A “má mentira” é aquela que os pais contam para fugir de uma responsabilidade (“Não vamos ao Marina Park hoje, meu bem, porque eles fecham no dia de São Benedito”) ou de uma culpa (“Não fui na festinha na sua escola porque pegou fogo no escritório.”) A “boa mentira” é a que os pais inventam não para livrar a própria barra, mas para alimentar a imaginação dos pequenos – como no caso das histórias de Natal. A boa mentira ensina a fantasiar, a má mentira ensina a mentir.

OK, bacana, os especialistas apenas confirmaram o que todo mundo já sabia: ninguém precisa sentir-se culpado por inventar histórias sobre renas, trenós e duendes. Mas, quando minha filha me olhou com aquela confiança absoluta que apenas as crianças pequenas têm nos pais e me perguntou como, afinal, era possível que o Papai Noel soubesse, lá no Polo Norte, se ela se comportava bem aqui em Porto Alegre, não consegui recitar o texto recomendado pelo senso comum ou pelas propagandas de refrigerante.

Ali, diante de mim, estava uma nova navegante esforçando-se para entender como as coisas funcionam neste mundo estranho em que acabara de chegar. Uma aprendiz de cientista, testando hipóteses e pedindo apoio dos mais velhos para prosseguir decifrando outros, maiores, mistérios. Era justo reconhecer o seu esforço: “Não, não existem câmeras escondidas pela casa, e a única pessoa que sabe o que se passa na sua cabeça é você”.

Uma das graças da “boa mentira” é saber que ela nunca dura para sempre. É um jogo de esconde-esconde em que as crianças sempre ganham. Alguns pais curtem prolongar a brincadeira – e eles obviamente não estão errados. Outros preferem saborear a satisfação de ver uma criança perceber que há graça e encantamento não apenas no que se inventa, mas também no que se descobre através das magníficas e inesgotáveis estratégias da razão.

- Claudia Laitano, para o Zero Hora, 08-12-12 (via)


3 de set. de 2012

criações


"Infelizmente, ninguém sabe o que faz que uma educação dê certo. E pais e filhos, perdidos (os primeiros no desespero e os segundos no desafio), acabam acreditando, um dia, como no caso do menino do Paraná, que o fundamento da autoridade e da rebeldia seja a força - eu te acorrento, e você vem com gilete.

Uma pesquisa famosa de Daniel Kahneman, em 2004 (para assinantes), constatou que criar filhos não é uma fonte de bem-estar. (...)

Seja como for, a criação dos filhos é uma experiência menos satisfatória do que todos queremos acreditar que seja.

O que foi? Será que, de repente, na modernidade, perdemos a mão, e ninguém sabe mais ser pai direito? Por que, na hora de educar, nossos avós pareciam se sair melhor do que a gente - com menos questionamentos e menos dramas?

É uma questão de expectativas: eles não esperavam nem um pouco que criar filhos lhes trouxesse a felicidade. E é uma questão de lugar: para eles, as crianças não eram o centro da vida dos adultos."

(Contardo Calligaris, aqui)

* * *

"Não aconselho - nunca aconselhei - ninguém a ter filhos. A ingrata e gloriosa arte de criar alguém nunca foi fácil, porém, acho que hoje as pessoas acrescentaram uns cinco níveis a mais de complicação, e todo mundo entra em desespero. (...)

Fico me perguntando o que dirão quando ela estiver maiorzinha e começarem a ver realmente a forma que estou criando [minha filha]. Não crio uma menininha, crio um ser humano. Quero que antes de entender a diferença entre os sexos minha filha aprenda a igualdade entre as pessoas."

(Rebeca, no Minoria é a Mãe)

* * *

Acho que criança tem que se sujar, tem que tocar o mundo sem tanto controle, tem que se desenvolver. E ninguém se desenvolve se for protegido demais, se tiver seu contato com todas as coisas milimetricamente cuidado, controlado, calculado, higienizado. Não canso de me surpreender com o exagero dos inúmeros produtos voltados ao que eu chamo de ‘esterilização do mundo’ (...).

Fico me perguntando se este tiro não há de sair pela culatra em um futuro não muito distante. Se não estaremos, com este zelo exagerado pela limpeza – melhor dizendo, pela assepsia absoluta em todas as esferas da vida – criando futuras gerações muito mais suscetíveis às bactérias que temos tentado a todo custo eliminar.

Um dos grandes aprendizados (e desafios) da maternidade é abrir mão do controle: desde a gravidez, aprendemos a relaxar, confiar, entregar – não sabemos quando o bebê vai nascer, quanto e quantas vezes há de querer mamar, quantas horas vai dormir, quando começará a engatinhar, andar, falar, ler, escrever. É assim também com o contato de nossas crianças com o mundo, com tudo o que ele tem a oferecer, de bom ou de ruim: não podemos controlar tudo, evitar tudo, proteger de tudo. E mesmo que pudéssemos, isso não traria para eles nada de bom.

Criança tem que tomar contato com o mundo, do jeito que ele é. Tem que estar livre e disposta diante de todas as coisas, tem que estar disponível para a investigação do mundo, e investigar o mundo é coisa que não se faz de luvas, de dentro de uma bolha, com medo do contato. É o contato que cria resistência, é pelo contato que o organismo se fortalece, aprende a reagir aos agentes estranhos, é pelo contato que se amadurece. É pelo contato que conhecemos o mundo, que nos entregamos à vida. A tal da ‘vitamina S’ (‘s’ de sujeira) pode fazer um bem danado para o organismo de nossos pequenos, se soubermos lidar com ela de maneira consciente, razoável, lúcida.

E o melhor de tudo: ela traz para a vida um gosto bom de alegria e liberdade. E quando esse gosto falta, isso sim é que faz um mal danado à saúde – do corpo e da alma.

(Tata, do Blog Mamíferas)

* * *

Em tempo: vale demais ler aqui a história do diretor de arte paraibano que apelou para Nick Fury para ajudar o filho, que teria de usar um tampão no olho para um tratamento contra hipermetropia.

2 de set. de 2012

todo mundo é diferente


Um menininho estava brincando de boneca. O pai chegou, viu aquilo, e quis saber, revoltado: “Quequifoi?! Virou gay agora?”. E o garoto, com toda a inocência que é peculiar às crianças que ainda não aprenderam a ser preconceituosas, respondeu, calmamente: “Não, virei pai”. (via)

Esse pai que deve sentir falta do tempo em que meninos brincavam de açougueiro.

* * *

(...) O filho do Niels Pickert morava com os pais em um bairro progressista de Berlim, onde o fato dele usar vestidos não era mais do que um assunto para iniciar uma conversa. Claro, não era fácil pro menino na escola, e como o menino não estava encontrando um role model, uma vez que não vemos muitos homens andando de saias por aí (um beijo, Laerte!), nada mais óbvio que o próprio Niels passasse a se vestir com saias – e, veja bem, ele gostou.

Difícil mesmo ficou quando a família Pickert se mudou para uma cidade totalmente provinciana, religiosa e conservadora, onde o fato de pai e filho saírem pelas ruas de saia e vestido, respectivamente, fez com que uma senhora desse com a cara no poste – literalmente – , o que deu ao pequeno novamente coragem para ir á escola com seus vestidos. E mais: ele gosta de pintar as unhas também, e se diverte pintando as do pai. Niel conta isso tudo em um artigo para a revista feminista alemã Emma, e eu destaco o que ele fala: “Sim, eu sou um daqueles pais que tenta criar seus filhos de forma igualitária. Eu não sou um desses pai acadêmicos, que divagam sobre a igualdade de gênero durante seus estudos e assim que há uma criança na casa, se adequam aos papéis confortáveis de gênero: ele está se realizando na carreira e ela cuida do restante.”

E então, apesar do que o meu despeito falou quando soube da notícia em uma primeira instância, eu aplaudo o Niel Pickert de pé. E pergunto: como é que isso não é respeitar as diferenças, minha gente? Sim, meninos e meninas são diferentes entre si. Mas também o são todos os seres humanos. O gênero não é a diferença primária, muito menos a principal, e não deve nunca definir o que uma pessoa é, assim como não o são a raça e a orientação sexual. O verdadeiro respeito às diferenças está justamente em não enquadrar ninguém nesses estereótipos. Porque o filho do Niel Pickert gosta de usar vestidos. E ele é um menino. E o pai não só respeita isso, como ele endossa, dando ao seu filho a autoestima necessária para expressar essa diferença.

Para encaixar uma estrela no buraco do triângulo, é necessário cortar quatro das suas pernas. Isso deve doer. Que tal não tentar encaixá-la em nada?

(Nanda, no Blog Mamíferas)
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