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7 de fev. de 2013

ainda a teologia da estupidez


“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos,
nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.”
- Martin Luther King

Mais um excelente comentário acerca da entrevista de Malafaia, agora de Alyson Freire na Carta Potiguar (vale a pena ler na íntegra aqui). O bom de manifestações explícitas do mais rematado preconceito e estupidez como essa é a reação dos bons, tirando-os do seu silêncio. :-)

Não há surpresas ou novidades quando o pastor Silas Malafaia fala. Cada vez em que é entrevistado ou empresta sua voz para algum programa de natureza política ou religiosa, assistimos e ouvimos o mesmo desfile de preconceitos, inverdades e sofismas. Bem sabemos que os disparates e infâmias habituais de sua retórica convicta e fundamentalista enojam e irritam. Entretanto, convém não perder a capacidade, e a paciência, de nos chocarmos e nem “acomodar com o que incomoda”, como diz a letra de uma bela canção.

E por que não devemos nos calar ou tão simplesmente dar de ombros, ignorar a ignorância? Porque o silêncio nos torna cúmplices da ignorância. Aliás, se é verdadeiro que em certas circunstâncias o silêncio pode ser mais eloquente do que a palavra, em outras o silêncio é o adubo fértil para o crescimento da ignorância e da barbárie. Por isso, cabe não calar. Falar a verdade ao poder e criticar os preconceitos é combater incansavelmente contra o silêncio que naturaliza ambos.

Voltemos, pois, a Malafaia, este paladino e missionário do ódio. Coube a jornalista Marília Gabriela a hercúlea tarefa de suportar o discurso de Malafaia, entrevistando-o em seu programa “De Frente com Gabi”. E se a jornalista por vezes se exaltou com as afirmações do pastor ou por este a atropelá-la em suas perguntas e raciocínios, penso que ela aguentou em nome de um compromisso com a verdade e com a sensatez; afinal, a mentira para ser desmascarada deve ser antes exposta.

O que disse o pastor desta vez? Num exemplo cristalino de homofobia cordial, disse que amava os homossexuais da mesma forma como ama os bandidos: “Eu amo os homossexuais como amo os bandidos”. Este amor misericordioso que Malafaia afirma cultivar não passa de um ardil ideológico que finge aceitar e acolher mas apenas para tentar “corrigir”, “reorientar”, “ajustar”. Em outras palavras, domesticar e “curar” a homossexualidade segundo os “meus valores” e “minha verdade”. Não creio que os homossexuais precisem deste amor denegador da liberdade e da autonomia individual. O amor de Malafaia é um amor tutelar, de correção moral e interesseiro.

A correlação valorativa entre “homossexuais” e “bandidos” é odiosa. Ela objetiva reforçar o vínculo entre homossexualidade e desvio, sustentando, sorrateiramente, a ideia de que a homossexualidade assim como o fenômeno da delinquência atenta e prejudica a sociedade.

(...) Quando prenuncia, num claro julgamento moral e especulativo, que a formação de famílias homoparentais ou a criação de filhos por casais homossexuais terá consequências sociais e psicológicas nefastas e nocivas, Malafaia esquece que, segundo Freud, a família independentemente das orientações sexuais do casal é a origem e o palco da maior parte dos problemas emocionais e psíquicos por conta dos conflitos subjetivos que envolvem a constituição do eu nas relações e identificações familiares. Aliás, a grande maioria das psicoses estudadas por Freud era produto das dinâmicas emocionais, repressivas e traumáticas da família vitoriana.

O artigo “Desconstruindo preconceitos sobre a homoparentalidade” dos psicólogos Jorge Gato e Anne Maria Fontaine cita diversos estudos psiquiátricos, psicológicos, sociológicos e antropológicos que desmentem as pré-noções estigmatizantes de que a criança em famílias homoparentais sofreria danos em seu desenvolvimento psicológico. Todos os estudos mencionados pelos autores foram unânimes na constatação da não-existência de uma excepcionalidade ou de diferenças substanciais que tornem a homoparentalidade especialmente danosa para o desenvolvimento emocional, cognitivo e sexual da criança em comparação às famílias heteroparentais. Inclusive, em algumas casos, de mães lésbicas, por exemplo, estudiosos verificaram um ambiente familiar no qual as crianças sentiam-se mais a vontade, livres e confiantes em discutir temáticas de caráter emocional e sexual, ocasionando um efeito positivo no desempenho escolar.

Em contrapartida, as dificuldades das crianças criadas em famílias homoparentais aparecem exatamente no plano das relações sociais, ou seja, obstáculos na aceitação e reconhecimento social por conta de contextos sociais discriminatórios como a escola. Mas, ainda assim, os estudos mostraram variações importantes nesse ponto a depender do país e região.

O que podemos concluir com os resultados das pesquisas científicas é que os problemas que estas crianças enfrentarão no futuro se devem precisamente de pessoas como Malafaia. Quer dizer, do preconceito, da intolerância e da ignorância que Malafaia pratica, semeia e propaga.

Portanto, o que atrapalha e lesa o desenvolvimento psicológico e social é o preconceito e a intolerância, os quais Malafaia transforma em bandeira. As religiões se tornam nocivas à humanidade quando são eivadas de ódio e ignorância por profetas fundamentalistas e intolerantes que alimentam incompreensões. (...)

Leia também: Malafaia e os que se deixam pautar por ele (aqui), Conselho Federal de Psicologia repudia declarações de Silas Malafaia (aqui) e Carta a Silas Malafaia: Pastor, me ajude! (aqui)
Assista ao vídeo em que a jurista Maria Berenice Dias responde à entrevista de Malafaia (aqui)

5 de fev. de 2013

para além da tolerância, abraçar o meu irmão


O geneticista Eli Vieira responde às colocações de Silas Malafaia em sua entrevista com Marília Gabriela (saiba mais aqui).

Vi algumas pessoas criticando-o por ter reduzido a questão da orientação de gênero à genética. Não me parece que seja tanto isso, mas sim que ele tenha se preocupado em, dentro da sua área de conhecimento, refutar os argumentos apresentados por Malafaia e apontar sua falta de fundamentação. De tudo o que ele diz, porém, creio que o mais importante é que "a genética não existe mais na sua versão determinista do início do século XX". Nossa carga genética se atualiza a partir da nossa interação com o ambiente, ao longo da vida. Quem cada um de nós é será determinado por um misto único e irrepetível de influências genéticas, ambientais e culturais.

Por isso mesmo, e considerando-se a complexidade tanto do domínio da genética quanto das neurociências, todo o saber que já acumulamos nesse campo e tudo o que ainda não conseguimos desvendar, parece-me que toda tentativa de redução das questões de gênero e sexualidade à mera explicação genética, ou ambiental, ou familiar, ou cultural, será necessariamente simplista e falha. Por que será tão difícil admitir a magnitude do nosso desconhecimento e simplesmente acolher a existência do Outro, para além das minhas categorias preconcebidas de certo e errado?

Como tão bem colocou Marília Coutinho, irmã do cartunista Laerte, em seu texto sobre transgeneridade (não deixe de ler aqui), em última instância trata-se de uma questão de "transgressão de estereótipos", de superação das categorias preestabelecidas em que precisamos nos enquadrar e classificar toda a realidade para nela enxergar algum sentido. Em vez disso, como fazer para extrair sentido da diversidade? Como encontrar sentido na alteridade?

Talvez a oportunidade única que se apresenta para nós esteja justamente aí, no exercício de alteridade; no exercício de buscarmos, todos, um pouco mais de humildade para reconhecer que não, nenhum de nós é detentor da verdade, e a ninguém cabe julgar o grau de erro ou acerto nem de si mesmo, quanto mais do outro. Talvez estejamos diante da oportunidade de aprender a suportar a angústia da dúvida e do não-saber, suportar a tensão da diferença do Outro; suportar conviver, enfim, e quem sabe até abraçar mesmo Aquele que é intrinsecamente diferente de mim simplesmente por não ser Eu - e, para além da distância entre nós, nele enxergar meu Próximo; para além das diferenças, nele ver meu Igual, e meu Irmão.

Talvez toda a questão feminista, negra, gay, trans, e, em última instância, de gênero seja indício de uma nova era cultural que se anuncia, uma era de alteridade. Seremos capazes de fazer essa transição? Estaremos prontos para suportar a experiência do verdadeiro diálogo entre as diferenças? Conseguiremos superar as diferenças e encontrar, para além da mera "tolerância", a verdadeira fraternidade?


Leia também: Malafaia e os que se deixam pautar por ele (aqui), Ainda a teologia da estupidez (aqui), Conselho Federal de Psicologia repudia declarações de Silas Malafaia (aqui) e Carta a Silas Malafaia: Pastor, me ajude! (aqui)
Assista ao vídeo em que a jurista Maria Berenice Dias responde à entrevista de Malafaia (aqui)

4 de fev. de 2013

que o meu deus te perdoe


Acabo de assistir à entrevista histórica de Marilia Gabriela com Silas Malafaia (abaixo). Quer dizer, meio assisti. A partir de um determinado momento, não tive estômago mais e precisei ir pra cozinha lavar louça, descontar nas panelas o meu desconforto, ouvindo o resto de longe. De todo modo, nunca consigo ouvir Silas Malafaia muito tempo.

Malafaia é, evidentemente, um mentiroso profissional. A convicção com que ele expõe suas teses - como quando ele afirma que "nenhuma verdade científica [sic] da Bíblia jamais foi refutada" ou que "desde o tempo de Noé, desde quando Deus mandou o dilúvio, existe homossexualismo [sic]", como se o "tempo" de Noé tivesse caráter histórico e não simbólico; como quando ele se refere a "pesquisas científicas" sem citar suas fontes e distorcendo conclusões; e tenho certeza de que ele não é tão ignorante assim - a convicção com que ele expõe suas teses é uma aula de retórica muito bem calculada. O sujeito é a encarnação da má fé, infelizmente sem nenhum trocadilho.

Como bem apontou um grande amigo, "o mais estranho é pensar que o Malafaia, de fato, representa uma parcela da população brasileira. Gente que compra seus livros, que vota nele. Quanto ao discurso nada de novo: sofisma sobre sofisma (...). Marília podia ter falado da posição de órgãos de psicologia e psiquiatria aqui e dos EUA para combater a pretensa base de psicólogo dele. Sem falar da teologia. Ou seja, numa conversa real, sem gritarias e respeitando o direito de interlocução, nada se sustenta na argumentação do cara. A questão é que esse segmento que ele representa não está minimamente interessado num diálogo real."

O fato é que estou há meia hora com meus pêlos arrepiados. Uma reação de bicho diante de um perigo que lhe ameaça a vida. E não dão nem sinal de baixar.

Quanto a Marília Gabriela... como bem salientou Tony Goes em seu blog, se eu já gostava dela como profissional, hoje ela conquistou um grau de respeito que poucas pessoas me inspiram. Não deve ser nem um pouco fácil discutir com Malafaia, que usa com maestria uma série de técnicas de discurso (como, por exemplo, elevar o tom de voz e despejar um discurso verborrágico, alinhavando argumentos pífios e falhos sem dar tempo para o interlocutor reagir), sobretudo com o tempo restrito de um programa de televisão. Achei sua contra-argumentação muito, muito fraca; ainda assim, no contexto estéril desse deserto que é, hoje, a grande mídia brasileira, ver uma mulher peitar um sujeito da índole do Malafaia foi um alento, um raio de esperança.

Ouvi-la terminar a entrevista dizendo "que o meu Deus, que não sei se é o mesmo que o seu, te perdoe", foi arrebatador. Mas preciso confessar: sem nenhuma apologia à violência, o que me lavou a alma MESMO foi ela dizer pro público que tinha vontade de bater nele. ;-)



Leia também: Malafaia e os que se deixam pautar por ele (aqui), Ainda a teologia da estupidez (aqui), Conselho Federal de Psicologia repudia declarações de Silas Malafaia (aqui) e Carta a Silas Malafaia: Pastor, me ajude! (aqui)
Assista ao vídeo em que a jurista Maria Berenice Dias responde à entrevista de Malafaia (aqui)

não basta ter razão


De Ferreira Gullar, em sua coluna para a Folha de S. Paulo, ontem (leia na íntegra aqui):

Entendo que alguém, que durante toda a vida tenha tido o marxismo como doutrina e o comunismo como solução dos problemas sociais, se negue, a esta altura da vida, a abrir mão de suas convicções. Entendo, mas não aprovo. Tampouco lhe reconheço o direito de acusar quem o faça de "vendido ao capitalismo." Aí já é dupla hipocrisia. (...)

A verdade é que as pessoas, de modo geral, têm dificuldade em admitir que erraram, que passaram anos de sua vida (e alguns pagaram caro por isso) acreditando numa ilusão.

E, além do mais, é compreensível, uma vez que o socialismo propunha derrotar um sistema econômico injusto e pôr em seu lugar outro, fundado na igualdade e na justiça social.

É verdade também que em alguns países onde o socialismo se implantara muito foi feito em busca dessa igualdade. Não obstante, algo estava errado ali, já que o regime era obrigado a coibir a livre opinião e impedir que as pessoas saíssem livremente do país. A pergunta é inevitável: alguém, que vive no paraíso, quer a todo custo fugir dele?

Tampouco o regime capitalista é o paraíso. Longe disso. A diferença é que, dele, podemos sair se o decidirmos, criticá-lo e, pelo voto, mudar o governante. Mas não é só isso. O capitalismo é dinâmico e criativo porque é a expressão da necessidade humana de tudo fazer para melhorar de vida.

Neste momento mesmo, milhões de pessoas estão inventando meios e modos de criar empresas, realizar empreendimentos que lhes possibilitem lucrar e enriquecer.

Como poderia competir com isso um regime cujo processo econômico era dirigido por meia dúzia de burocratas, os quais, em nome do Partido Comunista, tudo determinavam e decidiam? Isso conduziu o comunismo ao fracasso e levou a China a tornar-se capitalista para escapar do desastre que pôs fim ao sistema socialista mundial.

O capitalismo, por sua vez, é o regime da exploração e da desigualdade, precisamente porque se funda no egoísmo e na busca do lucro máximo. Se deixarmos, ele suga a carótida da mãe.

O grande problema, portanto, é este: como estimular a iniciativa criadora de riqueza e, ao mesmo tempo, valer-se da riqueza criada para reduzir a desigualdade.

29 de jan. de 2013

a nova onda conservadora


‎"Como cristão, aprendi a conviver com quem tem ideias diferentes das minhas. Só não acredito em impor o que a gente pensa ou agredir quem vive de forma diversa. Ultimamente surgiu o evangélico radical. Fundamentalista, que branda princípios supostamente retirados da Bíblia. Embora a doutrina cristã possa ser resumida em 'Amai ao próximo como a ti mesmo'. Historicamente, o cristianismo implica abandono do 'olho por olho, dente por dente' do Antigo Testamento e propõe uma sociedade mais tolerante. Mas os novos fundamentalistas querem punir, proibir. Políticos não evangélicos – incluindo os que estão em cargos de poder – obedecem, para manter coalizões. O filme 'Os deuses malditos', de Luchino Visconti (1969), mostra a ascensão do nazismo por meio da manipulação de uma família. Mostra os pequenos e grandes fatos que conduziram a Alemanha naquela direção. Agora, sinto um cheiro ruim de autoritarismo no ar. Há um recuo com relação a conquistas que implicavam na convivência entre os diferentes – a base da democracia, afinal. Quando uma lei pela moral e pelos bons costumes é sancionada, a agressão foi à sociedade. A deputada Myrian Rios é a ponta de um iceberg. Eu me pergunto: o que leva uma pessoa a achar que tem o direito de dizer como outra deve pensar e viver?"

- Walcyr Carrasco, em sua coluna na Época (leia na íntegra aqui)

(Via Markos Oliveira)

* * *

Atualização em 01-02-13:

Oportuno e preciso o comentário de Fátima Oliveira, médica, membro do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução e do Conselho da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe (indicada ao Prêmio Nobel da paz 2005), no Jornal O Tempo:

"É lamentável que uma Assembleia Legislativa e um governador não tenham percebido quão desrespeitosa é para uma democracia uma camisa de força de moralidade que se pretende única para todo o povo. Dá dó que tantas autoridades exibam analfabetismo filosófico: a incapacidade de distinguir moral de ética.

Ora, as moralidades são muitas, pois são os costumes, os valores relativos à pessoa ou a determinado agrupamento social, com unidade ideológica, étnica, racial ou sexual. Assim é que há até moral bandida. A ética nomeia os costumes ou os comportamentos relativos ao conjunto da sociedade, dos povos, que são mundos inerentemente pluralistas. Por espelhar a unidade a que chegaram as diferentes morais, a ética é em si uma codificação da unidade possível das diferentes forças políticas da sociedade."

Leia na íntegra aqui.
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