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15 de dez. de 2012

um mundo sem estantes


Um amigo entra na minha casa nova, vê as estantes ainda vazias e começa o bombardeio: "Para que espaço para tanto livro? Livro está acabando".

Ele não quer saber da vista, de nenhum detalhe da obra, da arquitetura ou da decoração (não que eu tivesse algo a dizer sobre essas coisas, mas, enfim, era uma casa nova). O incômodo com as estantes é maior que tudo isso.

Para me safar do cerco, banco o moderno. "Claro que eu sei, os livros eletrônicos são o futuro. Mas isso aqui é para armazenar o que eu já tenho, entende? Até hoje guardo livros na casa dos meus pais, para você ter uma ideia."

Cascata, tática diversionista. Eu sabia que, se já estava sob tiroteio pesado, tudo iria piorar quando meu amigo visse a outra face do móvel. Ali, eu dava os primeiros passos para eliminar a bagunça dos meus CDs. E "in style", à moda gringa, ordenando por sobrenome.

Um serviço que, digamos, me dava certo orgulho. Mas o sentimento só dura até o próximo balaço: "E esse monte de lugar para CDs? CD não vai existir mais".

Em busca de trégua, sugiro sairmos para jantar. Encontramos a mulher dele. Como na faixa de Gaza, o cessar-fogo tem curta duração. "O Álvaro está maluco, botou um monte de estantes na casa nova, parece que não sabe que livros e CDs estão condenados."

Isso faz alguns anos. Nem preciso dizer que, tanto para livros quanto CDs, o espaço naquelas estantes, que pareciam obsoletas, está no fim. E o mais irônico: meu amigo, profeta do apocalipse do plástico e do papel, nunca chegou a comprar um leitor eletrônico de livros. Não tem Kindle nem iPad. Continua encomendando seus volumes de papel.

Já eu, dono do móvel ultrapassado, adotei o livro digital. O encanto inicial foi grande, até escrevi sobre isso. Caminho sem volta para um mundo sem estantes? Talvez não.

Há poucos meses, o ator Bruce Willis revelou que planeja algum tipo de ação legal contra a Apple. O objetivo é garantir que sua vasta coleção de música, em grande parte baixada na loja virtual de Steve Jobs, faça parte da herança que ele deixará às filhas.

Nas entrelinhas da burocracia, Willis descobriu que as músicas não são exatamente dele, nem de ninguém que as compra. São, de certo modo, alugadas. Se ele morrer, voltam para a Apple. Não quer deixar, para as três jovens, um legado de silêncio.

O pesadelo que Willis tenta evitar, uma mulher norueguesa já enfrentou. Identificada apenas como Linn, um dia ligou seu Kindle, o leitor eletrônico da Amazon. Ao conectar o aparelho à web, o golpe: todos os livros que já tinha comprado foram apagados em um segundo.

Seguiu-se um pesadelo kafkiano. Ao contatar a Amazon, foi informada de que havia problemas de fraude em uma outra conta, também associada a ela. Como punição, todas as contas estavam sendo canceladas. Adeus, livros digitais.

Só um problema: ela não tinha nenhuma outra conta. Era claramente um engano. Mas a Amazon se recusava a dar detalhes. Linn não tinha como se defender.

Alguns escritores souberam do caso, e passaram a divulgá-lo. Só a partir daí a situação foi aparentemente resolvida. Os livros eletrônicos foram restituídos a Linn, independente do status da conta.

O futuro desse universo cada vez mais digital é cheio de riscos. Imagine: colapso na nuvem. "Crashes" de servidores, fibras ópticas rompidas, blecautes em série nos principais polos hi-tech da Terra.

Nos primórdios da web, uma situação assim teria uma consequência grave: internet fora do ar. Grave, porém única. Músicas, filmes e demais arquivos baixados pela rede estariam a salvo, guardados nos computadores das casas das pessoas.

Mas, hoje, tudo mudou. Um crash gigantesco seria muito mais devastador. Porque cada vez menos gente armazena em casa seus arquivos digitais. Está tudo em servidores poderosos, espalhados pelo mundo. Nessa nuvem, digital e amorfa.

Não é fora de propósito imaginar um cenário de perda de contato com ela. Sem livros físicos, sem CDs, os arquivos digitais perdidos na nuvem isolada. A distopia digital extrema. O mundo das ideias salvo pelas estantes.

- Álvaro Pereira Jr., para a Folha de S. Paulo, 08-12-12 (via)

Em tempo:  o que você fez com as enciclopédias que tinha em casa?

cairo, a cidade eterna


Parte da magia desta grande cidade, mesmo quando abalada por turbulências políticas, reside na sua aparente capacidade de absorver qualquer revolta, desafiar as probabilidades, superar tudo -dos engarrafamentos à burocracia- e sobreviver. Como o Nilo, a sua referência, o Cairo tem o fascínio do eterno.

A grandeza de nenhum edifício resiste à marcha de poeira, e, no entanto, a cidade retém algo da sua inefável majestade. As lutas dos seus muitos milhões de habitantes estão sempre aparentes, mas sua dignidade em meio às dificuldades é menos visível. A cidade derrota verdades simples.

Isso é bom. Gostamos das nossas verdades simples hoje em dia. Preto ou branco é o que queremos. "Só que", responde o Cairo, "eu sou cinza!".

A turbulência política do Egito pós-revolucionário é óbvia. Menos óbvia é a forma como a sabedoria e o bom humor daqui temperam e moldam os fatos. Uma coisa é viver num país como a Síria, com fronteiras desenhadas no começo do século 20 por algum burocrata britânico dispéptico, onde a tentação da dissolução nunca está muito abaixo da superfície. Outra coisa é ser parte de uma terra e uma cultura tão antigas quanto as do Egito.

Comecei a pensar nisso durante a rebelião de dois anos atrás na praça Tahrir, que levou à queda de Hosni Mubarak. Toda noite, dezenas de milhares de pessoas, incluindo mulheres e crianças, saíam da praça através do estreito espaço entre dois tanques. O potencial para um desastre era alto. Um momento de pânico ou de afobação poderia levar a um tumulto e a um banho de sangue. Mas a civilidade, o respeito e a paciência prevaleceram.

Tais verdades nos dizem mais sobre as perspectivas de longo prazo de um país do que fatos mais imediatos e chamativos. A humanidade da Itália, o otimismo do Brasil e a abertura dos EUA são qualidades que as estatísticas não conseguem mensurar. Da mesma forma, não há contagem ou pesquisa que identifique essa qualidade que encontrei na praça Tahrir. Não é à toa que o Egito, ciente do preço e da inutilidade da guerra, foi o primeiro país árabe a fazer a paz com Israel.

Gosto de parar no Cairo para sentir os ritmos da cidade. Como muitos lugares, o Cairo oferece dois universos distintos.

Há os estabelecimentos globalizados, reluzentes, com ar-condicionado, onde você toma um café com leite pelo mesmo preço de Paris ou Nova York. Aqui o tempo corre na velocidade do século 21. Noticiários e desfiles de moda passam na TV.

E há então o mundo lento no qual a maioria dos cairotas vive e ri, com suas espeluncas oferecendo chá ou café doce e porções de feijões ("ful"). Você poderia viver feliz durante alguns dias com os feijões não globalizados pelo preço de um daqueles cafés globalizados. Muitos cafés no mundo lento oferecem "shishas" (narguilés) para fumar tabaco com aroma de maçã enquanto você vê o dia ir embora. É um ritual agradável de observar. Um homem de movimentos precisos abana as brasas, sacudindo-as em uma concha metálica escurecida, antes de colocá-las com uma pinça, uma a uma, no narguilé. Nada é feito com pressa aqui, porque nada vai mudar.

Confundimos atividade e movimento com realizações. Pode-se ganhar mais com uma pausa. Cada época tem suas ilusões. Recentemente, li uma revista de 1938. Um editorial dizia: "A máquina deixou os homens frente a frente como nunca antes na história. Paris e Berlim estão mais perto hoje do que aldeias vizinhas estavam na Idade Média. Em certo sentido, a distância foi aniquilada".

Isso foi mais de meio século antes da invenção da internet. É importante desacelerar, no mínimo porque estamos longe de ser os primeiros humanos a acreditar que o mundo se acelerou. Mesmo no mundo lento do Cairo há surpresas. Enquanto eu fumava "shisha" num modesto estabelecimento da rua Kasr el Nil, uma amiga observou que o local anunciava uma conexão wireless.

"Qual é a senha?", perguntou ela ao proprietário.

"Nike", respondeu ele, que continuou passando um café.

(Roger Cohen, para a Folha de S. Paulo, em 10-12-12. Via)

16 de set. de 2012

homenagem ao tédio

Tirinhas dos anos 10, André Dahmer

Gosto de dispor de tempo para entediar-me à vontade. Entediar-se é fazer contato com a própria interioridade e abrir-se às nossas cismas. É romper relações com a mesmice do ambiente e entregar-se a um diálogo imaginário. É dar-se conta daquela multiplicidade de facetas tão nossas, que colocamos de lado, que não deixamos que venham à tona em um mundo que só tem tempo para desperdiçar. Entediar-se é não fugir à tristeza, é aceitar que existem, em nosso interior, dimensões escuras, estranhas aos outros e nós, mas nem por isso menos a gente mesmo. É olhar-se de frente no espelho mágico que não sabe mentir. Tédio é tempo de colar o que foi fragmentado, é tempo de arredondar os cantos lascados pela vida. Sem disfarces.

Entediar-se é ausentar-se dos outros. É tempo para ser vivido, e não para ser desperdiçado com gente que se esvazia de si, que vive de presentes. Sem passado que nos dê sentido, perde-se significado. Desaparecemos, assimilados pela opinião, compartilhando apenas o que é comunitário. A solidão aterroriza, mas não devia. Há tantas vozes disputando nossos ouvidos que não é difícil nos flagrarmos, em dado momento, a repetir alguma coisa simplesmente por repetir. Como se fôssemos obrigados a falar, mesmo sem ter nada a dizer. De algum modo, pressinto discursos que se constroem a partir do eco. Sua fonte se perdeu. Como se reflexos se tornassem autônomos. Dou com algumas imagens de mim por aí às vezes, mas nem por isso sou eu. Então percebo que é hora do culto. Que é hora de buscar conforto no tédio, na deriva de alma. Hora de imitar o flâneur, só que percorrendo minha própria interioridade.

Percebo como é difícil pensar a vida sem unidades de medida. É que antigos valores não há mais. Tudo tem preço. Instituíram-se moedas de troca que capitalizam relações entre diferentes tribos, estas que hoje se substituem às extintas classes sociais. Temos apenas faixas de consumo, cuja medida de escala é a quantidade de eletrodomésticos, de banheiros, de suítes, de metros quadrados disputados centímetro a centímetro. Também vale contabilizar maridos e mulheres que se substituem por modelos mais novos, mais adequados a um vir a ser midiático de efeito hipnótico, multiplicado pelos espelhos das vitrines, esses altares, onde os produtos, como os santos, são objeto de adoração. Cobiça e desejos nos guiam e amesquinham nossas ambições recheadas de sabores que ainda não provamos, de substâncias que ainda não tocamos, de brinquedos com que ainda não brincamos. Tudo isso nos afasta de nós, e nos aproxima de miragens que desaparecem, mal a gente consegue tocá-las. A saída é o tédio, a alternativa possível diante dessa fatalidade que se autorregula automaticamente.

Prescinde-se de valores que não sejam aqueles expressamente monetários. A atualidade nos põe preço, e isso sequer nos escandaliza, porque nosso tempo é tão-somente o tempo da emergência do sensacional, da manchete hiperbólica, da banalização de tudo. A fama e o prestígio legitimam qualquer conteúdo. Elas são a alquimia do sucesso. A ingenuidade torna-se cretina. Importa apenas o sensacional, o que pode ser taxado, comprado e vendido. Persegue-se a reparação indenizatória como forma de ajuste, numa atualidade que é sem ligação com o passado e que se vê apenas repetida no futuro, mecanicamente, produtivamente.

(...) Não consigo gostar muito dessas maravilhas todas que a gente só pode ter se comprar. Desconfio dessas coisas que nos tornam felizes, atraentes, inteligentes e que garantem nosso sucesso. Isso não me soa bem. (...)

Um garoto chinês vendeu um rim para poder comprar um iPad. Há uma jovem que investe seus melhores anos em sucessivas operações para substituir próteses mamárias por outras cada vez mais volumosas. Ela deseja ter os maiores seios do mundo. Não sei se conseguiu. Implanta-se tanta coisa no corpo! Ele está cada vez mais tatuado, colorido, transformado. Um rapaz cortou a língua, para que ela ficasse bifurcada como a de um lagarto. Descubro algo novo nisso. O tédio me faz pensar.

Ora, os artistas sempre representaram a figura humana conformada a valores de época. A rigidez das madonas medievais deu lugar às carnes rosadas da Renascença. A isso sobrevieram as sombras e os contrastes do Barroco. El Greco redimensionou as imagens, esticou as figuras para ao alto. A Arte nos conta a história dos homens, economizando palavras. Ah! Os impressionistas coloriram nossas sombras. O ser humano já perdia forma e diluía-se no fundo das telas. Aliás, desde então, fundo e forma se confundem, porque não mais se vai desvincular um do outro. Depois mudamos ainda mais. Desesperamos. Van Gogh resgata o louco. Os corpos começam a ser retorcidos. Basta folhear um livro de arte qualquer para dar-se conta disso. Na modernidade, Portinari conferiu a pés e mãos um peso excepcional, ao retratar um homem que era só força física empregada no trabalho braçal. Anita quase suprimiu a cabeça em Abaporu, um anencéfalo que sobreviveu perfeitamente bem; aliás, como muitos, até hoje.

Por que digo isso? Porque era só arte. Era uma figura humana limitada ao espaço plástico da tela ou do material tornado escultura. Era apenas faz de conta. Não passava de metáfora, de uma interpretação. A pós-modernidade inovou. Hoje é o corpo que recebe esses impactos. Não se trabalha mais a imagem em abstrato. Fazemos isso concretamente no próprio corpo-objeto. Confesso meu susto. Eu me refugio no tédio, bem aqui, entrincheirada por entre livros e velharias. De fato, olhando assim, parece que o corpo se transforma em suporte físico de manifestações só fazem sentido por muito pouco tempo. Percebo algo de assustador em tudo isso.

(...) Produzir, consumir, deixar-se assimilar corporalmente como fetiche. Percorrer o tempo esvaziando-o de significação. Ser o melhor, o maior, o mais ágil, o mais rápido, o recordista. Ser por ser. Bater um recorde qualquer. (...) O banal torna-se profundo. É preciso aplaudir e delirar, sob pena de ser decretada nossa insensibilidade. É preciso ser estúpido, para alcançar a profundidade inaudita do que é óbvio. Por isso talvez eu insista em permanecer tão superficial.

Confesso que fujo. Eu me entrego ao tédio, busco a solidão que me ensina a lidar com o tempo. Preciso fazer valer meu próprio ritmo e preservá-lo como algo profundamente individual. O meu tempo é o meu tempo, e eu gosto de conferir-me a prerrogativa de escolher como usá-lo. É um grande luxo gastar meu tempo com tédio. Saborear o meu café, sentir o cheiro de mofo de cada um dos meus livros, não fazer nada a não ser ouvir o que tenho a dizer a mim mesma.

Deixar-se falar. Talvez tenhamos mais a dizer a nós mesmos do que todos esses discursos de sucesso ou de salvação. Entediar-se. Permitir-se entristecer. Tédio é solitário, é lacônico, é modulado pelo silêncio. Nem alegre nem triste, mas existencial. Tédio é sem consolo, sem compreensão, porque nele não penetra a palavra divina que salva, nem a tentação do demônio que condena, nem a pregação do marqueteiro que quer vender aquilo que todo mundo já tem, menos a gente. Solidão é grátis. É despedida sem adeus. Sem nada. É apenas nossa presença, permanecendo ainda, não obstante todas as coisas que nunca foram aquilo que queríamos ou que pensávamos que elas fossem.

É bem quando descubro que, apesar de tudo, eu ainda sou eu.

(Maristela Bleggi Tomasini, na íntegra aqui. Se dê o tempo de degustar o texto inteiro.)
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