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22 de dez. de 2012

O fim do (meu) mundo


Do psicanalista Mario Corso, em seu blog (aqui):

Se você está lendo estas linhas é por que o fim do mundo, previsto para hoje, não aconteceu. Confesso uma ponta de decepção, o fim, ou ao menos uma catástrofe, engrandeceria o homem, nos restituiria a condição de protagonistas num universo indiferente ao nosso destino. O cosmos foi mais uma vez indiferente aos rogos dos humanos e às suas previsões, o universo e o planeta continuam na sua imperturbável mecânica celeste, independente e ignorantes das nossas malfadadas conjecturas.

Diga-se, em favor dos Maias, os pretensos profetas do apocalipse em questão, que isso não foi uma ideia deles, e sim uma leitura apressada nossa, a partir de informações incompletas sobre sua cultura e calendário. Se não foi dessa vez, não se preocupe, cedo ou tarde vão anunciar outro fim, e de novo vamos vacilar se acreditamos ou não. A temática apocalíptica é uma velha conhecida e parece que não sai de cartaz. Não faz muitos anos, em 2000, era o mesmo temor, o mundo iria acabar, e cá estamos nós, lampeiros como sempre.

Inútil reclamar da imbecilidade, invocar racionalidades de todas matizes, acusar os crentes apocalípticos de passar atestado de ignorância científica. Até procede, mas a questão é outra: esse temor tem raízes míticas, e esse sistema de crenças e medos não funciona com a lógica da razão. Quando se opera com o sistema mítico, a ciência e o bom senso não têm entrada. Qualquer sistema mitológico clássico, quando conseguimos captá-lo em sua forma mais articulada e completa, pensa o cosmos com os mesmos termos: o nascimento (ou renascimento), um período de auge glorioso, um declínio sofrido e, finalmente, a destruição com o retorno ao caos. Portanto, o apocalipse faz parte desse esquema, dessa visão do mundo. Quando se raciocina miticamente, mais dia menos dia, desemboca-se nesse vórtice.

A questão que muitos se colocam é: por que discursos assim, tão disparatados, ainda tem pregnância? Por que, contra todas as evidências possíveis, ainda há quem acredite nisso? Creio que a questão está mal posta, poderíamos pensar o contrário, por que não seria assim? Goste-se disso ou não, o tempo do mito não acabou. O avanço da ciência e seu método, se por um lado combate a religião, a superstição, a magia, deixa muitas questões sem respostas e é onde se abre a brecha para o retorno do pensamento mítico. Os homens podem viver com pouco, mas raramente abrem mão de um sentido para o mundo e para sua vida. Qual a razão da existência? Para onde vamos? De onde viemos? Se o futuro promete tanto, por que me tocou viver esta época tão menor? Que diferença fiz, farei, nada mudaria se eu jamais tivesse nascido?

A ciência explica o mundo, mas quanto aos anseios de sentido de que padecemos, fornece mais dúvidas do que certezas. São poucos que agüentam a vida segurando-se no pouco que ela nos dá e encaram o sem sentido da existência. Já o pensamento mítico é um gerador de sentidos, ele capta o horror humano ao vazio e o preenche de qualquer maneira, com o que estiver mais à mão. Melhor um universo de conto de fadas, com entidades benignas ou malignas nos controlando que o nada. Nosso narcisismo não suporta que não haja transcendência, que sejamos um acaso na imensidão cósmica, um mero macaco melhorado.

O erro mais banal, mais primário, em que nosso pensamento cai, e como cai, é o de confundir-se com o objeto a ser examinado. Se alguém acredita que estamos no fim dos tempos, é possível que ele tenha razão, algum fim se aproxima, mas é mais provável que seja o fim dele, ou o fim de um mundo que reconhece como seu. Todos constatamos a velocidade com que a história anda e atropela tudo: costumes, formas de pensar, de viver. São tantas as novidades que perdemos as referências. A revolução da semana passada está velha, a tecnologia de ontem virou sucata.

A sensação é que o ritmo vem se acelerando. O fato é que nos sentimos ultrapassados a cada dia e, se não estamos em constante adaptação, corremos o risco de não entender o mundo em que vivemos. Nesse constante recriar-se para o novo, alguns se cansam e se perdem pelo caminho, ou ainda, simplesmente desistem. São esses os que vivem o fim do seu mundo, afinal, os valores que lhe ensinaram na infância já não servem, a paisagem não é a mesma, os anseios são outros. Não fica claro que o mundo está acabando? Quando chega a notícia do fim dos tempos, apenas confirma algo que já sentimos.

Sinceramente não desgosto de ondas apocalípticas, me sinto mais humano, mais completo, reencontro minhas desativadas ramificações religiosas que por momentos entram em alerta. Uso para fazer um exercício, que sugiro a todos: perguntar-se qual parte nossa está morrendo? Qual dos horizontes em vias de desaparecimento vamos sentir falta?

O homem não tem uma inclinação nostálgica por vocação mórbida, nossa substância é fornecida pelo tempo em que vivermos, que nos fez ser o que nos tornamos, isso é tudo de que dispomos. É duro pensar que tantos seguirão sem nós, por um tempo indefinido. Parece injusto, jamais saberemos da história que está por vir. Pensar que seríamos o último capítulo nos deixaria no admirável papel de ponto final, protagonistas essenciais, o que infelizmente não somos. Uma velha e saudosa senhora que conheci sempre dizia: “o cemitério está lotado de insubstituíveis”. Somos todos datados. A questão é quando expira o prazo. Viveremos um apocalipse privado, esta é a única certeza.



queremos todos secretamente que o mundo acabe?


Pena que o mundo não acabou. Seria tão mais simples: recomeçar do zero parece mais fácil do que transformar o que aí está. Ou não?

De artigo publicado originalmente na Scientific American, traduzido e republicado via Bule Voador (leia na íntegra aqui):

(...) Steven Schlozman, buscando tanto em sua experiência de psiquiatra infantil da Harvard Medical School quanto na de romancista (seu primeiro livro relata um apocalipse zumbi), acredita que é o cenário pós-apocalíptico o que mais fascinas as pessoas.

“Eu falo com as crianças que atendo e elas vêem isso como uma coisa boa. Elas dizem: 'a vida seria tão simples – eu atiraria em zumbis e não teria que ir à escola'", diz Schlozman. Tanto na literatura quanto na conversa com pacientes, Schlozman observou que as pessoas frequentemente romantizam o fim dos tempos. Elas se imaginam sobrevivendo, prosperando e voltando à natureza.

Schlozman recentemente teve uma experiência que assustadoramente ecoou a transmissão de 1938 de “Guerra dos Mundos” por Orson Welles. Ele estava discutindo sobre seu livro em um programa de rádio e tiveram que cortar o show, porque alguns ouvintes estavam entendendo sua ficção como fato. Ele acredita que a propensão ao pânico não foi constante na história e é na verdade reflexo dos nossos tempos. No mundo complicado de hoje, com terrorismo, guerras, abismos fiscais e mudanças climáticas, as pessoas estão predispostas ao pânico.

“Toda essa incerteza e todo esse medo se juntam e as pessoas começam a pensar que a vida seria melhor” depois de um desastre, Schlozman diz. É claro que, na verdade, a maioria de seus sonhos apocalípticos são só fantasias, que ignoram as dificuldades reais da vida pioneira sem nenhuma infra-estrutura. Ele destaca que, se há alguma coisa que histórias de apocalipse, particularmente envolvendo zumbis, deveriam idealmente ensinar a nós, seria algo sobre o mundo que deveríamos evitar – e como fazer mudanças necessárias agora mesmo para isso.

18 de dez. de 2012

medo do fim


Maias explicam confusão no calendário

Líderes maias da América Latina foram a Los Angeles explicar a "confusão" na próxima mudança de ciclo no calendário pré-colombiano (...). "De acordo com o calendário maia, este ano será marcado por uma mudança de ciclo que foi iniciada há 5.125 anos, o chamado baktunes", disse à agência Efe Marte Trejo, historiador e astrônomo mexicano. "(...) O que acontecerá é simplesmente uma mudança de ciclo, que terminará em dezembro para começar um novo período ou novo baktun", afirmou.

(...) "A visão de mundo maia é a união entre a natureza e Deus, é a união entre os corpos celestes com a mãe terra", completou o sacerdote. O calendário maia é uma pedra de cálculo circular, disseminada na região da Mesoamérica, que, segundo o anuário gregoriano do sistema ocidental atual, foi iniciado no dia 13 de agosto de 3.114 a.C.

"O sistema de contagem de tempo dos maias não era linear, mas era circular e, por isso, o calendário também é circular, já que os ciclos começam em um ponto e terminam em si mesmos. Assim, nasce um novo período", indicou Trejo, que colabora com a Secretaria de Turismo do México para falar sobre o Mundo Maia.

Leia na íntegra aqui.

* * *



Da coluna de Marcelo Gleiser na Folha de S. Paulo, 16-12-12:

(...) Leitores, podem se acalmar. Garanto que sexta-feira, dia 21, será apenas mais um solstício de verão, o dia mais longo do ano. No sábado de manhã, você estará tomando seu café tranquilamente, com um sorriso nos lábios, convencido de que essa história de profecia de fim de mundo é mesmo uma bobagem. Tudo será devidamente esquecido e a vida continuará como antes. Pelo menos, até a próxima profecia. (...)

[E mais: Ameaças de suicídio levam Nasa a desmentir ‘fim do mundo em 2012′]

Nenhum tablete de barro ou papiro misterioso prevê o fim do mundo. Ao contrário, os pouquíssimos documentos que sobreviveram à dilapidação tropical e ao fanatismo dos padres espanhóis, que queimaram tudo o que encontraram, não oferecem qualquer indicação de fim de mundo.

O mesmo ocorre com a ciência. Várias causas foram oferecidas para provocar o fim: a reversão dos polos magnéticos da Terra, a colisão com um asteroide, instabilidade solar, o planeta Nibiru, alinhamento galáctico etc. A Nasa preparou respostas para todas essas "ameaças" em seu portal e em um vídeo [acima]. A história do planeta Nibiru, por exemplo, foi inventada pela médium americana Nancy Lieder, que diz ter um implante na cabeça que permite a ela se comunicar com alienígenas do sistema planetário Zeta Reticuli, a 39 anos-luz de distância.

(...) Entre outras coisas, o medo do fim do mundo reflete nosso medo de perder o controle da vida, do nosso destino. Reflete o medo ancestral, encravado em nossa memória coletiva e reconfirmado todos os anos em dezenas de desastres cataclísmicos, de que a natureza é muito mais poderosa do que nós e tem o poder de nos aniquilar a qualquer instante.

Se nos séculos passados o fim do mundo refletia a ira divina ou a chegada da ressurreição, hoje, com os avanços da ciência, as causas são fenômenos cósmicos devastadores. Mas, como explico em meu livro "O Fim da Terra e do Céu", a simbologia é sempre a mesma: o fim vindo dos céus, sem que possamos nos defender, vítimas de nossos pecados ou de nossa fragilidade.

Mas não precisa ser assim. Temos um poder enorme para nos defender de medos ancestrais e infundados: a razão. Nossa compreensão da natureza não nos traz apenas celulares e DVDs mas também a certeza de que o conhecimento é a melhor forma de liberdade.

* * *
Não sei, não, Gleiser. Esse endeusamento da razão me preocupa um pouco, ou muito. Será mesmo que a mera razão, apenas o pensamento basta como ferramenta para nos assegurar e reconfortar diante do universo? Contrariando Goya, a razão, isolada, parece ter criado mais monstros do que respostas. Talvez, justamente diante da limitação inerente à nossa possibilidade de conhecer, tenhamos outros recursos importantes que não podemos renegar. O senso de fascinação e reverência diante daquilo que não conhecemos nem entendemos - e, como já disse um sábio, quanto mais a gente sabe, mais a gente sabe o quanto não sabe - talvez seja fundamental para não nos deixar mergulhar nas trevas e no medo. Talvez o medo seja fruto, em parte, justamente da perda do nosso senso de sagrado... Há que resgatá-lo.

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