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10 de fev. de 2013

o ano dos gays

"Melhor um casamento gay (alegre)
do que um casamento triste"

De Helena Celestino para o Globo de hoje:

Dos cardeais do Vaticano a escoteiros e bandeirantes, todos estão sendo obrigados a rever conceitos e, quem sabe, desfazer preconceitos. Em cada cabeça, uma sentença; em cada país, uma polêmica. No Reino Unido, uma parte do movimento gay não entende por que tanto barulho por tão pouco. Concordam que a aprovação no Parlamento do direito de os gays se casarem foi uma vitória da turma do bem; vai favorecer os casais homos, seus filhos e a sociedade de uma maneira geral. É mais uma etapa em direção à igualdade de direitos num país em que criminalização do sexo entre iguais — lei que mandou o escritor Oscar Wilde para a cadeia — só terminou nos anos 60. Mas a pergunta que não quer calar é por que o Estado tem de se meter num assunto tão privado como o amor entre duas pessoas, sejam elas hétero ou homo? Os ocidentais criticam a intromissão da lei islâmica na vida privada de mulheres e homens, mas repetem o procedimento ao legislar sobre o comportamento sexual: “Quase todas as questões envolvidas num casamento podem ser resolvidas consensualmente entre dois adultos — divisão de propriedades, obrigações e direitos de família — não precisa do Estado para ser regulamentado”, diz o ativista Sam Bowman, num texto no “Guardian”.

Na França, bem ao estilo local, o filósofo Alain Finkeilkraut, chamou de desrespeito aos gênios malditos — Rimbaud, Walt Whitman e Verlaine — a institucionalização da homossexualidade através do casamento, uma instituição burguesa. A frase — que não leva em conta o contexto histórico — foi encarada só como uma provocação, mas a discussão do casamento gay virou uma batalha filosófica sobre os diferentes conceitos de família. A direita se opõe ao projeto sob o velho argumento de que se trata de uma lei para destruir a família tradicional, aquela construída “naturalmente” por pai, mãe e filhos — vamos combinar que ela há muito recorre a procedimentos médicos para a procriação e convive com inúmeros arranjos para sobreviver. Os socialistas, patrocinadores do projeto casamento para todos, defendem a tese de que a cultura nos define tanto quanto a biologia, portanto, faz parte da vocação da humanidade se libertar das normas da natureza.

No popular, ou seja, na briga política do Congresso, os partidos de direita levaram a barriga de aluguel para o plenário, com a intenção clara de aumentar a polêmica em torno da legalização do casamento gay. A inseminação artificial numa barriga paga não é permitida na França nem está no texto do “casamento para todos”, mas virou o centro da polêmica que divide o país. Sabe-se que existe um turismo de casais gays com Kiev como destino, com a intenção de achar uma mulher para engravidar e doar o filho. Lá, na chamada capital da barriga de aluguel, por € 15 mil , há mulheres dispostas a serem inseminadas e, nove meses depois, entregarem os filhos ao casal dono dos óvulos ou do esperma.

Na França como nos EUA, existe o temor de que mulheres pobres sejam exploradas por casais impossibilitados de engravidar, mas o recurso a práticas médicas para ter filho não entra no debate do casamento gay entre os americanos. O conceito de liberdade de escolha individual impede que o Estado interfira na vida privada. Os seguros de saúde privados cobrem tratamento para engravidar de mulheres solteiras e de casais de lésbicas.

A rápida mudança da opinião pública sobre o casamento gay aconteceu tanto nos EUA quanto no Reino Unido e na França, com a maioria da população nos três países aprovando a medida, sem impedir — claro — a explosão de grandes polêmicas nas mesas de bar, no congresso ou na mídia. Para a maioria, o casamento gay entrou na lista dos direitos fundamentais para as sociedades que defendem liberdade e justiça para todos. Mas toda a polêmica vale a pena se a alma não é pequena, já dizia alguém.

Na cartesianíssima França, o Parlamento discutiu doze horas se trocava as palavras pai e mãe por pais, aumentando a polêmica criada em torno do projeto de legalização do casamento entre homens e entre mulheres. No Reino Unido, o premier do Partido Conservador, David Cameron, defendeu a formalização da união homossexual como forma de fortalecer o casamento, a instituição fundadora da família tradicional. Mais prosaicamente, nos EUA, é em nome da igualdade tributária e da autonomia dos estados que a Suprema Corte pode reconhecer a legalidade do casamento entre homossexuais em março. Os argumentos não podem ser mais diferentes, mas provavelmente 2013 ficará na lembrança como o ano dos gays.

7 de fev. de 2013

ainda a teologia da estupidez


“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos,
nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.”
- Martin Luther King

Mais um excelente comentário acerca da entrevista de Malafaia, agora de Alyson Freire na Carta Potiguar (vale a pena ler na íntegra aqui). O bom de manifestações explícitas do mais rematado preconceito e estupidez como essa é a reação dos bons, tirando-os do seu silêncio. :-)

Não há surpresas ou novidades quando o pastor Silas Malafaia fala. Cada vez em que é entrevistado ou empresta sua voz para algum programa de natureza política ou religiosa, assistimos e ouvimos o mesmo desfile de preconceitos, inverdades e sofismas. Bem sabemos que os disparates e infâmias habituais de sua retórica convicta e fundamentalista enojam e irritam. Entretanto, convém não perder a capacidade, e a paciência, de nos chocarmos e nem “acomodar com o que incomoda”, como diz a letra de uma bela canção.

E por que não devemos nos calar ou tão simplesmente dar de ombros, ignorar a ignorância? Porque o silêncio nos torna cúmplices da ignorância. Aliás, se é verdadeiro que em certas circunstâncias o silêncio pode ser mais eloquente do que a palavra, em outras o silêncio é o adubo fértil para o crescimento da ignorância e da barbárie. Por isso, cabe não calar. Falar a verdade ao poder e criticar os preconceitos é combater incansavelmente contra o silêncio que naturaliza ambos.

Voltemos, pois, a Malafaia, este paladino e missionário do ódio. Coube a jornalista Marília Gabriela a hercúlea tarefa de suportar o discurso de Malafaia, entrevistando-o em seu programa “De Frente com Gabi”. E se a jornalista por vezes se exaltou com as afirmações do pastor ou por este a atropelá-la em suas perguntas e raciocínios, penso que ela aguentou em nome de um compromisso com a verdade e com a sensatez; afinal, a mentira para ser desmascarada deve ser antes exposta.

O que disse o pastor desta vez? Num exemplo cristalino de homofobia cordial, disse que amava os homossexuais da mesma forma como ama os bandidos: “Eu amo os homossexuais como amo os bandidos”. Este amor misericordioso que Malafaia afirma cultivar não passa de um ardil ideológico que finge aceitar e acolher mas apenas para tentar “corrigir”, “reorientar”, “ajustar”. Em outras palavras, domesticar e “curar” a homossexualidade segundo os “meus valores” e “minha verdade”. Não creio que os homossexuais precisem deste amor denegador da liberdade e da autonomia individual. O amor de Malafaia é um amor tutelar, de correção moral e interesseiro.

A correlação valorativa entre “homossexuais” e “bandidos” é odiosa. Ela objetiva reforçar o vínculo entre homossexualidade e desvio, sustentando, sorrateiramente, a ideia de que a homossexualidade assim como o fenômeno da delinquência atenta e prejudica a sociedade.

(...) Quando prenuncia, num claro julgamento moral e especulativo, que a formação de famílias homoparentais ou a criação de filhos por casais homossexuais terá consequências sociais e psicológicas nefastas e nocivas, Malafaia esquece que, segundo Freud, a família independentemente das orientações sexuais do casal é a origem e o palco da maior parte dos problemas emocionais e psíquicos por conta dos conflitos subjetivos que envolvem a constituição do eu nas relações e identificações familiares. Aliás, a grande maioria das psicoses estudadas por Freud era produto das dinâmicas emocionais, repressivas e traumáticas da família vitoriana.

O artigo “Desconstruindo preconceitos sobre a homoparentalidade” dos psicólogos Jorge Gato e Anne Maria Fontaine cita diversos estudos psiquiátricos, psicológicos, sociológicos e antropológicos que desmentem as pré-noções estigmatizantes de que a criança em famílias homoparentais sofreria danos em seu desenvolvimento psicológico. Todos os estudos mencionados pelos autores foram unânimes na constatação da não-existência de uma excepcionalidade ou de diferenças substanciais que tornem a homoparentalidade especialmente danosa para o desenvolvimento emocional, cognitivo e sexual da criança em comparação às famílias heteroparentais. Inclusive, em algumas casos, de mães lésbicas, por exemplo, estudiosos verificaram um ambiente familiar no qual as crianças sentiam-se mais a vontade, livres e confiantes em discutir temáticas de caráter emocional e sexual, ocasionando um efeito positivo no desempenho escolar.

Em contrapartida, as dificuldades das crianças criadas em famílias homoparentais aparecem exatamente no plano das relações sociais, ou seja, obstáculos na aceitação e reconhecimento social por conta de contextos sociais discriminatórios como a escola. Mas, ainda assim, os estudos mostraram variações importantes nesse ponto a depender do país e região.

O que podemos concluir com os resultados das pesquisas científicas é que os problemas que estas crianças enfrentarão no futuro se devem precisamente de pessoas como Malafaia. Quer dizer, do preconceito, da intolerância e da ignorância que Malafaia pratica, semeia e propaga.

Portanto, o que atrapalha e lesa o desenvolvimento psicológico e social é o preconceito e a intolerância, os quais Malafaia transforma em bandeira. As religiões se tornam nocivas à humanidade quando são eivadas de ódio e ignorância por profetas fundamentalistas e intolerantes que alimentam incompreensões. (...)

Leia também: Malafaia e os que se deixam pautar por ele (aqui), Conselho Federal de Psicologia repudia declarações de Silas Malafaia (aqui) e Carta a Silas Malafaia: Pastor, me ajude! (aqui)
Assista ao vídeo em que a jurista Maria Berenice Dias responde à entrevista de Malafaia (aqui)

6 de fev. de 2013

doula a quem doer


De Ana Cristina Duarte*, no Estadão, em 02-02-13:

Quando em 2001 o primeiro curso de formação de doulas teve lugar no Brasil, por iniciativa de um médico obstetra, ninguém poderia imaginar a importância que essas profissionais teriam num futuro tão próximo. Naquela época raras pessoas sabiam o que era uma doula e sua função. Apesar de ainda hoje se fazer muita confusão, muita gente já conhece as funções a elas atribuídas, sua importância e seu papel no cenário da assistência ao parto.

Doulas são mulheres treinadas para dar suporte durante o parto. Embora elas não possam executar a parte técnica da assistência, têm papel importante durante o processo, o que faz a maior diferença nos resultados. Em outras palavras, pensando num mesmo público, mesma maternidade, mesma equipe de médicos e enfermeiras, são as mulheres acompanhadas por doulas as que serão mais beneficiadas. Os estudos mostram redução de 20% nas taxas de cesariana e de 30% nos nascimentos de bebê com baixa nota nos primeiros minutos de vida, para citar alguns parâmetros, tudo isso sem nenhum efeito deletério.

Os dois modelos de atuação são as doulas do setor privado, remuneradas por seu trabalho de atendimento a clientes que as contratam, e as doulas voluntárias, que trabalham no sistema público sem conhecer anteriormente as gestantes que vão atender. Nos países do primeiro mundo, como Estados Unidos por exemplo, as doulas já estão ativas na assistência há mais de 30 anos.

No Brasil existem entre 2 mil e 4 mil doulas atuantes entre os dois setores, embora não haja um número oficial ou um cadastro único. Neste 31 de janeiro, o Ministério do Trabalho lançou a nova versão da Classificação Brasileira de Ocupações onde figura, pela primeira vez, a ocupação de doula. Não existe uma profissionalização oficial, tal qual ocorre em outras ocupações em que não há execução de procedimentos de risco para a população. Tal qual fotógrafos e cinegrafistas que adentram o recinto do parto, as doulas não executam procedimentos médicos ou de enfermagem, não oferecendo, portanto, riscos à população. As funções básicas da doula são: acompanhar, acalmar, oferecer suporte emocional e físico, realizar massagem localizada, sugerir movimentos, respirações, atitudes, enfim, uma miríade de ferramentas que ajudam a mulher a atravessar o intenso processo que é dar à luz um bebê.

Uma grande polêmica ocorreu essa semana quando dois grandes hospitais privados da capital paulista proibiram a presença de doulas nos partos, alegando risco de infecção, e recuaram após imensa repercussão na mídia e nas redes sociais. A questão, no entanto, passa longe dos alegados riscos.

Estamos falando de relações de poder, de interesses econômicos, de falta de gerenciamento do setor privado.

Uma boa parte dos hospitais privados do Brasil apresenta taxas de cesarianas superiores a 90%. As cesarianas marcadas são o pilar de sustentação financeira das maternidades privadas. Partos normais, apesar de mais seguros, causam prejuízo, ocupam imprevisivelmente o leito por muito tempo, dão trabalho à enfermagem, não têm hora para ocorrer e não podem ser controlados. Doulas, acompanhando mulheres em trabalho de parto que querem muito um parto natural, perturbam a ordem natural de um centro cirúrgico estruturado para cesarianas pré-agendadas. Doulas pedem água, alimentos e explicações. Mulheres acompanhadas de doulas desobedecem às regras da instituição, questionam, desafiam. Pais acompanhados de doulas são mais protetores e questionadores. Doulas incomodam, partos normais incomodam.

Enquanto todos os setores do nosso país não assumirem que as mulheres estão sendo roubadas em seus partos, tanto no setor privado, com suas cesarianas agendadas, quanto no setor público, com seus partos altamente medicalizados e violentos, não poderemos avançar de fato nas crises profissionais. O problema não são as doulas e sua regulamentação. O problema não são as alegadas infecções provocadas pela presença de mais um acompanhante. Estamos falando de um processo de violência coletiva que vem se perpetuando há décadas em nosso país, sob os olhos semicerrados do governo, da Agência Nacional de Saúde Suplementar, do Ministério da Saúde, das secretarias.

Se nem a Lei do Acompanhante é obedecida em mais da metade das instituições paulistas, o que se dirá de uma iniciativa que deve ser tomada de livre e espontânea vontade pelas instituições para melhorar a assistência às mulheres que desejam um parto suave, prazeroso, positivo, acolhedor? Ainda temos um longo caminho a percorrer, e as doulas continuarão a ter um papel fundamental nesse processo.

(*) Ana Cristina Duarte, obstetriz pela USP e instrutora em capacitação de doulas, é coordenadora do Grupo de Apoio à Maternidade Ativa (GAMA) e autora de Parto Normal ou Cesárea? O Que Toda Mulher Deve Saber - e Todo Homem Também (UNESP)

ainda sobre o pastor e o geneticista: é a cultura, ...!


Do comentário de Leandro Colling no iBahia (vale a pena ler na íntegra aqui) a respeito do celeuma em torno da entrevista de Malafaia e da resposta do geneticista Eli Vieira:

(...) 1. Essa entrevista do Malafaia com Marília Gabriela e o vídeo do geneticista encobrem uma outra questão fundamental: por que a sociedade e os ditos cientistas querem tanto saber sobre o origem da homossexualidade e não querem saber da origem da heterossexualidade? Qual são os objetivos dessas pesquisas que tentam encontrar um gene gay? Para curar a homossexualidade? Se, por acaso, a ciência chegar a encontrar os componentes genéticos que geram a orientação sexual homossexual, com esse movimento fundamentalista que avança no Brasil e no mundo, vocês têm dúvida de que eles não financiariam a possibilidade de que homossexuais não pudessem mais ser gerados? Então, alô militantes LGBT, vejam que grande tiro no pé, hipoteticamente, vocês podem estar cometendo ao se filiar a esses argumentos!

2. O que nós precisamos é de argumentos que se diferenciam dos fundamentalistas e não que eles nos pautem em suas falas que apenas produzem ódio. No fundo, tanto Malafaia quanto o geneticista querem defender que existe um padrão de “normalidade” sobre as orientações sexuais. Malafaia diz que a heterossexualidade é normal e o geneticista diz que a homossexualidade também é normal, uma vez possui algum componente genético. Enquanto isso, nós temos evidências suficientes para mostrar o quanto a sociedade em geral, e os fundamentalistas em particular, defendem com unhas e dentes uma “pedagogia da heterossexualidade”, como diz a nossa querida Guacira Lopes Louro em seus textos. Escrevi sobre isso em Por que a heterossexualidade não é natural?

3. Além disso, esse “debate” joga novamente para o escanteio toda a discussão sobre a produção das identidades. Até quando vamos reduzir a sexualidade, seja ela a homossexualidade ou a heterossexualidade, à prática sexual entre as pessoas e/ou à “biologia”? Nós sabemos muito bem que a prática sexual é uma questão importante (para os fundamentalistas apenas se for para a reprodução), mas que as nossas sexualidades e nossos gêneros são compostos por diversos outros fatores. A imensidão e riqueza desses outros fatores ficam obscurecidos nesses debates que envolvem as chamadas “ciências duras”, como a genética e a neurociência. O que precisamos é discutir Direitos Humanos, porque determinadas pessoas têm mais direitos e outras não. Por que determinadas pessoas são mais respeitadas, podem continuar vivendo, e outras podem continuar sendo assassinadas aos milhares a cada ano por causa das suas orientações sexuais e identidades de gênero dissidentes?

Para finalizar: não tenho dúvidas de que os estudos da cultura e das humanidades (em sentido bem amplo, incluindo as subjetividades, a sociologia, a antropologia etc) são muito mais ricos em nos oferecer respostas sobre as nossas sexualidades, sejam elas dissidentes ou não, e de como devemos trabalhar para que todos e todas sejam respeitados e respeitadas.

E mais, a procura de uma resposta sobre a origem dos nossos desejos não pode jamais impedir o que mais importa: que todos possamos desejar de formas múltiplas, diversas, com o respeito que merecemos. (...)

Também de Leandro Colling, não deixe de ler "Desconstruindo as ideias do livro de cabeceira dos fundamentalistas religiosos", aqui.
Leia também: "Todo mundo é trans" (aqui) e "Criticando o sistema de gêneros" (aqui).

* * *

Rebatendo as críticas de que pretenderia reduzir uma suposta "explicação" da homossexualidade a causas genéticas, o próprio Eli Vieira postou ontem em seu perfil do Facebook:

Quem está dizendo que a genética é irrelevante para a questão da promoção da igualdade das pessoas independente de orientação sexual e identidade de gênero TEM RAZÃO.

O que fiz foi proteger minha área de atuação profissional de uma calúnia pública proferida por um leigo.

Não é por acaso que pensadores tão grandes quanto David Hume e Immanuel Kant convergiram em separar o que são "questões de fato" do que são "questões de direito". Separar "é" de "deve ser". E eu estou falando apenas da primeira categoria.

Os colegas acadêmicos que me atacam apenas por ser geneticista estão presumindo demais. Saibam que somos aliados contra o obscurantismo teocrático que tolhe direitos e esmaga vidas.


Leia também: Malafaia e os que se deixam pautar por ele (aqui), Ainda a teologia da estupidez (aqui), Conselho Federal de Psicologia repudia declarações de Silas Malafaia (aqui) e Carta a Silas Malafaia: Pastor, me ajude! (aqui)
Assista ao vídeo em que a jurista Maria Berenice Dias responde à entrevista de Malafaia (aqui)

5 de fev. de 2013

"não queiram medir o quanto sou mulher"


Do espetacular depoimento da Hailey, do blog Transfeminismo, em seu guest post no Escreva Lola Escreva (leia na íntegra aqui):

(...) comecei a fazer as unhas e me depilar – comecei a fazer tudo o que é socialmente considerado feminino. De certa forma, nessa época eu achava que o “sacrifício” de ter que me arrumar todos os dias era o preço que eu deveria pagar por “querer ser mulher”. (...)

Somente alguns anos depois conheci o feminismo, e lentamente percebi o quanto essa cobrança me fazia mal. Mas no caso de nós, mulheres trans*, as coisas não são tão simples. Além da cobrança machista do ideal feminino, há outra cobrança. Para sermos “verdadeiramente” mulheres, devemos sacrificar todos os nossos “hábitos” masculinos. Caso contrário, seremos consideradas falsas, não transexuais o suficiente. Essa é a baliza que os profissionais da saúde utilizam para medir quem é mais ou menos transexual.

Não preciso dizer o quanto é ridículo, senão inútil, tentar medir transexualidade. Gênero é algo fluido e complexo, e obviamente não tem como ser medido sem cair em estereótipos (machistas). Sinto que levei (e ainda levo) uma vida dupla. No consultório, tenho que mentir: dizer que sou heterossexual (quando sou bi); repetir a narrativa tradicional encontrada nos manuais (pseudo)científicos (como o discurso do “sempre me senti mulher”); mostrar “feminilidade” etc. Os critérios que esses ditos profissionais utilizam são os mais machistas possíveis: A mulher trans* de verdade é a mulher da década de 50: usa salto e maquiagem, roupas femininas, fala delicadamente e seu sonho é ter um marido macho para poder lhe fazer o jantar. E não estou exagerando.

Se as mulheres cisgêneras (não trans*) conquistaram, digamos, em partes, a recusa dessa imagem, nós mulheres trans* ainda estamos presas a um ideal ultramachista de mulher que, se não nos encaixarmos, teremos nossas identidades automaticamente invalidadas, nosso acesso à saúde negado, e nossa alteração do prenome e/ou sexo nos documentos também negados. Nossa existência está constantemente por um fio caso fizermos os gestos errados, caso digamos as palavras erradas, ou se contarmos alguma experiência que fuja minimamente do tradicional. (...)

Aprendi que não preciso depilar minhas pernas para ser mulher, não preciso me portar como mulher (seja lá como for isso); preciso somente ser eu e me identificar como mulher. A categoria de mulher independe de (meus) genitais (e consequentemente de quaisquer cirurgias), pois eu sou apenas um tipo diferente de mulher -- assim como existem mulheres altas e baixas, gordas e magras, com seios maiores ou menores, enfim, com várias morfologias -- minha morfologia é somente uma a mais dentro do espectro que é ser mulher. (...)

Claro, não são todas as pessoas trans* que conseguem isso. Muitas irão fazer várias cirurgias, e essas não devem ser criticadas. Eu creio que cada um tem a capacidade para decidir como se sente melhor, se deseja ou não realizar alterações corporais. A minha experiência é apenas uma dentre as várias diferentes vivenciadas por pessoas trans*. Por isso, costumo dizer que não há uma narrativa legítima para ser trans* -- existem narrativaS.

Por fim, gostaria de reiterar o caráter fluido da transexualidade. Não há receita de bolo. Todxs somos diferentes. Encontraremos, certamente, as pessoas trans* mais alinhadas com a cisgeneridade (estrutura que designa quem é homem/mulher “de verdade”; a estrutura que confere originalidade aos corpos percebidos como "naturais”), e encontraremos aquelas que divergem da norma, assim como existem homens e mulheres cis que são muito diferentes do ideal machista de gênero (ainda bem!). Sendo cis ou trans*, pagaremos o preço do desvio. Mas vamos seguir lutando para subverter as categorias rígidas de gênero.

Não deixe de ler o depoimento completo, aqui.


para além da tolerância, abraçar o meu irmão


O geneticista Eli Vieira responde às colocações de Silas Malafaia em sua entrevista com Marília Gabriela (saiba mais aqui).

Vi algumas pessoas criticando-o por ter reduzido a questão da orientação de gênero à genética. Não me parece que seja tanto isso, mas sim que ele tenha se preocupado em, dentro da sua área de conhecimento, refutar os argumentos apresentados por Malafaia e apontar sua falta de fundamentação. De tudo o que ele diz, porém, creio que o mais importante é que "a genética não existe mais na sua versão determinista do início do século XX". Nossa carga genética se atualiza a partir da nossa interação com o ambiente, ao longo da vida. Quem cada um de nós é será determinado por um misto único e irrepetível de influências genéticas, ambientais e culturais.

Por isso mesmo, e considerando-se a complexidade tanto do domínio da genética quanto das neurociências, todo o saber que já acumulamos nesse campo e tudo o que ainda não conseguimos desvendar, parece-me que toda tentativa de redução das questões de gênero e sexualidade à mera explicação genética, ou ambiental, ou familiar, ou cultural, será necessariamente simplista e falha. Por que será tão difícil admitir a magnitude do nosso desconhecimento e simplesmente acolher a existência do Outro, para além das minhas categorias preconcebidas de certo e errado?

Como tão bem colocou Marília Coutinho, irmã do cartunista Laerte, em seu texto sobre transgeneridade (não deixe de ler aqui), em última instância trata-se de uma questão de "transgressão de estereótipos", de superação das categorias preestabelecidas em que precisamos nos enquadrar e classificar toda a realidade para nela enxergar algum sentido. Em vez disso, como fazer para extrair sentido da diversidade? Como encontrar sentido na alteridade?

Talvez a oportunidade única que se apresenta para nós esteja justamente aí, no exercício de alteridade; no exercício de buscarmos, todos, um pouco mais de humildade para reconhecer que não, nenhum de nós é detentor da verdade, e a ninguém cabe julgar o grau de erro ou acerto nem de si mesmo, quanto mais do outro. Talvez estejamos diante da oportunidade de aprender a suportar a angústia da dúvida e do não-saber, suportar a tensão da diferença do Outro; suportar conviver, enfim, e quem sabe até abraçar mesmo Aquele que é intrinsecamente diferente de mim simplesmente por não ser Eu - e, para além da distância entre nós, nele enxergar meu Próximo; para além das diferenças, nele ver meu Igual, e meu Irmão.

Talvez toda a questão feminista, negra, gay, trans, e, em última instância, de gênero seja indício de uma nova era cultural que se anuncia, uma era de alteridade. Seremos capazes de fazer essa transição? Estaremos prontos para suportar a experiência do verdadeiro diálogo entre as diferenças? Conseguiremos superar as diferenças e encontrar, para além da mera "tolerância", a verdadeira fraternidade?


Leia também: Malafaia e os que se deixam pautar por ele (aqui), Ainda a teologia da estupidez (aqui), Conselho Federal de Psicologia repudia declarações de Silas Malafaia (aqui) e Carta a Silas Malafaia: Pastor, me ajude! (aqui)
Assista ao vídeo em que a jurista Maria Berenice Dias responde à entrevista de Malafaia (aqui)

4 de fev. de 2013

que o meu deus te perdoe


Acabo de assistir à entrevista histórica de Marilia Gabriela com Silas Malafaia (abaixo). Quer dizer, meio assisti. A partir de um determinado momento, não tive estômago mais e precisei ir pra cozinha lavar louça, descontar nas panelas o meu desconforto, ouvindo o resto de longe. De todo modo, nunca consigo ouvir Silas Malafaia muito tempo.

Malafaia é, evidentemente, um mentiroso profissional. A convicção com que ele expõe suas teses - como quando ele afirma que "nenhuma verdade científica [sic] da Bíblia jamais foi refutada" ou que "desde o tempo de Noé, desde quando Deus mandou o dilúvio, existe homossexualismo [sic]", como se o "tempo" de Noé tivesse caráter histórico e não simbólico; como quando ele se refere a "pesquisas científicas" sem citar suas fontes e distorcendo conclusões; e tenho certeza de que ele não é tão ignorante assim - a convicção com que ele expõe suas teses é uma aula de retórica muito bem calculada. O sujeito é a encarnação da má fé, infelizmente sem nenhum trocadilho.

Como bem apontou um grande amigo, "o mais estranho é pensar que o Malafaia, de fato, representa uma parcela da população brasileira. Gente que compra seus livros, que vota nele. Quanto ao discurso nada de novo: sofisma sobre sofisma (...). Marília podia ter falado da posição de órgãos de psicologia e psiquiatria aqui e dos EUA para combater a pretensa base de psicólogo dele. Sem falar da teologia. Ou seja, numa conversa real, sem gritarias e respeitando o direito de interlocução, nada se sustenta na argumentação do cara. A questão é que esse segmento que ele representa não está minimamente interessado num diálogo real."

O fato é que estou há meia hora com meus pêlos arrepiados. Uma reação de bicho diante de um perigo que lhe ameaça a vida. E não dão nem sinal de baixar.

Quanto a Marília Gabriela... como bem salientou Tony Goes em seu blog, se eu já gostava dela como profissional, hoje ela conquistou um grau de respeito que poucas pessoas me inspiram. Não deve ser nem um pouco fácil discutir com Malafaia, que usa com maestria uma série de técnicas de discurso (como, por exemplo, elevar o tom de voz e despejar um discurso verborrágico, alinhavando argumentos pífios e falhos sem dar tempo para o interlocutor reagir), sobretudo com o tempo restrito de um programa de televisão. Achei sua contra-argumentação muito, muito fraca; ainda assim, no contexto estéril desse deserto que é, hoje, a grande mídia brasileira, ver uma mulher peitar um sujeito da índole do Malafaia foi um alento, um raio de esperança.

Ouvi-la terminar a entrevista dizendo "que o meu Deus, que não sei se é o mesmo que o seu, te perdoe", foi arrebatador. Mas preciso confessar: sem nenhuma apologia à violência, o que me lavou a alma MESMO foi ela dizer pro público que tinha vontade de bater nele. ;-)



Leia também: Malafaia e os que se deixam pautar por ele (aqui), Ainda a teologia da estupidez (aqui), Conselho Federal de Psicologia repudia declarações de Silas Malafaia (aqui) e Carta a Silas Malafaia: Pastor, me ajude! (aqui)
Assista ao vídeo em que a jurista Maria Berenice Dias responde à entrevista de Malafaia (aqui)

2 de fev. de 2013

criticando o sistema de gêneros


De Rita Colaço, em seu blog Comer de Matula (leia na íntegra aqui):

"Semana passada a Rede Globo de televisão apresentou no Fantástico - a sua revista dominical - uma entrevista com a modelo Lea T. [saiba mais aqui]

Lea, ali, deixou claro ter consciência de que, mesmo operada (ela realizou a cirurgia de redesignação sexual há um ano no exterior), preservava em seu corpo características tidas como do sexo masculino ("ombros largos", mãos e pés "grandes"). - Só que o disse, em resposta à pergunta em si mesma risível (dizendo o mínimo) do "você se sente 100% mulher?". E, talvez não percebendo o tom capcioso da jornalista, iniciou a sua frase com "não...".

Mas ela disse outras coisas além. Ela ousou afirmar que não é um detalhe da anatomia ou uma cirurgia que determina, que condiciona a felicidade de alguém. Disse que a intervenção é um processo doloroso e, indagada, respondeu que não indicaria.

Os pontos centrais foram, para mim, destacar que a cirurgia é um processo mais para agradar a sociedade do que a própria pessoa transexual (pois a readequa à fixidez do modelo imposto); e que o bem-estar individual não é determinado pela anatomia. (...)"

Só pra complementar o excelente artigo "Todo mundo é trans", de Marilia Coutinho, que postei aqui. Vale muito também ler o guest post da Hailey no blog da Lola, aqui.

16 de dez. de 2012

falsa neurociência perpetua a diferença entre os sexos


Pesquisas que comprovam a diferença biológica entre os sexos são bobagens pseudocientíficas e sexistas que alimentam o preconceito na sociedade, defende Cordelia Fine, pesquisadora do Centro de Psicologia Aplicada e Ética Pública da Universidade de Melbourne, formada em psicologia experimental na Universidade de Oxford, com mestrado na Universidade de Cambridge e doutorado na College London, em "Homens Não São de Marte, Mulheres Não São de Vênus". O título é uma clara referência a um dos mais conhecido livros que propagam essa ideia, "Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus", o best-seller de John Gray.

Fundamentada em pesquisas e com um peculiar senso de humor, a autora busca mostrar que as diferenças entre os sexos são criadas pela comunidade, parte do contexto social, não por fatores genéticos inalteráveis.

Mulheres são coletoras, homens caçadores. As fêmeas têm mais empatia, machos são lógicos. Para Fine isso não passa de uma tentativa de manter uma sociedade de "castas sexuais". A ideia esconde a prerrogativa de que homens são melhores advogados, cientistas e engenheiros; mulheres são boas acompanhantes, facilitadoras de grupos e professoras primárias.

Sem desmerecer ou exaltar nenhuma profissão, Fine resume essa teoria da seguinte maneira: "em média, a inteligência das mulheres é mais bem empregada para deixar as pessoas à vontade, enquanto os homens se dão melhor entendendo o mundo e construindo e consertando as coisas que precisamos nele".

"Não existe nada de novo na ideia de procurar no cérebro a explicação e a justificativa do status quo do gênero", escreve Fine na introdução da edição. No século 17, Malebranche afirmava que o abstrato era incompreensível às mulheres dada a delicadeza de suas fibras cerebrais. "Um excesso de pensamentos abstratos faria com que essas fibras se rompessem!", conta.

Fonte: Folha de S. Paulo

15 de dez. de 2012

acorda, raimundo!


Este filme, produzido pelo Ibase, com o apoio da CESE, trata de uma inversão dos papeis tradicionais na sociedade, a fim de dar ênfase ao cotidiano de milhões de mulheres que vivem sob o machismo e a violência. Dirigido por Alfredo Alves, conta em seu elenco com Eliane Giardini, Zezé Mota, Paulo Betti e José Mayer.

(Fonte)

7 de dez. de 2012

ninjas também podem usar sapatos cor-de-rosa


Ontem minha mãe postou no Facebook uma foto do meu irmão Sam, de 5 anos, usando um par de sapatos que ele escolheu para o seu primeiro dia na pré-escola. Ela explicou a ele na loja que os sapatos eram feitos para garotas. Sam então disse a ela que não se preocupava e que "ninjas também podem usar sapatos cor-de-rosa".

Sam foi para a escola e recebeu diversos elogios por causa dos seus sapatos novos. Nenhuma criança disse nada negativo em relação a eles. Contudo, minha mãe recebeu cerca de 20 comentários na foto, de vários familiares dizendo o quanto "errado" aquilo era, como "coisas como essa vão afetá-lo socialmente" e, dito mais eloquentemente pela minha tia-avó, "esta merda vai torná-lo gay".

Minha mãe então deletou a foto e disse ao Sam que ele pode usar o que ele quiser para ir à escola, e que é decisão dele. Se ele quiser usar sapatos cor-de rosa, ele pode usar sapatos cor-de-rosa. Sam então explicou que ele gostava dos sapatos não porque eram rosa, mas porque eles eram "feitos de zebra", e zebra é o seu animal favorito. :)

O que dizer sobre a sociedade, quando um grupo de adultos poderia receber uma lição de humanidade de uma classe de pré-escola?

(Via Facebook. Tradução de Murilo Araújo.)

11 de set. de 2012

dois pauzinhos


Perguntar "quem é o homem" e "quem é a mulher" em uma relação homoafetiva é o mesmo que perguntar qual hashi é o garfo.

Fica a dica.

2 de set. de 2012

todo mundo é diferente


Um menininho estava brincando de boneca. O pai chegou, viu aquilo, e quis saber, revoltado: “Quequifoi?! Virou gay agora?”. E o garoto, com toda a inocência que é peculiar às crianças que ainda não aprenderam a ser preconceituosas, respondeu, calmamente: “Não, virei pai”. (via)

Esse pai que deve sentir falta do tempo em que meninos brincavam de açougueiro.

* * *

(...) O filho do Niels Pickert morava com os pais em um bairro progressista de Berlim, onde o fato dele usar vestidos não era mais do que um assunto para iniciar uma conversa. Claro, não era fácil pro menino na escola, e como o menino não estava encontrando um role model, uma vez que não vemos muitos homens andando de saias por aí (um beijo, Laerte!), nada mais óbvio que o próprio Niels passasse a se vestir com saias – e, veja bem, ele gostou.

Difícil mesmo ficou quando a família Pickert se mudou para uma cidade totalmente provinciana, religiosa e conservadora, onde o fato de pai e filho saírem pelas ruas de saia e vestido, respectivamente, fez com que uma senhora desse com a cara no poste – literalmente – , o que deu ao pequeno novamente coragem para ir á escola com seus vestidos. E mais: ele gosta de pintar as unhas também, e se diverte pintando as do pai. Niel conta isso tudo em um artigo para a revista feminista alemã Emma, e eu destaco o que ele fala: “Sim, eu sou um daqueles pais que tenta criar seus filhos de forma igualitária. Eu não sou um desses pai acadêmicos, que divagam sobre a igualdade de gênero durante seus estudos e assim que há uma criança na casa, se adequam aos papéis confortáveis de gênero: ele está se realizando na carreira e ela cuida do restante.”

E então, apesar do que o meu despeito falou quando soube da notícia em uma primeira instância, eu aplaudo o Niel Pickert de pé. E pergunto: como é que isso não é respeitar as diferenças, minha gente? Sim, meninos e meninas são diferentes entre si. Mas também o são todos os seres humanos. O gênero não é a diferença primária, muito menos a principal, e não deve nunca definir o que uma pessoa é, assim como não o são a raça e a orientação sexual. O verdadeiro respeito às diferenças está justamente em não enquadrar ninguém nesses estereótipos. Porque o filho do Niel Pickert gosta de usar vestidos. E ele é um menino. E o pai não só respeita isso, como ele endossa, dando ao seu filho a autoestima necessária para expressar essa diferença.

Para encaixar uma estrela no buraco do triângulo, é necessário cortar quatro das suas pernas. Isso deve doer. Que tal não tentar encaixá-la em nada?

(Nanda, no Blog Mamíferas)
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