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6 de fev. de 2013

nome próprio da cultura, ou: a nódoa no brim

Sam Vanallemeeksch (via)

A propósito dos textos recentes de Mino Carta ("A imbecilização do Brasil") e Cynara Menezes ("Em que tipo de arte você acredita?"), reproduzo a coluna de Vladimir Safatle na Folha de S. Paulo (via):

No Brasil, os debates sobre ação cultural normalmente pecam pelo medo de afirmar as exigências da cultura em voz alta.

De um lado, há aqueles para quem os investimentos em cultura se justificam por permitir o desenvolvimento da "economia criativa". Nessa visão, cultura é bom porque gera empregos, turismo e desenvolvimento econômico.

De outro, há os que veem a cultura como ponta de lança de serviços de assistência e integração social. Mais música e menos violência --é o que alguns gostam de dizer, como se houvesse alguma forma de relação direita possível. O que abre um perigoso flanco: se o índice de violência não baixar, o investimento em música parece perder o sentido.

Por fim, há os que compreendem cultura como um mero complemento para a educação. Todas as ações culturais devem estar integradas em um projeto educacional pedagógico.

Há de lembrar a tais pessoas que a cultura ocidental construiu seu lugar exatamente por meio da recusa dessas três tutelas. Platão e Rousseau, por mais que enunciassem pensamentos distintos, tinham ao menos a similitude de ver a arte como uma pedagogia para o bem-viver em sociedade. Não por outra razão, um expulsou os artistas de sua cidade ideal e o outro brigava para não abrirem um teatro em Genebra. Afinal, Dostoiévski, Francis Bacon, John Cage e Paul Celan não são exatamente companheiros na arte da descoberta do bem-viver. A arte serve mais para desestabilizar visões de mundo do que para referendá-las.

Já a subsunção das discussões culturais aos imperativos da nova "economia criativa" é só mais uma maneira de justificar a lógica de mercador de certos administradores culturais. Assim, eles podem financiar o que circula mais, já que a alta circulação é o critério fundamental para a avaliação dos processos de produção econômica.

Como Britney Spears sempre circulará mais do que Anton Webern, fica justificada a transformação do Estado em departamento de desenvolvimento de subprodutos culturais para a indústria. Daqui a pouco, teremos baile funk pago pela Secretaria da Cultura (ainda por cima, com a desculpa de que se trata de manifestação popular).

Mas o Brasil mereceria um debate cultural que não precisasse de muletas para se justificar e que não tentasse perpetuar falsos dilemas --como cultura elitista x cultura popular, cultura dos países dominantes x cultura da periferia e outros absurdos do gênero.

Aqueles que acreditam que a cultura serve, sobretudo, para desestabilizar visões de mundo e compreender a força crítica das formas estéticas deveriam parar de falar em voz baixa.

* * *

Ou, como diria Manuel Bandeira:

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Saí um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.

ainda sobre o pastor e o geneticista: é a cultura, ...!


Do comentário de Leandro Colling no iBahia (vale a pena ler na íntegra aqui) a respeito do celeuma em torno da entrevista de Malafaia e da resposta do geneticista Eli Vieira:

(...) 1. Essa entrevista do Malafaia com Marília Gabriela e o vídeo do geneticista encobrem uma outra questão fundamental: por que a sociedade e os ditos cientistas querem tanto saber sobre o origem da homossexualidade e não querem saber da origem da heterossexualidade? Qual são os objetivos dessas pesquisas que tentam encontrar um gene gay? Para curar a homossexualidade? Se, por acaso, a ciência chegar a encontrar os componentes genéticos que geram a orientação sexual homossexual, com esse movimento fundamentalista que avança no Brasil e no mundo, vocês têm dúvida de que eles não financiariam a possibilidade de que homossexuais não pudessem mais ser gerados? Então, alô militantes LGBT, vejam que grande tiro no pé, hipoteticamente, vocês podem estar cometendo ao se filiar a esses argumentos!

2. O que nós precisamos é de argumentos que se diferenciam dos fundamentalistas e não que eles nos pautem em suas falas que apenas produzem ódio. No fundo, tanto Malafaia quanto o geneticista querem defender que existe um padrão de “normalidade” sobre as orientações sexuais. Malafaia diz que a heterossexualidade é normal e o geneticista diz que a homossexualidade também é normal, uma vez possui algum componente genético. Enquanto isso, nós temos evidências suficientes para mostrar o quanto a sociedade em geral, e os fundamentalistas em particular, defendem com unhas e dentes uma “pedagogia da heterossexualidade”, como diz a nossa querida Guacira Lopes Louro em seus textos. Escrevi sobre isso em Por que a heterossexualidade não é natural?

3. Além disso, esse “debate” joga novamente para o escanteio toda a discussão sobre a produção das identidades. Até quando vamos reduzir a sexualidade, seja ela a homossexualidade ou a heterossexualidade, à prática sexual entre as pessoas e/ou à “biologia”? Nós sabemos muito bem que a prática sexual é uma questão importante (para os fundamentalistas apenas se for para a reprodução), mas que as nossas sexualidades e nossos gêneros são compostos por diversos outros fatores. A imensidão e riqueza desses outros fatores ficam obscurecidos nesses debates que envolvem as chamadas “ciências duras”, como a genética e a neurociência. O que precisamos é discutir Direitos Humanos, porque determinadas pessoas têm mais direitos e outras não. Por que determinadas pessoas são mais respeitadas, podem continuar vivendo, e outras podem continuar sendo assassinadas aos milhares a cada ano por causa das suas orientações sexuais e identidades de gênero dissidentes?

Para finalizar: não tenho dúvidas de que os estudos da cultura e das humanidades (em sentido bem amplo, incluindo as subjetividades, a sociologia, a antropologia etc) são muito mais ricos em nos oferecer respostas sobre as nossas sexualidades, sejam elas dissidentes ou não, e de como devemos trabalhar para que todos e todas sejam respeitados e respeitadas.

E mais, a procura de uma resposta sobre a origem dos nossos desejos não pode jamais impedir o que mais importa: que todos possamos desejar de formas múltiplas, diversas, com o respeito que merecemos. (...)

Também de Leandro Colling, não deixe de ler "Desconstruindo as ideias do livro de cabeceira dos fundamentalistas religiosos", aqui.
Leia também: "Todo mundo é trans" (aqui) e "Criticando o sistema de gêneros" (aqui).

* * *

Rebatendo as críticas de que pretenderia reduzir uma suposta "explicação" da homossexualidade a causas genéticas, o próprio Eli Vieira postou ontem em seu perfil do Facebook:

Quem está dizendo que a genética é irrelevante para a questão da promoção da igualdade das pessoas independente de orientação sexual e identidade de gênero TEM RAZÃO.

O que fiz foi proteger minha área de atuação profissional de uma calúnia pública proferida por um leigo.

Não é por acaso que pensadores tão grandes quanto David Hume e Immanuel Kant convergiram em separar o que são "questões de fato" do que são "questões de direito". Separar "é" de "deve ser". E eu estou falando apenas da primeira categoria.

Os colegas acadêmicos que me atacam apenas por ser geneticista estão presumindo demais. Saibam que somos aliados contra o obscurantismo teocrático que tolhe direitos e esmaga vidas.


Leia também: Malafaia e os que se deixam pautar por ele (aqui), Ainda a teologia da estupidez (aqui), Conselho Federal de Psicologia repudia declarações de Silas Malafaia (aqui) e Carta a Silas Malafaia: Pastor, me ajude! (aqui)
Assista ao vídeo em que a jurista Maria Berenice Dias responde à entrevista de Malafaia (aqui)

5 de fev. de 2013

tarantino livre


Sobre o filme Django Livre, a naturalização da escravidão e a redução do negro a uma passividade submissa e inerte, o comentário de Idelber Avelar, publicado hoje em seu perfil no Facebook:

Não dá para escrever um longo texto sobre o filme no momento mas, para quem soltou
foguetes com “Django”, de Tarantino, eu gostaria de sugerir três artigos que fazem pensar um pouco sobre:

1- O subgênero ao que poderíamos filiar o filme, que é o da “white rescue fantasy”, a fantasia branca de resgate, na qual um mocinho branco salva personagens negros basicamente passivos, produzindo o efeito catártico no público branco sem que ele se pergunte sobre sua cumplicidade com a violência retratada. Que um dos dois protagonistas seja negro, no filme de Tarantino, não muda nada: Django é um negro salvo por um homem branco, Schultz, e aprende tudo com ele. Este é a condição de possibilidade daquele.

2- A completa naturalização da escravidão e a redução da luta contra ela a uma ação individual. Os outros negros do filme são caricaturais ao ponto de serem inverossímeis e, a eles, não há uma palavra de solidariedade de Django, o que reitera sua filiação ao modelo da fantasia branca de resgate.

3- A dinâmica da sobreutilização do insulto “n**ger”, claramente uma estratégia de legitimação de Tarantino, com a qual está em diálogo o caráter cômico do personagem de Samuel L. Jackson. O texto da New Yorker, aqui, é bem instrutivo sobre este aspecto do filme: o diretor branco que cria um personagem escravo submisso como figura cômica.

4- As desastrosas declarações de Tarantino, atribuindo a si próprio um papel pioneiro na discussão da escravidão, são coerentes com o filme: a rasura da experiência negra real que tem lugar no filme se replica na rasura da longa história de tematização da escravidão em cineastas, escritores e intelectuais negros, que não costumam replicar esse modelo do western spaghetti com vítimas passivas, à espera de um resgate do mocinho. Não é coincidência que tantas plateias brancas saiam do filme satisfeitas, catarticamente validadas.

Muito mais poderia ser dito, mas deixo aqui os textos, que subscrevo quase na totalidade (na totalidade mesmo, no caso do texto de Tanya Steele): Jelani Cobb, aqui; Tanya Steele, aqui; e Paul Barrett, aqui.

Aproveitando o ensejo: em breve, postarei aqui uma coletânea de links para artigos e comentários sobre os filmes indicados ao Oscar - de preferência, antes do carnaval, para você poder descansar um pouco da folia de vez em quando. ;-)


23 de dez. de 2012

o balconista arnaldo branco


Isso foi depois da internet, mas antes do "torrent": fui balconista de locadora de vídeo. "Que nem o Tarantino!", sim já ouvi essa várias vezes, só me falta a carreira em Hollywood.

Entrei em 1998, ano da transição do VHS para o DVD, portanto o aviso para rebobinar a fita ainda pairava sobre a minha cabeça em um cartaz na parede, como um mandamento solene.

Já estava velho para a função ("contingências do mercado de trabalho" era a desculpa que usava com a minha mãe), então gostava de fingir que estava lá pela oportunidade de estudar a plateia dos filmes que faria no futuro.

Não era uma mentira completa; na verdade poderia prestar consultoria para produtores de cinema sobre o que nossos espectadores querem ver na tela. Ou seja, nada de preto e branco, pouca conversa ("filme desse Woody Allen só tem gente falando") e é bom maneirar no experimentalismo: o mantra do público médio de locadora é "queria um filme leve, hoje não estou a fim de pensar".

E pornografia, por exemplo. Pessoas de vários estratos sociais pegavam filmes de sacanagem, mas percebi um estranho padrão entre os porteiros da área: só alugavam pornôs brasileiros. Perguntei o porquê e disseram que preferiam as mulheres gemendo em português; aparentemente existe diferença entre o "yes" e o "sim" na hora de fantasiar.

Mas não usei minhas horas de trabalho só para praticar pesquisa de mercado. Guardei muitas histórias bacanas, embora na maior parte das vezes estivesse cercado por pessoas apressadas e sem muita familiaridade com o conceito de fila. Na época, queria matar o autor da frase "o cliente sempre tem razão". Meu herói era Randal Graves, o personagem de Jeff Anderson em "O Balconista", filme do Kevin Smith de 1994, que tratava mal todos que tivessem o azar de entrar no seu estabelecimento.

Já tive que ajudar a separar uma briga de socos entre um cliente e um entregador (o entregador tinha razão, viu o que disse sobre a tal frase?), precisei empatar um casal que se trancou no banheiro e fui descontado na minha primeira semana porque um cara se associou com uma identidade falsa e levou oito lançamentos. Ok, essa não foi uma história bacana.

Alguns sócios da locadora eram umas figuras, como o cardíaco que ligava pedindo sempre pornôs e cigarros malocados no saco de entregas. Volta e meia uma ambulância parava em frente ao seu prédio. Tinha também a mulher chata de uma figura importante da MPB; quando ela finalmente brigou com o dono e pediu para se desassociar, demos uma festa para rasgar sua ficha.

A locadora ficava no Jardim Botânico, no meio da fina flor da burguesia carioca, o que foi mais uma lição sobre o "ethos" das nossas elites: era uma choradeira para pagar qualquer dívida, mínima que fosse. Uma cineasta (vou manter seu anonimato, ao qual aliás está acostumada) discutiu comigo por coisa de centavos em balas de menta, alegando achar que eram cortesia. Por mim até seriam, não fossem os balconistas também responsáveis pela "bombonière" e pelo fechamento do caixa, nos obrigando ao trabalho de corno de contar chiclete por chiclete e comparar o resultado com o montante na registradora --com desconto no salário quando os valores não batiam.

Enfim, tempo bom que não volta mais, graças a Deus.

Queria dedicar esse texto ao saudoso Marcão (que nos deixou em 2011), meu colega de balcão e rubro-negro como eu, e ao cliente vascaíno que torrava tanto o nosso saco que nos fez bater o camelódromo do Saara um dia inteiro até conseguirmos duas camisas do Real Madrid para recebê-lo no dia da derrota na final do mundial de clubes. O cara nunca mais voltou.

- Arnaldo Branco, cartunista, na Ilustríssima (Folha de S. Paulo) de hoje.

a 27ª vítima


De Dorrit Harazim, publicado no Globo de hoje (leia na íntegra aqui), sobre o massacre de Newtown (mais aqui)

(...) Todas as faixas, desenhos, mensagens, velas, bichos de pelúcia, buquês de flores que brotaram em Newtown honram os “26 anjos que nos guiarão”. Essas 20 crianças e 6 adultos viverão para sempre na memória local.

Só que foram 27 os fuzilados pelo jovem Adam Lanza, de 20 anos. Sua primeira vítima daquela tenebrosa sexta-feira 13 de dezembro foi a própria mãe, morta em casa com quatro tiros de rifle calibre .22 na cabeça. Só depois o surtado Adam rumou para a escola fundamental, onde executou as outras 26 vítimas.

Um único tributo, rabiscado numa folha de papel colada num pedaço de madeira, presta homenagem a Nancy Lanza em Newtown. “Outros se consolam mutuamente por escolhas que você teve de fazer sozinha. Quem nunca errou atire a primeira pedra”, diz um trecho do texto. (...)

Como se sabe, tanto o rifle de assalto Bushmaster M4 com o qual Adam executou a matança como as outras quatro armas encontradas em sua casa pertenciam à mãe e estavam devidamente registradas. A sra. Lanza seguia com convicção os preceitos de quem, nos Estados Unidos, se declara “adepto da sobrevivência” — grupo de pessoas em permanente estado de alerta para a erupção do caos social no país. Estocar mantimentos e armas e aprimorar a pontaria para se proteger do perigo fazem parte dos cuidados essenciais dessa tribo. (...)

Com o filho, a adepta da sobrevivência fazia exercícios regulares de tiro numa academia da cidade.

Segundo análise de dados estatísticos feita por Nate Silver, o festejado guru da mídia que acertou todas as previsões da reeleição de Obama no mês passado, a variável mais confiável para se prever a intenção de voto de um eleitor, nos Estados Unidos, é a posse de armas. Gênero, raça, faixa etária, renda familiar, educação, religião, domicílio — nenhum desses fatores é tão determinante na intenção de voto quanto a posse de armas.

Mais da metade dos casais com filhos pequenos que votam no Partido Republicano tem armas em casa. Entre eleitores democratas, esse número cai para “apenas” um em cada quatro casais. A média nacional americana está em três armas por domicílio.

Basta assistir à televisão nos Estados Unidos para saber que a cada ano 34 civis são mortos por armas de fogo. Em apenas seis meses, esse total iguala o número de militares americanos mortos nas guerras do Iraque e do Afeganistão.

Nancy Lanza tinha, em casa, um filho problema e cinco armas. Inicialmente os moradores de Newtown a prantearam como vítima inocente, a ser computada e incluída nos memoriais. Pouco a pouco, sua memória começa a ser deslocada da condição de vítima para a de corresponsável pela tragédia de Newtown.

O problema não era apenas o filho, o morto de número 28 da chacina.

Menos de duas horas após o término do momento nacional de silêncio, o CEO da Associação Nacional do Rifle, a robusta entidade que promove e defende o armamento individual de todo cidadão, saiu da retranca que mantivera desde o massacre. “Só uma pessoa do bem com uma arma na mão é capaz de deter uma pessoa do mal que tem uma arma na mão”, declarou sem pestanejar Wayne LaPierre, em entrevista coletiva. Culpou a mídia, os videogames e a indústria do entretenimento pela matança e aproveitou para lançar novo apelo para que toda escola americana adote seguranças armados. (...)

Como observa Michael Moore (já postei aqui, mas nunca é demais repetir): "Somos um povo que se assusta com facilidade e é fácil de ser manipulado pelo medo. De que temos tanto medo, que necessitamos ter 300 milhões de armas de fogo em nossas casas? Quem vai nos ferir? Por que a maior parte dessas armas se encontra nas casas de brancos, nos subúrbios ou no campo? Talvez, se resolvêssemos nosso problema racial e nosso problema de pobreza (uma vez mais, somos o número um com maior número de pobres no mundo industrializado), houvesse menos pessoas frustradas, atemorizadas e encolerizadas estendendo a mão para pegar a arma que guardam na gaveta."

* * *


Desde semana passada, já vi esse texto em vários lugares (leia na íntegra aqui). É o depoimento pungente da mãe de um menino que talvez se pareça com Adam Lanza, o rapaz que cometeu o massacre de Newtown.

Eu sou a mãe de Adam Lanza

"(...) Eu vivo com um filho que tem problemas mentais. Amo meu filho. Mas ele me apavora.

Algumas semana atrás, Michael pegou um faca e ameaçou me matar e depois a si mesmo porque eu pedi que ele devolvesse na biblioteca os livros que já estavam atrasados. Os irmãos de 7 e 9 anos sabiam qual era o plano de emergência — correram para o carro e se trancaram antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa. Eu consegui tirar a faca de Michael, e depois metodicamente recolhi todos os objetos cortantes da casa e os coloquei dentro de uma sacola gigante que agora anda sempre comigo. Depois de tudo isso, ele seguiu gritando, me insultando e ameaçando me matar e me machucar.

O conflito terminou com três policiais corpulentos e um paramédico lutando com o meu filho para colocá-lo em um maca e levá-lo para a emergência do hospital local. A ala psiquiátrica não tinha nenhum leito livre no dia. Michael foi atendido no pronto socorro e nos mandaram de volta para casa com uma prescrição de Zyprexa e um retorno agendado com um psiquiatra infantil.

Ainda não sabemos o que há de errado com Michael. Espectro do Autismo, TDAH, Transtorno Explosivo Intermitente foram mencionados em reuniões com assistentes sociais, terapeutas, professores e pedagogos. Michael tem tomado uma enorme quantidade de antipsicóticos e drogas alteradoras de humor. Nada parece funcionar. (...)

No terceiro dia, ele era o meu calmo e doce garoto de novo, se desculpando e prometendo melhorar. Eu escutei essas promessas durante anos. Eu não acredito mais nelas. No formulário de internação, na pergunta “O que você espera do tratamento?”, eu escrevi, “preciso de ajuda”.

E eu preciso mesmo. Esse problema é grande demais para eu administrar sozinha.

Eu estou dividindo essa história porque eu sou mãe de um Adam Lanza. Eu sou mãe de um Dylan Klebold e um Eric Harris. Eu sou mãe de um James Holmes. Eu sou mãe de um Jared Loughner. Eu sou mãe de um Seung-Hui Cho. E esses rapazes — e suas mães — precisam de ajuda. No despertar de mais uma tragédia nacional, é fácil falar sobre armas. Mas é hora de falarmos sobre doenças mentais.

De acordo com uma revista especializada, desde 1982 —, 61 assassinatos em massa envolvendo armas de fogo aconteceram no país. Desses, 43 dos assassinos eram homens brancos, e apenas uma era mulher. A revista voltou seu foco para a questão dos assassinos terem obtido ou não suas armas legalmente (a maioria sim). Mas esse visível sinal de problema mental deveria nos levar a considerar quantas pessoas nos Estados Unidos vivem com medo, como eu vivo.

Quando eu perguntei para o assistente social que cuida do meu filho quais eram as minhas opções, ele respondeu que a única coisa a fazer é acusá-lo de um crime. “Se ele estiver no sistema, eles vão criar um rastro de documentos”, disse. “Essa é a única forma de conseguir que algo seja feito. Ninguém vai te dar atenção a menos que você tenha uma queixa formal.”

Eu não acredito que meu filho deva ir para a cadeia. Mas parece que os Estado Unidos estão usando as prisões como uma solução opcional para doentes mentais. De acordo com entidades de Direitos Humanos, o número de internos mentalmente doentes quadruplicou entre 2000 e 2006, e continua aumentando — na verdade a proporção de doentes mentais entre prisioneiros é cinco vezes maior que entre a população não encarcerada.

Ninguém quer mandar o gênio de 13 anos que ama Harry Potter e seu bichinho de pelúcia para a cadeia. Mas nossa sociedade, com o estigma que as doenças mentais provocaram o declínio do sistema público de saúde, não nos dá outra opção.

Aí então outra alma torturada atira em um restaurante. Um shopping. Uma classe de primeira série. E nós cerramos nossas mãos e dizemos: “Algo tem que ser feito”.

Eu concordo que algo tem que ser feito. É hora de uma significativa e abrangente discussão nacional a respeito da saúde mental. É o único jeito de realmente curarmos o país.

Deus me ajude. Deus ajude Michael. Deus ajude nós todos.

* * *


E vale ler as reflexões da Nanda, no Blog Mamíferas, a partir do massacre de Newtown e do filme Precisamos falar sobre Kevin, aqui:

(...) Em casos de atiradores adolescentes, até onde a culpa é dos pais? Porque precisamos culpar outras pessoas que não os atiradores? Não estou isentando o papel (ou ausência) dos pais na formação desses indivíduos, que em poucas instâncias sobrevivem para a realização de testes que comprovem sua psicopatia ou outras doenças mentais, mas será que está em nosso poder impedir que nossos filhos queimem mendigos, ou atropelem ciclistas, ou atirem em crianças na escola?

O medo do meu filho ser vítima é o mesmo medo de que ele seja o criminoso. Mas a culpa não é da mãe.

22 de dez. de 2012

O fim do (meu) mundo


Do psicanalista Mario Corso, em seu blog (aqui):

Se você está lendo estas linhas é por que o fim do mundo, previsto para hoje, não aconteceu. Confesso uma ponta de decepção, o fim, ou ao menos uma catástrofe, engrandeceria o homem, nos restituiria a condição de protagonistas num universo indiferente ao nosso destino. O cosmos foi mais uma vez indiferente aos rogos dos humanos e às suas previsões, o universo e o planeta continuam na sua imperturbável mecânica celeste, independente e ignorantes das nossas malfadadas conjecturas.

Diga-se, em favor dos Maias, os pretensos profetas do apocalipse em questão, que isso não foi uma ideia deles, e sim uma leitura apressada nossa, a partir de informações incompletas sobre sua cultura e calendário. Se não foi dessa vez, não se preocupe, cedo ou tarde vão anunciar outro fim, e de novo vamos vacilar se acreditamos ou não. A temática apocalíptica é uma velha conhecida e parece que não sai de cartaz. Não faz muitos anos, em 2000, era o mesmo temor, o mundo iria acabar, e cá estamos nós, lampeiros como sempre.

Inútil reclamar da imbecilidade, invocar racionalidades de todas matizes, acusar os crentes apocalípticos de passar atestado de ignorância científica. Até procede, mas a questão é outra: esse temor tem raízes míticas, e esse sistema de crenças e medos não funciona com a lógica da razão. Quando se opera com o sistema mítico, a ciência e o bom senso não têm entrada. Qualquer sistema mitológico clássico, quando conseguimos captá-lo em sua forma mais articulada e completa, pensa o cosmos com os mesmos termos: o nascimento (ou renascimento), um período de auge glorioso, um declínio sofrido e, finalmente, a destruição com o retorno ao caos. Portanto, o apocalipse faz parte desse esquema, dessa visão do mundo. Quando se raciocina miticamente, mais dia menos dia, desemboca-se nesse vórtice.

A questão que muitos se colocam é: por que discursos assim, tão disparatados, ainda tem pregnância? Por que, contra todas as evidências possíveis, ainda há quem acredite nisso? Creio que a questão está mal posta, poderíamos pensar o contrário, por que não seria assim? Goste-se disso ou não, o tempo do mito não acabou. O avanço da ciência e seu método, se por um lado combate a religião, a superstição, a magia, deixa muitas questões sem respostas e é onde se abre a brecha para o retorno do pensamento mítico. Os homens podem viver com pouco, mas raramente abrem mão de um sentido para o mundo e para sua vida. Qual a razão da existência? Para onde vamos? De onde viemos? Se o futuro promete tanto, por que me tocou viver esta época tão menor? Que diferença fiz, farei, nada mudaria se eu jamais tivesse nascido?

A ciência explica o mundo, mas quanto aos anseios de sentido de que padecemos, fornece mais dúvidas do que certezas. São poucos que agüentam a vida segurando-se no pouco que ela nos dá e encaram o sem sentido da existência. Já o pensamento mítico é um gerador de sentidos, ele capta o horror humano ao vazio e o preenche de qualquer maneira, com o que estiver mais à mão. Melhor um universo de conto de fadas, com entidades benignas ou malignas nos controlando que o nada. Nosso narcisismo não suporta que não haja transcendência, que sejamos um acaso na imensidão cósmica, um mero macaco melhorado.

O erro mais banal, mais primário, em que nosso pensamento cai, e como cai, é o de confundir-se com o objeto a ser examinado. Se alguém acredita que estamos no fim dos tempos, é possível que ele tenha razão, algum fim se aproxima, mas é mais provável que seja o fim dele, ou o fim de um mundo que reconhece como seu. Todos constatamos a velocidade com que a história anda e atropela tudo: costumes, formas de pensar, de viver. São tantas as novidades que perdemos as referências. A revolução da semana passada está velha, a tecnologia de ontem virou sucata.

A sensação é que o ritmo vem se acelerando. O fato é que nos sentimos ultrapassados a cada dia e, se não estamos em constante adaptação, corremos o risco de não entender o mundo em que vivemos. Nesse constante recriar-se para o novo, alguns se cansam e se perdem pelo caminho, ou ainda, simplesmente desistem. São esses os que vivem o fim do seu mundo, afinal, os valores que lhe ensinaram na infância já não servem, a paisagem não é a mesma, os anseios são outros. Não fica claro que o mundo está acabando? Quando chega a notícia do fim dos tempos, apenas confirma algo que já sentimos.

Sinceramente não desgosto de ondas apocalípticas, me sinto mais humano, mais completo, reencontro minhas desativadas ramificações religiosas que por momentos entram em alerta. Uso para fazer um exercício, que sugiro a todos: perguntar-se qual parte nossa está morrendo? Qual dos horizontes em vias de desaparecimento vamos sentir falta?

O homem não tem uma inclinação nostálgica por vocação mórbida, nossa substância é fornecida pelo tempo em que vivermos, que nos fez ser o que nos tornamos, isso é tudo de que dispomos. É duro pensar que tantos seguirão sem nós, por um tempo indefinido. Parece injusto, jamais saberemos da história que está por vir. Pensar que seríamos o último capítulo nos deixaria no admirável papel de ponto final, protagonistas essenciais, o que infelizmente não somos. Uma velha e saudosa senhora que conheci sempre dizia: “o cemitério está lotado de insubstituíveis”. Somos todos datados. A questão é quando expira o prazo. Viveremos um apocalipse privado, esta é a única certeza.



un pueblo sin pernas, pero que camina


A todos nós do eixo Rio-São Paulo, que tão alheios permanecemos do que se passa no resto deste Brasil; a nós brasileiros, que tão alheios nos mantemos do resto da América Latina - como se não fôssemos daqui, como se não pertencêssemos - uma dica: este É o nosso mundo.

Vamos dibujando el camino. Aquí estamos de pie.

a bença!


"A bença, mãe! A bença, pai! A bença, vó!" E ia por aí a ladainha de saudação das crianças aos mais velhos no meu tempo de menino. Mesmo os adultos pediam a bênção aos pais, avós, padrinhos e madrinhas, que com sorridente alegria abençoavam os descendentes carnais e simbólicos. O pedido de bênção era o mais significativo ato litúrgico do que, então, apropriadamente, se chamava de laços de família. Já septuagenário, eu pedia a bênção à última pessoa de minha família a ter direito a esse tributo ritual: minha tia Sebastiana, quase centenária, quando a visitava no Pinhá, lá para os lados de Socorro. E isso fazia um bem enorme a ela e a mim. Dava-lhe, e dava-me, a certeza de que o abismo do tempo que nos separava - ela, quase do tempo da escravidão e do trabalho do eito, e eu, do tempo do computador - continuávamos unidos pelo mesmo afeto de quando eu era criança.

Para mim foi um susto quando, já bem adulto, pedi a bênção ao abençoado dom Antonio Fragoso, que mais de uma vez me acolheu em sua hospitaleira casa de Crateús, no Ceará, e ele, sorrindo, disse-me que eu já não precisava disso. "Que é isso, dom Fragoso? Se alguém precisa de bênção, sou eu!"

O costume da bênção parental se foi pelo ralo da secularização e da modernidade, nesta sociedade de seres tão cheios de certezas e de seguranças e tão inseguros em relação a tudo. As crianças já nascem na moldura educativa do super-homem. Num certo sentido, condenadas à privação da poesia que há nos prosaicos gestos rituais que em outros tempos diziam aos imaturos que estavam sob o abrigo do manto diáfano e invisível, mas eficaz, do acalanto de mãos protetoras estendidas sobre a cabeça.

A bênção entre nós é antiga e sagrada. Sua forma ritual varia segundo a região. No subúrbio, eu pedia a bênção a quem devia esse gesto de respeito, beijando-lhe a mão direita. Pedia "a bênção!", mas agarrava-lhe logo a mão, por sim ou por não, para assegurar-me a bênção carecida. Na roça, lá no Pinhalzinho, na Bragantina, meus primos pediam a bênção juntando as mãos em gesto de louvado em direção à pessoa que, esperavam, os abençoasse. "A bença!" rogavam. "Deus abençoe!" vinha a confirmação sacramental do parentesco que se renovava ao menos uma vez por dia. Ou duas! Pedia-se a bênção, também, na hora de dormir. No Arriá, havia quem, juntando as mãos, dissesse "São Cristo!" Tudo indica, fora o modo como os índios administrados, antecessores dos escravos negros, confirmavam cotidianamente a dimensão patriarcal de seu cativeiro.

Num povoado da Amazônia, em que estava fazendo pesquisa sobre violência fundiária, várias crianças vieram visitar-me no rancho em que armara minha rede para pedir-me "a bença", de mãos juntas. Da resposta, ficavam sabendo se eu era amigo ou inimigo, do bem ou do mal, de dentro ou de fora.

- José de Souza Martins, no Estadão, 17-12-12 (via)

18 de dez. de 2012

violência e paranoia



“Muito cedo para falar sobre uma nação louca por armas? Não, muito tarde. Pelo menos TRINTA E UM tiroteios em escolas desde Columbine”. Autor do documentário ‘Bowling for Columbine’ (Tiros em Columbine, no Brasil - assista aqui), o cineasta norte-americano Michael Moore recorreu a sua conta no Twitter para, a exemplo do que faz grande parte dos americanos, demandar que o presidente Barack Obama lidere o enfrentamento ao lobby republicano a favor das armas.

Moore alcançou fama internacional em 2002, quando seu filme sobre o massacre de Columbine, que vitimou 15 pessoas (incluindo os dois atiradores) em abril de 1999, ganhou o Oscar de melhor documentário. Desde então, o cineasta se tornou um dos maiores expoentes contra o lobby da indústria armamentista nos Estados Unidos. Para defender seu ponto nesta sexta-feira, Moore destacou que “nesta manhã, um maluco atacou 22 crianças numa escola primária na China. Mas tudo o que esse maluco tinha era uma faca. Número de mortes? Zero“.

(...) O fato de o massacre de 27 pessoas desta sexta-feira envolver 20 crianças com menos de 10 anos pode enfim contribuir para sensibilizar aqueles que ainda acreditam que a posse de uma arma é garantia de segurança. A impressão, aliás, é que se os EUA não derem um basta à questão agora, não o farão nunca mais. O problema da vez é que a oportunidade para evoluir no assunto surge bem na hora em que o presidente Obama tenta se entender com os republicanos para evitar o abismo fiscal. (Na íntegra aqui)

* * *

De Mauro Santayana, em seu blog (na íntegra aqui):

"Uma sociedade que envia seus jovens ao mundo inteiro para matar, em nome dos negócios, não pode espantar-se com os massacres de seus adolescentes e suas crianças (...). Muito da cultura norte-americana tem sido, desde a guerra deliberada contra os índios e o avanço para o Oeste, uma cultura da morte. Para formar exércitos de assassinos, é necessário adestrar  seus possíveis integrantes para matar sem vacilações. Para isso é preciso criar os mitos, como os do heroísmo, da coragem, da ousadia, da força física, da astúcia dos predadores,  contra os povos indefesos do mundo inteiro. É preciso reduzir o homem ao réptil que foi na origem dos tempos.

"(...) A ideia de matar é estimulada nos americanos desde a infância. Na adolescência, a arma de fogo, para muitos, é símbolo da masculinidade. E esse apego à violência e ao sangue tem sido exportado ao mundo inteiro pela sua fantástica indústria do entretenimento, na literatura, no cinema e, mais recentemente, nos jogos eletrônicos e nos enlatados da televisão. (...)

A intimidade com o sentimento da morte gera também o medo, o pânico, e a vontade paranoica do suicídio."

...com o que o próprio Michael Moore (na íntegra aqui) não deixa de concordar, também associando a agressividade ao medo paranoico:

"Os estadunidenses somos incrivelmente bons para matar. Acreditamos em matar como forma de conseguir nossos objetivos. (...) Nossa tendência a matar não é somente histórica (o assassinato de índios, de escravos e de uns e outros na guerra 'civil'): é nossa forma atual de resolver qualquer coisa que nos inspira medo. É a invasão como política externa. (...) Somos um povo que se assusta com facilidade e é fácil de ser manipulado pelo medo. De que temos tanto medo, que necessitamos ter 300 milhões de armas de fogo em nossas casas? Quem vai nos ferir? Por que a maior parte dessas armas se encontra nas casas de brancos, nos subúrbios ou no campo? Talvez, se resolvêssemos nosso problema racial e nosso problema de pobreza (uma vez mais, somos o número um com maior número de pobres no mundo industrializado), houvesse menos pessoas frustradas, atemorizadas e encolerizadas estendendo a mão para pegar a arma que guardam na gaveta."

* * *

"Os Estados Unidos da América são um país excepcional com relação ao mundo inteiro quanto à intensidade do sentimento religioso e quanto ao fascínio pela violência e pela morte: as duas coisas estão ligadas. (...) Aquelas crianças mortas, as lágrimas dos seus pais e de todos os pais dos EUA são os sacrifícios humanos que a América deixa se impor pela religião do fuzil. Até agora, as Igrejas norte-americanas foram tímidas sobre a questão das armas, muito mais tímidas do que sobre outras questões pro-life: é hora de que o controle das armas comece a fazer parte da 'cultura da vida' na América religiosa. Até então, a religião das armas continuará ceifando vítimas."

- Massimo Faggioli, historiador italiano, aqui

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"Se Obama quer mudar uma mentalidade como essa poderia começar por proibir o uso dos drones, aviões não tripulados, para praticar crimes em terras remotas que fazem as vezes de novo Velho Oeste.

"Sejamos claros: esse tipo de ataques corresponde a execuções extra-judiciais e, portanto, viola uma das vacas sagradas da democracia norte-americana qual seja o devido processo legal.

"Admito que é uma tarefa insana combater terroristas fanáticos, mas rasgar para isso códigos civilizados de conduta é armar o braço de mentes igualmente insanas para que matem crianças tão lindas e tão queridas, como são todas as crianças aos olhos dos pais." 

(Clovis Rossi, em sua coluna de hoje na Folha de S. Paulo, na íntegra aqui)

Enquanto isso, ONGs de donos de armas já estão defendendo a liberação do uso de armas nas escolas americanas, sob a alegação de que, "armados, os presentes no interior da escola poderiam ter resistido ao chacinador" (em português aqui).

medo do fim


Maias explicam confusão no calendário

Líderes maias da América Latina foram a Los Angeles explicar a "confusão" na próxima mudança de ciclo no calendário pré-colombiano (...). "De acordo com o calendário maia, este ano será marcado por uma mudança de ciclo que foi iniciada há 5.125 anos, o chamado baktunes", disse à agência Efe Marte Trejo, historiador e astrônomo mexicano. "(...) O que acontecerá é simplesmente uma mudança de ciclo, que terminará em dezembro para começar um novo período ou novo baktun", afirmou.

(...) "A visão de mundo maia é a união entre a natureza e Deus, é a união entre os corpos celestes com a mãe terra", completou o sacerdote. O calendário maia é uma pedra de cálculo circular, disseminada na região da Mesoamérica, que, segundo o anuário gregoriano do sistema ocidental atual, foi iniciado no dia 13 de agosto de 3.114 a.C.

"O sistema de contagem de tempo dos maias não era linear, mas era circular e, por isso, o calendário também é circular, já que os ciclos começam em um ponto e terminam em si mesmos. Assim, nasce um novo período", indicou Trejo, que colabora com a Secretaria de Turismo do México para falar sobre o Mundo Maia.

Leia na íntegra aqui.

* * *



Da coluna de Marcelo Gleiser na Folha de S. Paulo, 16-12-12:

(...) Leitores, podem se acalmar. Garanto que sexta-feira, dia 21, será apenas mais um solstício de verão, o dia mais longo do ano. No sábado de manhã, você estará tomando seu café tranquilamente, com um sorriso nos lábios, convencido de que essa história de profecia de fim de mundo é mesmo uma bobagem. Tudo será devidamente esquecido e a vida continuará como antes. Pelo menos, até a próxima profecia. (...)

[E mais: Ameaças de suicídio levam Nasa a desmentir ‘fim do mundo em 2012′]

Nenhum tablete de barro ou papiro misterioso prevê o fim do mundo. Ao contrário, os pouquíssimos documentos que sobreviveram à dilapidação tropical e ao fanatismo dos padres espanhóis, que queimaram tudo o que encontraram, não oferecem qualquer indicação de fim de mundo.

O mesmo ocorre com a ciência. Várias causas foram oferecidas para provocar o fim: a reversão dos polos magnéticos da Terra, a colisão com um asteroide, instabilidade solar, o planeta Nibiru, alinhamento galáctico etc. A Nasa preparou respostas para todas essas "ameaças" em seu portal e em um vídeo [acima]. A história do planeta Nibiru, por exemplo, foi inventada pela médium americana Nancy Lieder, que diz ter um implante na cabeça que permite a ela se comunicar com alienígenas do sistema planetário Zeta Reticuli, a 39 anos-luz de distância.

(...) Entre outras coisas, o medo do fim do mundo reflete nosso medo de perder o controle da vida, do nosso destino. Reflete o medo ancestral, encravado em nossa memória coletiva e reconfirmado todos os anos em dezenas de desastres cataclísmicos, de que a natureza é muito mais poderosa do que nós e tem o poder de nos aniquilar a qualquer instante.

Se nos séculos passados o fim do mundo refletia a ira divina ou a chegada da ressurreição, hoje, com os avanços da ciência, as causas são fenômenos cósmicos devastadores. Mas, como explico em meu livro "O Fim da Terra e do Céu", a simbologia é sempre a mesma: o fim vindo dos céus, sem que possamos nos defender, vítimas de nossos pecados ou de nossa fragilidade.

Mas não precisa ser assim. Temos um poder enorme para nos defender de medos ancestrais e infundados: a razão. Nossa compreensão da natureza não nos traz apenas celulares e DVDs mas também a certeza de que o conhecimento é a melhor forma de liberdade.

* * *
Não sei, não, Gleiser. Esse endeusamento da razão me preocupa um pouco, ou muito. Será mesmo que a mera razão, apenas o pensamento basta como ferramenta para nos assegurar e reconfortar diante do universo? Contrariando Goya, a razão, isolada, parece ter criado mais monstros do que respostas. Talvez, justamente diante da limitação inerente à nossa possibilidade de conhecer, tenhamos outros recursos importantes que não podemos renegar. O senso de fascinação e reverência diante daquilo que não conhecemos nem entendemos - e, como já disse um sábio, quanto mais a gente sabe, mais a gente sabe o quanto não sabe - talvez seja fundamental para não nos deixar mergulhar nas trevas e no medo. Talvez o medo seja fruto, em parte, justamente da perda do nosso senso de sagrado... Há que resgatá-lo.

15 de dez. de 2012

um mundo sem estantes


Um amigo entra na minha casa nova, vê as estantes ainda vazias e começa o bombardeio: "Para que espaço para tanto livro? Livro está acabando".

Ele não quer saber da vista, de nenhum detalhe da obra, da arquitetura ou da decoração (não que eu tivesse algo a dizer sobre essas coisas, mas, enfim, era uma casa nova). O incômodo com as estantes é maior que tudo isso.

Para me safar do cerco, banco o moderno. "Claro que eu sei, os livros eletrônicos são o futuro. Mas isso aqui é para armazenar o que eu já tenho, entende? Até hoje guardo livros na casa dos meus pais, para você ter uma ideia."

Cascata, tática diversionista. Eu sabia que, se já estava sob tiroteio pesado, tudo iria piorar quando meu amigo visse a outra face do móvel. Ali, eu dava os primeiros passos para eliminar a bagunça dos meus CDs. E "in style", à moda gringa, ordenando por sobrenome.

Um serviço que, digamos, me dava certo orgulho. Mas o sentimento só dura até o próximo balaço: "E esse monte de lugar para CDs? CD não vai existir mais".

Em busca de trégua, sugiro sairmos para jantar. Encontramos a mulher dele. Como na faixa de Gaza, o cessar-fogo tem curta duração. "O Álvaro está maluco, botou um monte de estantes na casa nova, parece que não sabe que livros e CDs estão condenados."

Isso faz alguns anos. Nem preciso dizer que, tanto para livros quanto CDs, o espaço naquelas estantes, que pareciam obsoletas, está no fim. E o mais irônico: meu amigo, profeta do apocalipse do plástico e do papel, nunca chegou a comprar um leitor eletrônico de livros. Não tem Kindle nem iPad. Continua encomendando seus volumes de papel.

Já eu, dono do móvel ultrapassado, adotei o livro digital. O encanto inicial foi grande, até escrevi sobre isso. Caminho sem volta para um mundo sem estantes? Talvez não.

Há poucos meses, o ator Bruce Willis revelou que planeja algum tipo de ação legal contra a Apple. O objetivo é garantir que sua vasta coleção de música, em grande parte baixada na loja virtual de Steve Jobs, faça parte da herança que ele deixará às filhas.

Nas entrelinhas da burocracia, Willis descobriu que as músicas não são exatamente dele, nem de ninguém que as compra. São, de certo modo, alugadas. Se ele morrer, voltam para a Apple. Não quer deixar, para as três jovens, um legado de silêncio.

O pesadelo que Willis tenta evitar, uma mulher norueguesa já enfrentou. Identificada apenas como Linn, um dia ligou seu Kindle, o leitor eletrônico da Amazon. Ao conectar o aparelho à web, o golpe: todos os livros que já tinha comprado foram apagados em um segundo.

Seguiu-se um pesadelo kafkiano. Ao contatar a Amazon, foi informada de que havia problemas de fraude em uma outra conta, também associada a ela. Como punição, todas as contas estavam sendo canceladas. Adeus, livros digitais.

Só um problema: ela não tinha nenhuma outra conta. Era claramente um engano. Mas a Amazon se recusava a dar detalhes. Linn não tinha como se defender.

Alguns escritores souberam do caso, e passaram a divulgá-lo. Só a partir daí a situação foi aparentemente resolvida. Os livros eletrônicos foram restituídos a Linn, independente do status da conta.

O futuro desse universo cada vez mais digital é cheio de riscos. Imagine: colapso na nuvem. "Crashes" de servidores, fibras ópticas rompidas, blecautes em série nos principais polos hi-tech da Terra.

Nos primórdios da web, uma situação assim teria uma consequência grave: internet fora do ar. Grave, porém única. Músicas, filmes e demais arquivos baixados pela rede estariam a salvo, guardados nos computadores das casas das pessoas.

Mas, hoje, tudo mudou. Um crash gigantesco seria muito mais devastador. Porque cada vez menos gente armazena em casa seus arquivos digitais. Está tudo em servidores poderosos, espalhados pelo mundo. Nessa nuvem, digital e amorfa.

Não é fora de propósito imaginar um cenário de perda de contato com ela. Sem livros físicos, sem CDs, os arquivos digitais perdidos na nuvem isolada. A distopia digital extrema. O mundo das ideias salvo pelas estantes.

- Álvaro Pereira Jr., para a Folha de S. Paulo, 08-12-12 (via)

Em tempo:  o que você fez com as enciclopédias que tinha em casa?

silent night


Mais um. O que dizerSleep in heavenly peace.

8 de dez. de 2012

rede, socialidade e os 'hikikomori'



No dia 29 de novembro, o L'Osservatore Romano publicou um artigo de Christian Martini Grimaldi intitulado "Entre realidade e preconceito" (leia aqui), dedicado às relações humanas dentro e fora da rede. (...)

O artigo começa a partir de uma frase minha que, na realidade (não se diz isso no artigo), parte de um artigo meu publicado no jornal Avvenire. Nessa frase, eu digo que, enquanto se mantiver o dualismo entre a vida offline e a vida online – considerando banalmente a primeira como a vida "verdadeira" e a segunda como a vida irremediavelmente "falsa" –, se multiplicarão as alienações. Enquanto se disser que, para viver relações reais é preciso fechar as relações em rede, se confirmará a esquizofrenia de uma geração que vive o ambiente digital como um ambiente que vive de banalidades efêmeras.

A mensagem que eu tentava comunicar é que a vida é uma só, seja ela vivida no ambiente físico, seja ela vivida no ambiente digital. A rede não é uma realidade paralela, mas é chamada a ser um espaço antropológico interconectado radicalmente com os outros espaços da nossa vida.

O que faz o autor do artigo do L'Osservatore Romano? Ele escreve que não, a rede, ao invés, é somente uma "bolha isenta de realismo físico", que em rede, portanto, acabamos ou acabaremos todos sendo "hikikomori", ou seja, aqueles japoneses que vivem isolados do resto do mundo, como demonstrado por uma série de fatos e síndromes que Grimaldi anota, concluindo que, no fim, substancialmente, é tudo culpa da rede.

Mas como ainda é possível raciocinar desse modo, eu me pergunto? O que faz o autor do artigo? Parte da patologia e chega acriticamente às suas conclusões. Em suma, é como se eu falasse dos criminosos (da vida" real ") e, então, deduzisse que o mundo é um lugar mau, onde todos os homens acabam sendo pessoas depravadas. O autor do artigo esquece toda a solidariedade que se expressa em rede, a open source, a troca virtuosa, a capacidade de compartilhamento positivo... Para ele, tudo isso não existe: todos acabaremos sendo hikikomori.

(...)

Eu acredito que não se deve atribuir à rede o que, ao invés, depende dos nossos limites relacionais e humanos, e que transferimos para a web exatamente como nos outros ambientes que frequentamos offline. Atribuir à web as culpas que são nossas é uma forma de desresponsabilização, de inaceitável posição de determinismo tecnológico. Essa exteriorização do negativo me parece sem sentido.

A web não nos "determina", ao contrário, e pode ser "habitada". Obviamente, porém, o habitar não pode prescindir da sabedoria de uma adaptação (nem sempre fácil) ao ambiente em que, pouco a pouco, se inscrevem os próprios valores. É uma espécie de domesticação do espaço. (...)

(...)

O artigo do L'Osservatore Romano, dizendo que todos acabaremos sendo "hikikomori", parece inverter em 180 graus essa perspectiva. (...) As redes sociais como "porta" e "espaço", isto é, um espaço de experiência. O seu convite, portanto, é de ampliar os nossos horizontes, ouvir os desejos profundos que o ser humano hoje já expressa muito bem também na rede, lugar onde se faz experiência do real. Estamos a anos-luz de distância de posições acríticas de dualismo digital como as expressas pelo artigo em questão.

(...) É dessa sabedoria que se precisa, não de pessimismo capaz apenas de criar mais esquizofrenias. É uma tarefa que requer responsabilidade. Aquela responsabilidade que não pode ser obscurecida por, a meu ver, posições inaceitáveis de determinismo tecnológico, como as expressas por Grimaldi.

E, além disso, para que servem artigos desse tipo? Para fazer uma laudatio temporis acti, um elogio dos belos tempos que já se foram? (...)

- Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica, ex-professor da Universidade Gregoriana. Artigo publicado originalmente no blog Cyberteologia, 02-12-2012, e traduzido por Moisés Sbardelotto para o IHU (aqui).


7 de dez. de 2012

os velhos nada têm a dizer


Quando o envelhecimento e a morte deixam de ser simbolicamente incorporados na cultura por meio de religiões e filosofias, o discurso midiático parece insistentemente querer demonstrar que a velhice não existe, que é tudo uma questão de atitude psicológica. Gerontologia, geriatria, engenharia genética e todo um aparato tecno-científico é atualmente mobilizado para, associado à mídia, apresentar sensacionais “lições de vida” e “superações”: idosos em praticas e comportamentos análogos ao dos jovens criando não apenas uma aversão aos processos naturais de envelhecimento mas, principalmente, a crise da função dos idosos como “elo geracional”: a transmissão de sabedoria e conhecimento acumulados em uma existência.

Já se tornou um lugar comum nas “notícias diversas” (amenidades que em geral encerram os últimos blocos de telejornais) as chamadas “lições de vida” que idosos nos ensinariam: um senhor de 70 anos que pratica maratonas; uma senhora que aos 75 anos retoma a sala de aula para concluir o ensino médio pensando na universidade e nova carreira profissional; outro senhor de 65 anos diz orgulhar-se por aventurar-se no “mundo das atividades físicas”: “faço atividades físicas com força na academia para fortalecer a musculatura e garantir que tão cedo eu não vou ter que ‘pendurar as chuteiras’”, brinca.

Assim como aquela polêmica campanha publicitária de um banco que afirmava que “nem parece banco”, a visão midiática da terceira idade parece ser essa: “nem parece velho”. O discurso midiático parece insistentemente querer demonstrar que a velhice não existe, que é uma questão de atitude psicológica. Em nome de lições sobre “qualidade de vida” vemos imagens de idosos parecidos com jovens ou querendo provar que são fisicamente capazes, tanto quanto eles.

Por isso, a ciência vai mobilizar uma serie de saberes especializados (geriatria, gerontologia, engenharia genética, tanatologia, criônica etc.) para travar uma verdadeira luta para aliviar ou abolir os estragos do tempo.

Em culturas tradicionais onde a velhice e a morte eram simbolicamente incorporados no dia-a-dia, os idosos sempre foram “elos geracionais” como transmissores de um saber acumulado, conhecimento e sabedoria. Colocados em posição de destaque na sociedade, o natural declínio físico era compensado pela sabedoria, amor e trabalho unidos em uma preocupação com a posteridade na tentativa de equipar os mais jovens para levar adiante as tarefas dos mais velhos.

Hoje toda a indústria da informação e entretenimento faz o caminho inverso: não apenas a velhice é negada por “lições de vida” e todo um aparato terapêutico renovado a cada dia pela indústria farmacêutica como a própria função de “elo geracional” é esquecida: eles nada têm a dizer para as câmeras, a não ser negar a si mesmos numa tentativa a todo custo de aparentar uma atitude positiva e ficar parecidos com os mais jovens.

Eles foram até elevados à categoria etnográfica no mercado: são agora os “Young Seniors”, ávidos por consumo de gadgets que os tornem jovens. O que há por trás dessa aversão não só dos processos de envelhecimento como, principalmente, do esquecimento da função de elo geracional dos mais velhos?

Desde que a General Motors inventou a obsolescência planejada na década de 1920, o “velho” passou a ser um entrave para a reposição acelerada de produtos no mercado e a maximização dos lucros. Toda a indústria da moda e publicidade vai ao longo das décadas posteriores glamorizar o “novo” e a “novidade” como moralmente bons, prazerosos e estimulantes. O ápice dessa verdadeira engenharia de opinião pública foi a construção da cultura pop e jovem nas décadas de 1950-60. “Não confie em ninguém com mais de 30”, dizia o desafiante lema jovem da contracultura: os “mais velhos” (pais e autoridades) passaram a ser encarados como “quadrados”, ultrapassados e intrinsecamente conservadores.

Se isso foi positivo em um momento histórico como revolução e crítica, por outro lado seus líderes não perceberam a ambiguidade dessa nova cultura: seria a base imaginária (ao lado do crédito) de toda a descartabilidade e hedonismo necessários para a aceleração da sociedade de consumo.

(...) O sofrimento central da velhice (o fato de que vivemos vicariamente em nossos filhos ou em gerações futuras) perde suas formas sublimatórias religiosas ou filosóficas como o amor, a sabedoria e o conhecimento, formas que nos faziam se reconciliar com a nossa própria substituição.

(...) Na atualidade experiência e sabedoria são menos ensinamentos a ser passados para uma geração futura do que uma histérica lição de vida performática: a de ser um velho de “cabeça jovem em um corpo são”, cujo único conselho é o de fazer “young seniors” transformarem-se em ávidos consumidores de mercadorias terapêuticas que ajudem a negar a si mesmos como testemunhas vivas do tempo e de uma sabedoria que se perdeu.

- Wilson Roberto Vieira Ferreira

Leia na íntegra aqui

23 de set. de 2012

dick tracy, as distopias e a crise


Se todas as previsões feitas no passado sobre como seria a vida hoje dessem certo, cada um de nós teria um helicóptero – ou coisa parecida – na garagem, e para viagens mais longas só usaríamos aviões supersônicos. (...) Em compensação, o futuro previsto no passado não incluía uma palavra, uma pista, uma sugestão que fosse da grande revolução que viria e ninguém sabia, a da informática. Quer dizer, o futuro imaginado no passado já era um futuro obsoleto. O único tênue presságio do que viria era o rádio de pulso do Dick Tracy, lembra? O próprio Tracy não sonhava que um dia ele teria no seu pulso, para combater o crime, um dispositivo que receberia e emitiria imagens e mensagens, calcularia, fotografaria e diria como estava o tempo em qualquer lugar do mundo.

- Luis Fernando Veríssimo, aqui

* * *

Há uma semana, achei por bem fazer um teste e perguntar à minha filha de 12 anos como ela imaginaria o mundo no ano de 2030.

A ideia era procurar descobrir alguém que vê o futuro como um campo completamente virgem. Talvez uma oportunidade para ouvir a voz de sujeitos para quem 2030 seria seu espaço de direito. Espaço que, a princípio, poderiam moldar a partir da soberania de sua vontade.

Mas, aos poucos, sua descrição foi assemelhando-se a uma distopia de cidades à beira de um colapso, pessoas obesas por não fazerem exercícios e celulares de hologramas.

A primeira reação foi acreditar que tinha forçado um pouco a mão na ideia de uma educação baseada no desenvolvimento do senso crítico. Não deixa de ser surpreendente ouvir alguém tão novo e tão crítico a respeito das possibilidades de transformação do futuro.

Mas talvez tal fenômeno deva ser compreendido de outra forma. Ver o futuro como uma distopia é a expressão mais simples de desconforto com o presente. Há algo no presente que parece se esgotar rapidamente. Como ainda não temos a imagem do novo, a figura do futuro problemático aparece como sinal de respeito pelo que ainda não é possível.

Muitas vezes, a verdadeira esperança não está na crença radiante em um mundo reconciliado. Essa crença, quando aparece muito cedo, acaba por matar toda reconciliação possível. Por isso, a verdadeira esperança sempre é precedida por uma profunda recusa. Dessa recusa vem a abertura para realizar o que ainda não sabemos como fazer. (...)

Por caminhos os mais insuspeitos, a vida sempre consegue resolver os problemas que ela coloca para si. Às vezes, ela tenciona as expectativas ao máximo, pois sabe que só isso coloca a criatividade em movimento. Por tudo isso, creio que, mais uma vez, minha filha tem razão no que diz.

- Vladimir Safatle, na íntegra aqui

* * *

Normalmente pensamos em "crise" como algo instável, um processo de transição entre uma situação que não mais se sustenta e uma nova, em que as contradições se resolvem e a estabilidade se restabelece.

Mas será que a crise não se tornou a nossa normalidade? Podemos imaginar a crise não como processo, mas sim como estado, um processo que se autoalimenta e assim se sustenta?

Gostaria de defender essa tese sobre a crise que estamos vivendo. A crise que enfrentamos, em sua essência, não é uma anormalidade que devemos procurar superar. Na verdade, ela define os tempos que vivemos. Isso não implica, necessariamente, que estejamos condenados a um mal-estar permanente. Na etimologia original da palavra na língua grega, "krisis" também significava decisão e poder de escolha. Vou defender a ideia de que isso ocorre na situação atual.

- Tony Volpon, na íntegra aqui

8 de set. de 2012

é ruim. e se for?

Mais de 80 filmes, documentários e shows 
para assistir gratuitamente agora mesmo, aqui. Via e via (*)

O cinema brasileiro já produziu 27 filmes baseados na obra de Nelson Rodrigues, 21, na de Jorge Amado, e sete, na de Lucio Cardoso. Não se sabe onde estão muitos desses filmes nem em que formato ou em que condições. É provável que, de outros, já não exista o negativo ou uma cópia razoável em 35 mm. É parte da cultura brasileira se decompondo, abandonada.

Nelson, Jorge e Lucio estão comemorando centenário em 2012, e há anos que já se sabia disso. Um programa executado com antecedência pelo Ministério da Cultura teria feito com que tal acervo chegasse reunido e restaurado ao ano desses centenários e permitisse a instituições culturais a realização de mostras, festivais ou retrospectivas. Imagine os ganhos, até políticos. Mas ninguém se mexeu -se é que se teve a ideia.

Nesta quarta-feira, em mesa promovida pelo Sesi-SP no ciclo "Nelson Rodrigues 100 Anos", o cineasta Neville d'Almeida estendeu a situação a todo o patrimônio cinematográfico brasileiro. Seu próprio filme "A Dama do Lotação", de 1978, baseado num conto de Nelson e que arrastou 6,8 milhões de espectadores apenas na estreia, até hoje não está disponível em DVD. E olhe que, por quase 30 anos, foi a segunda maior bilheteria do país.

Dir-se-á que boa parte da filmografia nacional é "ruim". E se for? As chanchadas da Atlântida, em seu tempo, também eram consideradas o fim. Hoje atraem estudiosos que as veem como um tesouro de números musicais e com valor de documentário, por terem sido, quase todas, filmadas nas ruas. Ainda vale o paradigma de Henri Langlois, fundador da Cinemateca Francesa, às vésperas da ocupação de Paris pelos alemães, em 1940. Ele decretou que não havia filmes "ruins" -todos mereciam ser protegidos.

Dir-se-á também que restaurar filmes é um processo caro, e que não há dinheiro para isso. Há, sim.

(Ruy Castro, via)

- Se ele te vir aqui...
- Vai ser um espeto!

(*) "Uma lista de shows, discos, documentário e filmes [nacionais e] internacionais. (...) Trabalho de curadoria animal feito por um grupo – ou cara – chamado Depredando o Orelhão, que também tem uma fanpage no Facebook, com listas e mais listas (...)." De novo: aqui.

7 de set. de 2012

a unanimidade

(Via)

(...) É isso que Nelson Rodrigues é ou se tornou: uma unanimidade. Ele que a vida inteira viveu provocando polêmica, atacando e sendo atacado, virando a mesa das ideias convencionais, fossem elas de direita ou de esquerda, populares ou impopulares, acabou empalhado numa das suas boutades mais ferinas. Hoje qualquer idiota, qualquer desses imbecis que babam na gravata (...) escreve sobre ele apenas para irrestritamente louvá-lo. Flor narcisista hostil à indiferença ou ao coro unânime dos idiotas, Nelson certamente ficaria perplexo ao constatar que a posteridade diluiu ou apagou todos os traços complexos da sua personalidade provocativa.

Onde divisar o reacionário impenitente e autoirônico nessa figura anódina da unanimidade? Suas frases mais ousadas e desconcertantes, não importando no caso o que contivessem de verdade ou erro, dissolveram-se em lugares comuns inofensivos.

(...) A unanimidade que cerca a obra de Nelson Rodrigues, e isso não é de hoje, representa, entre outras coisas negativas, a nossa inconsciência social e ideológica, a leviandade com que vivemos e esquecemos, a inconsistência de nossas supostas convicções que hoje converte em vaca sagrada o inimigo ontem demonizado, que hoje canta loas ao gênio que era ontem um autor pornográfico e um reacionário desprezível.

(...) Fazendo justiça à história documentada, também a Nelson, cuja glória prescinde de distorções do tipo das que acima assinalei, ponhamos os pontos em alguns is. Antes de tudo, o Nelson glorificado pela posteridade é o Nelson jornalista, o autor das crônicas e contos cujo estilo inconfundível e até repetitivo acima grosseiramente esbocei. Aludo ao Nelson politicamente incorreto, ao provocador dotado de raro talento para a frase de efeito. Investindo sua retórica afiada pelo paradoxo desabusado e o descaso diante de qualquer senso de propriedade e medida, Nelson desafiou todas as unanimidades, sobretudo as progressistas, ou assim consideradas no auge da sua militância de jornalista polêmico. Fulminava não apenas as esquerdas em geral, mas também o poder jovem e a liberação dos costumes que pipocaram nos turbulentos anos 1960.

(...) Assim como importa distinguir a obra e a biografia a propósito da passagem do centenário de Nelson Rodrigues, importa igualmente sublinhar o processo inverso, isto é, lembrar de passagem a glória momentânea de alguns autores revolucionários ou de esquerda cuja distinção literária foi fruto exclusivo de fatores biográficos, mais precisamente ideológicos. Aludo a escritores e artistas cuja importância estética esgotou-se tão logo foram superadas as circunstâncias históricas de que dependia o valor de suas obras. Não citarei nomes. O leitor esclarecido pode facilmente indicar vários dentre os que tenho em mente. O fato é que, tão logo se esvaziaram como símbolos de arte politicamente revolucionária, de resistência à ditadura e outros fatores de duração contingente e extrínsecos à qualidade autonomamente estética da obra, todos mergulharam no poço da obscuridade merecida.

Não é evidentemente o caso de Nelson Rodrigues. Por isso embirro com esse clima de unanimidade diluidor da própria força e complexidade da sua obra. O Nelson reacionário, cabotino e tudo mais que de negativo se possa lembrar acerca do homem, este passou, ou algum dia passará. O que fica é a obra, volto a chover no molhado. O que importa reter e justamente louvar é o cronista e o contista excepcionais e acima de tudo o dramaturgo. Sei que não há como rigorosamente dissociar uma coisa da outra, a biografia da obra, já que a personalidade poderosa e marcante do autor projetou-se indelevelmente na obra. O que não engulo é essa unanimidade póstuma onde os inconscientes e idiotas o aprisionam. Por isso concluo repetindo a frase que anula toda essa consagração ofensiva vomitada pelos idiotas sem opinião: “Toda unanimidade é burra”.

(Fernando da Mota Lima, aqui)

4 de set. de 2012

culto às celebridades


Brett Cohen teve a idéia de enganar milhares de pessoas na Times Square, levando-as a pensar que ele era alguma grande celebridade, num experimento social que comprova a força do culto às celebridades na cultura atual, mesmo sem qualquer credibilidade.

Ele se vestiu como uma típica celebridade e montou uma comitiva de dois guarda-costas profissionais, dois assistentes e fotógrafos, fingindo ser paparazzi, para acompanhá-lo. Enquanto os assistentes e fotógrafos esperavam sua saída do prédio que abriga os estúdios da NBC, começou um burburinho de que um grande "astro" estava para sair, fazendo assim com que valesse a pena esperar para tirar uma foto. Muitos perguntaram à equipe quem era Brett, sem que nenhuma resposta fosse dada. Não tiveram alternativa senão limitar-se a tirar uma foto com ele, na esperança de que seus amigos do Facebook ou seguidores no Twitter estivessem mais bem informados.

Quando a equipe chegou à Times Square, a multidão em torno de Brett só fez crescer. Muito pouca gente ainda perguntava quem ele era, de onde era, ou o que fazia. Brett tirou fotos com cerca de 300 pessoas. Mesmo sem saber responder de onde o conheciam ou qual seu filme favorito com ele, a maior parte do público mostrou-se animadíssima com sua presença na Times Square.

(Vídeo em inglês.)

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