30 de jan. de 2013

o cuidado de si mesmo, segundo foucault

"Rede de intrigas", Sidney Lumet

Poucos meses antes da morte de Michel Foucault, em 1984, publicou-se pela primeira vez esta entrevista, na qual – em diálogo com o filósofo cubano Raúl Fornet-Beancourt [com Helmut Becker e Alfredo Gómez-Muller] – explicou e esclareceu erros sobre conceitos centrais de sua pesquisa: a noção de “cuidado de si mesmo”, os “jogos de verdade”, as “práticas de liberdade”, a diferença entre poder e dominação, e outros mais. Os fragmentos da entrevista com Foucault, realizada em 20 de janeiro de 1984 (Revista Concordia, 1984), são publicados no jornal Página/12, 24-01-2013.* A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista, reproduzida aqui via IHU.

Produziu-se um salto entre sua problematização anterior e a atual, a partir do conceito de “cuidado de si mesmo”?

Eu havia enfocado o problema das relações existentes entre o sujeito e os jogos de verdade a partir de práticas coercitivas, tais como a psiquiatria e o sistema penitenciário, ou sob a forma de jogos teóricos ou científicos, tais como a análise das riquezas, da linguagem ou do ser vivente. Em meus cursos, no Collège de France, tentei captar este problema por meio do que poderia se denominar uma prática de si mesmo, que em meu parecer é um fenômeno importante em nossas sociedades, desde a época greco-romana, apesar de não ter sido estudado. Estas práticas de si mesmo tiveram na civilização grega e romana uma importância e, sobretudo, uma autonomia muito maiores do que tiveram posteriormente, quando se viram assumidas, em parte, por instituições religiosas, pedagógicas, de tipo médico e psiquiátrico.

Trata-se de um trabalho de alguém sobre si mesmo, que pode ser compreendido como uma determinada liberação, como um processo de libertação.

No que se refere a isto, teríamos que ser um pouco mais prudentes. Sempre desconfiei um pouco do tema geral da libertação, na medida em que, caso não o tratemos com algumas precauções e no interior de determinados limites, corre-se o risco de recorrer à ideia de que existe uma natureza ou um fundo humano que tem sido mascarado, alienado ou aprisionado em e por mecanismos de repressão, como consequência de um determinado número de processos históricos, econômicos e sociais. Caso seja aceita esta hipótese, bastaria saltar estes bloqueios repressivos para que o homem se reconciliasse com ele próprio, para que se reencontrasse com sua natureza ou retomasse o contato com sua origem, restaurando uma relação plena e positiva com ele próprio.

Parece-me que este pensamento não pode ser admitido de qualquer jeito, sem ser previamente submetido ao exame. Com isto não quero dizer que a libertação, ou melhor, determinadas formas de libertação, não existam. Quando um povo colonizado tenta se libertar de seu colonizador, estamos diante de uma prática de libertação em sentido estrito. Porém, sabemos muito bem que, também neste caso concreto, esta prática de libertação não basta para definir as práticas de liberdade que serão a continuidade necessária para que este povo, esta sociedade e estes indivíduos possam definir formas válidas e aceitáveis de existência ou formas mais válidas e aceitáveis naquilo que se refere à sociedade política. Por isso, insisto mais nas práticas de liberdade do que nos processos de libertação que, é preciso dizer mais uma vez, possuem seu espaço, mas que não podem por eles mesmos, em minha opinião, definir todas as formas práticas de liberdade. Estamos diante de um problema do qual tenho me ocupado, justamente na relação com a sexualidade. Faz sentido dizer “libertemos nossa sexualidade”? O problema não consiste mais em tentar definir as práticas de liberdade, por meio das quais poderia se definir o que é o prazer sexual, as relações eróticas, amorosas e passionais com os outros? Este problema ético, da definição das práticas de liberdade, parece-me muito mais importante do que a afirmação, um tanto batida, de que é necessário libertar a sexualidade ou o desejo.

O exercício das práticas de liberdade não exige um grau de libertação?

Sim, é claro. Por isso, é preciso introduzir a noção de dominação. As análises que tento fazer se centram fundamentalmente nas relações de poder. E entendo por relações de poder algo diferente dos estados de dominação. As relações de poder possuem uma extensão extraordinariamente grande nas relações humanas. Isto não quer dizer que o poder político esteja em todas as partes, mas sim que nas relações humanas se imbrica todo um feixe de relações de poder que podem ser exercidas entre os indivíduos, no interior de uma família, numa relação pedagógica, no corpo político, etc. A análise das relações de poder constitui um campo extraordinariamente complexo. E esta análise se encontra, às vezes, com aquilo que podemos denominar fatos ou estados de dominação, em que as relações de poder ao invés de serem instáveis e permitir aos diferentes participantes uma estratégia que as modifiquem, encontram-se bloqueadas e fixadas.

Quando um indivíduo ou um grupo social consegue bloquear um campo de relações de poder, fazendo destas relações algo imóvel e fixo e impedindo a mínima reversibilidade de movimentos – mediante instrumentos que podem ser tanto econômicos como políticos ou militares -, nós nos encontramos diante do que podemos denominar um estado de dominação. É correto que numa situação deste tipo as práticas de liberdade não existem, ou existem apenas unilateralmente ou são recortadas e extraordinariamente limitadas. Estou de acordo com você que a libertação é, em certas ocasiões, a condição política ou histórica para que possam existir práticas de liberdade. Caso considerarmos, por exemplo, a sexualidade, é evidente que foi necessário uma série de libertações em relação ao poder do macho, que foi preciso se libertar de uma moral opressiva que diz respeito tanto à heterossexualidade como à homossexualidade. Contudo, esta libertação não permite que surja uma sexualidade plena e feliz, em que o sujeito teria alcançado, no final, uma relação completa e satisfatória. A libertação abre um campo para novas relações de poder, que é necessário controlar através das práticas de liberdade.

Em si mesma, a libertação não poderia ser um modo ou uma forma de prática da liberdade?

Sim, num determinado número de casos é assim. Existem casos em que a libertação e a luta pela libertação são indispensáveis para a prática da liberdade. No que se refere à sexualidade, por exemplo – e falo isto sem o desejo de polemizar, já que não gosto de polêmicas -, acredito que na maior parte dos casos são infecundas. Existe um esquema reichiano, derivado de certa maneira de ler Freud, que supõe que o problema é apenas de libertação. Para falar de uma forma bem esquemática: existiria o desejo, a pulsão, a proibição, a repressão, a interiorização, e o problema se resolveria fazendo saltar todas estas proibições, ou seja, liberando-se. Neste esquema – eu sou consciente de que faço caricaturas de posições mais interessantes e matizadas de numerosos autores – está totalmente ausente o problema ético da prática da liberdade. Como a liberdade pode ser praticada? No que se refere à sexualidade, é evidente que é apenas a partir da liberação do próprio desejo que alguém saberá conduzir-se eticamente nas relações de prazer com os outros.

Você disse que é necessário praticar a liberdade eticamente.

Sim, porque na realidade o que é a ética senão a prática da liberdade, a prática reflexiva da liberdade? A liberdade é a condição ontológica da ética; mas a ética é a forma reflexiva que adota a liberdade.

Aquilo que se executa no cuidado de si mesmo é a ética?

O cuidado de si mesmo foi, no mundo greco-romano, o modo mediante o qual a liberdade individual, ou até certo ponto a liberdade cívica, foi pensada como ética. Se você consultar toda uma série de textos, que vão desde os primeiros diálogos platônicos até os grandes textos do estoicismo tardio – Epiteto, Marco Aurélio, etc. –, poderá comprovar que este tema do cuidado de si mesmo realmente atravessou toda a reflexão moral. Ao contrário disto, é interessante ver como em nossas sociedades o cuidado de si mesmo se converteu, e é muito difícil saber exatamente desde quando, em algo muito suspeito. Ocupar-se de si mesmo foi, a partir de um determinado momento, quase espontaneamente denunciado como uma forma de egoísmo ou de interesse individual, em contradição com o interesse que é necessário prestar aos outros ou com o necessário sacrifício de si mesmo. Isto ocorreu durante o cristianismo, mas não me atreveria afirmar que se deva pura e simplesmente ao cristianismo. A questão é muito mais complexa, pois no cristianismo procurar a salvação é também uma maneira de cuidar de si mesmo. Porém a salvação se efetua no cristianismo por meio da renúncia de si mesmo. Produz-se assim um paradoxo do cuidado de si no cristianismo, mas este é outro problema.

Para voltar à questão que você colocava, acredito que entre os gregos e os romanos, sobretudo entre os gregos, para ser bem conduzido, para praticar a liberdade como era esperado, era necessário se ocupar de si, cuidar de si, isto, por sua vez, para se conhecer e para se formar, para se superar a si mesmo, para controlar os apetites que poderiam nos dominar. A liberdade individual era para os gregos algo muito importante. Não ser escravo (de outra cidade, dos que os rodeiam, dos que os governam, de suas próprias paixões) era um tema fundamental. A preocupação pela liberdade foi um problema essencial, permanente, durante os oito grandes séculos da cultura clássica. Existiu, então, toda uma ética que girou em torno do cuidado de si, o que proporciona para a ética clássica sua forma tão particular. Não pretendo afirmar com isto que a ética seja o cuidado de si, mas que, na Antiguidade, a ética, enquanto prática reflexiva da liberdade, girou em torno deste imperativo fundamental: “cuida de ti mesmo”.

Imperativo que implica a assimilação do logos, das verdades.

Sem dúvida, não se pode cuidar de si mesmo sem se conhecer. O cuidado de si é o conhecimento de si – num sentido socrático-platônico -, mas é também o conhecimento de certo número de regras de conduta ou de princípios que são, por sua vez, verdades e prescrições. Trata-se de operar de tal modo que estes princípios digam, em cada situação e de certo modo espontaneamente, como se deve se comportar. Encontramos aqui uma metáfora que não provem dos estóicos, mas de Plutarco, que diz: “É necessário que você tenha aprendido os princípios de uma forma tão constante que, quando seus desejos, seus apetites, seus medos se despertarem como cães que ladram, o Logos fale em você como a voz do amo, que com um só grito sabe calar os cães. É esta a ideia de um Logos que de certa maneira poderá funcionar sem que você tenha que fazer nada: você terá se convertido no Logos ou o Logos terá se convertido em você mesmo”.

Poderíamos voltar à questão das relações entre a liberdade e a ética. Quando você afirma que a ética é a parte reflexiva da liberdade, quer dizer que a liberdade pode cobrar a consciência de si mesma como prática ética? É em seu conjunto e sempre uma liberdade, para dizer assim, moralizada ou é necessário um trabalho sobre si mesmo para descobrir esta dimensão ética da liberdade?

Os gregos problematizavam sua liberdade, a liberdade do indivíduo, para convertê-la num problema ético. Porém, a ética no sentido em que os gregos podiam entendê-la, o ethos, era a maneira de ser e de conduzir-se. Era certo modo de ser do sujeito e uma determinada maneira de se comportar que se tornava perceptível aos demais. O ethos de alguém se expressava por m de sua forma de vestir, de seu aspecto, de sua forma de andar, por meio da calma com a qual enfrentava qualquer acontecimento, etc. Nisto consistia para eles a forma concreta da liberdade. É assim que problematizavam sua liberdade. Aquele que possui um ethos nobre, um ethos que pode ser admirado e citado como exemplo, é alguém que pratica a liberdade de uma determinada maneira. Não acredito que seja necessária uma conversão para que a liberdade seja pensada como ethos, mas que a liberdade é diretamente problematizada como ethos. Contudo, para que esta prática da liberdade adote a forma de um ethos que seja bom, belo, honorável, estimável, memorável, e que possa servir de exemplo, é necessário todo um trabalho sobre si mesmo.

(*) A versão completa pode ser consultada em “La ética del cuidado de uno mismo como práctica de la libertad”.

29 de jan. de 2013

a nova onda conservadora


‎"Como cristão, aprendi a conviver com quem tem ideias diferentes das minhas. Só não acredito em impor o que a gente pensa ou agredir quem vive de forma diversa. Ultimamente surgiu o evangélico radical. Fundamentalista, que branda princípios supostamente retirados da Bíblia. Embora a doutrina cristã possa ser resumida em 'Amai ao próximo como a ti mesmo'. Historicamente, o cristianismo implica abandono do 'olho por olho, dente por dente' do Antigo Testamento e propõe uma sociedade mais tolerante. Mas os novos fundamentalistas querem punir, proibir. Políticos não evangélicos – incluindo os que estão em cargos de poder – obedecem, para manter coalizões. O filme 'Os deuses malditos', de Luchino Visconti (1969), mostra a ascensão do nazismo por meio da manipulação de uma família. Mostra os pequenos e grandes fatos que conduziram a Alemanha naquela direção. Agora, sinto um cheiro ruim de autoritarismo no ar. Há um recuo com relação a conquistas que implicavam na convivência entre os diferentes – a base da democracia, afinal. Quando uma lei pela moral e pelos bons costumes é sancionada, a agressão foi à sociedade. A deputada Myrian Rios é a ponta de um iceberg. Eu me pergunto: o que leva uma pessoa a achar que tem o direito de dizer como outra deve pensar e viver?"

- Walcyr Carrasco, em sua coluna na Época (leia na íntegra aqui)

(Via Markos Oliveira)

* * *

Atualização em 01-02-13:

Oportuno e preciso o comentário de Fátima Oliveira, médica, membro do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução e do Conselho da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe (indicada ao Prêmio Nobel da paz 2005), no Jornal O Tempo:

"É lamentável que uma Assembleia Legislativa e um governador não tenham percebido quão desrespeitosa é para uma democracia uma camisa de força de moralidade que se pretende única para todo o povo. Dá dó que tantas autoridades exibam analfabetismo filosófico: a incapacidade de distinguir moral de ética.

Ora, as moralidades são muitas, pois são os costumes, os valores relativos à pessoa ou a determinado agrupamento social, com unidade ideológica, étnica, racial ou sexual. Assim é que há até moral bandida. A ética nomeia os costumes ou os comportamentos relativos ao conjunto da sociedade, dos povos, que são mundos inerentemente pluralistas. Por espelhar a unidade a que chegaram as diferentes morais, a ética é em si uma codificação da unidade possível das diferentes forças políticas da sociedade."

Leia na íntegra aqui.

29 de janeiro: dia nacional da visibilidade trans


"Existem mulheres trans e homens trans. São pessoas que não se identificam intimamente com as categorias nas quais foram encaixadas ao nascer. E também existem pessoas que não se sentem dentro de uma dicotomia masculino-feminino.

Não é uma 'moda'. Não é uma coisa 'que está aumentando'. Sempre houve pessoas assim, mas somente há pouco tempo nesta cultura começaram a ser tratadas como gente, em vez de como piadas ambulantes. Já teve a oportunidade de conversar com uma pessoa trans, ou só as conhece de piadas de mau gosto, ou de notícias de prostituição ou assassinato?

São pessoas atacadas de todos os lados: frequentemente pela família, pelo trabalho, pela escola, pelo hospital, pela mídia. Têm seu direito à autoidentificação e à sua individualidade identitária sumariamente negado, e têm que lutar contra um mundo inteiro para serem quem são.

Pouca gente pode alegar nunca ter tido preconceito contra trans, por isso é de extrema importância pensar no assunto, dar voz a essas pessoas, celebrar sua existência como parte da variedade humana."

(Da LiHS, em seu perfil no Facebook)

* * *

"Pessoas trans pode se identificar, inclusive, como homem e mulher, ao mesmo tempo ou alternadamente. 
O corpo não é limite para a humanidade. Você não precisa gostar, mas tem que respeitar".

Fiquei perplexa com a forma tendenciosa como a entrevista com Lea T no Fantástico do último domingo (assista aqui) foi conduzida pela jornalista Renata Beribelli. Com tantos preconceitos e desconhecimento em torno da questão da transexualidade, a opção foi por enfatizar o "arrependimento" (palavra da jornalista, não da entrevistada) de Lea por ter feito a cirurgia de redesignação sexual (e não "troca de sexo", cara jornalista desinformada). Nenhum indício de intenção de esclarecimento, nenhuma sombra de postura crítica, nenhuma menção a aspectos tão importantes e delicados tocados pela transexualidade, como o questionamento dos papeis e das fronteiras entre os gêneros e, sobretudo, o respeito à diferença, à convivência com o Outro, à aceitação do Próximo que, tantas vezes, nos é incompreensível.

Não que eu esperasse da Globo nada melhor que isso, mas, ainda assim, o close na cara escandalizada da Ceribelli (note-se: close na jornalista, não na entrevistada) na hora em que Lea fala do seu desejo de ser mãe representou, para mim, o retrato do jornalismo irresponsável e aético praticado na mídia "oficial" do Brasil hoje - fato muito bem comentado por meu amigo Murilo Araújo (leia na íntegra aqui):

"Certa ocasião, durante uma mesa de debates sobre transexualidade que eu assistia, ao final das palestras, um amigo meu foi todo feliz e curioso perguntar aos membros da mesa como havia sido para eles e elas a experiência de descobrir que 'aquele corpo não era seu'. (...) [Uma travesti] disse, com uma firmeza de brilhar os olhos, que o processo dela envolvia o sentimento exatamente contrário: 'você me perguntou como foi que eu descobri que esse corpo não era meu, mas eu só me entendi travesti no dia em que percebi que ele é meu sim, tão meu que eu tenho o direito de fazer com ele o que eu quiser'.

Ontem à noite, quando assisti a entrevista de Lea T a Renata Ceribelli, no Fantástico, relembrei essa ocasião de maneira muito forte, porque a situação me pareceu semelhante: uma pessoa que provavelmente nunca parou para pensar sobre a sua confortável condição cisgênera tentando tirar alguma informação de uma pessoa transgênera. A única – e triste – diferença na história toda é que, se durante a tal mesa de debates a resposta foi contundente e esclarecedora, as respostas de Lea T que a produção do Fantástico priorizou em sua edição não prestaram o mesmo serviço.

Toda a entrevista girou em torno do suposto arrependimento de Lea, que afirmou que não aconselharia ninguém a fazer uma cirurgia como aquela, que afirmou não se sentir ainda uma mulher completa, que ainda se referiu às mulheres como 'vocês' e não como 'nós'. Vi muita gente falando mal da modelo por isso, mas, eu questiono: quem somos nós na fila da balada para falar isso ou aquilo da experiência dela? A maneira como cada um vive a própria experiência de gênero e sexualidade é tão particular que não há razão para meter o bedelho.

Isso não significa que eu não me preocupo com as colocações de Lea, porque sou perfeitamente capaz de visualizar milhões de pais e mães de jovens transexuais espalhados pelo Brasil que arrumaram um motivo a mais para desencorajar o processo de redesignação sexual de seus filhos e filhas. 'Olha aí, tá vendo, você vai fazer isso, depois vai se arrepender, igual a essa moça – ou esse moço, sei lá', eu consigo escutar. Ainda assim, a modelo não pode ser responsabilizada pelo teor negativo que teve a matéria.

Revendo o vídeo com cuidado, é possível perceber que ela toca em questões que renderiam debates excelentes e que contribuiriam muito para o avanço da visibilidade das pessoas transgêneras. Lea mencionou que 'não é um pênis ou uma vagina que faz uma pessoa feliz', o que eu vejo como uma crítica muito clara aos padrões biologizantes de sexo e gênero que a gente tem por aí. Numa crítica talvez não intencionada ao machismo, Lea diz que quando é para o sexo, que os homens a reconhecem como mulher; para um relacionamento duradouro, nem tanto.

Enquanto isso, Renata Ceribelli, como se nada daquilo estivesse sendo dito, continuava com as suas curiosidades clichês, tão preocupada em entender aquelas coisas estranhas, que mal deixava a entrevistada terminar as respostas. O ápice do seu despreparo foi a cara completamente desconcertada que fez quando Lea afirmou que queria ser mãe – imagem que eu guardaria como evidência clara da incompetência que o jornalismo brasileiro não se preocupa em corrigir ao falar dessas sexualidades tão invisibilizadas.

Para encerrar, falando em visibilidade, vale destacar que hoje, dia 29 de janeiro, é Dia da Visibilidade Trans. Um dia para que possamos contar outras histórias, tão legítimas quanto a de Lea T, mas carregadas de um pouco mais de felicidade e satisfação. Histórias de mulheres que nasceram com pênis e homens que nasceram com vaginas, que com todo direito lutam por políticas públicas de reconhecimento das suas identidades, que pedem autonomia sobre os próprios corpos, sem serem considerados doentes.

Um dia feito para ajudar a gente a fazer com o nosso preconceito a mesma coisa que uma corajosa mulher transexual faz com o seu pênis: cortar e jogar fora, mantendo o prazer e a felicidade. Um beijo pra quem é travesti, um beijo pra quem é trans."

(Aliás, aqui tem um belo índice para as postagens relativas ao dia da visibilidade trans.)

caruso x latuff


Paulo Nogueira comenta, em seu Diário do Centro do Mundo (leia na íntegra aqui), o caso das charges sobre a tragédia de Santa Maria (talvez fosse bom o Caruso e o Noblat lerem este texto e assistirem o filme no final para refletirem um pouco sobre a responsabilidade ética e política do humor na sociedade):

Fazer charge num drama como o de Santa Maria é uma tarefa para poucos.

É fácil fazer bobagem, e é difícil fazer coisa boa.

Na tragédia de Santa Maria, tivemos as duas situações. O cartunista Carlos Latuff (...) ironizou o abominável comportamento da mídia diante de calamidades como a da casa noturna Kiss. Um repórter tenta extrair palavras de um familiar da vítima no enterro, numa exploração abjeta da dor alheia.

(...) Latuff deu voz a milhões de brasileiros que somaram à tristeza pelas centenas de mortes a indignação pela atitude de jornalistas que não respeitam a dor alheia e simulam, como canastrões, uma dor que não sentem.

O lado B veio com Chico Caruso, no Globo. Ele fez uma prisão em chamas, na qual ardem as pessoas ali dentro e da qual se exala uma fumaça sinistra. Dilma, sempre Dilma, observa de longe e exclama: 'Santa Maria!'

Era para rir? Os leitores acharam que não. (...)

(Via Lair Amaro)

Atualização em 03-02-13:
Não deixe de ler também: "A emoção útil e a charge infeliz", de Sylvia Debossan Moretzsohn, aqui

28 de jan. de 2013

dando o exemplo


Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. 
No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. 
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. 
No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar.

Depois do Obama, que tirou seu apoio aos gays do armário e foi lindamente reeleito "mesmo assim", é a vez de políticos franceses darem o exemplo.
Heteros, ambos casados e com filhos, os dois deputados socialistas franceses, Yann Galut e Bays Nicolas, se beijaram na manifestação a favor do casamento igualitário ocorrida no último domingo (27/01) nas ruas de Paris.

"Isso significa que, como membros do parlamento aonde se iniciará em dois dias a batalha legislativa, nós nos solidarizamos com os homossexuais, com suas reinvidicações", disse Yann Galut. (Via)
Fica a lição não só para nossos políticos e celebridades, mas a todos nós - porque, como aprendi com meus amigos da ICM, "só existe um direito igual para todos os seres humanos, e eu não sou livre enquanto uma pessoa permanecer escrava".

Somos todos gays.

22 de jan. de 2013

o higienismo voltou


Latuff (via)

(...) Higienização é a forma mais clara e objetiva de denominar tal medida. O Estado "despoluirá" o centro, realizando a internação, sem garantir de fato um atendimento digno dentro dos preceitos do SUS. Para tal, seria necessário ter locais adequados, com técnicos munidos de infraestrutura e médicos preparados. Também seria preciso conversar com o usuário, para que se entenda o seu caminho com o uso da substância, devendo construir um plano de trabalho dele juntamente com a família e a sociedade.

Não é possível aceitar a internação involuntária ou compulsória como a principal estratégia para o enfrentamento do uso de drogas nas ruas da capital.

A política pública do Estado não pode retroceder ao confinamento, como forma de "tratamento", após décadas da reforma psiquiátrica e luta antimanicomial conquistada pelos movimentos sociais brasileiros e ainda em consolidação. O Conselho Regional de Serviço Social de São Paulo (Cress-SP) se posiciona totalmente contrário à medida, salvacionista, preconceituosa e criminalizadora, que avilta os direitos humanos. (...)

- Marcos V. Silva, vice-presidente do Conselho Regional de Serviço Social de São Paulo, na Folha de S. Paulo (leia na íntegra aqui)

10 de jan. de 2013

o corpo utópico


Nesta conferência de Michel Foucault – que acaba de ser publicada em espanhol – o corpo é, em primeiro lugar, “o contrário de uma utopia”, lugar “absoluto”, “desapiedado”, com o qual a utopia da alma se confronta. Mas, finalmente, o corpo, “visível e invisível”, “penetrável e opaco”, é “o ator principal de toda utopia” e cala apenas diante do espelho, do cadáver ou do amor.

A conferência “O corpo utópico”, de 1966, integra o livro El cuerpo utópico. Las heterotopías, cuja versão espanhola acaba de ser publicada (Ed. Nueva Vision). Esta versão está publicada no jornal argentino Página/12, 29-10-2010. A tradução é do Cepat.

Eis a conferência, reproduzida aqui via IHU.

Basta eu acordar, que não posso escapar deste lugar que Proust [A recuperação do corpo no processo do acordar é um tema recorrente na obra de Marcel Proust – Nota da Redação], docemente, ansiosamente, ocupa uma vez mais em cada despertar. Não que me prenda ao lugar – porque depois de tudo eu posso não apenas mexer, andar por aí, mas posso movimentá-lo, removê-lo, mudá-lo de lugar –, mas somente por isso: não posso me deslocar sem ele. Não posso deixá-lo onde está para ir a outro lugar. Posso ir até o fim do mundo, posso me esconder, de manhã, debaixo das cobertas, encolher o máximo possível, posso deixar-me queimar ao sol na praia, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente, nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que nunca está sob outro céu, é o lugar absoluto, o pequeno fragmento de espaço com o qual, em sentido estrito, eu me corporizo.

Meu corpo, topia desapiedada. E se, por ventura, eu vivesse com ele em uma espécie de familiaridade gastada, como com uma sombra, como com essas coisas de todos os dias que finalmente deixei de ver e que a vida passou para segundo plano, como essas chaminés, esses telhados que se amontoam cada tarde diante da minha janela? Mas, todas as manhãs, a mesma ferida; sob os meus olhos se desenha a inevitável imagem que o espelho impõe: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, careca, nada lindo, na verdade. Meu corpo é uma jaula desagradável, na qual terei que me mostrar e passear. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. Meu corpo é o lugar irremediável a que estou condenado.

Depois de tudo, creio que é contra ele e como que para apagá-lo, que nasceram todas as utopias. A que se devem o prestígio da utopia, da beleza, da maravilha da utopia? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas é um lugar onde terei um corpo sem corpo, um corpo que será belo, límpido, transparente, luminoso, veloz, colossal em sua potência, infinito em sua duração, desligado, invisível, protegido, sempre transfigurado; e é bem possível que a utopia primeira, aquela que é a mais inextirpável no coração dos homens, seja precisamente a utopia de um corpo incorpóreo. O país das fadas, dos duendes, dos gênios, dos magos, e bem, é o país onde os corpos se transportam à velocidade da luz, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos machucar, onde se é visível quando se quer e invisível quando se deseja. Se há um país mágico é realmente para que nele eu seja um príncipe encantado e todos os lindos peraltas se tornem peludos e feios como ursos.

Mas há ainda outra utopia dedicada a desfazer os corpos. Essa utopia é o país dos mortos, são as grandes cidades utópicas deixadas pela civilização egípcia. Mas, o que são as múmias? São a utopia do corpo negado e transfigurado. As múmias são o grande corpo utópico que persiste através do tempo. Há as pinturas e esculturas dos túmulos; as estátuas, que, desde a Idade Média, prolongam uma juventude que não terá fim. Atualmente, existem esses simples cubos de mármore, corpos geometrizados pela pedra, figuras regulares e brancas sobre o grande quadro negro dos cemitérios. E nessa cidade de utopia dos mortos, eis aqui que meu corpo se torna sólido como uma coisa, eterno como um deus.

Mas, talvez, a mais obstinada, a mais poderosa dessas utopias através das quais apagamos a triste topologia do corpo nos seja administrada pelo grande mito da alma, fornecido desde o fundo da história ocidental. A alma funciona maravilhosamente dentro do meu corpo. Nele se aloja, evidentemente, mas sabe escapar dele: escapa para ver as coisas, através das janelas dos meus olhos, escapa para sonhar quando durmo, para sobreviver quando morro. A minha alma é bela, pura, branca. E se meu corpo barroso – em todo o caso não muito limpo – vem a se sujar, é certo que haverá uma virtude, um poder, mil gestos sagrados que a restabelecerão em sua pureza primeira. A minha alma durará muito tempo, e mais que muito tempo, quando o meu velho corpo apodrecer. Viva a minha alma! É o meu corpo luminoso, purificado, virtuoso, ágil, móvel, tíbio, fresco; é o meu corpo liso, castrado, arredondado como uma bolha de sabão.

E eis que o meu corpo, pela virtude de todas essas utopias, desapareceu. Desapareceu como a chama de uma vela que alguém sopra. A alma, as tumbas, os gênios e as fadas se apropriaram pela força dele, o fizeram desaparecer em um piscar de olhos, sopraram sobre seu peso, sobre sua feiúra, e me restituíram um corpo fulgurante e perpétuo.

Mas meu corpo, para dizer a verdade, não se deixa submeter com tanta facilidade. Depois de tudo, ele mesmo tem seus recursos próprios e fantásticos. Também ele possui lugares sem-lugar e lugares mais profundos, mais obstinados ainda que a alma, que a tumba, que o encanto dos magos. Tem suas bodegas e seus celeiros, seus lugares obscuros e praias luminosas. Minha cabeça, por exemplo, é uma estranha caverna aberta ao mundo exterior através de duas janelas, de duas aberturas – estou seguro disso, posto que as vejo no espelho. E, além disso, posso fechar um e outro separadamente. E, no entanto, não há mais que uma só dessas aberturas, porque diante de mim não vejo mais que uma única paisagem, contínua, sem tabiques nem cortes. E nessa cabeça, como acontecem as coisas? E, se as coisas entram na minha cabeça – e disso estou muito seguro, de que as coisas entram na minha cabeça quando olho, porque o sol, quando é muito forte e me deslumbra, vai a desgarrar até o fundo do meu cérebro –, e, no entanto, essas coisas ficam fora dela, posto que as vejo diante de mim e, para alcançá-las, devo me adiantar.

Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Corpo absolutamente visível – porque sei muito bem o que é ser visto por alguém de alto a baixo, sei o que é ser espiado por trás, vigiado por cima do ombro, surpreendido quando menos espero, sei o que é estar nu. Entretanto, esse mesmo corpo é também tomado por uma certa invisibilidade da qual jamais posso separá-lo. A minha nuca, por exemplo, posso tocá-la, mas jamais vê-la; as costas, que posso ver apenas no espelho; e o que é esse ombro, cujos movimentos e posições conheço com precisão, mas que jamais poderei ver sem retorcer-me espantosamente. O corpo, fantasma que não aparece senão na miragem de um espelho e, mesmo assim, de maneira fragmentada. Necessito realmente dos gênios e das fadas, e da morte e da alma, para ser ao mesmo tempo indissociavelmente visível e invisível? E, além disso, esse corpo é ligeiro, transparente, imponderável; não é uma coisa: anda, mexe, vive, deseja, se deixa atravessar sem resistências por todas as minhas intenções. Sim. Mas até o dia em que fico doente, sinto dor de estômago e febre. Até o dia em que estala no fundo da minha boca a dor de dentes. Então, então deixo de ser ligeiro, imponderável, etc.: me torno coisa, arquitetura fantástica e arruinada.

Não, realmente, não se necessita de magia, não se necessita de uma alma nem de uma morte para que eu seja ao mesmo tempo opaco e transparente, visível e invisível, vida e coisa. Para que eu seja utopia, basta que seja um corpo. Todas essas utopias pelas quais esquivava o meu corpo, simplesmente tinham seu modelo e seu ponto primeiro de aplicação, tinham seu lugar de origem em meu corpo. Estava muito equivocado há pouco ao dizer que as utopias estavam voltadas contra o corpo e destinadas a apagá-lo: elas nasceram do próprio corpo e depois, talvez, se voltarão contra ele.

Uma coisa, entretanto, é certa: o corpo humano é o ator principal de todas as utopias. Depois de tudo, uma das utopias mais velhas que os homens contaram a si mesmos, não é o sonho de corpos imensos, sem medidas, que devorariam o espaço e dominariam o mundo? É a velha utopia dos gigantes, que se encontra no coração de tantas lendas, na Europa, na África, na Oceania, na Ásia. Essa velha lenda que durante tanto tempo alimentou a imaginação ocidental, de Prometeu a Gulliver.

O corpo é também um grande ator utópico quando se pensa nas máscaras, na maquiagem e na tatuagem. Usar máscaras, maquiar-se, tatuar-se, não é exatamente, como se poderia imaginar, adquirir outro corpo, simplesmente um pouco mais belo, melhor decorado, mais facilmente reconhecível. Tatuar-se, maquiar-se, usar máscaras, é, sem dúvida, algo muito diferente; é fazer entrar o corpo em comunicação com poderes secretos e forças invisíveis. A máscara, o sinal tatuado, o enfeite colocado no corpo é toda uma linguagem: uma linguagem enigmática, cifrada, secreta, sagrada, que se deposita sobre esse mesmo corpo, chamando sobre ele a força de um deus, o poder surdo do sagrado ou a vivacidade do desejo. A máscara, a tatuagem, o enfeite coloca o corpo em outro espaço, o fazem entrar em um lugar que não tem lugar diretamente no mundo, fazem desse corpo um fragmento de um espaço imaginário, que entra em comunicação com o universo das divindades ou com o universo do outro. Alguém será possuído pelos deuses ou pela pessoa que acaba de seduzir. Em todo o caso, a máscara, a tatuagem, o enfeite são operações pelas quais o corpo é arrancado do seu espaço próprio e projetado a outro espaço.

Escutem, por exemplo, este conto japonês e a maneira como um tatuador faz passar a um universo que não é o nosso o corpo da jovem que ele deseja:

“O sol lançava seus raios sobre o rio e incendiava o quarto das sete esteiras. Seus raios refletidos sobre a superfície da água formavam um desenho de ondas douradas sobre o papel dos biombos e sobre o rosto da jovem em sono profundo. Seikichi, depois de ter corrido os tabiques, tomou entre as suas mãos suas ferramentas de tatuagem. Durante alguns instantes permaneceu imerso numa espécie de êxtase. Precisamente agora saboreava plenamente a estranha beleza da jovem. Parecia-lhe que podia permanecer sentado diante desse rosto imóvel durante dezenas ou centenas de anos sem jamais experimentar nem cansaço nem aborrecimento. Assim como o povo de Mênfis embelezava outrora a terra magnífica do Egito de pirâmides e de esfinges, assim Seikichi, com todo o seu amor, quis embelezar com seu desenho a pele fresca da jovem. Aplicou-lhe de imediato a ponta de seus pincéis de cor segurando-os entre o polegar, e os dedos anular e pequeno da mão esquerda, e à medida que as linhas eram desenhadas, picava-as com sua agulha que segurava na mão direita”.

E quando se pensa que as vestimentas sagradas ou profanas, religiosas ou civis fazem o indivíduo entrar no espaço fechado do religioso ou na rede invisível da sociedade, então se vê que tudo quanto toca o corpo – desenhos, cores, diademas, tiaras, vestimentas, uniformes – faz alcançar seu pleno desenvolvimento, sob uma forma sensível e abigarrada, as utopias seladas no corpo.

Mas, se fosse preciso descer mais uma vez abaixo das vestimentas, se fosse preciso alcançar a própria carne, e então se veria que em alguns casos, em seu ponto limite, é o próprio corpo que volta contra si seu poder utópico e faz entrar todo o espaço do religioso e do sagrado, todo o espaço do outro mundo, todo o espaço do contra-mundo, no interior mesmo do espaço que lhe está reservado. Então, o corpo, em sua materialidade, em sua carne, seria como o produto de suas próprias fantasias. Depois de tudo, acaso o corpo de um dançarino não é justamente um corpo dilatado segundo todo um espaço que lhe é interior e exterior ao mesmo tempo? E também os drogados, e os possuídos; os possuídos, cujo corpo se torna um inferno; os estigmatizados, cujo corpo se torna sofrimento, redenção e salvação, paraíso sangrante.

Bobagem dizer, portanto, como fiz no início, que meu corpo nunca está em outro lugar, quer era um aqui irremediável e que se opunha a toda utopia.

Meu corpo, de fato, está sempre em outro lugar. Está ligado a todos os outros lugares do mundo, e, para dizer a verdade, está num outro lugar que é o além do mundo. É em referência ao corpo que as coisas estão dispostas, é em relação ao corpo que existe uma esquerda e uma direita, um atrás e um na frente, um próximo e um distante. O corpo está no centro do mundo, ali onde os caminhos e os espaços se cruzam, o corpo não está em nenhuma parte: o coração do mundo é esse pequeno núcleo utópico a partir do qual sonho, falo, me expresso, imagino, percebo as coisas em seu lugar e também as nego pelo poder indefinido das utopias que imagino. O meu corpo é como a Cidade de Deus, não tem lugar, mas é de lá que se irradiam todos os lugares possíveis, reais ou utópicos.

Depois de tudo, as crianças demoram muito tempo para descobrir que têm um corpo. Durante meses, durante mais de um ano, não têm mais que um corpo disperso, membros, cavidades, orifícios, e tudo isto não se organiza, tudo isto não se corporiza literalmente, senão na imagem do espelho. De uma maneira mais estranha ainda, os gregos de Homero não tinham uma palavra para designar a unidade do corpo. Por mais paradoxal que possa parecer, diante de Tróia, sob os muros defendidos por Hector e seus companheiros, não havia corpo, havia braços levantados, havia peitos valorosos, pernas ágeis, cascos brilhantes acima das cabeças: não havia um corpo. A palavra grega que significa corpo só aparece em Homero para designar o cadáver. É esse cadáver, por conseguinte, é o cadáver e é o espelho que nos ensinam (enfim, que ensinaram os gregos e que ensinam agora as crianças) que temos um corpo, que esse corpo tem uma forma, que essa forma tem um contorno, que nesse contorno há uma espessura, um peso, numa palavra, que o corpo ocupa um lugar. O espelho e o cadáver assinalam um espaço à experiência profunda e originariamente utópica do corpo; o espelho e o cadáver fazem calar e apaziguam e fecham sobre um fecho – que agora está para nós selado – essa grande raiva utópica que deteriora e volatiliza a cada instante o nosso corpo. É graças a eles, ao espelho e ao cadáver, que o nosso corpo não é pura e simples utopia. Ora, se se pensa que a imagem do espelho está alojada para nós em um espaço inacessível, e que jamais poderemos estar ali onde estará o nosso cadáver, se pensamos que o espelho e o cadáver estão eles mesmos em um invencível outro lugar, então se descobre que só utopias podem encerrar-se sobre elas mesmas e ocultar um instante a utopia profunda e soberana de nosso corpo.

Talvez seria preciso dizer também que fazer o amor é sentir seu corpo se fechar sobre si, é finalmente existir fora de toda utopia, com toda a sua densidade, entre as mãos do outro. Sob os dedos do outro que te percorrem, todas as partes invisíveis do teu corpo se põem a existir, contra os lábios do outro os teus se tornam sensíveis, diante de seus olhos semi-abertos teu rosto adquire uma certeza, há um olhar finalmente par ver tuas pálpebras fechadas. Também o amor, assim como o espelho e como a morte, acalma a utopia do teu corpo, a cala, a acalma, a fecha como numa caixa, a fecha e a sela. É por isso que é um parente tão próximo da ilusão do espelho e da ameaça da morte; e se, apesar dessas duas figuras perigosas que o rodeiam, se gosta tanto de fazer o amor é porque, no amor, o corpo está aqui.

8 de jan. de 2013

o atlas do futuro


Nas épocas de crise o fatalismo retorna. As teorias deterministas abrem caminho com facilidade. É o paraíso da economia, embora os economistas se equivoquem. E é o momento propício para o retorno da geopolítica - uma disciplina interessante mas suspeita, que os nazistas usaram para justificar sua teoria do espaço vital e sua política agressiva e expansionista -, inclusive em forma de geoeconomia.

A reportagem é de Luís Bassets, publicada no jornal El País, traduzida pelo portal UOL, 07-01-2013, e reproduzida aqui via IHU.

Nem tudo é imperialismo nos conceitos geopolíticos, mas não há dúvidas sobre as origens imperialistas de uma ciência que pretende explicar os comportamentos políticos pelos condicionamentos do entorno geográfico. Há também algo reativo na recuperação de um pensamento duro, que observa os seres humanos de uma perspectiva estratosférica, a dos satélites que nos enviam imagens da Terra. Depois das épocas ideológicas, e das épocas da virtualidade digital como a nossa, é lógico que surjam reações reducionistas.

O livro da temporada sobre essa questão é "A Vingança da Geografia - O que os mapas nos dizem sobre os próximos conflitos e a batalha contra o destino", do jornalista Robert Kaplan, do qual basta citar estas frases para perceber sua abordagem bastante clássica do problema: "A geografia é o pano de fundo da própria história humana. Apesar das distorções geográficas, pode ser tão reveladora das intenções de longo alcance dos governos quanto os conciliábulos secretos. A posição de um país no mapa é o primeiro elemento que o define, mais que sua filosofia de governo".

Kaplan nos introduz ao pensamento geopolítico, mas sobretudo nos convida a adotar uma consciência geográfica na hora de abordarmos os conflitos mundiais. Vamos ouvi-lo um pouco, sem necessidade de nos deixarmos convencer nem entrar em debates filosóficos sobre a liberdade e o determinismo na história das nações. Voltemos por um momento aos mapas, aproveitando o ano novo, momento propício para interessar-se pelas notícias que transcendem a novidade de um só dia ou uma semana.

Não nos bastam para esse exercício os velhos atlas coloridos de geografia física e política, que nos mostravam a colcha de retalhos das fronteiras e soberanias nacionais, embora possam ter alguma utilidade em um momento de aguçamento de rivalidades nacionais. Na Ásia, por exemplo, onde nos servirão para esquadrinhar o mar da China em busca do arquipélago das Spratley, as ilhas Paracelso ou as Diaoyu (Senkaku em japonês), todas elas disputadas entre a China e seus vizinhos. Ou no Ártico, onde nos permitirão perscrutar as futuras rotas de navegação entre a Ásia e a Europa.

Esses são os mapas clássicos de superfície que abrigam novos mapas menos conhecidos, mas mais interessantes para nossa época, uma nova cartografia que deve incluir, precisamente, as novidades que nos proporcionam tanto a tecnologia como as modificações do planeta produzidas pelo aquecimento global. As primeiras levantam, por exemplo, a nova cartografia das jazidas de gás e petróleo que vão revolucionar a economia da energia. As segundas, tanto os litorais em perigo como os resultados da fusão nas calotas polares, de consequências ambivalentes para a economia humana: catástrofes de um lado e novos recursos do outro.

Basta nos concentrarmos, por enquanto, nos efeitos da cartografia do subsolo terrestre e marinho que abriga novas jazidas para concluir muito rapidamente sobre a utilidade da geopolítica para entender os tempos que nos esperam. Aos avanços na extração em fundos marinhos em grande profundidade se acrescentaram os enormes progressos em detecção de jazidas, em extração horizontal e no chamado fracking, que consiste em extrair gás ou petróleo de xistos betuminosos nas profundezas do subsolo.

Os EUA vão garantir seu abastecimento de petróleo para os próximos cem anos, e em 2020 terão total autonomia energética, além de exportar gás liquefeito para o resto do mundo e principalmente para a Europa. Há probabilidade de que a Polônia também se transforme em um gigante do gás, liberta da dependência energética da Rússia. Esta última, assim como os países árabes produtores de gás e petróleo, terá de se adaptar à nova situação. Lembremos que o conflito entre a Repsol e Cristina Kirchner tem sua origem na exploração da jazida de Vaca Muerta, um enorme bolsão de argila betuminosa.

As técnicas extrativas, que consistem em injetar um coquetel de água e substâncias químicas em alta pressão, provocam muitas reservas por causa de seus efeitos poluentes nas águas subterrâneas e inclusive para a saúde das populações afetadas. Mas ao mesmo tempo essas jazidas podem ser uma bênção econômica, como se espera que aconteça com Barack Obama em seu segundo mandato, com um boom imediato do gás e do petróleo de pedra. Será preciso optar.

O mapa do século XXI está mudando graças à energia oculta e inesgotável que há sob a superfície da terra. E novas e inesperadas relações de poder nos esperam sob os novos atlas ainda desconhecidos.

7 de jan. de 2013

atitudes face à crise atual


Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor, descreve cinco atitudes face à crise que "urge uma decisão e encontrar uma saída libertadora".

Segundo ele, "o que mais se exige hoje são políticos, líderes, grupos, pessoas que se sintam responsáveis e forcem a passagem do velho ao novo tempo".

Eis o artigo, reproduzido aqui via IHU.


Ninguém face à crise pode ficar indiferente. Urge uma decisão e encontrar uma saída libertadora. É aqui que se encontram várias atitudes para ver qual delas é a mais adequada a fim de evitarmos enganos.

A primeira é a dos catastrofistas: a fuga para o fundo: estes enfatizam o lado de caos que toda crise encerra. Veem a crise como catástrofe, decomposição e fim da ordem vigente. Para eles a crise é algo anormal que devemos evitar a todo custo. Só aceitam certosajustes e mudanças dentro da mesma estrutura. Mas o fazem com tantos senões que desfibram qualquer irrupção inovadora.

Contra estes catastrofistas já dizia o bom Papa João XXIII referindo-se à Igreja mas que vale para qualquer campo: “A vida concreta não é uma coleção de antigui­dades. Não se trata de visitar um museu ou uma academia do passado. Vive-se para progredir, embora tirando proveito das experiências do passado, mas para ir sempre mais longe."

A crise generalizada não precisa ser uma queda para o abismo. Vale o que escreveu um suíço que muito ama o Brasil, o filósofo e pedagogo Pierre Furter: “Caracterizar a crise como sinal de um colapso universal, é uma maneira sutil e pérfida dos poderosos e dos privilegiados de impedirem, a priori, as mudanças, desvalorizando-as de antemão”.

A segunda atitude é a dos conservadores: a fuga para trás. Estes se orientam pelo passado, olhando pelo retrovisor. Ao invés de explorar as forças positivas contidas crise atual, fogem para o passado e buscam nas velhas fórmulas soluções para os problemas novos. Por isso são arcaizantes e ineficazes.

Grande parte das instituições políticas e dos organismos econômicos mundiais como o FMI, o Banco Mundial, a OMC, os G-20 mas também a maioria das Igrejas e das religiões procuram dar solução aos graves problemas mundiais com as mesmas concepções. Favorecem a inércia e freiam soluções inovadores.

Deixando as coisas como estão fatalmente nos levarão ao fracasso senão a uma crise ecológica e humanitária inimaginável. Como as fórmulas passadas esgotaram sua força de convencimento e de inovação, acabam transformando a crise numa tragédia.

A terceira atitude é a dos utopistas: fuga para frente. Estes pensam resolver a situação-de-crise fugindo para o futuro Eles se situam dentro do mesmo horizonte que os conservadores apenas numa direção contrária. Por isso, podem facilmente fazer acordos entre si.

Geralmente são voluntaristas e se esquecem que na história só se fazem as revoluções que se fazem. O último slogan não é um pensamento novo. Os críticos mais audazes podem ser também os mais estéreis. Não raro, a audácia contestatória não passa de evasão do confronto duro com a realidade.

Circulam atualmente utopias futuristas de todo tipo, muitas de caráter esotérico como as que falam de alinhamento de energias cósmicas que estão afetando nossas mentes. Outros projetam utopias fundadas no sonho de que a biotecnologia e a nanotecnologia poderão resolver todos os problemas e tornar imortal a vida humana.

Uma quarta atitude é a dos escapistas: fogem para dentro. Estes dão-se conta do obscurecimento do horizonte e do conjunto das convicções funda­mentais. Mas fazem ouvidos moucos ao alarme ecológico e aos gritos dos oprimidos. Evitam o confronto, preferem não saber, não ouvir, não ler e não se questionar. As pessoas já não querem conviver. Preferem a solidão do indivíduo mas geralmente plugado na internet e nas redes sociais.

Por fim há uma quinta atitude: a dos responsáveis: enfrentam o aqui e agora. São aqueles que elaboram uma resposta; por isso os chamo de responsáveis. Não temem, nem fogem, nem se omitem, mas assumem o risco de abrir caminhos. Buscam fortalecer as forças positivas contidas na crise e formulam respostas aos problemas. Não rejeitam o passado por ser passado. Aprendem dele com um repositório das grandes expe­riências que não devem ser desperdiçadas sem se eximir de fazer as suas próprias experiências.

Os responsáveis se definem por um a favor e não simplesmente por um contra. Também não se perdem em polêmicas estéreis. Mas trabalham e se engajam pro­fundamente na realização de um modelo que corresponda às necessidades do tempo, aberto à crítica e à autocrítica, dispostos sempre a aprender.

O que mais se exige hoje são políticos, líderes, grupos, pessoas que se sintam responsáveis e forcem a passagem do velho ao novo tempo.

26 de dez. de 2012

monumento a um jovem monolito


O Alex Castro propõe, no Papo de Homem (aqui), que, como um ritual, este texto do André Dahmer seja lido todo fim de ano - e que nos perguntemos, no final: então, estou virando (ou já virei?) um monolito?

"Ao completar trinta anos, você ganhará os olhos duros dos sobreviventes. Só verá sua amada na parte da manhã e da noite, só encontrará seus pais de vinte em vinte dias. E quando seus velhos morrerem, você ganhará um dia de folga para soluçar e gritar que deveria ter ficado mais próximo deles. Sorria, você é um jovem monolito e a vida vai ser pedrada. O trabalho é uma grande cadeia e você sentirá muito alívio por ter uma. A cadeia engrandece o homem, o sangue do dinheiro tem poder. Reze. Reze ajoelhado por uma carreira, dê a sua vida por ela. Viva como todo mundo vive, você não é melhor que ninguém. Porque o dinheiro move montanhas, o dinheiro é a igreja que lhe dará o céu. Sorria, você é um jovem monolito e o mundo é uma pedreira. Eles irão moer você todinho. De brinde, muitos domingos para chorar sua falta de tempo ou operar uma tendinite. Nas terríveis noites de domingo, beba. Beba para conseguir dormir e abraçar mais uma monstruosa segunda-feira. Aquela segunda-feira que deixa cacetes moles e xoxotas secas para sempre. A vida é uma grande seca, mas ninguém sente calor: Nas salas refrigeradas, seus colegas de trabalho fabricam informação e, frios, sonham com o dia dez do próximo mês. Você é o Babaca do Dia Dez, não há como mudar o seu próprio destino. Babaca que acorda assustado, porque ninguém deve atrasar mais de vinte e cinco minutos. Eles descontam em folha e você é refém da folha, do salário, do medo. Ninguém tem o direito de ser feliz, mas você ganhará a sua esmola de seis feriados por ano. E todos nós vamos enfrentar, juntos, um imenso engarrafamento até a praia. Para fingir que ainda estamos vivos. Para mostrar que ainda somos capazes de sentir prazer. Para tomar um porre de caipirinha sentado em uma cadeirinha de praia. É uma grande solução. E você ainda ganhará quinze dias de férias para consertar a persiana, pagar contas, fazer uma bateria de exames. Ninguém quer morrer do coração, ninguém quer viver de coração. Eu não duvido da sua capacidade de vencer: Lembre disso no primeiro divórcio, no primeiro infarto, no primeiro AVC."


25 de dez. de 2012

o que o natal nos propõe


De Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, no Adital:

As propostas para os dias de Natal são as mais diversas. Agências de turismo oferecem passeios paradisíacos. No comércio, há sempre um Papai Noel para dar algum presente que a pessoa tem de comprar. E em muitas famílias e empresas, Natal é época de comer e beber desenfreadamente. Além dessas propostas consumistas, Natal pode ser ocasião de bons encontros e confraternizações. Entretanto, se você quiser mais do que isso, lembre-se que, originalmente, Natal significa renascimento. Embora ninguém saiba a data exata do nascimento de Jesus, desde o século IV, os cristãos tomaram o 25 de dezembro, solstício do inverno no hemisfério norte, como referência para celebrar a vinda do Cristo, como sol que ilumina e dá sentido novo a nossas vidas. No hemisfério norte, o sol quase desaparece totalmente, quando, a partir desse dia do solstício, como que renasce e volta a brilhar no horizonte. Assim também, os cristãos festejam o nascimento do Cristo que renasce em nós para nos fazer renascer com ele. Por sua origem de festa solar, o Natal é mais a celebração do renascimento do que do simples nascer. Aliás, o que significaria nascer, se não fosse para se dispor a um constante renascer? O poeta Pablo Neruda afirmava: "Nascemos como esboço – É preciso sempre renascer. Nascemos para renascer”. Podemos dizer que renascemos toda vez que realizamos os passos que a vida exige. Eles acarretam um superar uma etapa que exige de nós como morrer para o jeito de ser anterior e assumir o compromisso de renascer para uma nova etapa de vida. Continuamente. Paulo escreve: "Quando eu era criança, pensava como criança, falava como criança. Ao me tornar adulto, deixei as coisas de criança” (1 Cor 13, 11). Em cada idade física, o ser humano larga uma idade e renasce para outra. Em uma conversa com Nicodemos, Jesus explica: "O que nasce conforme o mundo (ou no modo de falar hebraico: o que nasce da carne) é carne, ou seja, do mundo. O que nasce do Espírito é espírito. Por isso, insisto, é preciso nascer de novo, nascer do Espírito” (Jo 3, 7).

O sentido mais profundo da celebração do Natal é nos dispor a renovar em nós essa disposição do renovar-se interiormente, ou como diz Paulo: deixar de lado o velho modo de ser e revestir-se interiormente de um novo modo de ser. Conforme os evangelhos, foi isso que Jesus fez durante toda a sua vida. "Ele cresceu em sabedoria, em idade e em graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2, 40). Em grego, o termo "Cristo” significa "ungido” ou "consagrado”. Na história bíblica, vários profetas e personagens importantes foram chamados de Cristo ou de consagrado. Jesus de Nazaré viveu essa vocação de modo tão profundo e pleno que, ao dizermos "Jesus é o Cristo, o consagrado de Deus”, tomamos essa afirmação como se fosse um nome próprio: Jesus Cristo. E ele faz de nós irmãos seus porque nos dispõe para sermos também, cada um/uma do seu modo, Cristos, consagrados de Deus nesse mundo para testemunhar o projeto que Deus tem de amor e justiça para o universo.

A festa do Natal é a celebração desse novo renascimento. A cada ano, marcamos um passo a mais nesse caminho. Cada pessoa é chamada a fazer de sua vida uma gruta natalina, uma caverna que, como útero grávido, acolha o nascimento do novo ser que somos chamados a ser e que no Natal nos comprometemos a nos tornar: humanos como Jesus.

24 de dez. de 2012

nossa senhora do silêncio

Escultura: José Ismael

Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos.

É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas antigas visões demoradas de paisagens outras, e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio.

Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos.

Eu não sei quem tu és. Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? Como não te sonhar? Como não te sonhar Senhora das Horas que passam? Madona das águas estagnadas e das algas mortas. Consoladora dos que não têm consolação, Lágrima dos que nunca choram, Hora que nunca soa. Ópio de todos os silêncios, Lira para não se tanger, Vitral de lonjura e de abandono.

Livra-me da religião, porque é suave; e da descrença porque é forte. Rezo a ti o meu amor porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amada, nem te ergo ante mim como santa. Só tu, sol que não brilhas, alumias as cavernas, porque as cavernas são tuas filhas. Posso amar-te e também adorar-te porque o meu amor não te possui e a minha adoração não te afasta.

Sê a Noite Total e que todo eu me perca e me esqueça em ti, e que os meus sonhos brilhem, estrelas, no teu corpo de distância e negação... Seja eu as dobras do teu manto, as jóias da tua tiara, e o ouro outro dos anéis dos teus dedos.

Realizadora dos absurdos. Que o teu silêncio me embale, que o teu mero-ser me acaricie e me amacie e me conforte Anjo da Guarda dos abandonados. Tu não és mulher. Nem mesmo dentro de mim evocas qualquer coisa que eu possa sentir feminina. É quando falo de ti que as palavras te chamam fêmea, e as expressões te contornam de mulher. Mas tu, na tua vaga essência, não és nada. Não tens realidade, nem mesmo uma realidade só tua. Propriamente, não te vejo, nem mesmo te sinto. Ocupas o intervalo dos meus pensamentos. Por isso eu não te penso nem te sinto. Debruço-me sobre o teu rosto branco nas águas noturnas do meu desassossego, no meu saber que és lua.

- Fernando Pessoa (via)

23 de dez. de 2012

o balconista arnaldo branco


Isso foi depois da internet, mas antes do "torrent": fui balconista de locadora de vídeo. "Que nem o Tarantino!", sim já ouvi essa várias vezes, só me falta a carreira em Hollywood.

Entrei em 1998, ano da transição do VHS para o DVD, portanto o aviso para rebobinar a fita ainda pairava sobre a minha cabeça em um cartaz na parede, como um mandamento solene.

Já estava velho para a função ("contingências do mercado de trabalho" era a desculpa que usava com a minha mãe), então gostava de fingir que estava lá pela oportunidade de estudar a plateia dos filmes que faria no futuro.

Não era uma mentira completa; na verdade poderia prestar consultoria para produtores de cinema sobre o que nossos espectadores querem ver na tela. Ou seja, nada de preto e branco, pouca conversa ("filme desse Woody Allen só tem gente falando") e é bom maneirar no experimentalismo: o mantra do público médio de locadora é "queria um filme leve, hoje não estou a fim de pensar".

E pornografia, por exemplo. Pessoas de vários estratos sociais pegavam filmes de sacanagem, mas percebi um estranho padrão entre os porteiros da área: só alugavam pornôs brasileiros. Perguntei o porquê e disseram que preferiam as mulheres gemendo em português; aparentemente existe diferença entre o "yes" e o "sim" na hora de fantasiar.

Mas não usei minhas horas de trabalho só para praticar pesquisa de mercado. Guardei muitas histórias bacanas, embora na maior parte das vezes estivesse cercado por pessoas apressadas e sem muita familiaridade com o conceito de fila. Na época, queria matar o autor da frase "o cliente sempre tem razão". Meu herói era Randal Graves, o personagem de Jeff Anderson em "O Balconista", filme do Kevin Smith de 1994, que tratava mal todos que tivessem o azar de entrar no seu estabelecimento.

Já tive que ajudar a separar uma briga de socos entre um cliente e um entregador (o entregador tinha razão, viu o que disse sobre a tal frase?), precisei empatar um casal que se trancou no banheiro e fui descontado na minha primeira semana porque um cara se associou com uma identidade falsa e levou oito lançamentos. Ok, essa não foi uma história bacana.

Alguns sócios da locadora eram umas figuras, como o cardíaco que ligava pedindo sempre pornôs e cigarros malocados no saco de entregas. Volta e meia uma ambulância parava em frente ao seu prédio. Tinha também a mulher chata de uma figura importante da MPB; quando ela finalmente brigou com o dono e pediu para se desassociar, demos uma festa para rasgar sua ficha.

A locadora ficava no Jardim Botânico, no meio da fina flor da burguesia carioca, o que foi mais uma lição sobre o "ethos" das nossas elites: era uma choradeira para pagar qualquer dívida, mínima que fosse. Uma cineasta (vou manter seu anonimato, ao qual aliás está acostumada) discutiu comigo por coisa de centavos em balas de menta, alegando achar que eram cortesia. Por mim até seriam, não fossem os balconistas também responsáveis pela "bombonière" e pelo fechamento do caixa, nos obrigando ao trabalho de corno de contar chiclete por chiclete e comparar o resultado com o montante na registradora --com desconto no salário quando os valores não batiam.

Enfim, tempo bom que não volta mais, graças a Deus.

Queria dedicar esse texto ao saudoso Marcão (que nos deixou em 2011), meu colega de balcão e rubro-negro como eu, e ao cliente vascaíno que torrava tanto o nosso saco que nos fez bater o camelódromo do Saara um dia inteiro até conseguirmos duas camisas do Real Madrid para recebê-lo no dia da derrota na final do mundial de clubes. O cara nunca mais voltou.

- Arnaldo Branco, cartunista, na Ilustríssima (Folha de S. Paulo) de hoje.

a 27ª vítima


De Dorrit Harazim, publicado no Globo de hoje (leia na íntegra aqui), sobre o massacre de Newtown (mais aqui)

(...) Todas as faixas, desenhos, mensagens, velas, bichos de pelúcia, buquês de flores que brotaram em Newtown honram os “26 anjos que nos guiarão”. Essas 20 crianças e 6 adultos viverão para sempre na memória local.

Só que foram 27 os fuzilados pelo jovem Adam Lanza, de 20 anos. Sua primeira vítima daquela tenebrosa sexta-feira 13 de dezembro foi a própria mãe, morta em casa com quatro tiros de rifle calibre .22 na cabeça. Só depois o surtado Adam rumou para a escola fundamental, onde executou as outras 26 vítimas.

Um único tributo, rabiscado numa folha de papel colada num pedaço de madeira, presta homenagem a Nancy Lanza em Newtown. “Outros se consolam mutuamente por escolhas que você teve de fazer sozinha. Quem nunca errou atire a primeira pedra”, diz um trecho do texto. (...)

Como se sabe, tanto o rifle de assalto Bushmaster M4 com o qual Adam executou a matança como as outras quatro armas encontradas em sua casa pertenciam à mãe e estavam devidamente registradas. A sra. Lanza seguia com convicção os preceitos de quem, nos Estados Unidos, se declara “adepto da sobrevivência” — grupo de pessoas em permanente estado de alerta para a erupção do caos social no país. Estocar mantimentos e armas e aprimorar a pontaria para se proteger do perigo fazem parte dos cuidados essenciais dessa tribo. (...)

Com o filho, a adepta da sobrevivência fazia exercícios regulares de tiro numa academia da cidade.

Segundo análise de dados estatísticos feita por Nate Silver, o festejado guru da mídia que acertou todas as previsões da reeleição de Obama no mês passado, a variável mais confiável para se prever a intenção de voto de um eleitor, nos Estados Unidos, é a posse de armas. Gênero, raça, faixa etária, renda familiar, educação, religião, domicílio — nenhum desses fatores é tão determinante na intenção de voto quanto a posse de armas.

Mais da metade dos casais com filhos pequenos que votam no Partido Republicano tem armas em casa. Entre eleitores democratas, esse número cai para “apenas” um em cada quatro casais. A média nacional americana está em três armas por domicílio.

Basta assistir à televisão nos Estados Unidos para saber que a cada ano 34 civis são mortos por armas de fogo. Em apenas seis meses, esse total iguala o número de militares americanos mortos nas guerras do Iraque e do Afeganistão.

Nancy Lanza tinha, em casa, um filho problema e cinco armas. Inicialmente os moradores de Newtown a prantearam como vítima inocente, a ser computada e incluída nos memoriais. Pouco a pouco, sua memória começa a ser deslocada da condição de vítima para a de corresponsável pela tragédia de Newtown.

O problema não era apenas o filho, o morto de número 28 da chacina.

Menos de duas horas após o término do momento nacional de silêncio, o CEO da Associação Nacional do Rifle, a robusta entidade que promove e defende o armamento individual de todo cidadão, saiu da retranca que mantivera desde o massacre. “Só uma pessoa do bem com uma arma na mão é capaz de deter uma pessoa do mal que tem uma arma na mão”, declarou sem pestanejar Wayne LaPierre, em entrevista coletiva. Culpou a mídia, os videogames e a indústria do entretenimento pela matança e aproveitou para lançar novo apelo para que toda escola americana adote seguranças armados. (...)

Como observa Michael Moore (já postei aqui, mas nunca é demais repetir): "Somos um povo que se assusta com facilidade e é fácil de ser manipulado pelo medo. De que temos tanto medo, que necessitamos ter 300 milhões de armas de fogo em nossas casas? Quem vai nos ferir? Por que a maior parte dessas armas se encontra nas casas de brancos, nos subúrbios ou no campo? Talvez, se resolvêssemos nosso problema racial e nosso problema de pobreza (uma vez mais, somos o número um com maior número de pobres no mundo industrializado), houvesse menos pessoas frustradas, atemorizadas e encolerizadas estendendo a mão para pegar a arma que guardam na gaveta."

* * *


Desde semana passada, já vi esse texto em vários lugares (leia na íntegra aqui). É o depoimento pungente da mãe de um menino que talvez se pareça com Adam Lanza, o rapaz que cometeu o massacre de Newtown.

Eu sou a mãe de Adam Lanza

"(...) Eu vivo com um filho que tem problemas mentais. Amo meu filho. Mas ele me apavora.

Algumas semana atrás, Michael pegou um faca e ameaçou me matar e depois a si mesmo porque eu pedi que ele devolvesse na biblioteca os livros que já estavam atrasados. Os irmãos de 7 e 9 anos sabiam qual era o plano de emergência — correram para o carro e se trancaram antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa. Eu consegui tirar a faca de Michael, e depois metodicamente recolhi todos os objetos cortantes da casa e os coloquei dentro de uma sacola gigante que agora anda sempre comigo. Depois de tudo isso, ele seguiu gritando, me insultando e ameaçando me matar e me machucar.

O conflito terminou com três policiais corpulentos e um paramédico lutando com o meu filho para colocá-lo em um maca e levá-lo para a emergência do hospital local. A ala psiquiátrica não tinha nenhum leito livre no dia. Michael foi atendido no pronto socorro e nos mandaram de volta para casa com uma prescrição de Zyprexa e um retorno agendado com um psiquiatra infantil.

Ainda não sabemos o que há de errado com Michael. Espectro do Autismo, TDAH, Transtorno Explosivo Intermitente foram mencionados em reuniões com assistentes sociais, terapeutas, professores e pedagogos. Michael tem tomado uma enorme quantidade de antipsicóticos e drogas alteradoras de humor. Nada parece funcionar. (...)

No terceiro dia, ele era o meu calmo e doce garoto de novo, se desculpando e prometendo melhorar. Eu escutei essas promessas durante anos. Eu não acredito mais nelas. No formulário de internação, na pergunta “O que você espera do tratamento?”, eu escrevi, “preciso de ajuda”.

E eu preciso mesmo. Esse problema é grande demais para eu administrar sozinha.

Eu estou dividindo essa história porque eu sou mãe de um Adam Lanza. Eu sou mãe de um Dylan Klebold e um Eric Harris. Eu sou mãe de um James Holmes. Eu sou mãe de um Jared Loughner. Eu sou mãe de um Seung-Hui Cho. E esses rapazes — e suas mães — precisam de ajuda. No despertar de mais uma tragédia nacional, é fácil falar sobre armas. Mas é hora de falarmos sobre doenças mentais.

De acordo com uma revista especializada, desde 1982 —, 61 assassinatos em massa envolvendo armas de fogo aconteceram no país. Desses, 43 dos assassinos eram homens brancos, e apenas uma era mulher. A revista voltou seu foco para a questão dos assassinos terem obtido ou não suas armas legalmente (a maioria sim). Mas esse visível sinal de problema mental deveria nos levar a considerar quantas pessoas nos Estados Unidos vivem com medo, como eu vivo.

Quando eu perguntei para o assistente social que cuida do meu filho quais eram as minhas opções, ele respondeu que a única coisa a fazer é acusá-lo de um crime. “Se ele estiver no sistema, eles vão criar um rastro de documentos”, disse. “Essa é a única forma de conseguir que algo seja feito. Ninguém vai te dar atenção a menos que você tenha uma queixa formal.”

Eu não acredito que meu filho deva ir para a cadeia. Mas parece que os Estado Unidos estão usando as prisões como uma solução opcional para doentes mentais. De acordo com entidades de Direitos Humanos, o número de internos mentalmente doentes quadruplicou entre 2000 e 2006, e continua aumentando — na verdade a proporção de doentes mentais entre prisioneiros é cinco vezes maior que entre a população não encarcerada.

Ninguém quer mandar o gênio de 13 anos que ama Harry Potter e seu bichinho de pelúcia para a cadeia. Mas nossa sociedade, com o estigma que as doenças mentais provocaram o declínio do sistema público de saúde, não nos dá outra opção.

Aí então outra alma torturada atira em um restaurante. Um shopping. Uma classe de primeira série. E nós cerramos nossas mãos e dizemos: “Algo tem que ser feito”.

Eu concordo que algo tem que ser feito. É hora de uma significativa e abrangente discussão nacional a respeito da saúde mental. É o único jeito de realmente curarmos o país.

Deus me ajude. Deus ajude Michael. Deus ajude nós todos.

* * *


E vale ler as reflexões da Nanda, no Blog Mamíferas, a partir do massacre de Newtown e do filme Precisamos falar sobre Kevin, aqui:

(...) Em casos de atiradores adolescentes, até onde a culpa é dos pais? Porque precisamos culpar outras pessoas que não os atiradores? Não estou isentando o papel (ou ausência) dos pais na formação desses indivíduos, que em poucas instâncias sobrevivem para a realização de testes que comprovem sua psicopatia ou outras doenças mentais, mas será que está em nosso poder impedir que nossos filhos queimem mendigos, ou atropelem ciclistas, ou atirem em crianças na escola?

O medo do meu filho ser vítima é o mesmo medo de que ele seja o criminoso. Mas a culpa não é da mãe.

22 de dez. de 2012

O fim do (meu) mundo


Do psicanalista Mario Corso, em seu blog (aqui):

Se você está lendo estas linhas é por que o fim do mundo, previsto para hoje, não aconteceu. Confesso uma ponta de decepção, o fim, ou ao menos uma catástrofe, engrandeceria o homem, nos restituiria a condição de protagonistas num universo indiferente ao nosso destino. O cosmos foi mais uma vez indiferente aos rogos dos humanos e às suas previsões, o universo e o planeta continuam na sua imperturbável mecânica celeste, independente e ignorantes das nossas malfadadas conjecturas.

Diga-se, em favor dos Maias, os pretensos profetas do apocalipse em questão, que isso não foi uma ideia deles, e sim uma leitura apressada nossa, a partir de informações incompletas sobre sua cultura e calendário. Se não foi dessa vez, não se preocupe, cedo ou tarde vão anunciar outro fim, e de novo vamos vacilar se acreditamos ou não. A temática apocalíptica é uma velha conhecida e parece que não sai de cartaz. Não faz muitos anos, em 2000, era o mesmo temor, o mundo iria acabar, e cá estamos nós, lampeiros como sempre.

Inútil reclamar da imbecilidade, invocar racionalidades de todas matizes, acusar os crentes apocalípticos de passar atestado de ignorância científica. Até procede, mas a questão é outra: esse temor tem raízes míticas, e esse sistema de crenças e medos não funciona com a lógica da razão. Quando se opera com o sistema mítico, a ciência e o bom senso não têm entrada. Qualquer sistema mitológico clássico, quando conseguimos captá-lo em sua forma mais articulada e completa, pensa o cosmos com os mesmos termos: o nascimento (ou renascimento), um período de auge glorioso, um declínio sofrido e, finalmente, a destruição com o retorno ao caos. Portanto, o apocalipse faz parte desse esquema, dessa visão do mundo. Quando se raciocina miticamente, mais dia menos dia, desemboca-se nesse vórtice.

A questão que muitos se colocam é: por que discursos assim, tão disparatados, ainda tem pregnância? Por que, contra todas as evidências possíveis, ainda há quem acredite nisso? Creio que a questão está mal posta, poderíamos pensar o contrário, por que não seria assim? Goste-se disso ou não, o tempo do mito não acabou. O avanço da ciência e seu método, se por um lado combate a religião, a superstição, a magia, deixa muitas questões sem respostas e é onde se abre a brecha para o retorno do pensamento mítico. Os homens podem viver com pouco, mas raramente abrem mão de um sentido para o mundo e para sua vida. Qual a razão da existência? Para onde vamos? De onde viemos? Se o futuro promete tanto, por que me tocou viver esta época tão menor? Que diferença fiz, farei, nada mudaria se eu jamais tivesse nascido?

A ciência explica o mundo, mas quanto aos anseios de sentido de que padecemos, fornece mais dúvidas do que certezas. São poucos que agüentam a vida segurando-se no pouco que ela nos dá e encaram o sem sentido da existência. Já o pensamento mítico é um gerador de sentidos, ele capta o horror humano ao vazio e o preenche de qualquer maneira, com o que estiver mais à mão. Melhor um universo de conto de fadas, com entidades benignas ou malignas nos controlando que o nada. Nosso narcisismo não suporta que não haja transcendência, que sejamos um acaso na imensidão cósmica, um mero macaco melhorado.

O erro mais banal, mais primário, em que nosso pensamento cai, e como cai, é o de confundir-se com o objeto a ser examinado. Se alguém acredita que estamos no fim dos tempos, é possível que ele tenha razão, algum fim se aproxima, mas é mais provável que seja o fim dele, ou o fim de um mundo que reconhece como seu. Todos constatamos a velocidade com que a história anda e atropela tudo: costumes, formas de pensar, de viver. São tantas as novidades que perdemos as referências. A revolução da semana passada está velha, a tecnologia de ontem virou sucata.

A sensação é que o ritmo vem se acelerando. O fato é que nos sentimos ultrapassados a cada dia e, se não estamos em constante adaptação, corremos o risco de não entender o mundo em que vivemos. Nesse constante recriar-se para o novo, alguns se cansam e se perdem pelo caminho, ou ainda, simplesmente desistem. São esses os que vivem o fim do seu mundo, afinal, os valores que lhe ensinaram na infância já não servem, a paisagem não é a mesma, os anseios são outros. Não fica claro que o mundo está acabando? Quando chega a notícia do fim dos tempos, apenas confirma algo que já sentimos.

Sinceramente não desgosto de ondas apocalípticas, me sinto mais humano, mais completo, reencontro minhas desativadas ramificações religiosas que por momentos entram em alerta. Uso para fazer um exercício, que sugiro a todos: perguntar-se qual parte nossa está morrendo? Qual dos horizontes em vias de desaparecimento vamos sentir falta?

O homem não tem uma inclinação nostálgica por vocação mórbida, nossa substância é fornecida pelo tempo em que vivermos, que nos fez ser o que nos tornamos, isso é tudo de que dispomos. É duro pensar que tantos seguirão sem nós, por um tempo indefinido. Parece injusto, jamais saberemos da história que está por vir. Pensar que seríamos o último capítulo nos deixaria no admirável papel de ponto final, protagonistas essenciais, o que infelizmente não somos. Uma velha e saudosa senhora que conheci sempre dizia: “o cemitério está lotado de insubstituíveis”. Somos todos datados. A questão é quando expira o prazo. Viveremos um apocalipse privado, esta é a única certeza.



un pueblo sin pernas, pero que camina


A todos nós do eixo Rio-São Paulo, que tão alheios permanecemos do que se passa no resto deste Brasil; a nós brasileiros, que tão alheios nos mantemos do resto da América Latina - como se não fôssemos daqui, como se não pertencêssemos - uma dica: este É o nosso mundo.

Vamos dibujando el camino. Aquí estamos de pie.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...