19 de dez. de 2012

cerco

Laerte, via

Os números não deixam espaço para o otimismo. É a conclusão a que se chega quando se toma conhecimento dos dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pela Fundação Pró-Livro e pelo Ibope Inteligência. O estudo, que está na sua terceira edição e envolveu 5.012 pessoas em 315 municípios do país, traçou um panorama preocupante: houve uma queda de 9% de leitores em comparação a 2007, o último ano em que a pesquisa foi feita.

Estatisticamente, seria possível afirmar que 50% da população do país, ou 88 milhões de pessoas, não leem sequer um livro por ano. Ao mesmo tempo, aumentou o número de pessoas que afirmaram passar o tempo de lazer na internet ou vendo televisão – para esses entrevistados, a leitura não seria uma opção de passatempo.

Nesse cenário pessimista, conquistar novos e jovens leitores seria essencial. Mas como? É uma das perguntas que a socióloga Zoara Failla, coordenadora do estudo, tenta responder nesta entrevista aqui.

Fonte (indicação de Lair Amaro, sempre instigante)

* * *

(...) os resultados do levantamento revelam um cenário preocupante. O Brasil é um dos países que menos leem na América do Sul. Enquanto os brasileiros leem cerca de quatro livros por ano, os argentinos leem 4,5 e os chilenos, 5,4.

(...) A principal razão apresentada por mais da metade dos entrevistados para não ler é a falta de tempo, seguida pela falta de interesse. A maioria também considera mais prazerosas outras atividades que não a leitura. Assistir à televisão é o passatempo preferido de 85% das pessoas. Ouvir rádio e sair com amigos também estão entre as preferências. Já a leitura, seja de livro, revista ou jornal, só está nos planos para tempo livre de 28% dos entrevistados.

Apesar de ser uma das últimas opções de muita gente, a leitura é considerada importante por grande parte dos entrevistados. Para 64%, ler representa “fonte de conhecimento” e 6% pensam que a leitura é uma forma de “vencer na vida” e “melhorar a situação financeira”, embora 47% dos entrevistados digam não conhecer ninguém que tenha se tornado bem-sucedido por causa dos livros.

A pesquisa também mostra que no Brasil são os estudantes os que mais leem. Crianças entre cinco e 17 anos, em idade escolar, representam 35% dos leitores do país.

Entre os entrevistados que estudam, o percentual de leitores – 48% – é três vezes maior do que o de não leitores – 16%.Entre as pessoas que não estudam, a parcela de não leitores é cerca de 50% superior à de leitores.

Os dados mostram ainda que a maioria das crianças só lê livros didáticos obrigatórios e paradidáticos indicados pela escola. Isso é mais evidente entre os cinco e 10 anos, faixa etária em que somente 28% leem por iniciativa própria.

Para Pansa, isso é reflexo de que não basta investir em políticas públicas de incentivo à leitura no ambiente escolar, mas é preciso incentivar o contato com livros em casa. “Os pais têm que dar o exemplo, mostrar que a leitura também é entretenimento, não apenas obrigação”, afirma.

A pesquisa confirma a influência da família na aquisição do hábito da leitura. Entre os leitores, 43% apontam a mãe como figura determinante nessa escolha, enquanto seis em cada dez não leitores afirmam nunca terem visto os pais lendo.

Como solução possível, Pansa aponta o investimento em espaços não formais de educação, como bibliotecas. “Tornar as bibliotecas públicas um ambiente atraente e acolhedor, com opções de atividades culturais e de lazer – com programações atrativas, espaços confortáveis, grupos de leitura, horários acessíveis, entre outros – ajudaria a fazer com que a imagem da biblioteca não seja associada somente a um dever escolar.”


A propósito, dê também uma olhada aqui.

"Isso vale para livros fechados também ou é só mais uma
afetação intelectual do televisão-é-para-a-plebe? :) Eu adoro Quino,
mas até neles os automatismos dos intelectuais anos 1970/80 se incrustam."
(Wilson Gomes, aqui)

Não adianta endeusar o livro em detrimento de outros produtos. Há bons e maus livros, revistas, jornais, programas de rádio e televisão, música documentários, filmes - e não gosto, pessoalmente, de classificações pré-concebidas de "bons" ou "maus" produtos, acho que muito preconceito se esconde aí.

Do mesmo modo, há ler, ouvir música ou ver filmes só por lazer, para desligar (o que não é mau em si - o que preocupa é o excesso ou, pior, a exclusividade), e há fazer o mesmo para se ligar ao mundo, à realidade, para inquirir e questionar (e também aqui o excesso pode ser aflitivo).

Por outro lado, a leitura pode e deve ser um canal privilegiado para o desenvolvimento de uma consciência crítica. Para que cada um possa justamente se munir de ferramentas para fazer seu próprio discernimento crítico diante de todos os produtos que lhe caírem nas mãos. E a falta de capacidade de leitura crítica, num mundo em que somos bombardeados por um volume cada vez maior e um fluxo cada vez mais acelerado de informações, é alarmante. Porque informação que não é apropriada criticamente pelo receptor não vira conhecimento, vira manipulação.



18 de dez. de 2012

violência e paranoia



“Muito cedo para falar sobre uma nação louca por armas? Não, muito tarde. Pelo menos TRINTA E UM tiroteios em escolas desde Columbine”. Autor do documentário ‘Bowling for Columbine’ (Tiros em Columbine, no Brasil - assista aqui), o cineasta norte-americano Michael Moore recorreu a sua conta no Twitter para, a exemplo do que faz grande parte dos americanos, demandar que o presidente Barack Obama lidere o enfrentamento ao lobby republicano a favor das armas.

Moore alcançou fama internacional em 2002, quando seu filme sobre o massacre de Columbine, que vitimou 15 pessoas (incluindo os dois atiradores) em abril de 1999, ganhou o Oscar de melhor documentário. Desde então, o cineasta se tornou um dos maiores expoentes contra o lobby da indústria armamentista nos Estados Unidos. Para defender seu ponto nesta sexta-feira, Moore destacou que “nesta manhã, um maluco atacou 22 crianças numa escola primária na China. Mas tudo o que esse maluco tinha era uma faca. Número de mortes? Zero“.

(...) O fato de o massacre de 27 pessoas desta sexta-feira envolver 20 crianças com menos de 10 anos pode enfim contribuir para sensibilizar aqueles que ainda acreditam que a posse de uma arma é garantia de segurança. A impressão, aliás, é que se os EUA não derem um basta à questão agora, não o farão nunca mais. O problema da vez é que a oportunidade para evoluir no assunto surge bem na hora em que o presidente Obama tenta se entender com os republicanos para evitar o abismo fiscal. (Na íntegra aqui)

* * *

De Mauro Santayana, em seu blog (na íntegra aqui):

"Uma sociedade que envia seus jovens ao mundo inteiro para matar, em nome dos negócios, não pode espantar-se com os massacres de seus adolescentes e suas crianças (...). Muito da cultura norte-americana tem sido, desde a guerra deliberada contra os índios e o avanço para o Oeste, uma cultura da morte. Para formar exércitos de assassinos, é necessário adestrar  seus possíveis integrantes para matar sem vacilações. Para isso é preciso criar os mitos, como os do heroísmo, da coragem, da ousadia, da força física, da astúcia dos predadores,  contra os povos indefesos do mundo inteiro. É preciso reduzir o homem ao réptil que foi na origem dos tempos.

"(...) A ideia de matar é estimulada nos americanos desde a infância. Na adolescência, a arma de fogo, para muitos, é símbolo da masculinidade. E esse apego à violência e ao sangue tem sido exportado ao mundo inteiro pela sua fantástica indústria do entretenimento, na literatura, no cinema e, mais recentemente, nos jogos eletrônicos e nos enlatados da televisão. (...)

A intimidade com o sentimento da morte gera também o medo, o pânico, e a vontade paranoica do suicídio."

...com o que o próprio Michael Moore (na íntegra aqui) não deixa de concordar, também associando a agressividade ao medo paranoico:

"Os estadunidenses somos incrivelmente bons para matar. Acreditamos em matar como forma de conseguir nossos objetivos. (...) Nossa tendência a matar não é somente histórica (o assassinato de índios, de escravos e de uns e outros na guerra 'civil'): é nossa forma atual de resolver qualquer coisa que nos inspira medo. É a invasão como política externa. (...) Somos um povo que se assusta com facilidade e é fácil de ser manipulado pelo medo. De que temos tanto medo, que necessitamos ter 300 milhões de armas de fogo em nossas casas? Quem vai nos ferir? Por que a maior parte dessas armas se encontra nas casas de brancos, nos subúrbios ou no campo? Talvez, se resolvêssemos nosso problema racial e nosso problema de pobreza (uma vez mais, somos o número um com maior número de pobres no mundo industrializado), houvesse menos pessoas frustradas, atemorizadas e encolerizadas estendendo a mão para pegar a arma que guardam na gaveta."

* * *

"Os Estados Unidos da América são um país excepcional com relação ao mundo inteiro quanto à intensidade do sentimento religioso e quanto ao fascínio pela violência e pela morte: as duas coisas estão ligadas. (...) Aquelas crianças mortas, as lágrimas dos seus pais e de todos os pais dos EUA são os sacrifícios humanos que a América deixa se impor pela religião do fuzil. Até agora, as Igrejas norte-americanas foram tímidas sobre a questão das armas, muito mais tímidas do que sobre outras questões pro-life: é hora de que o controle das armas comece a fazer parte da 'cultura da vida' na América religiosa. Até então, a religião das armas continuará ceifando vítimas."

- Massimo Faggioli, historiador italiano, aqui

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"Se Obama quer mudar uma mentalidade como essa poderia começar por proibir o uso dos drones, aviões não tripulados, para praticar crimes em terras remotas que fazem as vezes de novo Velho Oeste.

"Sejamos claros: esse tipo de ataques corresponde a execuções extra-judiciais e, portanto, viola uma das vacas sagradas da democracia norte-americana qual seja o devido processo legal.

"Admito que é uma tarefa insana combater terroristas fanáticos, mas rasgar para isso códigos civilizados de conduta é armar o braço de mentes igualmente insanas para que matem crianças tão lindas e tão queridas, como são todas as crianças aos olhos dos pais." 

(Clovis Rossi, em sua coluna de hoje na Folha de S. Paulo, na íntegra aqui)

Enquanto isso, ONGs de donos de armas já estão defendendo a liberação do uso de armas nas escolas americanas, sob a alegação de que, "armados, os presentes no interior da escola poderiam ter resistido ao chacinador" (em português aqui).

medo do fim


Maias explicam confusão no calendário

Líderes maias da América Latina foram a Los Angeles explicar a "confusão" na próxima mudança de ciclo no calendário pré-colombiano (...). "De acordo com o calendário maia, este ano será marcado por uma mudança de ciclo que foi iniciada há 5.125 anos, o chamado baktunes", disse à agência Efe Marte Trejo, historiador e astrônomo mexicano. "(...) O que acontecerá é simplesmente uma mudança de ciclo, que terminará em dezembro para começar um novo período ou novo baktun", afirmou.

(...) "A visão de mundo maia é a união entre a natureza e Deus, é a união entre os corpos celestes com a mãe terra", completou o sacerdote. O calendário maia é uma pedra de cálculo circular, disseminada na região da Mesoamérica, que, segundo o anuário gregoriano do sistema ocidental atual, foi iniciado no dia 13 de agosto de 3.114 a.C.

"O sistema de contagem de tempo dos maias não era linear, mas era circular e, por isso, o calendário também é circular, já que os ciclos começam em um ponto e terminam em si mesmos. Assim, nasce um novo período", indicou Trejo, que colabora com a Secretaria de Turismo do México para falar sobre o Mundo Maia.

Leia na íntegra aqui.

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Da coluna de Marcelo Gleiser na Folha de S. Paulo, 16-12-12:

(...) Leitores, podem se acalmar. Garanto que sexta-feira, dia 21, será apenas mais um solstício de verão, o dia mais longo do ano. No sábado de manhã, você estará tomando seu café tranquilamente, com um sorriso nos lábios, convencido de que essa história de profecia de fim de mundo é mesmo uma bobagem. Tudo será devidamente esquecido e a vida continuará como antes. Pelo menos, até a próxima profecia. (...)

[E mais: Ameaças de suicídio levam Nasa a desmentir ‘fim do mundo em 2012′]

Nenhum tablete de barro ou papiro misterioso prevê o fim do mundo. Ao contrário, os pouquíssimos documentos que sobreviveram à dilapidação tropical e ao fanatismo dos padres espanhóis, que queimaram tudo o que encontraram, não oferecem qualquer indicação de fim de mundo.

O mesmo ocorre com a ciência. Várias causas foram oferecidas para provocar o fim: a reversão dos polos magnéticos da Terra, a colisão com um asteroide, instabilidade solar, o planeta Nibiru, alinhamento galáctico etc. A Nasa preparou respostas para todas essas "ameaças" em seu portal e em um vídeo [acima]. A história do planeta Nibiru, por exemplo, foi inventada pela médium americana Nancy Lieder, que diz ter um implante na cabeça que permite a ela se comunicar com alienígenas do sistema planetário Zeta Reticuli, a 39 anos-luz de distância.

(...) Entre outras coisas, o medo do fim do mundo reflete nosso medo de perder o controle da vida, do nosso destino. Reflete o medo ancestral, encravado em nossa memória coletiva e reconfirmado todos os anos em dezenas de desastres cataclísmicos, de que a natureza é muito mais poderosa do que nós e tem o poder de nos aniquilar a qualquer instante.

Se nos séculos passados o fim do mundo refletia a ira divina ou a chegada da ressurreição, hoje, com os avanços da ciência, as causas são fenômenos cósmicos devastadores. Mas, como explico em meu livro "O Fim da Terra e do Céu", a simbologia é sempre a mesma: o fim vindo dos céus, sem que possamos nos defender, vítimas de nossos pecados ou de nossa fragilidade.

Mas não precisa ser assim. Temos um poder enorme para nos defender de medos ancestrais e infundados: a razão. Nossa compreensão da natureza não nos traz apenas celulares e DVDs mas também a certeza de que o conhecimento é a melhor forma de liberdade.

* * *
Não sei, não, Gleiser. Esse endeusamento da razão me preocupa um pouco, ou muito. Será mesmo que a mera razão, apenas o pensamento basta como ferramenta para nos assegurar e reconfortar diante do universo? Contrariando Goya, a razão, isolada, parece ter criado mais monstros do que respostas. Talvez, justamente diante da limitação inerente à nossa possibilidade de conhecer, tenhamos outros recursos importantes que não podemos renegar. O senso de fascinação e reverência diante daquilo que não conhecemos nem entendemos - e, como já disse um sábio, quanto mais a gente sabe, mais a gente sabe o quanto não sabe - talvez seja fundamental para não nos deixar mergulhar nas trevas e no medo. Talvez o medo seja fruto, em parte, justamente da perda do nosso senso de sagrado... Há que resgatá-lo.

haitianos

Fonteira entre Haiti (lado seco) e República Dominicana (lado verde). Via

Da Folha de S. Paulo, em 13-12-12 (aqui):

Imigrantes haitianos que se aventuraram em busca de melhores condições de vida no Brasil acabaram se aproximando entre si e criaram redutos em Porto Velho (RO).

A capital de Rondônia é um dos principais destinos dos haitianos que chegaram após o terremoto de 2010, que devastou o país caribenho.

Hoje, a capital de Rondônia já tem ruas em que a maioria dos moradores é de haitianos, instalados no centro e em bairros da periferia.

Eles dividem imóveis como quitinetes pelo aluguel médio de R$ 500 e costumam se reunir à noite nas ruas, que se transformaram em "pequenas Porto Príncipe", uma referência à capital do Haiti.

O governo de Rondônia oferece aulas de português aos imigrantes, mas o idioma que predomina nos redutos é o creole -língua falada pela maioria dos haitianos.

Segundo o governo, 792 se instalaram na capital, que tem como atrativo as obras das usinas hidrelétricas de Jirau e de Santo Antônio, no rio Madeira. Cerca de cem imigrantes trabalham nas obras.

Leia na íntegra aqui.

* * *

Do Estadão, em 31-10-12 (aqui):

O padre Rutemarque Crispim, pároco da cidade de Brasileia, cidade da fronteira do Acre com a Bolívia, faz um relato dramático da situação dos 280 haitianos abrigados na cidade. O fornecimento de energia elétrica da casa alugada pelo Governo do Acre foi cortado. O abastecimento de água também. (...)

O Governo do Acre não se manifestou oficialmente sobre o assunto ontem. O ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome tratou do assunto até o início da noite de ontem.

A única novidade anunciada após o fim da reunião foi que "o MDS está em contato com o governo estadual visando concluir no menor prazo possível uma alternativa pactuada para atendimento das ações emergenciais necessárias".

Por e-mail, a assessoria de imprensa também contrasta a declaração do secretário de Estado de Justiça e Direitos Humanos, Nilson Mourão, de que não tem mais orçamento para tratar dos haitianos, o que justifica atraso no pagamento da energia elétrica, água e aluguel da casa onde está instalado o grupo.

Leia na íntegra aqui.

E mais: faltam 12 dias para completar o crowdfunding do projeto Konbit Shelter, que está construindo casas lindas e sustentáveis para famílias haitianas lesadas pelo terremoto de 2010 e o furacão Sandy. Vale a pena conhecer e colaborar. Saiba mais aqui.

a espiritualidade de quem não crê


De Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 13-12-2012 (via IHU):

Não surpreende que, em um país como a Itália – onde não existe mais há quase 30 anos uma "religião de Estado", mas onde ainda não existe uma lei específica sobre a liberdade religiosa –, toda discussão sobre a laicidade do Estado e sobre os direitos dos crentes corra o risco de provocar um curto-circuito.

Acrescentam-se adjetivos qualificativos à laicidade ou se encerra-a no pejorativo laicismo, tornando quase impossível o desenvolvimento e a adaptação às condições sociológicas modificadas da Itália daquela convergência de intenções e de valores que o legislador constituinte sabiamente soube reconstruir sobre as ruínas da guerra.

À fúria de reduzir a presença do Estado e, ao mesmo tempo, pedir-lhe para ser o garantidor de uma ética religiosa específica, à fúria de confundir a soma de bens privados com o bem comum, a coesão social vem a faltar, e se atrofia aquele espaço comum garantido em que cada sujeito individual ou social pode contribuir para o crescimento humano e espiritual do conjunto da sociedade.

O Estado laico, de fato, não pode se limitar à função de quem regula o tráfego de uma sociedade civil que se moveria segundo diretrizes próprias, múltiplas e desvinculadas de um interesse coletivo. É indispensável, ao invés, encontrar e utilizar modalidades laicas para discernir o que é considerado bom para o conjunto da população e o que prejudica a convivência, que adaptações pensar para que o melhor sonhado não mate o bem possível.

Uma ética compartilhada não é utopia: trata-se, então, de identificá-lo, persegui-la, garanti-la com meios consoantes a um Estado não confessional que se responsabilize por uma sociedade já plural em religiões e culturas. Não nos esqueçamos de que a humanidade é una, de que fazem parte dela religiões e irreligiões, e que, em todo o caso, nela é possível, para crentes e não crentes, o caminho da espiritualidade, entendida como vida interior profunda, como busca de um verdadeiro serviço aos outros, atenta à criação de beleza nas relações humanas.

Eu sempre estive convencido de que há também uma espiritualidade dos agnósticos, daqueles que estão em busca da verdade, por estarem insatisfeitos com verdades definidas de uma vez por todas: é uma espiritualidade que se alimenta de interioridade, de busca de sentido, de confronto com a experiência do limite e da morte.

Trata-se de ser fiel à terra e à humanidade, vivendo e agindo humanamente, crendo no amor, palavra hoje abusada até esvaziá-la de significado, mas palavra única que permanece na gramática humana universal para expressar o "lugar" para onde o ser humano se sente chamado.

Além disso, a fé – essa adesão a Deus sentido como uma presença principalmente por causa do envolvimento que o cristão vive com Jesus Cristo – não está na ordem do "saber" e nem mesmo no da aquisição: acredita-se na liberdade, acolhendo um dom que não é possível se dar por si mesmo. Da mesma forma, os ateus, na ordem do saber, não podem dizer "Deus não existe": de fato, é uma afirmação possível apenas no âmbito da convicção.

Além disso, o cristianismo reconhece que o Deus no qual crê está presente e age também na consciência de quem não crê, porque todo ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus e tem em si a fonte do bem.

A laicidade do Estado é, então, aquela opção de fundo que permite reinventar continuamente instrumentos compartilháveis e linguagens compreensíveis por todos, garantir princípios de liberdade e de não opressão, defender a dignidade de cada um, começando por aqueles aos quais ela é negada, e que permite que cada um busque, também junto com outros, a plenitude de sentido para a própria vida.

- Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 13-12-2012. Tradução de Moisés Sbardelotto, via.

17 de dez. de 2012

a orquestra reciclada


O Update or Die deu a dica semana passada, o IdeaFixa falou hoje, já andei vendo no Facebook, e é bonito - vou bater nesta tecla também:

"Todos os dias aproximadamente 1.500 toneladas de lixo são despejadas nos arredores do Rio Paraguai. E no topo dessa montanha de lixo existe a comunidade de Cateura, formada por várias famílias que sobrevivem de selecionar, vender e reciclar esse lixo todo.

Eis que um dia, Favio Chávez, um músico que trabalha nessa comunidade, resolveu criar instrumentos musicais e ensinar as crianças locais a ter um caminho mais digno em meio a essa triste realidade.

Primeiro foi um violino, depois uma flauta, um violoncelo, até que algum tempo depois estava criada a The Recycled Orchestra. Um projeto belíssimo e inspirador que está mudando a realidade do pessoal de Cateura.

O projeto virou o documentário Landfill Harmonic e o teaser mostra Chávez e as crianças da Recycled Orchestra contando um pouco sobre o impacto que uma ideia dessas teve em suas vidas."

(Fonte)

da áfrica para áfrica


José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), em artigo publicado no jornal Valor, 11-12-2012 (via):

Reduzir a história de um povo a uma agenda imposta de fora para dentro, por melhores que sejam as intenções, é o caminho mais curto para o fracasso.

Esse tem sido o movimento pendular de muitas soluções redentoras endereçadas ao que se convencionou chamar de "o problema africano".

A África não quer mais ser tratada como um problema dos outros; nem ficar subordinada a soluções concebidas à sua revelia.

Essa foi a mensagem clara da presidente da Comissão da União Africana, Nkosazana Dlamini Zuma, em encontro que tivemos em novembro, em Adis Abeba, capital da Etiópia, e do qual também participou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Quem só enxerga a derrota do continente ignora que o seu relevo abriga uma das últimas fronteiras agrícolas do mundo - 60% dela ainda não utilizada. Não existe outra hipótese de futuro para a África que não venha associada à conquista da segurança alimentar

Esse encontro foi o ponto de partida de uma aliança para ampliar os esforços em prol da segurança alimentar na África, selada pela Comissão da União Africana, Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, sigla em inglês) e Instituto Lula.

Não estava em pauta lançar novos programas ou eleger uma bala de prata para o continente. A contribuição ali pactuada, no marco dos compromissos já firmados por governantes locais, como o Programa Compreensivo de Desenvolvimento Agrícola Africano (CAADP, na sigla em inglês), visa adensar as complementaridades entre iniciativas em curso para, dessa forma, obter um salto no conjunto. Sob aparência modesta pulsa uma profunda revisão de conceitos.

A África dispensa a ajuda ancorada na reinvenção da roda, que captura sua gente num eterno círculo vicioso de projetos autopredestinados a serem o marco zero da redenção local.

O salto significativo de que ela se ressente convoca as forças da cooperação a se engajarem no mais sensato, urgente e útil dos desafios: identificar brechas, erguer pontes entre ações bem sucedidas em curso; aumentar escalas; consolidar a sua coordenação.

Trata-se de um mutirão em aberto que, sob a liderança dos próprios líderes africanos, reúne outros parceiros internacionais, regionais e locais, incluindo atores multilaterais, públicos, privados e representativos da sociedade civil.

A FAO está convencida de que assim é possível vencer a fome. O papel da organização é apoiar esse impulso, não enxertar soluções prontas trazidas de fora.

Para a FAO, essa nova dimensão cooperativa vem ao encontro das energias tonificadas por mudanças recentes em sua dinâmica de funcionamento. A principal delas consiste em elevar as parcerias à condição de método e requisito de atuação de campo.

Também é importante superar divisões históricas entre iniciativas de desenvolvimento e ações de emergência. O respaldo técnico e as operações diretas precisam dialogar em tempo real no ambiente da ação e de forma permanente.

Erguer as linhas de passagem para a efetiva segurança alimentar das 53 nações que compõem o mosaico africano é plenamente factível dentro desses parâmetros.

Transformar agricultores de subsistência em pequenos produtores é um passo essencial. Outro, entender que a segurança alimentar depende de um conjunto de ações que excede a esfera agrícola e que dialoga também com outras políticas produtivas e sociais.

A fome em certas áreas do continente africano hoje decorre não propriamente da ausência de estrutura produtiva, mas de sua desativação pela recorrência de conflitos locais e regionais.
Ao pecado original das panaceias que ignoram as singularidades, a FAO responde com uma diretriz inegociável: a governança é o fator decisivo na construção da segurança alimentar.

Nada substitui o tripé formado por consenso político, programas inovadores e forte participação social. A articulação internacional é o corolário desse escopo - não o substitui. Foi essa baliza de discernimento altivo e parceria realista que comandou o encontro de Adis Abeba entre União Africana, FAO e Instituto Lula.

O amálgama principal do compromisso ali firmado é que a África não quer mais ser o sinônimo de fome no século XXI.

Hoje, a subnutrição penaliza um em cada quatro habitantes. Um contingente que cresceu de 175 milhões em meados dos anos 90, para cerca de 240 milhões de pessoas. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, de reduzir à metade a fome até 2015, registraram um percurso inverso aqui.

A mensagem que esses números carregam é categórica: não existe outra hipótese de futuro para a África que não venha associada à conquista da segurança alimentar. E não há tempo a perder. Para os famintos, o calendário da luta contra a fome só tem um dia: hoje, e não cabe perguntar que horas são.

Algumas nações do continente já assumiram essa perspectiva, resgatando uma prioridade abandonada nos anos 90, quando a ilusão na proficiência dos mercados globais levou muitos governos a descuidar da própria agricultura e do abastecimento.

Era um contrassenso econômico e demográfico. Embora a taxa de urbanização cresça velozmente no continente, 60% da força de trabalho africana ainda vive junto à terra; mais de 40% da população tem menos de 15 anos, só 4% estão acima de 65 anos. As mulheres formam um contingente superior a 520 milhões de pessoas e constituem a maior parcela da força de trabalho agrícola; desempenham, ademais, um papel estratégico que vai do plantio à provisão alimentar dos mercados locais.

Governança para investir, terras férteis, juventude e protagonismo feminino jogam a favor da esperança na África.

Quem desacredita da África e só enxerga a sua derrota ignora que o seu relevo abriga uma das últimas fronteiras agrícolas do mundo - 60% dela ainda não utilizada.

Há, ademais, um imenso potencial de trabalho e criatividade estocados nesse mosaico que o credencia a realizar esse que deve ser um dos capítulos épicos mais emocionantes do século XXI: erradicar a fome no berço original da humanidade.

quando um povo acorda para sua dignidade


"Depois de mais um fato consumado, parte da sociedade santarena acorda e resiste ao embuste, mais um dos embustes do governo federal. Escrevi esta cronica da vida real desta bela e sofrida cidade às margens do rio Tapajós", escreve Edilberto Sena, padre, membro da Comissão Justiça e Paz da Diocese de Santarém, PA, ao enviar para o IHU o artigo abaixo, por eles publicado em 13-12-12 (aqui):

Nestes dias aconteceu algo bem pequeno, mas bem estimulante ao se crer que outro mundo é possível. Santarém do Pará, cantada em prosa e verso como uma cidade abençoada por Deus e pela natureza, cuja praia de Alter do Chão [foto] foi considerada pelo jornal inglês como uma das mais belas do Brasil, vive hoje um drama escandaloso e ao mesmo tempo, provocador dos brios da população.

Recentemente chegou à cidade uma empresa imobiliária vinda de longe e comprou de maneira obscura um lote de 186 hectares de terra, na saída da cidade rumo ao aeroporto internacional de Santarém. Uma área nobre, entre o belo rio Tapajós e a rodovia de acesso ao aeroporto.

Como sua intenção era gerar lucro com venda de lotes imobiliários, a empresa utilizou dezenas de máquinas e equipamentos para rapidamente gerar um fato consumado. Devastou toda a mata, deixando a terra completamente nua. Acontece que dois anos atrás um grupo de 1.000 famílias sem teto ocupou a área e começou a levantar barracos, derrubando algumas árvores. A prefeita municipal entrou com uma ação na justiça exigindo a retirada dos ocupantes, alegando que ali era uma APP - área de proteção permanente, devido um lago próximo e o rio Tapajós em frente. A juíza acatou o pedido e mandou evacuar os ocupantes, através de pelotão policial.

No meio deste ano a empresa forasteira chegou, negociou com os alegados donos a área e comprou numa estranha negociação, envolvendo o secretário municipal de meio ambiente, membro da família alegada dona da área. Ao mesmo tempo, a prefeita se omitiu completamente de embargar a negociação, mesmo tendo no ano 2010 garantido que ali era uma APP.

Tendo a devastação total de 186 hectares acontecido, alguns meios de comunicação passaram a denunciar o escândalo. A Câmara de Vereadores se sentiu pressionada e uma comissão foi visitar a empresa, que justificou que estava toda dentro das leis municipais. Os vereadores se conformaram com a explicação e se calaram. A prefeita municipal calada estava e calada continuou.

Foi quando um grupo de pessoas mais indignadas e estimuladas pelo rádio, passou a chamar outros indignados através do facebook. A adesão aumentou, as denúncias aumentaram acusando de omissão as secretarias de meio ambiente, municipal e estadual, Ministério Público Estadual e IBAMA. Até que foi organizado um ato público de protesto lá em frente a área devastada e o lago ameaçado de assoreamento. O Movimento recebeu o nome de Abraço ao Juá (o lago), berçário de peixes do Tapajós.

Com tanta pressão popular e dos meios de comunicação, o MPE se antecipou ao protesto público do abraço ao Juá e ajuizou uma ação civil pública em matéria ambiental contra a empresa devastadora e o próprio município de Santarém. Mesmo a devastação já tendo ocorrido, o MPE requer duas medidas imediatas dos acusados: paralização das obras de implantação do loteamento residencial. A intenção da empresa era vender mil e quinhentos lotes residenciais. A segunda demanda do MPE é a suspensão, pelo município dos efeitos de licenciamento ambiental para a atividade, até a decisão do mérito aos pedidos principais.

Mesmo com a antecipação, ainda que tardia do MPE, o movimento Abraço ao Juá, será realizado hoje, [foi realizado] 13 de dezembro e a expectativa é que participem mais de 300 indignados defensores da vida e da mãe natureza violada.

Moral da história, quando pessoas da sociedade despertam a consciência de sua dignidade coletiva ferida, outro mundo é possível. Falta agora a sociedade santarena se indignar com o perverso plano hidrelétrico do governo federal, que planeja destruir o rio Tapajós com sete mega hidrelétricas em sua bacia no Pará.

casaldáliga deveria ser papa, mas – de novo – está ameaçado de morte


De Leonardo Sakamoto, em seu blog, em 16-12-12:

Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia e um dos maiores defensores dos direitos humanos no país, mais uma vez está marcado para morrer. Aos 84 anos e doente, teve que deixar sua casa em São Félix do Araguaia por conta das ameaças surgidas em decorrência do governo brasileiro, finalmente, ter começado a retirar os invasores da terra indígena Marãiwatsédé, Nordeste de Mato Grosso – ação que sempre foi defendida por ele.

Incentivados por fazendeiros e políticos locais, alguns grupos de invasores decidiram resistir à decisão judicial de sair e forçaram conflitos com as tropas, além de ameaçar lideranças.

Casaldáliga, junto com Tomás Balduíno, dois bispos engajados na luta pela dignidade no campo, serão homenageados, nesta segunda (17), na entrega do Prêmio Direitos Humanos 2012, em Brasília.

Joseph Ratzinger, em um discurso a bispos brasileiros na época da nossa última eleição presidencial, afirmou que “os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas”. Ou seja, Bento 16 pediu para que os representantes de sua igreja orientassem politicamente os fiéis. E seguiu o script esperado, condenando o aborto e a eutanásia e, implicitamente, a pesquisa com embriões para obtenção de células-tronco.

Todas as igrejas e suas chefias são livres para elencar seus assuntos mais importantes. Mas fico imaginando a pauta de preocupações se, ao invés de Joseph Ratzinger, fosse Pedro Casaldáliga o papa. E, ao se dirigir a bispos brasileiros, fizesse outro tipo de “juízo moral” em “matérias políticas”, retomando palavras que ele proferiu há tempos:

“Malditas sejam todas as cercas! Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e amar! Malditas sejam todas as leis amanhadas por umas poucas mãos para ampararem cercas e bois, fazerem a terra escrava e escravos os humanos.”

A Teologia da Libertação tem sido uma pedra no sapato de quem lucra com a exploração do seu semelhante. Na prática, esses religiosos católicos realizam a fé que a Santa Sé não consegue colocar em prática. Pessoas como Pedro Casaldáliga, Tomás Balduíno, Henri des Roziers, Erwin Klautler e Xavier Plassat que estão junto ao povo, no meio da Amazônia, defendendo o direito à terra e à liberdade, combatendo o trabalho escravo e acolhendo camponeses, quilombolas, indígenas e demais excluídos da sociedade.

Bento 16, no mesmo discurso, defendeu a solidariedade aos pobres e desamparados. Como ex-coroinha, fico pensando em que tipo de solidariedade ele estava falando? Da caridade? Uma ação pouco útil, que consola mais a alma daquele que doa do que o corpo daquele que recebe?

Ou da solidariedade de reconhecer no outro um semelhante e caminhar junto a ele pela libertação da alma e do corpo de ambos? Se for a primeira, ele está pregando a continuidade de uma igreja que ainda não consegue entender as palavras revolucionárias que estão no alicerce de sua própria fundação.

Se falou da segunda, a solidariedade como redenção do corpo e da alma, ele se referiu claramente à Teologia da Libertação.

Prefiro acreditar que ele estava falando da primeira, pois seria irônico a atual administração do Vaticano pregar algo que o catolicismo vem combatendo há tempos.

Enquanto isso, nossa realidade continua lembrando muito daqueles microcosmos de poder do Brasil profundo, presentes nas obras de Dias Gomes: o padre, o delegado e o coronel, amigos de primeira hora, tomando uma cachacinha na (ainda) Casa-grande, gargalhando da vida e discutindo sobre os desígnios do mundo, que – para eles – deveria ter a cara de seu vilarejo.

16 de dez. de 2012

negra, lésbica e feminista


Ellen Oléria, mulher, negra, gorda, lésbica assumida (desde semana passada, sempre que a câmera mostrava sua família, a legenda era "Mãe e namorada da Ellen"), foi escolhida pelo público vencedora do The Voice Brasil. Fato é que a moça canta com a alma - e foi isso que motivou o público a escolhê-la, sem dar a mínima para o fato de ela ser como é. Ou melhor, justamente por isso.

Por mais que esperneiem os profetas do juízo final, estamos mudando. Um novo mundo começa.

"Música, cantora, compositora e atriz brasiliense. Ellen Oléria também é negra, lésbica e feminista. Sua voz entoa uma melodia poderosa e sua performance cênica cheia de atitude magnetiza a todos. Ellen canta, toca e mistura ritmos brasileiros com soul music e levadas de jazz, transparece sua negritude no palco e nas letras. Em entrevista de 2009, Ellen afirma: 'Canto o universo de uma negra, lésbica, criada no Chaparral, região entre Taguatinga e Ceilândia'."

Do Blogueiras Feministas, aquiDica da Srta. Bia.

massacre deve gerar reflexão sobre cultura dos EUA


Da BBC Brasil:

(...) Para especialistas, porém, o fácil acesso às armas no país, apesar de ter um papel crucial no contexto da violência, é apenas parte de um problema maior.

Segundo eles, características sociais e culturais da sociedade americana, como a glorificação da violência ou a falta de investimentos na saúde mental da população, são fatores que explicariam a frequência de massacres no país. (...)

"Tragédias como a que vimos podem acontecer em qualquer lugar, mas há provavelmente um número de aspectos e modelos da cultura americana que tornam tais incidentes mais frequentes no país.", afirma McConnell.

Nesse sentido, especialistas que partilham da mesma visão de McConnell afirmam que a matança lança luz sobre o sistema de saúde mental dos Estados Unidos, que recebe pouca atenção e recursos insuficientes por parte do governo.

[E mais: "O medo do meu filho ser vítima é o mesmo medo de que ele seja o criminoso. Mas a culpa não é da mãe", em Precisamos falar sobre Kevin. E Adam. E Wellington]

"Não se pode matar alguém com uma arma se o acesso a ela é limitado. Porém, com certeza, não podemos explicar essa tragédia apenas sob o prisma da disponibilidade de armas, mas também de uma cultura que incentiva o porte de armas como solução para todos os problemas."

Leia na íntegra aqui.

 


literatura, mística e gênero: adélia prado


Em poucos poetas e escritores — brasileiros ou não — pode-se notar uma intimidade e uma proximidade explícitas com o mistério divino como em Adélia Prado, essa mineira de Divinópolis, esposa de José e mãe de cinco filhos, professora e formada em filosofia, catequista e católica praticante, vivente e vibradora da espiritualidade franciscana.

A poesia de Adélia é crente. Mas de uma crença que não pretende nem “consegue” ser convencionalmente litúrgica ou teológica ou catequética ou religiosa no sentido mais tradicional do termo. Pelo contrário. A fé e a crença que perpassam o discurso poético em Adélia Prado atravessam igualmente todas as correntes mais puramente humanas da vida cotidiana e ali descobrem e dizem o Transcendente, presente em epifania e diafania.

O modo como Adélia concebe sua poesia a constrói enquanto derivada e nascida da fonte mesma de todo Poema que é a Palavra de Deus. A poesia adeliana é, pois, exercício espiritual, estando permanentemente em contato estreito e tangibilidade concreta e incessante com a corporeidade humana. O corpo é o território onde o espírito é experimentado e o sagrado experienciado. E disso é feita a poesia. E no caso de Adélia é seu corpo feminino, de mulher, com todas as conseqüências e características biológicas que isso implica, o lugar onde a epifania divina acontece e se dá.

Sendo Adélia poeta e mística, nela o Eros e o Mysterion não são terrenos separados e antagônicos, mas, pelo contrário, se tocam em harmoniosa síntese. Adélia, como todos os místicos autenticamente cristãos, não tem pudor em usar expressões eróticas e sexuais para expressar sua experiência de Deus e traduzi-la em poesia.A poesia adeliana é igualmente pascal. A síntese entre dor e alegria, entre sofrimento e gozo é nela uma constante. E assim sendo, encontra feliz analogia com todo o mistério cristão expresso através dos tempos, na teologia, na mística, na oração, na liturgia, por ter em seu centro o mistério que se depreende da Encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, Verbo de Deus encarnado, vivo, morto e ressuscitado.

O texto poético, materno-teologal de Adélia Prado é, portanto, texto revelado e aderido na fé que, feito poesia, traduz em linguagem artística e estética, literária, os mistérios escondidos e revelados desde a fundação do mundo.

Ler Adélia Prado é como adentrar-se nas origens misteriosas da experiência de Deus do povo da Bíblia, que experimentou a presença do Eterno como Palavra. Palavra que desde o silêncio eterno foi livremente pronunciada no tempo e na história, penetrou os ouvidos humanos e fez cair os véus que velavam aos olhos interiores o dinamismo existencial sobrenatural que os habitava.

Nos primórdios da Revelação ao povo de Israel, os homens e mulheres que captaram e falaram sobre essa revelação identificaram Deus como Palavra. Palavra que rompe o silêncio e fala. Mas se sabe e se declara que fala porque existe um ouvinte, ser humano ou mulher, que ouviu, ouve e fala daquilo que ouviu.

A linguagem humana, na medida em que toma consciência de si mesma, perceberá que fala do que lhe foi dado, fala do que ouviu, do que recebeu, do que acolheu do dom primordial, do mistério indecifrável e inefável que é fonte de tudo e de todos e está na origem sem origem que foi caos e agora é cosmos.

Se físicos e cientistas se debatem com a pergunta sobre o porquê de existir algo em vez de nada, o poeta, pelo contrário, em sua inspiração, “sabe” o porquê, porque o apalpa em sua povoada ignorância que o faz dizer o que não diria por que não sabia, mas que sabe o que lhe é ensinado gratuita e amorosamente.

No poema “Antes do nome” está, pois, parece-nos, uma chave primordial para começar a percorrer a trajetória de Deus na poesia adeliana.

Antes do nome
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”, o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror


Para Adélia, Deus é mistério santo reservado e revelado. Que se entrega na mesma medida em que se esconde. Que, inapreensível pela indústria humana, pronuncia sobre o “esplêndido caos” primigênio a palavra assistida pelo sopro do Espírito, fazendo emergir as coisas que não são para que sejam.

Adélia “sabe” porque lhe foi dado saber. E este saber doado é a fonte de sua poesia, da palavra que chama com nomes menores, “corriqueira”, “muleta”, pois na verdade é derivada da única e fundamental substantiva Palavra divina que cria e gera vida ali onde antes só havia o nada.

A inspiração poética adeliana é, consciente e assumidamente, inspiração divina. Antes do nome, portanto, está o Nome que a tudo nomeia e por nada nem ninguém pode ser nomeado. “Coisa grave e surda, inventada para ser calada.” Nome existente no silêncio e nele eloqüente como dom amoroso que se experimenta indizível e inexprimivelmente. Nome impronunciável pelos lábios humanos, mas que misericordiosamente se faz acessível à carne perecível e mortal capaz de Deus, destinada à morte e transpassada de finitude.

- Maria Clara Bingemer, via

falsa neurociência perpetua a diferença entre os sexos


Pesquisas que comprovam a diferença biológica entre os sexos são bobagens pseudocientíficas e sexistas que alimentam o preconceito na sociedade, defende Cordelia Fine, pesquisadora do Centro de Psicologia Aplicada e Ética Pública da Universidade de Melbourne, formada em psicologia experimental na Universidade de Oxford, com mestrado na Universidade de Cambridge e doutorado na College London, em "Homens Não São de Marte, Mulheres Não São de Vênus". O título é uma clara referência a um dos mais conhecido livros que propagam essa ideia, "Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus", o best-seller de John Gray.

Fundamentada em pesquisas e com um peculiar senso de humor, a autora busca mostrar que as diferenças entre os sexos são criadas pela comunidade, parte do contexto social, não por fatores genéticos inalteráveis.

Mulheres são coletoras, homens caçadores. As fêmeas têm mais empatia, machos são lógicos. Para Fine isso não passa de uma tentativa de manter uma sociedade de "castas sexuais". A ideia esconde a prerrogativa de que homens são melhores advogados, cientistas e engenheiros; mulheres são boas acompanhantes, facilitadoras de grupos e professoras primárias.

Sem desmerecer ou exaltar nenhuma profissão, Fine resume essa teoria da seguinte maneira: "em média, a inteligência das mulheres é mais bem empregada para deixar as pessoas à vontade, enquanto os homens se dão melhor entendendo o mundo e construindo e consertando as coisas que precisamos nele".

"Não existe nada de novo na ideia de procurar no cérebro a explicação e a justificativa do status quo do gênero", escreve Fine na introdução da edição. No século 17, Malebranche afirmava que o abstrato era incompreensível às mulheres dada a delicadeza de suas fibras cerebrais. "Um excesso de pensamentos abstratos faria com que essas fibras se rompessem!", conta.

Fonte: Folha de S. Paulo

eram os jagunços terroristas?


Artigo de Sylvio Back, cineasta e diretor do filme O Contestado - Restos Mortais (2010, trailer acima), em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, 09-12-2012 (via IHU):

História, memória, pretérito, pra que te quero? No entanto, há que se exigir "luz, mais luz!", como balbuciou Goethe (1749-1832) no leito de morte. Sim, os insólitos e decisivos episódios de um dos mais desfrutáveis contornos anímicos do País - inaudita mescla de civilização e barbárie nos cafundós de Santa Catarina e do Paraná - permanecem soterrados a sete palmos pela tortuosamente amnésica História do Brasil. Quando não, enovelados por uma absoluta indiferença e assaz suspeita omissão.

A Guerra do Contestado (1912-1916), o maior levante bélico no campo brasileiro do século 20, verdadeira guerra civil nos sertões sulistas, em plena efeméride de seu centenário, vem se transformando em um zumbi do nosso passado recente. Suas perturbadoras vísceras morais, míticas, políticas e ideológicas, que continuam a nos assombrar, estão a exigir exorcização que a catapulte à pertinência e à atualidade.

A 20 de outubro de 1916, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, sob a égide do presidente da República, Venceslau Brás, o presidente de Santa Catarina, Felipe Schmidt, e Afonso Camargo, presidente do Paraná, "..inspirados no amor à paz...", firmaram pacto que, aparentemente, selou o fim das sangrentas hostilidades nas e entre as então províncias (Estados) vizinhas.

Era uma paz enganosa, porque nos dois anos subsequentes, por meio das chamadas "varreduras", sob o comando do então capitão "Rosinha" (José Vieira da Rosa, 1869-1957), da Polícia Militar de Santa Catarina, perpetrou-se um autêntico genocídio, com a perseguição e matança de centenas de rebeldes e caboclos indefesos. Nessas varreduras, oficialmente conhecidas no meio militar como "raides proveitosos" (sic), não havia diálogo entre o caçador e o caçado, apenas o matraquear do tiroteio, o pavor de velhos inermes e o choro de mulheres e crianças. Massacres do tipo do My Lai vietnamita (1968), avant la lettre.

Nestes seus cem anos, não se espantem, a Guerra do Contestado debate-se, misteriosa e sintomaticamente, imersa no mais inacreditável esquecimento factual e investigativo, que, aliás, sempre lhe maculou a imagem e o reconhecimento de várias gerações de historiadores. O que, afinal, não é nenhuma novidade.

Essa omissão e descaso ativos nada mais são do que um genérico regional (leia-se, provinciano) com que nossa historiografia, quase toda ela de extrato acadêmico, com as exceções de praxe, imprime seu enfoque unívoco, e ideologicamente (à direita e à esquerda) chamuscado, sobre um passado que lhe é estranho, ainda que entranhado. Daí o Contestado ter-se transformado num autêntico buraco negro da História do Brasil!

Quase sempre, a pegada desses escribas de plantão é o achatamento e a desqualificação da Guerra do Contestado. Quando não, utilizam-na como caricatura ideológica que faça coro com um seu ideário de toque político raso e radical, tentando, a todo custo, ancorá-la em qualquer agito similar que surja no campo. Ou, então, ignorar sua estatura geopolítica e prevalência na fecundação do moderno capitalismo no Brasil, para obliterar seu complexo substrato ideológico-institucional em plena Neo-República.

E, ainda, para subestimar ou superestimar o amálgama místico-religioso (o "espírito de irmandade", a submissão voluntária e a autoridade castrense que vigiam dentro dos redutos), ou para edulcorar os flagrantes de delinquência e ilícitos de nítido caráter terrorista que marcaram a ferro e fogo milhares de viventes e incontáveis interesses locais, nacionais e internacionais.

Ali, no Contestado, ao sul e a oeste das então fluídicas fronteiras entre Santa Catarina e Paraná, deu-se um embate fratricida de quatro anos; ali, em torno de 7 mil homens, um terço do efetivo do Exército brasileiro, promoveu um morticínio exemplar e único no século 20, sob o comando do general Setembrino de Carvalho (1861-1947), coautor da tragédia de Vaza-Barris havia menos de duas décadas. E, onde, entre mortos e feridos, como em Canudos, se revezavam na brutalidade, espelhando-se mutuamente na sangueira e na insensatez, cada um empunhando a "sua" bandeira da verdade secular e de transcendência messiânica.

Incontornável: no Contestado matou-se à bala, à baioneta e na degola, e tombaram de fome, doençaria e perdição, entre soldados, caboclos e fanáticos, mais de 20 mil pretos, cafuzos, bugres e índios aculturados, imigrantes europeus (poloneses, alemães, ucranianos, rutenos), retirantes e trânsfugas de todos os grotões miseráveis do País. Hoje, centenas de cruzeiros sem nome e data, às vezes emoldurados com fitas coloridas, à sombra dos verdejantes pinheirais remanescentes e das sombrias florestas de Pinus elliottii do planalto catarinense, ainda clamam por justiça e reparação histórica.

No Contestado, a refrega teve inequívocos lances separatistas. Talvez resida aí uma das razões pelas quais se teme tanto mexer e rever o conflito na sua integridade holística, denunciando executantes e mandantes, desencavando valas crematórias, lápides e necrológios. A caudilhesca Revolução Farroupilha (1835-1845), que deu na breve República Piratini, era explicitamente autonomista, uma macabra antevisão sesquicentenária do dístico "o Sul é o meu país" - ao contrário do Contestado, onde essa vocação nunca foi coletiva, nem havia unanimidade política quanto a uma possível secessão, e muito menos representou o insumo para a longevidade da desgraceira.

Mesmo que chefetes, ex-lideranças de Gumercindo Saraiva, um dos comandantes da malograda, também separatista, Revolução Federalista (1893-1895), chegassem a propor, em 1914, a criação de um Estado autocrático batizado de "Monarquia Sul Brasileira", que incorporaria tanto o Paraná como o Rio Grande do Sul, estendendo-se ao Rio de Janeiro. Na Carta Magna, que deixa escapar laivos republicanos, além de uma inusitada liberdade de voto, culto e de opinião, sonhava-se até com a criação de um Ministério da Marinha e a anexação da Banda Oriental do Uruguai, "antiga Província Cisplatina"...

Não raro o Contestado é associado à Guerra de Canudos (1896-1897), sendo inclusive chamado, equivocadamente, de "Canudos do Sul", e faz mesmo algum sentido semântico, pois já nas primeiras notícias de ajuntamentos messiânicos na região, no início do século 20, a expressão veio a lume na mídia. No entanto, o Contestado diferencia-se de Canudos menos pela sua origem igualmente milenarista, como é reconhecido esse surto religioso de deserdados que agem em uníssono almejando uma suposta redenção moral de mil anos.

Tudo atiçado pelo verbo, ora incandescente ora melífluo, de um "messias", com subtexto cristão revanchista e de restauro de um idílico tempo de benesses e bem-estar geral e perene. Esse "salvador" de homens e almas tanto pode ser um Antônio Conselheiro como os dois "padroeiros" do Contestado, os "sãos" João Maria, histórico e pacifista, e o bruxo incendiário José Maria, de passado dito criminoso, idolatrado por suas mandingas e curas e por arrecadar dinheiro dos caboclos para promover o assentamento fraudulento deles em terras devolutas.

Para higienizar de vez esse caldeirão, o que fazer com os milhares de enjeitados recalcitrantes, como controlar esse lumpesinato enfurecido que se engraçara com o messias em voga, indiferente à interminável pendenga jurídico-institucional entre Paraná e Santa Catarina? O jeito foi forçá-los a se virar como operários das multinacionais Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, a Brazil Railway Company, e Southern Lumber & Colonization (então a maior serraria da América do Sul). Ou, na pior das hipóteses, enxotá-los de suas glebas feito cães sarnentos, por não possuírem título de propriedade.

Isso sem falar nos 8 mil homens recrutados no Nordeste e no Rio de Janeiro como mão de obra quase escrava para tocar a ferrovia. Com seu término, em 1910, desempregados, eles viraram os potenciais novos "soldados do exército encantado de São Sebastião": miséria por miséria, que fosse acreditando no improvável que poderia matar sua fome, em lugar da exploração de sua força de trabalho por ninharia e da serventia física e moral.

Foi quando o presidente Hermes da Fonseca, apavorado com que ali subsistissem cinzas de um monarquismo redivivo, mandou à região, armado até os dentes, inclusive com inéditos aviões, o general Setembrino de Carvalho, que acabara de liquidar um levante do Padre Cícero no Ceará.
Setembrino atuou com as PMs de Santa Catarina e do Paraná, coadjuvadas pelas milícias dos "coronéis", os chamados "vaqueanos", de infausta memória, que faziam o serviço sujo na cola do Exército, do qual recebiam soldo. Um a um eram fuzilados ou degolados os intimoratos recos da tropa celeste de "São Sebastião" (o mito do sebastianismo, restaurado nos sertões catarinenses, virara o mote da hora), em cujas fileiras estariam os combatentes mortos no Irani, tendo à frente "são" José Maria, lancetado naquele entrevero inaugural do Contestado (22 de outubro de 1912).

Conhecidos como "redutos" (eram mais de 40), e para os sertanejos, "cidades santas", essas favelas, então inexpugnáveis "fortes de resistência" do jaguncedo, constituíam um misto de dormitório, rupestre praça de prédica, reza e batismos, justiçamento sumário e de ditames bélicos. Numa viagem dos tempos, dada a mesma matriz cristã, os sítios remontam ao espaço de fanatismo religioso, cega obediência e castigos aos índios, formatado pelos jesuítas nas missões da chamada "República Guarani" (1610-1776).

Improvisados e provisórios, estendiam-se a partir do Rio Iguaçu (divisa do Paraná), ao longo do Vale do Rio do Peixe (centro-oeste catarinense), até quase às margens do Rio Uruguai, que separa Santa Catarina do Rio Grande do Sul.

Como viviam infiltrados por aventureiros e fugitivos da lei, muitas vezes o epíteto "jagunço" fazia sentido. Em nome de um suposto ideal igualitário ("quem tem, mói, quem não tem, mói também") pregado por "são" João Maria, nas suas ações guerrilheiras, derrotados nas tentativas de convencer quem os seguisse, punham-se a ameaçar a população civil, além de lhes surrupiar o gado, mantimentos, roupas e armas.

Na invasão de Curitibanos, quando incendiaram prédios públicos, assombrando autoridades e habitantes, houve quem visse em seus olhos aquele esgazeado próprio do fanático. Algo que corresponde ao que o historiador Maurício Vinhas de Queiroz (1928-1995), cujo livro Messianismo e Conflito Social (1966) é referência histórica, revela sobre os caboclos: o Contestado teria sido uma revolta alienada, seus protagonistas agiam como se fossem autistas, enfrentando as razias do general Setembrino de Carvalho com espadas de pau, crentes que ressuscitariam no Exército Encantado de São Sebastião...

Nessa, acabavam embaralhando agressão a símbolos opressores (obras da ferrovia, da serraria, sedes de fazendas, depósitos de armas, linhas telegráficas do Exército) com quem os apoiava clandestinamente (pequenos fazendeiros, comerciantes, políticos locais). Um terrorismo que foi corroendo e manchando a legitimidade reivindicatória do movimento por confundir algozes e vitimas.

Dissolvendo nossa useira e vezeira inconsciência, deboche e preguiça acadêmicas quanto à exegese da história oculta do Brasil, onde invariavelmente o campeão e o perdedor mentem, é preciso desossar o Contestado a partir de um mix entre o que foi e o que poderia ter sido. Ou seja, munido de um rigoroso approach desideologizado, onde os influxos morais permaneçam inoxidáveis.

15 de dez. de 2012

acorda, raimundo!


Este filme, produzido pelo Ibase, com o apoio da CESE, trata de uma inversão dos papeis tradicionais na sociedade, a fim de dar ênfase ao cotidiano de milhões de mulheres que vivem sob o machismo e a violência. Dirigido por Alfredo Alves, conta em seu elenco com Eliane Giardini, Zezé Mota, Paulo Betti e José Mayer.

(Fonte)

um mundo sem estantes


Um amigo entra na minha casa nova, vê as estantes ainda vazias e começa o bombardeio: "Para que espaço para tanto livro? Livro está acabando".

Ele não quer saber da vista, de nenhum detalhe da obra, da arquitetura ou da decoração (não que eu tivesse algo a dizer sobre essas coisas, mas, enfim, era uma casa nova). O incômodo com as estantes é maior que tudo isso.

Para me safar do cerco, banco o moderno. "Claro que eu sei, os livros eletrônicos são o futuro. Mas isso aqui é para armazenar o que eu já tenho, entende? Até hoje guardo livros na casa dos meus pais, para você ter uma ideia."

Cascata, tática diversionista. Eu sabia que, se já estava sob tiroteio pesado, tudo iria piorar quando meu amigo visse a outra face do móvel. Ali, eu dava os primeiros passos para eliminar a bagunça dos meus CDs. E "in style", à moda gringa, ordenando por sobrenome.

Um serviço que, digamos, me dava certo orgulho. Mas o sentimento só dura até o próximo balaço: "E esse monte de lugar para CDs? CD não vai existir mais".

Em busca de trégua, sugiro sairmos para jantar. Encontramos a mulher dele. Como na faixa de Gaza, o cessar-fogo tem curta duração. "O Álvaro está maluco, botou um monte de estantes na casa nova, parece que não sabe que livros e CDs estão condenados."

Isso faz alguns anos. Nem preciso dizer que, tanto para livros quanto CDs, o espaço naquelas estantes, que pareciam obsoletas, está no fim. E o mais irônico: meu amigo, profeta do apocalipse do plástico e do papel, nunca chegou a comprar um leitor eletrônico de livros. Não tem Kindle nem iPad. Continua encomendando seus volumes de papel.

Já eu, dono do móvel ultrapassado, adotei o livro digital. O encanto inicial foi grande, até escrevi sobre isso. Caminho sem volta para um mundo sem estantes? Talvez não.

Há poucos meses, o ator Bruce Willis revelou que planeja algum tipo de ação legal contra a Apple. O objetivo é garantir que sua vasta coleção de música, em grande parte baixada na loja virtual de Steve Jobs, faça parte da herança que ele deixará às filhas.

Nas entrelinhas da burocracia, Willis descobriu que as músicas não são exatamente dele, nem de ninguém que as compra. São, de certo modo, alugadas. Se ele morrer, voltam para a Apple. Não quer deixar, para as três jovens, um legado de silêncio.

O pesadelo que Willis tenta evitar, uma mulher norueguesa já enfrentou. Identificada apenas como Linn, um dia ligou seu Kindle, o leitor eletrônico da Amazon. Ao conectar o aparelho à web, o golpe: todos os livros que já tinha comprado foram apagados em um segundo.

Seguiu-se um pesadelo kafkiano. Ao contatar a Amazon, foi informada de que havia problemas de fraude em uma outra conta, também associada a ela. Como punição, todas as contas estavam sendo canceladas. Adeus, livros digitais.

Só um problema: ela não tinha nenhuma outra conta. Era claramente um engano. Mas a Amazon se recusava a dar detalhes. Linn não tinha como se defender.

Alguns escritores souberam do caso, e passaram a divulgá-lo. Só a partir daí a situação foi aparentemente resolvida. Os livros eletrônicos foram restituídos a Linn, independente do status da conta.

O futuro desse universo cada vez mais digital é cheio de riscos. Imagine: colapso na nuvem. "Crashes" de servidores, fibras ópticas rompidas, blecautes em série nos principais polos hi-tech da Terra.

Nos primórdios da web, uma situação assim teria uma consequência grave: internet fora do ar. Grave, porém única. Músicas, filmes e demais arquivos baixados pela rede estariam a salvo, guardados nos computadores das casas das pessoas.

Mas, hoje, tudo mudou. Um crash gigantesco seria muito mais devastador. Porque cada vez menos gente armazena em casa seus arquivos digitais. Está tudo em servidores poderosos, espalhados pelo mundo. Nessa nuvem, digital e amorfa.

Não é fora de propósito imaginar um cenário de perda de contato com ela. Sem livros físicos, sem CDs, os arquivos digitais perdidos na nuvem isolada. A distopia digital extrema. O mundo das ideias salvo pelas estantes.

- Álvaro Pereira Jr., para a Folha de S. Paulo, 08-12-12 (via)

Em tempo:  o que você fez com as enciclopédias que tinha em casa?

cairo, a cidade eterna


Parte da magia desta grande cidade, mesmo quando abalada por turbulências políticas, reside na sua aparente capacidade de absorver qualquer revolta, desafiar as probabilidades, superar tudo -dos engarrafamentos à burocracia- e sobreviver. Como o Nilo, a sua referência, o Cairo tem o fascínio do eterno.

A grandeza de nenhum edifício resiste à marcha de poeira, e, no entanto, a cidade retém algo da sua inefável majestade. As lutas dos seus muitos milhões de habitantes estão sempre aparentes, mas sua dignidade em meio às dificuldades é menos visível. A cidade derrota verdades simples.

Isso é bom. Gostamos das nossas verdades simples hoje em dia. Preto ou branco é o que queremos. "Só que", responde o Cairo, "eu sou cinza!".

A turbulência política do Egito pós-revolucionário é óbvia. Menos óbvia é a forma como a sabedoria e o bom humor daqui temperam e moldam os fatos. Uma coisa é viver num país como a Síria, com fronteiras desenhadas no começo do século 20 por algum burocrata britânico dispéptico, onde a tentação da dissolução nunca está muito abaixo da superfície. Outra coisa é ser parte de uma terra e uma cultura tão antigas quanto as do Egito.

Comecei a pensar nisso durante a rebelião de dois anos atrás na praça Tahrir, que levou à queda de Hosni Mubarak. Toda noite, dezenas de milhares de pessoas, incluindo mulheres e crianças, saíam da praça através do estreito espaço entre dois tanques. O potencial para um desastre era alto. Um momento de pânico ou de afobação poderia levar a um tumulto e a um banho de sangue. Mas a civilidade, o respeito e a paciência prevaleceram.

Tais verdades nos dizem mais sobre as perspectivas de longo prazo de um país do que fatos mais imediatos e chamativos. A humanidade da Itália, o otimismo do Brasil e a abertura dos EUA são qualidades que as estatísticas não conseguem mensurar. Da mesma forma, não há contagem ou pesquisa que identifique essa qualidade que encontrei na praça Tahrir. Não é à toa que o Egito, ciente do preço e da inutilidade da guerra, foi o primeiro país árabe a fazer a paz com Israel.

Gosto de parar no Cairo para sentir os ritmos da cidade. Como muitos lugares, o Cairo oferece dois universos distintos.

Há os estabelecimentos globalizados, reluzentes, com ar-condicionado, onde você toma um café com leite pelo mesmo preço de Paris ou Nova York. Aqui o tempo corre na velocidade do século 21. Noticiários e desfiles de moda passam na TV.

E há então o mundo lento no qual a maioria dos cairotas vive e ri, com suas espeluncas oferecendo chá ou café doce e porções de feijões ("ful"). Você poderia viver feliz durante alguns dias com os feijões não globalizados pelo preço de um daqueles cafés globalizados. Muitos cafés no mundo lento oferecem "shishas" (narguilés) para fumar tabaco com aroma de maçã enquanto você vê o dia ir embora. É um ritual agradável de observar. Um homem de movimentos precisos abana as brasas, sacudindo-as em uma concha metálica escurecida, antes de colocá-las com uma pinça, uma a uma, no narguilé. Nada é feito com pressa aqui, porque nada vai mudar.

Confundimos atividade e movimento com realizações. Pode-se ganhar mais com uma pausa. Cada época tem suas ilusões. Recentemente, li uma revista de 1938. Um editorial dizia: "A máquina deixou os homens frente a frente como nunca antes na história. Paris e Berlim estão mais perto hoje do que aldeias vizinhas estavam na Idade Média. Em certo sentido, a distância foi aniquilada".

Isso foi mais de meio século antes da invenção da internet. É importante desacelerar, no mínimo porque estamos longe de ser os primeiros humanos a acreditar que o mundo se acelerou. Mesmo no mundo lento do Cairo há surpresas. Enquanto eu fumava "shisha" num modesto estabelecimento da rua Kasr el Nil, uma amiga observou que o local anunciava uma conexão wireless.

"Qual é a senha?", perguntou ela ao proprietário.

"Nike", respondeu ele, que continuou passando um café.

(Roger Cohen, para a Folha de S. Paulo, em 10-12-12. Via)

como combater os injustos sem se parecer com eles

Transeunte rasga banner de manifestantes da TFP contra o casamento LGBT (Via)

De Miriam Martinho, para o Um Outro Olhar (leia na íntegra aqui):

Uma das principais críticas aos movimentos sociais, principalmente por sua vertente politicamente correta, é de que seus membros se fazem de vítimas o tempo inteiro, colocando-se como ofendidos por qualquer coisa, da mais banal a mais séria. Parte dessa crítica é procedente. Há mesmo muito "ofendidismo" circulando nos diferentes tipos de ativismo, e, como diria Hegel, quem exagera no argumento prejudica a causa.

Entretanto, algumas das forças políticas que criticam esse ativismo "excessivamente sensível" por acaso agem de forma diferente? Não se fazem de vítimas aqueles que na verdade, com base em dogmas religiosos, vivem perseguindo, por exemplo, homossexuais, lutando contra a igualdade de direitos entre as pessoas em nome de bíblias, famílias e outras tantas? Saem pregando a discriminação e posam de vítimas!? Posam sim.

(...) Naturalmente, a hipocrisia dessa gente faz o sangue de qualquer um(a) ferver, mas ataques contra esses tipos, sobretudo físicos, só os beneficiam. Depois eles fazem uma compilação das reações agressivas das pessoas, indignadas contra sua lixeira religiosa, como no vídeo abaixo, e posam de vítimas, falando com voz calma e postura tranquila que - tadinhos - os LGBT é que são intolerantes e contrários à liberdade de expressão. E essa imagem cola!

Quem já praticou alguma arte marcial sabe muito bem que para vencer uma luta não basta técnica mas sobretudo precisa-se de controle emocional. Campeões mantêm a cabeça fria, o coração, ameno. Aliás, a raiva é a maior inimiga do bom senso em geral. O ativismo LGBT precisa fazer um pouco de psicodrama antes de enfrentar essa conservalha pelo visto tanto nos EUA seja quanto no Brasil.

Nos tempos do movimento pelos direitos civis dos negros americanos (1955-1968), os ativistas, influenciados pelo pacifismo de Gandhi, faziam manifestações não-violentas contra o racismo, como os célebres sit-ins. Entravam nos lugares só para brancos, sentavam-se e lá ficavam sem serem atendidos ou sem reagir às agressões e às prisões que acabaram ocorrendo. Eles treinavam para isso, e deram fim, no médio prazo, à infame segregação pela via dessas ações. Por isso, deixo também um vídeo sobre os sit-ins daquela época à guisa de recordação de um bom tempo onde os oprimidos sabiam se distinguir claramente de seus opressores. Quem sabe a lembrança não sirva de inspiração para se repensar formas mais justas de agir contra os injustos nos dias de hoje. Na base do olho por olho, como diz um ditado, todo mundo acabará cego.



* * *

O amigo Hugo Nogueira comenta e colabora:



"O curioso que os hinos do movimento gay são músicas de discoteca. Nesse vídeo foram usadas as únicas imagens da Revolta de Stonewall, que deu origem ao movimento gay moderno, além disso, imagens das primeiras paradas que se seguiram, cata o cartaz com a imagem de Jeus escrito Why?, e da vitória de Harvey Milk."
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