17 de dez. de 2012
da áfrica para áfrica
José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), em artigo publicado no jornal Valor, 11-12-2012 (via):
Reduzir a história de um povo a uma agenda imposta de fora para dentro, por melhores que sejam as intenções, é o caminho mais curto para o fracasso.
Esse tem sido o movimento pendular de muitas soluções redentoras endereçadas ao que se convencionou chamar de "o problema africano".
A África não quer mais ser tratada como um problema dos outros; nem ficar subordinada a soluções concebidas à sua revelia.
Essa foi a mensagem clara da presidente da Comissão da União Africana, Nkosazana Dlamini Zuma, em encontro que tivemos em novembro, em Adis Abeba, capital da Etiópia, e do qual também participou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Quem só enxerga a derrota do continente ignora que o seu relevo abriga uma das últimas fronteiras agrícolas do mundo - 60% dela ainda não utilizada. Não existe outra hipótese de futuro para a África que não venha associada à conquista da segurança alimentar
Esse encontro foi o ponto de partida de uma aliança para ampliar os esforços em prol da segurança alimentar na África, selada pela Comissão da União Africana, Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, sigla em inglês) e Instituto Lula.
Não estava em pauta lançar novos programas ou eleger uma bala de prata para o continente. A contribuição ali pactuada, no marco dos compromissos já firmados por governantes locais, como o Programa Compreensivo de Desenvolvimento Agrícola Africano (CAADP, na sigla em inglês), visa adensar as complementaridades entre iniciativas em curso para, dessa forma, obter um salto no conjunto. Sob aparência modesta pulsa uma profunda revisão de conceitos.
A África dispensa a ajuda ancorada na reinvenção da roda, que captura sua gente num eterno círculo vicioso de projetos autopredestinados a serem o marco zero da redenção local.
O salto significativo de que ela se ressente convoca as forças da cooperação a se engajarem no mais sensato, urgente e útil dos desafios: identificar brechas, erguer pontes entre ações bem sucedidas em curso; aumentar escalas; consolidar a sua coordenação.
Trata-se de um mutirão em aberto que, sob a liderança dos próprios líderes africanos, reúne outros parceiros internacionais, regionais e locais, incluindo atores multilaterais, públicos, privados e representativos da sociedade civil.
A FAO está convencida de que assim é possível vencer a fome. O papel da organização é apoiar esse impulso, não enxertar soluções prontas trazidas de fora.
Para a FAO, essa nova dimensão cooperativa vem ao encontro das energias tonificadas por mudanças recentes em sua dinâmica de funcionamento. A principal delas consiste em elevar as parcerias à condição de método e requisito de atuação de campo.
Também é importante superar divisões históricas entre iniciativas de desenvolvimento e ações de emergência. O respaldo técnico e as operações diretas precisam dialogar em tempo real no ambiente da ação e de forma permanente.
Erguer as linhas de passagem para a efetiva segurança alimentar das 53 nações que compõem o mosaico africano é plenamente factível dentro desses parâmetros.
Transformar agricultores de subsistência em pequenos produtores é um passo essencial. Outro, entender que a segurança alimentar depende de um conjunto de ações que excede a esfera agrícola e que dialoga também com outras políticas produtivas e sociais.
A fome em certas áreas do continente africano hoje decorre não propriamente da ausência de estrutura produtiva, mas de sua desativação pela recorrência de conflitos locais e regionais.
Ao pecado original das panaceias que ignoram as singularidades, a FAO responde com uma diretriz inegociável: a governança é o fator decisivo na construção da segurança alimentar.
Nada substitui o tripé formado por consenso político, programas inovadores e forte participação social. A articulação internacional é o corolário desse escopo - não o substitui. Foi essa baliza de discernimento altivo e parceria realista que comandou o encontro de Adis Abeba entre União Africana, FAO e Instituto Lula.
O amálgama principal do compromisso ali firmado é que a África não quer mais ser o sinônimo de fome no século XXI.
Hoje, a subnutrição penaliza um em cada quatro habitantes. Um contingente que cresceu de 175 milhões em meados dos anos 90, para cerca de 240 milhões de pessoas. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, de reduzir à metade a fome até 2015, registraram um percurso inverso aqui.
A mensagem que esses números carregam é categórica: não existe outra hipótese de futuro para a África que não venha associada à conquista da segurança alimentar. E não há tempo a perder. Para os famintos, o calendário da luta contra a fome só tem um dia: hoje, e não cabe perguntar que horas são.
Algumas nações do continente já assumiram essa perspectiva, resgatando uma prioridade abandonada nos anos 90, quando a ilusão na proficiência dos mercados globais levou muitos governos a descuidar da própria agricultura e do abastecimento.
Era um contrassenso econômico e demográfico. Embora a taxa de urbanização cresça velozmente no continente, 60% da força de trabalho africana ainda vive junto à terra; mais de 40% da população tem menos de 15 anos, só 4% estão acima de 65 anos. As mulheres formam um contingente superior a 520 milhões de pessoas e constituem a maior parcela da força de trabalho agrícola; desempenham, ademais, um papel estratégico que vai do plantio à provisão alimentar dos mercados locais.
Governança para investir, terras férteis, juventude e protagonismo feminino jogam a favor da esperança na África.
Quem desacredita da África e só enxerga a sua derrota ignora que o seu relevo abriga uma das últimas fronteiras agrícolas do mundo - 60% dela ainda não utilizada.
Há, ademais, um imenso potencial de trabalho e criatividade estocados nesse mosaico que o credencia a realizar esse que deve ser um dos capítulos épicos mais emocionantes do século XXI: erradicar a fome no berço original da humanidade.
quando um povo acorda para sua dignidade
"Depois de mais um fato consumado, parte da sociedade santarena acorda e resiste ao embuste, mais um dos embustes do governo federal. Escrevi esta cronica da vida real desta bela e sofrida cidade às margens do rio Tapajós", escreve Edilberto Sena, padre, membro da Comissão Justiça e Paz da Diocese de Santarém, PA, ao enviar para o IHU o artigo abaixo, por eles publicado em 13-12-12 (aqui):
Nestes dias aconteceu algo bem pequeno, mas bem estimulante ao se crer que outro mundo é possível. Santarém do Pará, cantada em prosa e verso como uma cidade abençoada por Deus e pela natureza, cuja praia de Alter do Chão [foto] foi considerada pelo jornal inglês como uma das mais belas do Brasil, vive hoje um drama escandaloso e ao mesmo tempo, provocador dos brios da população.
Recentemente chegou à cidade uma empresa imobiliária vinda de longe e comprou de maneira obscura um lote de 186 hectares de terra, na saída da cidade rumo ao aeroporto internacional de Santarém. Uma área nobre, entre o belo rio Tapajós e a rodovia de acesso ao aeroporto.
Como sua intenção era gerar lucro com venda de lotes imobiliários, a empresa utilizou dezenas de máquinas e equipamentos para rapidamente gerar um fato consumado. Devastou toda a mata, deixando a terra completamente nua. Acontece que dois anos atrás um grupo de 1.000 famílias sem teto ocupou a área e começou a levantar barracos, derrubando algumas árvores. A prefeita municipal entrou com uma ação na justiça exigindo a retirada dos ocupantes, alegando que ali era uma APP - área de proteção permanente, devido um lago próximo e o rio Tapajós em frente. A juíza acatou o pedido e mandou evacuar os ocupantes, através de pelotão policial.
No meio deste ano a empresa forasteira chegou, negociou com os alegados donos a área e comprou numa estranha negociação, envolvendo o secretário municipal de meio ambiente, membro da família alegada dona da área. Ao mesmo tempo, a prefeita se omitiu completamente de embargar a negociação, mesmo tendo no ano 2010 garantido que ali era uma APP.
Tendo a devastação total de 186 hectares acontecido, alguns meios de comunicação passaram a denunciar o escândalo. A Câmara de Vereadores se sentiu pressionada e uma comissão foi visitar a empresa, que justificou que estava toda dentro das leis municipais. Os vereadores se conformaram com a explicação e se calaram. A prefeita municipal calada estava e calada continuou.
Foi quando um grupo de pessoas mais indignadas e estimuladas pelo rádio, passou a chamar outros indignados através do facebook. A adesão aumentou, as denúncias aumentaram acusando de omissão as secretarias de meio ambiente, municipal e estadual, Ministério Público Estadual e IBAMA. Até que foi organizado um ato público de protesto lá em frente a área devastada e o lago ameaçado de assoreamento. O Movimento recebeu o nome de Abraço ao Juá (o lago), berçário de peixes do Tapajós.
Com tanta pressão popular e dos meios de comunicação, o MPE se antecipou ao protesto público do abraço ao Juá e ajuizou uma ação civil pública em matéria ambiental contra a empresa devastadora e o próprio município de Santarém. Mesmo a devastação já tendo ocorrido, o MPE requer duas medidas imediatas dos acusados: paralização das obras de implantação do loteamento residencial. A intenção da empresa era vender mil e quinhentos lotes residenciais. A segunda demanda do MPE é a suspensão, pelo município dos efeitos de licenciamento ambiental para a atividade, até a decisão do mérito aos pedidos principais.
Mesmo com a antecipação, ainda que tardia do MPE, o movimento Abraço ao Juá,
Moral da história, quando pessoas da sociedade despertam a consciência de sua dignidade coletiva ferida, outro mundo é possível. Falta agora a sociedade santarena se indignar com o perverso plano hidrelétrico do governo federal, que planeja destruir o rio Tapajós com sete mega hidrelétricas em sua bacia no Pará.
casaldáliga deveria ser papa, mas – de novo – está ameaçado de morte
De Leonardo Sakamoto, em seu blog, em 16-12-12:
Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia e um dos maiores defensores dos direitos humanos no país, mais uma vez está marcado para morrer. Aos 84 anos e doente, teve que deixar sua casa em São Félix do Araguaia por conta das ameaças surgidas em decorrência do governo brasileiro, finalmente, ter começado a retirar os invasores da terra indígena Marãiwatsédé, Nordeste de Mato Grosso – ação que sempre foi defendida por ele.
Incentivados por fazendeiros e políticos locais, alguns grupos de invasores decidiram resistir à decisão judicial de sair e forçaram conflitos com as tropas, além de ameaçar lideranças.
Casaldáliga, junto com Tomás Balduíno, dois bispos engajados na luta pela dignidade no campo, serão homenageados, nesta segunda (17), na entrega do Prêmio Direitos Humanos 2012, em Brasília.
Joseph Ratzinger, em um discurso a bispos brasileiros na época da nossa última eleição presidencial, afirmou que “os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas”. Ou seja, Bento 16 pediu para que os representantes de sua igreja orientassem politicamente os fiéis. E seguiu o script esperado, condenando o aborto e a eutanásia e, implicitamente, a pesquisa com embriões para obtenção de células-tronco.
Todas as igrejas e suas chefias são livres para elencar seus assuntos mais importantes. Mas fico imaginando a pauta de preocupações se, ao invés de Joseph Ratzinger, fosse Pedro Casaldáliga o papa. E, ao se dirigir a bispos brasileiros, fizesse outro tipo de “juízo moral” em “matérias políticas”, retomando palavras que ele proferiu há tempos:
“Malditas sejam todas as cercas! Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e amar! Malditas sejam todas as leis amanhadas por umas poucas mãos para ampararem cercas e bois, fazerem a terra escrava e escravos os humanos.”
A Teologia da Libertação tem sido uma pedra no sapato de quem lucra com a exploração do seu semelhante. Na prática, esses religiosos católicos realizam a fé que a Santa Sé não consegue colocar em prática. Pessoas como Pedro Casaldáliga, Tomás Balduíno, Henri des Roziers, Erwin Klautler e Xavier Plassat que estão junto ao povo, no meio da Amazônia, defendendo o direito à terra e à liberdade, combatendo o trabalho escravo e acolhendo camponeses, quilombolas, indígenas e demais excluídos da sociedade.
Bento 16, no mesmo discurso, defendeu a solidariedade aos pobres e desamparados. Como ex-coroinha, fico pensando em que tipo de solidariedade ele estava falando? Da caridade? Uma ação pouco útil, que consola mais a alma daquele que doa do que o corpo daquele que recebe?
Ou da solidariedade de reconhecer no outro um semelhante e caminhar junto a ele pela libertação da alma e do corpo de ambos? Se for a primeira, ele está pregando a continuidade de uma igreja que ainda não consegue entender as palavras revolucionárias que estão no alicerce de sua própria fundação.
Se falou da segunda, a solidariedade como redenção do corpo e da alma, ele se referiu claramente à Teologia da Libertação.
Prefiro acreditar que ele estava falando da primeira, pois seria irônico a atual administração do Vaticano pregar algo que o catolicismo vem combatendo há tempos.
Enquanto isso, nossa realidade continua lembrando muito daqueles microcosmos de poder do Brasil profundo, presentes nas obras de Dias Gomes: o padre, o delegado e o coronel, amigos de primeira hora, tomando uma cachacinha na (ainda) Casa-grande, gargalhando da vida e discutindo sobre os desígnios do mundo, que – para eles – deveria ter a cara de seu vilarejo.
16 de dez. de 2012
negra, lésbica e feminista
Foto: Diego Bresani
Ellen Oléria, mulher, negra, gorda, lésbica assumida (desde semana passada, sempre que a câmera mostrava sua família, a legenda era "Mãe e namorada da Ellen"), foi escolhida pelo público vencedora do The Voice Brasil. Fato é que a moça canta com a alma - e foi isso que motivou o público a escolhê-la, sem dar a mínima para o fato de ela ser como é. Ou melhor, justamente por isso.
Por mais que esperneiem os profetas do juízo final, estamos mudando. Um novo mundo começa.
"Música, cantora, compositora e atriz brasiliense. Ellen Oléria também é negra, lésbica e feminista. Sua voz entoa uma melodia poderosa e sua performance cênica cheia de atitude magnetiza a todos. Ellen canta, toca e mistura ritmos brasileiros com soul music e levadas de jazz, transparece sua negritude no palco e nas letras. Em entrevista de 2009, Ellen afirma: 'Canto o universo de uma negra, lésbica, criada no Chaparral, região entre Taguatinga e Ceilândia'."
Do Blogueiras Feministas, aqui. Dica da Srta. Bia.
massacre deve gerar reflexão sobre cultura dos EUA
Da BBC Brasil:
(...) Para especialistas, porém, o fácil acesso às armas no país, apesar de ter um papel crucial no contexto da violência, é apenas parte de um problema maior.
Segundo eles, características sociais e culturais da sociedade americana, como a glorificação da violência ou a falta de investimentos na saúde mental da população, são fatores que explicariam a frequência de massacres no país. (...)
"Tragédias como a que vimos podem acontecer em qualquer lugar, mas há provavelmente um número de aspectos e modelos da cultura americana que tornam tais incidentes mais frequentes no país.", afirma McConnell.
Nesse sentido, especialistas que partilham da mesma visão de McConnell afirmam que a matança lança luz sobre o sistema de saúde mental dos Estados Unidos, que recebe pouca atenção e recursos insuficientes por parte do governo.
[E mais: "O medo do meu filho ser vítima é o mesmo medo de que ele seja o criminoso. Mas a culpa não é da mãe", em Precisamos falar sobre Kevin. E Adam. E Wellington]
"Não se pode matar alguém com uma arma se o acesso a ela é limitado. Porém, com certeza, não podemos explicar essa tragédia apenas sob o prisma da disponibilidade de armas, mas também de uma cultura que incentiva o porte de armas como solução para todos os problemas."
Leia na íntegra aqui.
literatura, mística e gênero: adélia prado
Em poucos poetas e escritores — brasileiros ou não — pode-se notar uma intimidade e uma proximidade explícitas com o mistério divino como em Adélia Prado, essa mineira de Divinópolis, esposa de José e mãe de cinco filhos, professora e formada em filosofia, catequista e católica praticante, vivente e vibradora da espiritualidade franciscana.
A poesia de Adélia é crente. Mas de uma crença que não pretende nem “consegue” ser convencionalmente litúrgica ou teológica ou catequética ou religiosa no sentido mais tradicional do termo. Pelo contrário. A fé e a crença que perpassam o discurso poético em Adélia Prado atravessam igualmente todas as correntes mais puramente humanas da vida cotidiana e ali descobrem e dizem o Transcendente, presente em epifania e diafania.
O modo como Adélia concebe sua poesia a constrói enquanto derivada e nascida da fonte mesma de todo Poema que é a Palavra de Deus. A poesia adeliana é, pois, exercício espiritual, estando permanentemente em contato estreito e tangibilidade concreta e incessante com a corporeidade humana. O corpo é o território onde o espírito é experimentado e o sagrado experienciado. E disso é feita a poesia. E no caso de Adélia é seu corpo feminino, de mulher, com todas as conseqüências e características biológicas que isso implica, o lugar onde a epifania divina acontece e se dá.
Sendo Adélia poeta e mística, nela o Eros e o Mysterion não são terrenos separados e antagônicos, mas, pelo contrário, se tocam em harmoniosa síntese. Adélia, como todos os místicos autenticamente cristãos, não tem pudor em usar expressões eróticas e sexuais para expressar sua experiência de Deus e traduzi-la em poesia.A poesia adeliana é igualmente pascal. A síntese entre dor e alegria, entre sofrimento e gozo é nela uma constante. E assim sendo, encontra feliz analogia com todo o mistério cristão expresso através dos tempos, na teologia, na mística, na oração, na liturgia, por ter em seu centro o mistério que se depreende da Encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, Verbo de Deus encarnado, vivo, morto e ressuscitado.
O texto poético, materno-teologal de Adélia Prado é, portanto, texto revelado e aderido na fé que, feito poesia, traduz em linguagem artística e estética, literária, os mistérios escondidos e revelados desde a fundação do mundo.
Ler Adélia Prado é como adentrar-se nas origens misteriosas da experiência de Deus do povo da Bíblia, que experimentou a presença do Eterno como Palavra. Palavra que desde o silêncio eterno foi livremente pronunciada no tempo e na história, penetrou os ouvidos humanos e fez cair os véus que velavam aos olhos interiores o dinamismo existencial sobrenatural que os habitava.
Nos primórdios da Revelação ao povo de Israel, os homens e mulheres que captaram e falaram sobre essa revelação identificaram Deus como Palavra. Palavra que rompe o silêncio e fala. Mas se sabe e se declara que fala porque existe um ouvinte, ser humano ou mulher, que ouviu, ouve e fala daquilo que ouviu.
A linguagem humana, na medida em que toma consciência de si mesma, perceberá que fala do que lhe foi dado, fala do que ouviu, do que recebeu, do que acolheu do dom primordial, do mistério indecifrável e inefável que é fonte de tudo e de todos e está na origem sem origem que foi caos e agora é cosmos.
Se físicos e cientistas se debatem com a pergunta sobre o porquê de existir algo em vez de nada, o poeta, pelo contrário, em sua inspiração, “sabe” o porquê, porque o apalpa em sua povoada ignorância que o faz dizer o que não diria por que não sabia, mas que sabe o que lhe é ensinado gratuita e amorosamente.
No poema “Antes do nome” está, pois, parece-nos, uma chave primordial para começar a percorrer a trajetória de Deus na poesia adeliana.
Antes do nome
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”, o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror
Para Adélia, Deus é mistério santo reservado e revelado. Que se entrega na mesma medida em que se esconde. Que, inapreensível pela indústria humana, pronuncia sobre o “esplêndido caos” primigênio a palavra assistida pelo sopro do Espírito, fazendo emergir as coisas que não são para que sejam.
Adélia “sabe” porque lhe foi dado saber. E este saber doado é a fonte de sua poesia, da palavra que chama com nomes menores, “corriqueira”, “muleta”, pois na verdade é derivada da única e fundamental substantiva Palavra divina que cria e gera vida ali onde antes só havia o nada.
A inspiração poética adeliana é, consciente e assumidamente, inspiração divina. Antes do nome, portanto, está o Nome que a tudo nomeia e por nada nem ninguém pode ser nomeado. “Coisa grave e surda, inventada para ser calada.” Nome existente no silêncio e nele eloqüente como dom amoroso que se experimenta indizível e inexprimivelmente. Nome impronunciável pelos lábios humanos, mas que misericordiosamente se faz acessível à carne perecível e mortal capaz de Deus, destinada à morte e transpassada de finitude.
- Maria Clara Bingemer, via
falsa neurociência perpetua a diferença entre os sexos
Foto: François Brunelle
Pesquisas que comprovam a diferença biológica entre os sexos são bobagens pseudocientíficas e sexistas que alimentam o preconceito na sociedade, defende Cordelia Fine, pesquisadora do Centro de Psicologia Aplicada e Ética Pública da Universidade de Melbourne, formada em psicologia experimental na Universidade de Oxford, com mestrado na Universidade de Cambridge e doutorado na College London, em "Homens Não São de Marte, Mulheres Não São de Vênus". O título é uma clara referência a um dos mais conhecido livros que propagam essa ideia, "Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus", o best-seller de John Gray.
Fundamentada em pesquisas e com um peculiar senso de humor, a autora busca mostrar que as diferenças entre os sexos são criadas pela comunidade, parte do contexto social, não por fatores genéticos inalteráveis.
Mulheres são coletoras, homens caçadores. As fêmeas têm mais empatia, machos são lógicos. Para Fine isso não passa de uma tentativa de manter uma sociedade de "castas sexuais". A ideia esconde a prerrogativa de que homens são melhores advogados, cientistas e engenheiros; mulheres são boas acompanhantes, facilitadoras de grupos e professoras primárias.
Sem desmerecer ou exaltar nenhuma profissão, Fine resume essa teoria da seguinte maneira: "em média, a inteligência das mulheres é mais bem empregada para deixar as pessoas à vontade, enquanto os homens se dão melhor entendendo o mundo e construindo e consertando as coisas que precisamos nele".
"Não existe nada de novo na ideia de procurar no cérebro a explicação e a justificativa do status quo do gênero", escreve Fine na introdução da edição. No século 17, Malebranche afirmava que o abstrato era incompreensível às mulheres dada a delicadeza de suas fibras cerebrais. "Um excesso de pensamentos abstratos faria com que essas fibras se rompessem!", conta.
Fonte: Folha de S. Paulo
eram os jagunços terroristas?
Artigo de Sylvio Back, cineasta e diretor do filme O Contestado - Restos Mortais (2010, trailer acima), em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, 09-12-2012 (via IHU):
História, memória, pretérito, pra que te quero? No entanto, há que se exigir "luz, mais luz!", como balbuciou Goethe (1749-1832) no leito de morte. Sim, os insólitos e decisivos episódios de um dos mais desfrutáveis contornos anímicos do País - inaudita mescla de civilização e barbárie nos cafundós de Santa Catarina e do Paraná - permanecem soterrados a sete palmos pela tortuosamente amnésica História do Brasil. Quando não, enovelados por uma absoluta indiferença e assaz suspeita omissão.
A Guerra do Contestado (1912-1916), o maior levante bélico no campo brasileiro do século 20, verdadeira guerra civil nos sertões sulistas, em plena efeméride de seu centenário, vem se transformando em um zumbi do nosso passado recente. Suas perturbadoras vísceras morais, míticas, políticas e ideológicas, que continuam a nos assombrar, estão a exigir exorcização que a catapulte à pertinência e à atualidade.
A 20 de outubro de 1916, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, sob a égide do presidente da República, Venceslau Brás, o presidente de Santa Catarina, Felipe Schmidt, e Afonso Camargo, presidente do Paraná, "..inspirados no amor à paz...", firmaram pacto que, aparentemente, selou o fim das sangrentas hostilidades nas e entre as então províncias (Estados) vizinhas.
Era uma paz enganosa, porque nos dois anos subsequentes, por meio das chamadas "varreduras", sob o comando do então capitão "Rosinha" (José Vieira da Rosa, 1869-1957), da Polícia Militar de Santa Catarina, perpetrou-se um autêntico genocídio, com a perseguição e matança de centenas de rebeldes e caboclos indefesos. Nessas varreduras, oficialmente conhecidas no meio militar como "raides proveitosos" (sic), não havia diálogo entre o caçador e o caçado, apenas o matraquear do tiroteio, o pavor de velhos inermes e o choro de mulheres e crianças. Massacres do tipo do My Lai vietnamita (1968), avant la lettre.
Nestes seus cem anos, não se espantem, a Guerra do Contestado debate-se, misteriosa e sintomaticamente, imersa no mais inacreditável esquecimento factual e investigativo, que, aliás, sempre lhe maculou a imagem e o reconhecimento de várias gerações de historiadores. O que, afinal, não é nenhuma novidade.
Essa omissão e descaso ativos nada mais são do que um genérico regional (leia-se, provinciano) com que nossa historiografia, quase toda ela de extrato acadêmico, com as exceções de praxe, imprime seu enfoque unívoco, e ideologicamente (à direita e à esquerda) chamuscado, sobre um passado que lhe é estranho, ainda que entranhado. Daí o Contestado ter-se transformado num autêntico buraco negro da História do Brasil!
Quase sempre, a pegada desses escribas de plantão é o achatamento e a desqualificação da Guerra do Contestado. Quando não, utilizam-na como caricatura ideológica que faça coro com um seu ideário de toque político raso e radical, tentando, a todo custo, ancorá-la em qualquer agito similar que surja no campo. Ou, então, ignorar sua estatura geopolítica e prevalência na fecundação do moderno capitalismo no Brasil, para obliterar seu complexo substrato ideológico-institucional em plena Neo-República.
E, ainda, para subestimar ou superestimar o amálgama místico-religioso (o "espírito de irmandade", a submissão voluntária e a autoridade castrense que vigiam dentro dos redutos), ou para edulcorar os flagrantes de delinquência e ilícitos de nítido caráter terrorista que marcaram a ferro e fogo milhares de viventes e incontáveis interesses locais, nacionais e internacionais.
Ali, no Contestado, ao sul e a oeste das então fluídicas fronteiras entre Santa Catarina e Paraná, deu-se um embate fratricida de quatro anos; ali, em torno de 7 mil homens, um terço do efetivo do Exército brasileiro, promoveu um morticínio exemplar e único no século 20, sob o comando do general Setembrino de Carvalho (1861-1947), coautor da tragédia de Vaza-Barris havia menos de duas décadas. E, onde, entre mortos e feridos, como em Canudos, se revezavam na brutalidade, espelhando-se mutuamente na sangueira e na insensatez, cada um empunhando a "sua" bandeira da verdade secular e de transcendência messiânica.
Incontornável: no Contestado matou-se à bala, à baioneta e na degola, e tombaram de fome, doençaria e perdição, entre soldados, caboclos e fanáticos, mais de 20 mil pretos, cafuzos, bugres e índios aculturados, imigrantes europeus (poloneses, alemães, ucranianos, rutenos), retirantes e trânsfugas de todos os grotões miseráveis do País. Hoje, centenas de cruzeiros sem nome e data, às vezes emoldurados com fitas coloridas, à sombra dos verdejantes pinheirais remanescentes e das sombrias florestas de Pinus elliottii do planalto catarinense, ainda clamam por justiça e reparação histórica.
No Contestado, a refrega teve inequívocos lances separatistas. Talvez resida aí uma das razões pelas quais se teme tanto mexer e rever o conflito na sua integridade holística, denunciando executantes e mandantes, desencavando valas crematórias, lápides e necrológios. A caudilhesca Revolução Farroupilha (1835-1845), que deu na breve República Piratini, era explicitamente autonomista, uma macabra antevisão sesquicentenária do dístico "o Sul é o meu país" - ao contrário do Contestado, onde essa vocação nunca foi coletiva, nem havia unanimidade política quanto a uma possível secessão, e muito menos representou o insumo para a longevidade da desgraceira.
Mesmo que chefetes, ex-lideranças de Gumercindo Saraiva, um dos comandantes da malograda, também separatista, Revolução Federalista (1893-1895), chegassem a propor, em 1914, a criação de um Estado autocrático batizado de "Monarquia Sul Brasileira", que incorporaria tanto o Paraná como o Rio Grande do Sul, estendendo-se ao Rio de Janeiro. Na Carta Magna, que deixa escapar laivos republicanos, além de uma inusitada liberdade de voto, culto e de opinião, sonhava-se até com a criação de um Ministério da Marinha e a anexação da Banda Oriental do Uruguai, "antiga Província Cisplatina"...
Não raro o Contestado é associado à Guerra de Canudos (1896-1897), sendo inclusive chamado, equivocadamente, de "Canudos do Sul", e faz mesmo algum sentido semântico, pois já nas primeiras notícias de ajuntamentos messiânicos na região, no início do século 20, a expressão veio a lume na mídia. No entanto, o Contestado diferencia-se de Canudos menos pela sua origem igualmente milenarista, como é reconhecido esse surto religioso de deserdados que agem em uníssono almejando uma suposta redenção moral de mil anos.
Tudo atiçado pelo verbo, ora incandescente ora melífluo, de um "messias", com subtexto cristão revanchista e de restauro de um idílico tempo de benesses e bem-estar geral e perene. Esse "salvador" de homens e almas tanto pode ser um Antônio Conselheiro como os dois "padroeiros" do Contestado, os "sãos" João Maria, histórico e pacifista, e o bruxo incendiário José Maria, de passado dito criminoso, idolatrado por suas mandingas e curas e por arrecadar dinheiro dos caboclos para promover o assentamento fraudulento deles em terras devolutas.
Para higienizar de vez esse caldeirão, o que fazer com os milhares de enjeitados recalcitrantes, como controlar esse lumpesinato enfurecido que se engraçara com o messias em voga, indiferente à interminável pendenga jurídico-institucional entre Paraná e Santa Catarina? O jeito foi forçá-los a se virar como operários das multinacionais Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, a Brazil Railway Company, e Southern Lumber & Colonization (então a maior serraria da América do Sul). Ou, na pior das hipóteses, enxotá-los de suas glebas feito cães sarnentos, por não possuírem título de propriedade.
Isso sem falar nos 8 mil homens recrutados no Nordeste e no Rio de Janeiro como mão de obra quase escrava para tocar a ferrovia. Com seu término, em 1910, desempregados, eles viraram os potenciais novos "soldados do exército encantado de São Sebastião": miséria por miséria, que fosse acreditando no improvável que poderia matar sua fome, em lugar da exploração de sua força de trabalho por ninharia e da serventia física e moral.
Foi quando o presidente Hermes da Fonseca, apavorado com que ali subsistissem cinzas de um monarquismo redivivo, mandou à região, armado até os dentes, inclusive com inéditos aviões, o general Setembrino de Carvalho, que acabara de liquidar um levante do Padre Cícero no Ceará.
Setembrino atuou com as PMs de Santa Catarina e do Paraná, coadjuvadas pelas milícias dos "coronéis", os chamados "vaqueanos", de infausta memória, que faziam o serviço sujo na cola do Exército, do qual recebiam soldo. Um a um eram fuzilados ou degolados os intimoratos recos da tropa celeste de "São Sebastião" (o mito do sebastianismo, restaurado nos sertões catarinenses, virara o mote da hora), em cujas fileiras estariam os combatentes mortos no Irani, tendo à frente "são" José Maria, lancetado naquele entrevero inaugural do Contestado (22 de outubro de 1912).
Conhecidos como "redutos" (eram mais de 40), e para os sertanejos, "cidades santas", essas favelas, então inexpugnáveis "fortes de resistência" do jaguncedo, constituíam um misto de dormitório, rupestre praça de prédica, reza e batismos, justiçamento sumário e de ditames bélicos. Numa viagem dos tempos, dada a mesma matriz cristã, os sítios remontam ao espaço de fanatismo religioso, cega obediência e castigos aos índios, formatado pelos jesuítas nas missões da chamada "República Guarani" (1610-1776).
Improvisados e provisórios, estendiam-se a partir do Rio Iguaçu (divisa do Paraná), ao longo do Vale do Rio do Peixe (centro-oeste catarinense), até quase às margens do Rio Uruguai, que separa Santa Catarina do Rio Grande do Sul.
Como viviam infiltrados por aventureiros e fugitivos da lei, muitas vezes o epíteto "jagunço" fazia sentido. Em nome de um suposto ideal igualitário ("quem tem, mói, quem não tem, mói também") pregado por "são" João Maria, nas suas ações guerrilheiras, derrotados nas tentativas de convencer quem os seguisse, punham-se a ameaçar a população civil, além de lhes surrupiar o gado, mantimentos, roupas e armas.
Na invasão de Curitibanos, quando incendiaram prédios públicos, assombrando autoridades e habitantes, houve quem visse em seus olhos aquele esgazeado próprio do fanático. Algo que corresponde ao que o historiador Maurício Vinhas de Queiroz (1928-1995), cujo livro Messianismo e Conflito Social (1966) é referência histórica, revela sobre os caboclos: o Contestado teria sido uma revolta alienada, seus protagonistas agiam como se fossem autistas, enfrentando as razias do general Setembrino de Carvalho com espadas de pau, crentes que ressuscitariam no Exército Encantado de São Sebastião...
Nessa, acabavam embaralhando agressão a símbolos opressores (obras da ferrovia, da serraria, sedes de fazendas, depósitos de armas, linhas telegráficas do Exército) com quem os apoiava clandestinamente (pequenos fazendeiros, comerciantes, políticos locais). Um terrorismo que foi corroendo e manchando a legitimidade reivindicatória do movimento por confundir algozes e vitimas.
Dissolvendo nossa useira e vezeira inconsciência, deboche e preguiça acadêmicas quanto à exegese da história oculta do Brasil, onde invariavelmente o campeão e o perdedor mentem, é preciso desossar o Contestado a partir de um mix entre o que foi e o que poderia ter sido. Ou seja, munido de um rigoroso approach desideologizado, onde os influxos morais permaneçam inoxidáveis.
15 de dez. de 2012
acorda, raimundo!
Este filme, produzido pelo Ibase, com o apoio da CESE, trata de uma inversão dos papeis tradicionais na sociedade, a fim de dar ênfase ao cotidiano de milhões de mulheres que vivem sob o machismo e a violência. Dirigido por Alfredo Alves, conta em seu elenco com Eliane Giardini, Zezé Mota, Paulo Betti e José Mayer.
(Fonte)
um mundo sem estantes
Um amigo entra na minha casa nova, vê as estantes ainda vazias e começa o bombardeio: "Para que espaço para tanto livro? Livro está acabando".
Ele não quer saber da vista, de nenhum detalhe da obra, da arquitetura ou da decoração (não que eu tivesse algo a dizer sobre essas coisas, mas, enfim, era uma casa nova). O incômodo com as estantes é maior que tudo isso.
Para me safar do cerco, banco o moderno. "Claro que eu sei, os livros eletrônicos são o futuro. Mas isso aqui é para armazenar o que eu já tenho, entende? Até hoje guardo livros na casa dos meus pais, para você ter uma ideia."
Cascata, tática diversionista. Eu sabia que, se já estava sob tiroteio pesado, tudo iria piorar quando meu amigo visse a outra face do móvel. Ali, eu dava os primeiros passos para eliminar a bagunça dos meus CDs. E "in style", à moda gringa, ordenando por sobrenome.
Um serviço que, digamos, me dava certo orgulho. Mas o sentimento só dura até o próximo balaço: "E esse monte de lugar para CDs? CD não vai existir mais".
Em busca de trégua, sugiro sairmos para jantar. Encontramos a mulher dele. Como na faixa de Gaza, o cessar-fogo tem curta duração. "O Álvaro está maluco, botou um monte de estantes na casa nova, parece que não sabe que livros e CDs estão condenados."
Isso faz alguns anos. Nem preciso dizer que, tanto para livros quanto CDs, o espaço naquelas estantes, que pareciam obsoletas, está no fim. E o mais irônico: meu amigo, profeta do apocalipse do plástico e do papel, nunca chegou a comprar um leitor eletrônico de livros. Não tem Kindle nem iPad. Continua encomendando seus volumes de papel.
Já eu, dono do móvel ultrapassado, adotei o livro digital. O encanto inicial foi grande, até escrevi sobre isso. Caminho sem volta para um mundo sem estantes? Talvez não.
Há poucos meses, o ator Bruce Willis revelou que planeja algum tipo de ação legal contra a Apple. O objetivo é garantir que sua vasta coleção de música, em grande parte baixada na loja virtual de Steve Jobs, faça parte da herança que ele deixará às filhas.
Nas entrelinhas da burocracia, Willis descobriu que as músicas não são exatamente dele, nem de ninguém que as compra. São, de certo modo, alugadas. Se ele morrer, voltam para a Apple. Não quer deixar, para as três jovens, um legado de silêncio.
O pesadelo que Willis tenta evitar, uma mulher norueguesa já enfrentou. Identificada apenas como Linn, um dia ligou seu Kindle, o leitor eletrônico da Amazon. Ao conectar o aparelho à web, o golpe: todos os livros que já tinha comprado foram apagados em um segundo.
Seguiu-se um pesadelo kafkiano. Ao contatar a Amazon, foi informada de que havia problemas de fraude em uma outra conta, também associada a ela. Como punição, todas as contas estavam sendo canceladas. Adeus, livros digitais.
Só um problema: ela não tinha nenhuma outra conta. Era claramente um engano. Mas a Amazon se recusava a dar detalhes. Linn não tinha como se defender.
Alguns escritores souberam do caso, e passaram a divulgá-lo. Só a partir daí a situação foi aparentemente resolvida. Os livros eletrônicos foram restituídos a Linn, independente do status da conta.
O futuro desse universo cada vez mais digital é cheio de riscos. Imagine: colapso na nuvem. "Crashes" de servidores, fibras ópticas rompidas, blecautes em série nos principais polos hi-tech da Terra.
Nos primórdios da web, uma situação assim teria uma consequência grave: internet fora do ar. Grave, porém única. Músicas, filmes e demais arquivos baixados pela rede estariam a salvo, guardados nos computadores das casas das pessoas.
Mas, hoje, tudo mudou. Um crash gigantesco seria muito mais devastador. Porque cada vez menos gente armazena em casa seus arquivos digitais. Está tudo em servidores poderosos, espalhados pelo mundo. Nessa nuvem, digital e amorfa.
Não é fora de propósito imaginar um cenário de perda de contato com ela. Sem livros físicos, sem CDs, os arquivos digitais perdidos na nuvem isolada. A distopia digital extrema. O mundo das ideias salvo pelas estantes.
- Álvaro Pereira Jr., para a Folha de S. Paulo, 08-12-12 (via)
Em tempo: o que você fez com as enciclopédias que tinha em casa?
cairo, a cidade eterna
Parte da magia desta grande cidade, mesmo quando abalada por turbulências políticas, reside na sua aparente capacidade de absorver qualquer revolta, desafiar as probabilidades, superar tudo -dos engarrafamentos à burocracia- e sobreviver. Como o Nilo, a sua referência, o Cairo tem o fascínio do eterno.
A grandeza de nenhum edifício resiste à marcha de poeira, e, no entanto, a cidade retém algo da sua inefável majestade. As lutas dos seus muitos milhões de habitantes estão sempre aparentes, mas sua dignidade em meio às dificuldades é menos visível. A cidade derrota verdades simples.
Isso é bom. Gostamos das nossas verdades simples hoje em dia. Preto ou branco é o que queremos. "Só que", responde o Cairo, "eu sou cinza!".
A turbulência política do Egito pós-revolucionário é óbvia. Menos óbvia é a forma como a sabedoria e o bom humor daqui temperam e moldam os fatos. Uma coisa é viver num país como a Síria, com fronteiras desenhadas no começo do século 20 por algum burocrata britânico dispéptico, onde a tentação da dissolução nunca está muito abaixo da superfície. Outra coisa é ser parte de uma terra e uma cultura tão antigas quanto as do Egito.
Comecei a pensar nisso durante a rebelião de dois anos atrás na praça Tahrir, que levou à queda de Hosni Mubarak. Toda noite, dezenas de milhares de pessoas, incluindo mulheres e crianças, saíam da praça através do estreito espaço entre dois tanques. O potencial para um desastre era alto. Um momento de pânico ou de afobação poderia levar a um tumulto e a um banho de sangue. Mas a civilidade, o respeito e a paciência prevaleceram.
Tais verdades nos dizem mais sobre as perspectivas de longo prazo de um país do que fatos mais imediatos e chamativos. A humanidade da Itália, o otimismo do Brasil e a abertura dos EUA são qualidades que as estatísticas não conseguem mensurar. Da mesma forma, não há contagem ou pesquisa que identifique essa qualidade que encontrei na praça Tahrir. Não é à toa que o Egito, ciente do preço e da inutilidade da guerra, foi o primeiro país árabe a fazer a paz com Israel.
Gosto de parar no Cairo para sentir os ritmos da cidade. Como muitos lugares, o Cairo oferece dois universos distintos.
Há os estabelecimentos globalizados, reluzentes, com ar-condicionado, onde você toma um café com leite pelo mesmo preço de Paris ou Nova York. Aqui o tempo corre na velocidade do século 21. Noticiários e desfiles de moda passam na TV.
E há então o mundo lento no qual a maioria dos cairotas vive e ri, com suas espeluncas oferecendo chá ou café doce e porções de feijões ("ful"). Você poderia viver feliz durante alguns dias com os feijões não globalizados pelo preço de um daqueles cafés globalizados. Muitos cafés no mundo lento oferecem "shishas" (narguilés) para fumar tabaco com aroma de maçã enquanto você vê o dia ir embora. É um ritual agradável de observar. Um homem de movimentos precisos abana as brasas, sacudindo-as em uma concha metálica escurecida, antes de colocá-las com uma pinça, uma a uma, no narguilé. Nada é feito com pressa aqui, porque nada vai mudar.
Confundimos atividade e movimento com realizações. Pode-se ganhar mais com uma pausa. Cada época tem suas ilusões. Recentemente, li uma revista de 1938. Um editorial dizia: "A máquina deixou os homens frente a frente como nunca antes na história. Paris e Berlim estão mais perto hoje do que aldeias vizinhas estavam na Idade Média. Em certo sentido, a distância foi aniquilada".
Isso foi mais de meio século antes da invenção da internet. É importante desacelerar, no mínimo porque estamos longe de ser os primeiros humanos a acreditar que o mundo se acelerou. Mesmo no mundo lento do Cairo há surpresas. Enquanto eu fumava "shisha" num modesto estabelecimento da rua Kasr el Nil, uma amiga observou que o local anunciava uma conexão wireless.
"Qual é a senha?", perguntou ela ao proprietário.
"Nike", respondeu ele, que continuou passando um café.
(Roger Cohen, para a Folha de S. Paulo, em 10-12-12. Via)
como combater os injustos sem se parecer com eles
Transeunte rasga banner de manifestantes da TFP contra o casamento LGBT (Via)
De Miriam Martinho, para o Um Outro Olhar (leia na íntegra aqui):
Uma das principais críticas aos movimentos sociais, principalmente por sua vertente politicamente correta, é de que seus membros se fazem de vítimas o tempo inteiro, colocando-se como ofendidos por qualquer coisa, da mais banal a mais séria. Parte dessa crítica é procedente. Há mesmo muito "ofendidismo" circulando nos diferentes tipos de ativismo, e, como diria Hegel, quem exagera no argumento prejudica a causa.
Entretanto, algumas das forças políticas que criticam esse ativismo "excessivamente sensível" por acaso agem de forma diferente? Não se fazem de vítimas aqueles que na verdade, com base em dogmas religiosos, vivem perseguindo, por exemplo, homossexuais, lutando contra a igualdade de direitos entre as pessoas em nome de bíblias, famílias e outras tantas? Saem pregando a discriminação e posam de vítimas!? Posam sim.
(...) Naturalmente, a hipocrisia dessa gente faz o sangue de qualquer um(a) ferver, mas ataques contra esses tipos, sobretudo físicos, só os beneficiam. Depois eles fazem uma compilação das reações agressivas das pessoas, indignadas contra sua lixeira religiosa, como no vídeo abaixo, e posam de vítimas, falando com voz calma e postura tranquila que - tadinhos - os LGBT é que são intolerantes e contrários à liberdade de expressão. E essa imagem cola!
Quem já praticou alguma arte marcial sabe muito bem que para vencer uma luta não basta técnica mas sobretudo precisa-se de controle emocional. Campeões mantêm a cabeça fria, o coração, ameno. Aliás, a raiva é a maior inimiga do bom senso em geral. O ativismo LGBT precisa fazer um pouco de psicodrama antes de enfrentar essa conservalha pelo visto tanto nos EUA seja quanto no Brasil.
Nos tempos do movimento pelos direitos civis dos negros americanos (1955-1968), os ativistas, influenciados pelo pacifismo de Gandhi, faziam manifestações não-violentas contra o racismo, como os célebres sit-ins. Entravam nos lugares só para brancos, sentavam-se e lá ficavam sem serem atendidos ou sem reagir às agressões e às prisões que acabaram ocorrendo. Eles treinavam para isso, e deram fim, no médio prazo, à infame segregação pela via dessas ações. Por isso, deixo também um vídeo sobre os sit-ins daquela época à guisa de recordação de um bom tempo onde os oprimidos sabiam se distinguir claramente de seus opressores. Quem sabe a lembrança não sirva de inspiração para se repensar formas mais justas de agir contra os injustos nos dias de hoje. Na base do olho por olho, como diz um ditado, todo mundo acabará cego.
* * *
O amigo Hugo Nogueira comenta e colabora:
"O curioso que os hinos do movimento gay são músicas de discoteca. Nesse vídeo foram usadas as únicas imagens da Revolta de Stonewall, que deu origem ao movimento gay moderno, além disso, imagens das primeiras paradas que se seguiram, cata o cartaz com a imagem de Jeus escrito Why?, e da vitória de Harvey Milk."
"O curioso que os hinos do movimento gay são músicas de discoteca. Nesse vídeo foram usadas as únicas imagens da Revolta de Stonewall, que deu origem ao movimento gay moderno, além disso, imagens das primeiras paradas que se seguiram, cata o cartaz com a imagem de Jeus escrito Why?, e da vitória de Harvey Milk."
14 de dez. de 2012
o sistema midiático, como controle social por parte do poder, acabou
(...) A reviravolta, para Castells, é a crise econômica, por ele definida como "a primeira crise global, não global": as redes do poder, políticas e econômicas, nos países ocidentais, através dos meios de comunicação de massa, difundem a ideia de que o crise é global para poder fazer com que as populações paguem as contas dos crimes econômicos, políticos e sociais que foram perpetrados por eles através dos bancos e das especulações financeiras.
Mas a crise não é global, pois aflige exclusivamente os países ocidentais que representam no máximo 30% da população mundial (pensemos nas economias emergentes, todas em crescimento, como os países que integram a sigla BRIC – Brasil, Rússia, Índia, China). E é nesse cenário que, para Castells, o sistema midiático, como o conhecemos, ou seja, como expressão do controle social por parte das redes de poder, acabou:
"O monopólio da comunicação de massa acabou, e essa é a mudança mais importante na história da comunicação. As pessoas hoje são capazes de criar redes de comunicação horizontais de modo multimodal, sem nenhum controle de governos ou empresas. Sim, há tentativas de controlar, mas há alguns fatores que o impedirão: a) em todos os Estados, há uma proteção jurídica para a livre expressão; b) as pessoas podem reagir, mudando, por exemplo, as regras; c) as pessoas são capazes de contornar o controle e sempre encontram o modo de se comunicar na internet. Mesmo na China".
E é justamente através da rede internet que puderam se desenvolver movimentos internacionais [e também aqui] como os Indignados espanhóis, o Occupy Wall Street nos EUA e também as revoluções da Primavera Árabe.
Castells afirma que o jornal impresso não tem futuro, não porque esteja vinculado por um improvável (para ele) determinismo tecnológico, mas sim ainda na ótica da mudança do cenário político-social que foi o campo no qual o jornal impresso, como medium, se afirmou: "O nosso mundo é online. Cerca de 97% de todas as informações existentes no planeta estão digitalizadas. Os jornais que não se adaptarem à era digital estão condenados, independentemente dos sistemas 'ludistas' que podem testar. Na realidade, a maior parte dos jornais europeus é subvencionada pelos governos e pelos partidos políticos ou é propriedade de empresas, mesmo que em perda, com o único propósito de manter a própria influência política atual".
E sobre a questão da sobrevivência do jornal impresso, Castells não tem dúvidas: "É uma questão de tempo. Quando a atual geração das pessoas com 60 anos acabar, não haverá nenhum jornal impresso sem subvenções. Mas a informação e o jornalismo prosperarão no mundo da comunicação virtual, que os editores deverão compartilhar com os blogueiros e com os outros habitantes da rede".
Leia na íntegra aqui. Como exemplo do que fala Castells, dê uma olhada em "O referendo islandês e os silêncios da mídia", de Mauro Santayana, aqui.
E mais: "O jornalismo dos anos 90", livro de Luis Nassif, é uma excelente introdução a uma leitura crítica da produção jornalística (para baixar em pdf, aqui)
o dia internacional do direito à verdade
Foto via Carta Capital
De Egon Dionísio Heck, coordenador do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) do Mato Grosso do Sul, via Amai-vos (leia na íntegra aqui):
Numa audiência pública despretensiosa, presidida pela aguerrida deputada Luiza Erundina, o Brasil preencheu as condições para levar à aprovação do Congresso a instituição do "Dia Internacional do Direito à Verdade". O Dia 24 de março, em homenagem a Dom Romero das Américas, foi instituído pela ONU, em 2010, como a data comemorativa ao Direito à Verdade em todo o mundo.
Os participantes da audiência pública insistiram na importância simbólica dessa data, pois será um momento a mais para que o país busque fazer justiça, recuperando a memória perigosa das vítimas da secular resistência no país e no continente.
Em nome do Cimi expus algumas reflexões que passo a socializar:
Ontem aqui nesta casa, um Ato Público em apoio à causa indígena, promovido por esta mesma Comissão de Direitos Humanos, duas manifestações chamaram atenção. Uma delas foi quando a desembargadora, juíza Kanarik não conteve as lágrimas ao afirmar: "é inacreditável que em pleno século 21 tenham que afirmar: nós somos humanos, nós temos sentimentos como vocês". Só faltava algum papa ter que fazer uma bula afirmando que os índios têm alma. Abominemos de uma vez por todas essa mentalidade criminosa que ainda norteia muitas das elites, governantes e Estados nacionais. Como sociedade de verdade, façamos justiça declarando na prática nosso anátema a essas afirmações e posturas genocidas, racistas e fascistas. Desconstruir e descolonizar a memória significa uma decisão política com estratégias concretas neste sentido. Deixemos-nos inundar com os nobres sentimentos que vem da raiz deste continente, de seus povos originários, dos heróis da resistência.
Desconstruir a memória do invasor, do colonizador, do capital nacional e internacional, ontem e hoje, significa não apenas reconhecer a pluralidade de povos, culturas, crenças, organizações sociais e direitos consuetudinários em nosso país, mas requer a imediata devolução de seus territórios, e as condições para viverem em paz e com dignidade. Isso requer rever o panteão dos heróis, dentre os quais estão vários matadores de índios, ter a coragem de fazer fogueiras com livros que continuam veiculando mentiras sobre os povos indígenas em nossas salas de aula, veicular a verdade com relação à realidade, lutas e valores dos povos indígenas. Dizia ontem, nesta casa a indígena Pierangela Wapixana, de Roraima, "é difícil os não índios nos entenderem, enxergarem além das aparências, a nossa relação com a mãe terra e a natureza, nosso espírito, nossa alma, nossos sentimentos".
Infelizmente continuamos sob o manto da arbitrariedade que estimula a violência, promove a impunidade e sacraliza a injustiça. Precisamos urgentemente descolonizar não apenas a memória, mas como diz Fernando Ortiz, em recente entrevista: "A descolonização deve ser não apenas política (do poder) e econômica, se não também mental, cultura e ideológica".
Portanto, temos uma árdua e imprescindível tarefa de mudanças profundas, sistêmicas e mentais, para o qual a criação da comissão indígena da verdade e o dia internacional da verdade poderão contribuir.
Os Kaiowá-Guarani que ontem estiveram no Congresso, em Brasília, disseram com todas as letras "não aguentamos mais". O genocídio em curso, conforme a deputada Érica Kokai, nos desafia e impele não à repetição de discursos e falas bonitas, mas a ações concretas e inadiáveis. Certamente não queremos entrar para a história como cúmplices e exterminadores de povos. Esses povos nos repetiram milhares de vezes que tem que se começar pelo reconhecimento e garantia de seus territórios. Com isso esperam diminuir a absurda violência a que estão submetidos. E outro passo urgente é julgar e punir os assassinos das lideranças indígenas. "Mata-se índio, como se mata um cachorro", nos dizem as lideranças em suas falas. E nada se faz. Nenhum matador de índio no Mato Grosso do Sul foi julgado e punido. Ao contrário centenas de nossos parentes estão mofando nas cadeias da região. Centenas de processos que envolvem nossas terras estão paradas nos tribunais e não são julgadas para permitir a continuidade dos processos de regularização. Uma liderança observou que a "justiça é lenta”, para os índios, os negros, os pobres, mas funciona rapidamente para quem tem dinheiro.
(...) Apesar do mar de sofrimento, violência, injustiça e opressão em que está mergulhado o Continente e nosso país, a institucionalização do dia internacional de Direito à Verdade, soa como um leve ruflar das asas de um beija flor em meio a um temporal.
Porém, passos importantes estão sendo dados em países como Bolívia e Equador, que têm o Bem Viver inscritos em suas constituições e estão caminhando para o reconhecimento dos Direitos da Mãe Terra – Pachamama, os Kaiowá-Guarani estão construindo importantes estratégias comuns nos quatro países (Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia), para mutuamente se apoiarem na luta por seus direitos, especialmente os territórios. O Conselho Continental da Nação Guarani é uma experiência esperançosa no contexto de luta e reconhecimento de direitos, para além das fronteiras dos países.
Na busca da Terra Sem Males somos todos caminhantes guiados e precedidos por nossos irmãos Kaiowá Guarani. Que o dia 24 de março se torne não apenas mais um dia comemorativo, mas que seja o dia de mudanças em nossas mentes, corações e estruturas na perspectiva da convivência respeitosa e digna de todos os povos.
- Egon Dionísio Heck (leia na íntegra aqui)
E mais: leia aqui o relato pungente de Pedro Gustavo Gomes Andrade, advogado membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MG e membro dos Advogados Sem Fronteiras, de sua viagem às comunidades Guarani-Kaiowá.
o necessário resgate do sagrado
Foto: Kent Shiraishi
De Leonardo Boff, para o Jornal do Brasil, em 09-12-12 (via):
Uma dimensão sine qua non para inaugurar uma nova aliança para com a Terra reside no resgate da dimensão do sagrado. Sem o sagrado a afirmação da dignitas terrae e de seus direitos permanece uma retórica sem efeito. O sagrado constitui uma experiência fundadora. Ele subjaz às experiências que deram origem às religiões e às culturas humanas.
Os últimos séculos se caracterizam por uma sistemática intervenção nos ritmos da natureza a ponto de ficarmos surdos à musicalidade dos seres e cegos face à grandeur do céu estrelado. Com isso perdemos a experiência do sagrado do universo. Em seu lugar entrou a vigorar vasta profanidade, que reduziu o universo a uma realidade inerte, mecânica e matemática e a Terra a um simples armazém de recursos entregues à disponibilidade humana. Tirou-se a palavra de todas as coisas, para que só a palavra humana imperasse.
Se não conseguirmos resgatar o sagrado, dificilmente garantiremos o respeito à Terra e aos demais seres que possuem um valor intrínseco. A ecologia se transformará numa técnica de simples gerenciamento da voracidade humana mas jamais em sua superação. A pretendida nova aliança significará apenas uma trégua para que a Terra se refaça das chagas recebidas, para logo em seguida receber outras, porque o padrão das relações agressivas não mudou nem transformou nossa atitude básica de ausência de respeito e de sacralidade.
Antes de qualquer outra coisa, cumpre que nos reencantemos com o universo. Isso foi bem expresso pelo astronauta norte-americano Edgar D. Mitchell, em 1971, sobre a Apolo l4 a caminho da lua. Exclamava boquiaberto: "Daqui, a milhares de milhas de distância, a Terra mostra a incrível beleza de uma joia esplêndida de cor azul branca, flutuando no vasto céu escuro. Ela cabe na palma de minha mão. Nela está tudo o que é sagrado e amado por nós”.
Que é o sagrado? Não é uma coisa. É uma qualidade das coisas, que de forma envolvente nos toma totalmente, nos fascina, nos fala ao profundo de nosso ser e nos dá a experiência imediata de respeito, de temor e de veneração.
Rudolf Otto, um clássico estudioso do fenômeno em "O sagrado" (das Heilige), descreve em duas palavras-chave a experiência do sagrado: o tremendum e o fascinosum. O tremendum é aquilo que nos faz tremer por sua magnitude e pelo desbordamento de nossa capacidade de suportar a sua presença. Esta nos faz fugir devido a sua arrasadora intensidade. E ao mesmo tempo, é o fascinosum, vale dizer, aquilo que nos fascina, nos arrasta como um íman irreprimível porque nos concerne absolutamente. O sagrado é como o sol: sua luz nos arrebata e nos enche de entusiasmo (fascinosum). E ao mesmo tempo nos obriga a desviar o olhar porque pode nos cegar e queimar (tremendum).
É essa experiência ambivalente que os seres humanos originários fizeram e nós ainda podemos fazer em contato com o cosmos, com a Terra, com a vida. com as pessoas carismáticas, com a atração amorosa entre um homem e uma mulher. Sentiram comunicar-se nestas realidades uma força irrefragável, expressa classicamente pela palavra melanésia de mana ou pelo axé das religiões afro. Potencialmente, todas as coisas são portadores de mana ou de axé. São por excelência a revelação do sagrado, sua epifania e diafania.
Por debaixo de tudo opera, como nos dizem os modernos cosmólogos, a Energia fontal, o Abismo gerador de todas as coisas, o Spiritus Creator. O sagrado irrompe em nós quando internalizamos a visão contemporânea do universo em evolução e em cosmogênese. Não basta esta cosmovisão que pode ser encontrada no Google. Do que precisamos é de uma comoção e uma experiência de choque. Precisamos sentirmo-nos dentro destes conhecimentos sobre o cosmos, a Terra e a natureza, porque são conhecimentos sobre nós mesmos, sobre nossa ancestralidade e sobre a nossa realidade mais profunda. São tais comoções que modificam nossas vidas.
Como não se extasiar diante da imensidão de energia ejetada na singularidade do big bang, na formação do campo de Higgs, que permitiu conferir massa às partículas originárias, a constituição das nuvens de gases que originaram a primeira geração de estrelas que. depois de explodirem. deram origem às galáxias, às estrelas, aos planetas e a nós mesmos. É o fascinosum.
Que existe de mais tremendo e misterioso do que a massiva destruição da matéria inicial pela anti-matéria sobrando apenas uma bilionésima parte, da qual se origina todo o universo e nós mesmos? Aqui o tremendum se associa ao fascinosum. E poderíamos enumerar outras tantas experiências.
Todas elas nos colocam diante de uma realidade cuja melhor forma de abordá-la é pela teoria da complexidade pela qual os contrários se fazem complementares, aceitar que somos parte e parcela deste Todo. Só nos integramos e nos sentimos em casa quando nos associamos a essa sinfonia e disfonia, quando compreendemos que o bumbo convive com o violino, quando usamos nossa criatividade para agirmos com a natureza e nunca contra ela ou à revelia dela.
Esse sagrado assumido nos faz regressar de nosso exílio e despertar de nossa alienação. Ele nos reintroduz na Casa que havíamos abandonado. Somente uma relação pessoal com a Terra nos faz amá-la. E a quem amamos também não exploramos mas respeitamos e veneramos. Agora poderá começar uma nova era, não de trégua mas de paz perpétua (Kant) e de verdadeira re-ligação de tudo com tudo.
- Leonardo Boff
* * *
A expressão overview effect, cunhada por Frank White em 1987, refere-se à experiência de ver o planeta do alto pela primeira vez. 40 anos depois da famosa foto "Esfera Azul" ("Blue Marble"), a primeira tirada da Terra a partir do espaço, o Planetary Collective produziu um curta-metragem sobre o impacto transformador dessa experiência na vida e nos pontos de vista das pessoas que puderam ver a Terra de fora. (Via)
E mais: A Terra é azul! e A frágil Esfera Azul
Ou, para ver um bocadinho mais de perto, tem também este filme aqui. Mas, se preferir, você também pode olhar ainda mais de longe, aqui (via). Ótima programação para o fim de semana.
13 de dez. de 2012
os deputados e o projeto de "cura gay"
Deputados querem revogar uma resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) para permitir "terapias de reversão sexual". A prática clínica da "cura gay" tem sido criticada no mundo todo, por tratar a homossexualidade como doença (coisa que não é admitida nos meios acadêmicos, nem pela OMS) mas que mesmo assim ainda ocorrem, e em alguns casos, com graves denúncias de intervenções psicológicas visando à “reversão”, internação compulsória, agressão e até mesmo tortura. A população brasileira não precisa disso, não precisamos de práticas que incentivem a discriminação.
A resolução do CFP 01/99 visa alertar para os riscos e problemas das chamadas "terapias de reversão sexual"; na maioria das vezes, tais terapias são conduzidas e divulgadas por pessoas ligadas a grupos que não aceitam a homossexualidade, por vezes ligados a entidades religiosas, predominantemente influenciados por valores e crenças moralizadoras.
Não há nenhuma evidência científica – estudada pela Psicologia, Medicina ou por qualquer das disciplinas do campo da Saúde – que apoie a ideia defendida no projeto, portanto, qualquer tentativa de tratamento que vise à “cura da homossexualidade” estará embasada em pontos de vista unilaterais, enviesados e calcados na moralidade de quem defende a proposta, indo contra tudo o que tem sido defendido pelas principais entidades mundiais que estudam o tema: American Psychological Association (APA), American Psychiatric Association e a própria OMS.
(Do blog Um outro olhar - leia na íntegra aqui.)
Clique aqui para assinar a petição do Conselho Regional de Psicologia pelo respeito e tolerância à diversidade sexual.
E mais: Parecer integral de deputado-pastor favorável ao projeto de "cura gay", onde fica evidente que a argumentação favorável ao projeto parte do princípio de que a homossexualidade é, nas palavras do deputado, uma "desordem/transtorno sexual" - e esse é TODO o problema.
* * *
* * *
(...) Todos têm direito a expressar sua fé, como todos deveriam ter direito a ter sua orientação sexual respeitada. Mas se tratamentos como esses passarem a ser oferecidos legalmente, sugiro também reciprocidade com a religião. Vamos curar cristãos, muçulmanos, judeus e todos aqueles que, dentro das religiões adotam comportamentos fundamentalistas, acreditando que amor é desvio.
Ainda mais porque escolhemos a fé. Não a orientação sexual. E lutar pelos direitos LGBTT nunca matou ninguém. O mesmo não posso dizer do já citado fundamentalismo religioso…
(...) Uma sociedade que não tem vergonha de fazer isso é aquela que, de tempos em tempos, espanca e assassina gays e lésbicas. Que abriga seguidores de uma pretensa verdade divina que taxam o comportamento alheio de pecado e condenam os que julgam diferentes a uma vida de terrível aqui na Terra, tornando real – enfim – o que suas escrituras sagradas chamaram de inferno. Por que a culpa é da sociedade? Porque, de acordo com Constituição, a dignidade é um bem que deve ser garantido pela coletividade e tutelado pelo Estado.
E, se não bastasse isso, representantes políticos (que deveriam garantir que direitos fossem válidos a todos os cidadãos) agem não para fazer valer o Estado de Direito, mas sim incentivar a intolerância, empurrando a sociedade para o precipício.
O homem é programado, desde pequeno, para que seja agressivo. Raramente a ele é dado o direito que considere normal oferecer carinho e afeto para outro amigo em público. Manifestar seus sentimentos é coisa de mina. Ou, pior, é coisa de viado. De quem está fora do seu papel.
Gostaria que nos déssemos conta que já passou o momento de sairmos de nossa zona de conforto e começarmos a educar nossos filhos para viverem sem medo. E não para serem inimigos de quem não usa o pênis para dominar o mundo.
- Leonardo Sakamoto, em seu blog (leia na íntegra aqui)
Ainda mais porque escolhemos a fé. Não a orientação sexual. E lutar pelos direitos LGBTT nunca matou ninguém. O mesmo não posso dizer do já citado fundamentalismo religioso…
(...) Uma sociedade que não tem vergonha de fazer isso é aquela que, de tempos em tempos, espanca e assassina gays e lésbicas. Que abriga seguidores de uma pretensa verdade divina que taxam o comportamento alheio de pecado e condenam os que julgam diferentes a uma vida de terrível aqui na Terra, tornando real – enfim – o que suas escrituras sagradas chamaram de inferno. Por que a culpa é da sociedade? Porque, de acordo com Constituição, a dignidade é um bem que deve ser garantido pela coletividade e tutelado pelo Estado.
E, se não bastasse isso, representantes políticos (que deveriam garantir que direitos fossem válidos a todos os cidadãos) agem não para fazer valer o Estado de Direito, mas sim incentivar a intolerância, empurrando a sociedade para o precipício.
O homem é programado, desde pequeno, para que seja agressivo. Raramente a ele é dado o direito que considere normal oferecer carinho e afeto para outro amigo em público. Manifestar seus sentimentos é coisa de mina. Ou, pior, é coisa de viado. De quem está fora do seu papel.
Gostaria que nos déssemos conta que já passou o momento de sairmos de nossa zona de conforto e começarmos a educar nossos filhos para viverem sem medo. E não para serem inimigos de quem não usa o pênis para dominar o mundo.
- Leonardo Sakamoto, em seu blog (leia na íntegra aqui)
* * *
Na Câmara, a Comissão de Seguridade Social e Família passou a tarde de terça-feira, 27, debatendo um projeto de lei, apresentado pelo deputado tucano João Campos, de Goiás. Ele quer suspender a resolução do Conselho Federal de Psicologia que, desde 1999, impede os psicólogos de tentar curar a homossexualidade. Alega que a resolução extrapola as competências daquela instituição e fere o direito constitucional dos terapeutas e dos pacientes.
Mas será que a verdadeira preocupação do deputado é a defesa da Constituição? Tudo indica que não. Eis alguns detalhes que vale a pena destacar para entender melhor o debate - no blog de Roldão Arruda no site do Estadão (aqui).
* * *
Gay conta ter gasto mais de R$ 60 mil para tentar ‘conversão’ à heterossexualidade
O americano Peteson Toscano conta ter gasto USS$ 30 mil (cerca de R$ 60.500), recorrido a três tentativas de exorcismo e passado por um casamento fracassado até conseguir superar seus dilemas pessoais e aceitar que era gay.
O processo durou 17 anos e Toscano hoje milita contra tratamentos que atendem por com nomes como ”conversão” ou ”terapia reparadora”, voltados para gays que querem mudar sua orientação sexual.
Tais práticas contam com o apoio de Igrejas fundamentalistas cristãs. E alguns dos que se submeteram a elas asseguram sua eficácia e se definem como ex-gays.
Mas Toscano, de 47 anos, afirma que não só estes processos não funcionam como também causam danos psicológicos. (...)
Leia na íntegra aqui.
cpi dos incêndios em favelas termina com bate-boca político e sem investigação
(Foto: Alessandro Shinoda, Arquivo Folhapress - Via)
Em setembro publiquei aqui um post sobre a crise habitacional histórica nos grandes centros brasileiros. Esta semana a Rede Brasil Atual publicou duas matérias sobre o assunto: esta, sobre a suspeita de que os recorrentes incêndios em favelas em São Paulo seriam criminosos, relacionados à especulação imobiliária...
Bate-boca, acusações, ataques políticos, retomada de questões já saturadas e nenhuma conclusão. Foi assim que, depois de oito meses, teve fim hoje (12) a CPI dos Incêndios em Favelas de São Paulo, criada para investigar as causas dos pelo menos 600 incêndios registrados na cidade nos últimos quarto anos. A tendência da bancada governista é aceitar que as ocorrências não têm relação com a especulação imobiliária.
Hoje foi o dia de colher o depoimento da secretária-adjunta de Habitação, Elisabete França, que compareceu pela segunda vez à CPI. A primeira reunião marcada com a secretária acabou cancelada por falta de quórum, o que foi usual durante todo período de investigação: apenas seis sessões foram realizadas entre abril e dezembro, apesar das reuniões serem quinzenais. (...)
“Durante o período eleitoral houve muito comentário em redes sociais de que esses incêndios seriam criminosos. Militantes do PT e de outros partidos alegaram que eles estariam sendo provocados pela própria prefeitura, o que me parece uma barbaridade”, disse Pesaro. “Evidentemente que isso é um tipo de ação eleitoreira, mas imaginar que alguém pode pôr fogo em uma favela para retirar as pessoas para especulação imobiliária me parece algo estapafúrdio.”
“O tempo seco foi um dos principais motivos para justificar os incêndios em favelas, mas eles não ocorreram na região metropolitana, que teve o mesmo clima. Ficou só nas favelas de São Paulo. E todos são locais de especulação imobiliária, é só ver no mapa”, afirmou Juliana. “A gestão Serra/ Kassab ficou muito aquém na habitação. Em vez de fazerem programas para tirar as pessoas das suas casas para outra casa foi oferecido bolsa-aluguel de R$ 350. Hoje, no lugar mais longe, um pequeno cômodo talvez seja R$ 600 ou R$ 700.”
Durante a reunião, a secretaria-adjunta de Habitação, Elisabete França, afirmou que não há relação entre a especulação imobiliária e os incêndios em favelas, uma suspeita dos movimentos de moradia. “Eu não sou investigadora de polícia, mas descarto totalmente essa hipótese”, afirmou.
“Para dizer que tem relação seria preciso que uma favela queimasse e na sequência uma empresa começasse a construir no local, e isso não acontece”, disse Elisabete. A reportagem da RBA recordou a secretária, durante entrevista coletiva, que na favela do Moinho, no centro, surgiu um estacionamento ao lado logo após o segundo incêndio em menos de um ano, e uma favela da Vila Prudente, na zona leste, foi transformada em uma praça. “No Moinho é impossível. Se for analisar o que o plano diretor diz lá é uma área para lazer”, limitou-se a responder.
Ela afirmou que todas as famílias que perderam suas casas em incêndios são automaticamente cadastradas em programas de habitação. Porém, moradores de diferentes favelas que pegaram fogo afirmaram à RBA que não havia garantia de inscrição nesses programas, apenas de recebimento do aluguel social e por tempo determinado.
Fonte: Rede Brasil Atual (leia na íntegra aqui)
...e esta, no blog Desafios Urbanos, com uma crítica ao programa Minha Casa, Minha Vida:
"A maior crítica dos urbanistas ao programa Minha Casa, Minha Vida, lançado pelo governo federal em 2009, é a de que as necessidades do setor de construção civil foram mais importantes na construção do modelo do projeto do que o modelo de cidade que ele criaria."
("Minha Casa, Minha Vida é política de crédito, não de cidade", por Thalita Pires, Rede Brasil Atual, aqui)
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