13 de dez. de 2012

quem sabe faz a hora


120 mulheres se reúnem em Quixadá para discutir Comércio Solidário e alternativas de enfrentamento à seca

A seca, hoje, aflige trabalhadores(as) rurais de todo Ceará. Mas, para tentar encontrar alternativas produtivas e de enfrentamento da estiagem, cerca de 120 mulheres – moradoras de Quixadá, Pacatuba e Ocara, se reunirão na quinta-feira (13) e sexta-feira (14), em Quixadá, no III Encontro Territorial do Projeto A Força da Mulher (mais aqui). Durante esses dois dias, além de debater sobre "Economia Feminista e Solidária”, as participantes se reunirão com outras produtoras para a realização da III Feira Feminista e Solidária do Sertão Central. (...)

Toda a programação é pautada na importância da organização dessas e de outras mulheres para o enfrentamento dos problemas, maior impulso na geração de renda e fortalecimento da autonomia feminina. Em um ano no qual mais de 178 municípios cearenses decretaram situação de emergência por causa da seca, a atividade se propõe a discutir a convivência com o semiárido e o papel do Estado na construção de políticas públicas que fortaleçam também a agricultura familiar. (...)

A FORÇA DA MULHER é uma iniciativa que visa contribuir com o fortalecimento político e econômico de grupos de mulheres no Interior do Ceará, ao mesmo tempo em que favorece o desenvolvimento local sustentável, geração de renda e garantia de direitos sociais. O objetivo inicial é capacitar 900 mulheres – 300 em cada município – para uma atuação política qualificada e em práticas de geração de renda, baseadas em grupos comunitários e/ou empreendimentos coletivos solidários.

Dentre os resultados esperados estão: o aumento e reforço da participação de mulheres na economia local, com efetivação de empreendimentos coletivos e solidários, o fortalecimento e/ou criação de uma cooperativa em cada um dos municípios, contemplando a participação política feminina nas decisões e a constituição de grupos de mulheres com capacidade política e de articulação para reivindicar uma atuação efetiva nos espaços e formulação de políticas públicas sustentáveis nas localidades.

Mais informações e texto na íntegra: aqui

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Juventude negra realiza debate sobre o mapa da violência

O Fórum Estadual de Juventude Negra – Fejunes realiza nesta quinta-feira (13) um debate sobre o "Mapa da Violência: a cor dos homicídios no Brasil”. De acordo com o Estudo, o Espírito Santo é o segundo estado que mais mata negros no Brasil. Os números revelam que o assassinato da população negra cresceu 64% em oito anos no estado, sendo que a maioria é jovem.

Durante o debate o Fórum apresentará os números do Mapa da Violência e representantes das Gerências de Promoção da Igualdade Racial e Juventude do Governo do Estado terão a oportunidade de expor o que vem sendo feito para enfrentar o extermínio da juventude negra no Espírito Santo.

A coordenadora do FEJUNES, Neiri Marques, destaca a importância do debate. "Infelizmente, os números comprovam o que já denunciamos há mais de cinco anos. É urgente que o Governo envolva o movimento negro e os demais movimentos sociais na discussão sobre segurança pública. Esse debate ainda está restrito aos altos escalões do Governo”, destaca.

Luiz Inácio que representará o Fejunes na mesa de debate também comenta sobre o tema. "Não se pode ignorar a juventude negra na busca de solução para enfrentar o problema da violência no Espírito Santo. Somos as principais vítimas e temos muito para contribuir com a superação deste quadro. Culpar apenas o uso abusivo de drogas, o tráfico e a desestruturação familiar, por exemplo, sem apontar as falhas do Estado é um discurso dissimulado e covarde”, protesta.

Mais informações e texto na íntegra: aqui.

a economia nos versos do rei do baião


Às vésperas do centenário de nascimento do Rei do Baião, a realidade econômica de muitos locais imortalizados nas suas canções mudou para melhor. No interior do Nordeste, porém, a seca ainda é um cruel flagelo para a população Paulo Henrique Lobato (textos) e Alexandre Guzanshe (foto) Enviados especiais a Pernambuco, Bahia e Ceará

Nascido no Dia de Santa Luzia (13 de dezembro), Luizinho herdou do pai, Januário, a paixão pelo fole. A agilidade com que bulinava sanfonas de oito baixos, ainda na adolescência, animava os arrasta-pés em sua terra natal, Exu (PE), no sopé da Serra do Araripe. Já adulto, depois de servir ao Exército em Belo Horizonte, Juiz de Fora, Ouro Fino e noutros quartéis Brasil afora, o seu vozeirão, o vasto repertório e a facilidade com que tirava o som do instrumento musical — agora um fole de 120 baixos — conquistaram uma legião de fãs nos quatro cantos do país. Luizinho, então, passou a ser conhecido como Luiz Gonzaga (1912-1989), o rei do baião.

O ritmo musical criado pelo filho de Januário é um marco na cultura nacional. Suas músicas lideraram paradas de sucesso, tal qual o Xote das Meninas. Mas Gonzaga usou o acordeão apenas para divertir o público. Ele aproveitou o sucesso do baião para revelar, como nenhum outro artista da época, um Brasil até então desconhecido de boa parte da população. Em Asa Branca, seu maior sucesso, mostrou o drama da migração forçada pela seca.

Na canção Paulo Afonso, nome da hidrelétrica homônima à cidade baiana, ele ressaltou o desenvolvimento econômico por meio da chegada de energia elétrica em áreas carentes. Em Minas Gerais, o mesmo ocorreu, há 50 anos, com a construção da represa de Três Marias, transformando o então povoado de Barreiro Grande na atual cidade batizada em homenagem à hidrelétrica. Em A marcha da Petrobras, Gonzaga previu que o país seria uma potência mundial — hoje o Brasil é a sexta nação mais rica do planeta.

A lista de músicas que abordam temas econômicos, assim como foi o sucesso do sanfoneiro de Exu, é grande. É bom frisar que parte do norte de Minas pertenceu, há quase dois séculos, à província da Bahia, o que explica as semelhanças climáticas e socioeconômicas da região com o Nordeste.

Em muitas cidades, o progresso sonhado por Gonzaga não é mais utopia. Em Juazeiro do Norte (CE), os arranha-céus mudaram a paisagem local. Em Montes Claros (MG), o distrito industrial atrai grandes empresas. Por outro lado, mesmo com o país batendo recordes na geração de empregos, a seca e outros males cantados à exaustão pelo sanfoneiro ainda ditam o dia a dia de flagelados.

(Publicado no Correio Braziliense, em 09-12-12. Via)

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Depois do êxodo, volta à terra natal

Os movimentos da asa branca, pássaro pouco menor que um pombo, são acompanhados de perto pelo sertanejo, pois a chegada e a partida da ave de uma região significam o início e o fim do período chuvoso. No chamado Grande Norte de Minas e no Nordeste brasileiro, os versos (...) ainda fazem parte da realidade de muitas famílias, que deixam o semiárido em busca de emprego, principalmente, no Sudeste. Por outro lado, devido ao aumento do poder aquisitivo do brasileiro, uma parcela grande de ex-refugiados da seca já faz o caminho de volta. Melhor: muitos que foram para o Sudeste e agora retornam para a terra natal usam suas economias para abrir o próprio negócio, fomentando a renda na região.

Essa boa nova, porém, ainda não chegou à casa de Ana Rodrigues, 47 anos, moradora de Mamonas, a 300 quilômetros de Montes Claros. Em busca de emprego, cinco de seus seis filhos se mandaram para São Paulo. Ela espera, ansiosa, pelo dia em que eles vão voltar em definitivo. "Saíram para o mundo para não passar fome", lamenta. Dois filhos de Jucineide Justino, 45 anos, também se foram. Trocaram Lagoa Grande, no sertão de Pernambuco, por Petrolina, onde o emprego é farto graças à lavoura irrigada pelas águas do São Francisco. "Sei que um dia o mesmo deve acontecer com meus três filhos menores."

De 1960 a 1980, mais de 1,3 milhão de nordestinos deixaram a terra natal. Para eles, como para os filhos de dona Ana, a meca era São Paulo. Hoje, embora muitas famílias do Norte de Minas e do Nordeste ainda partam em busca de um futuro melhor, a migração é menor do que a da época em que o rei do baião gravou Asa Branca. Isso se deve a vários fatores, como investimentos privados e públicos e a expansão de programas sociais, entre eles o Bolsa Família. O professor Alisson Flávio Barbieri, do Departamento de Demografia da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, avalia que a redução das desigualdades sociais e econômicas ante o Sudeste e o Sul brasileiros abriu caminho para o crescimento da economia e a migração de retorno.

A redução da desigualdade foi fundamental para que Jailson Sales, 46 anos, fizesse o caminho de volta para casa, em Exu (PE), quase 30 anos depois de ter partido para São Paulo, onde trabalhou em várias funções na indústria. "Em 2010, percebi que o Nordeste havia crescido, que as pessoas passaram a ter renda maior. Decidi voltar". Ele veio na companhia de um amigo, Luiz Antônio Rodrigues, 61 anos, que trocou Guarulhos (SP) pela terra de Gonzaga. Montaram uma fábrica de confecções com 20 funcionários.

(Publicado no Correio Braziliense, em 09-12-12. Via)

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Verba não chega a áreas que sofrem com a seca

A maioria das cidades brasileiras que tiveram situação de emergência em razão da seca reconhecida pela União não receberam recursos do governo federal em 2012. Fatores como excesso de burocracia, falta de verba e negligência de prefeitos contribuíram para deixar 1.390 dos 2.058 municípios (68%) sem a ajuda neste ano. Os dados, do Ministério da Integração Nacional, foram repassados à Folha pela Lei de Acesso à Informação.

Há casos de emergência por estiagem e seca em todas as regiões do Brasil. Seca, como define a Defesa Civil, é uma estiagem prolongada. No Sul, 69% dos municípios não receberam recursos.

O Nordeste é a região com mais municípios afetados e não socorridos. Dos 1.272 em situação de emergência, apenas 459 (36%) receberam verba federal. Algumas localidades enfrentam a pior seca dos últimos 30 anos.

A Integração Nacional diz que nem todos os municípios que tiveram a situação de emergência reconhecida solicitaram recursos. (...)

Também há administrações municipais que pediram ajuda, mas nada chegou. "Não vimos a cor [do dinheiro] até o momento. Estamos sendo assistidos só por carros-pipa e por uma ação tímida de construção de cisternas", afirmou o prefeito de São Caetano (PE), Jadiel Cordeiro (PTB). O prefeito é diretor da Amupe (Associação Municipalista de Pernambuco) e membro do Comitê Estadual de Combate à Estiagem.

Segundo ele, os municípios pernambucanos receberam apenas programas assistenciais como o Bolsa Estiagem, que destina R$ 400 a famílias afetadas pela seca. Para Cordeiro, falta "sensibilidade" ao governo federal. "Quem está com fome e sede não pode esperar." Segundo números da Integração Nacional, 179 dos 185 municípios pernambucanos estão em situação de emergência, e apenas dois receberam repasses de recursos.

Em Poço Redondo (SE), a prefeitura diz que não chove há dois anos e os reservatórios secaram há oito meses.

O pluviômetro na sede do município acumula água desde janeiro e marca menos de 50 milímetros. O secretário municipal de Agricultura, José Silva de Jesus, estima que 3.500 cabeças de gado tenham morrido em dois anos. Jesus diz ter solicitado R$ 6,3 milhões ao governo federal para ações emergenciais, construção de barragens e aquisição de máquinas, mas, até agora, apenas caminhões-pipa e programas sociais chegaram. "Mandamos toda a documentação. Tentamos desde o início do ano."

Para os que solicitaram e não foram atendidos, o ministério cita "falta de disponibilidade orçamentária" e não cumprimento de prazos previstos em lei. (...)

Até março, o agricultor Antonio Gomes Souza, 54, mantinha 17 animais em sua propriedade em Águas Belas, agreste pernambucano. Cinco morreram e o restante foi vendido porque ele não tinha condições de criar. "Tem uns mais teimosos que ainda tentam criar, mas a beira da estrada parece um cemitério de reses mortas", diz o agricultor.

Sem produzir, vive do que juntou com a venda dos animais. Faz bico no sindicato rural para juntar R$ 75 por semana. A mulher, professora, ganha R$ 1.000. Com o dinheiro o casal se mantém e ainda sustenta um filho e a nora. "Está insuportável. Vai começar a morrer gente de sede porque as fontes estão secando todas. De fome ninguém morre porque tem o Bolsa Família."

(Via)

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A seca

Por Euclides da Cunha (na íntegra aqui):

De repente, uma variante trágica.

Aproxima-se a seca.

O sertanejo adivinha-a e prefixa-a graças ao ritmo singular com que se desencadeia o flagelo.

Entretanto não foge logo, abandonando a terra a pouco e pouco invadida pelo limbo candente que irradia do Ceará. (...)

Os sintomas do flagelo despontam-lhe, então, encadeados em série, sucedendo-se inflexíveis, como sinais comemorativos de uma moléstia cíclica, da sezão assombradora da Terra. Passam as "chuvas do caju" em outubro, rápidas, em chuvisqueiros prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços; e pintam as caatingas, aqui, ali, por toda a parte, mosqueadas de tufos pardos de árvores marcescentes, cada vez mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas; e greta-se o chão; e abaixa-se vagarosamente o nível das cacimbas... Do mesmo passo nota que os dias, estuando logo ao alvorecer, transcorrem abrasantes, à medida que as noites se vão tornando cada vez mais frias. A atmosfera absorve-lhe, com avidez de esponja, o suor na fronte, enquanto a armadura de couro, sem mais a flexibilidade primitiva, se lhe endurece aos ombros, esturrada, rígida, feito uma couraça de bronze. E ao descer das tardes, dia a dia menores e sem crepúsculos, considera, entristecido, nos ares, em bandos, as primeiras aves emigrantes, transvoando a outros climas...

É o prelúdio da sua desgraça.

Vê-o acentuar-se, num crescendo, até dezembro.

Precautela-se: revista, apreensivo, as malhadas. Percorre os logradouros longos. Procura entre as chapadas que se esterilizam várzeas mais benignas para onde tange os rebanhos. E espera, resignado, o dia 13 daquele mês. Porque em tal data, usança avoenga lhe faculta sondar o futuro, interrogando a Providência.

É a experiência tradicional de Santa Luzia. No dia 12 ao anoitecer expõe ao relento, em linha, seis pedrinhas de sal, que representam, em ordem sucessiva da esquerda para a direita, os seis meses vindouros, de janeiro a junho. Ao alvorecer de 13 observa-as: se estão intactas, pressagiam a seca; se a primeira apenas se deliu, transmudada em aljôfar límpido, é certa a chuva em janeiro; se a segunda, em fevereiro; se a maioria ou todas, é inevitável o inverno benfazejo.*

Esta experiência é belíssima. Em que pese ao estigma supersticioso tem base positiva, e é aceitável desde que se considere que dela se colhe a maior ou menor dosagem de vapor d’água nos ares, e, dedutivamente, maiores ou menores probabilidades de depressões barométricas, capazes de atrair o afluxo das chuvas.

Entretanto, embora tradicional, esta prova deixa ainda vacilante o sertanejo. Nem sempre desanima, ante os seus piores vaticínios. Aguarda, paciente, o equinócio da primavera, para definitiva consulta aos elementos. Atravessa três longos meses de expectativa ansiosa e no dia de S. José, 19 de março, procura novo augúrio, o último.

Aquele dia é para ele o índice dos meses subseqüentes. Retrata-lhe, abreviadas em doze horas, todas as alternativas climáticas vindouras. Se durante ele chove, será chuvoso o inverno; se, ao contrário, o Sol atravessa abrasadoramente o firmamento claro, estão por terra todas as suas esperanças.

A seca é inevitável.

- Euclides da Cunha (na íntegra aqui)

* "Conta-se que no Ceará fizeram esta experiência diante do naturalista George Gardner; mas o sábio fazendo observações meteorológicas, e chegando a um resultado diferente do atestado pela santa, exclamou em seu português atravessado: Non! non! Luzia mentiu..." (Sílvio Romero, A poesia popular no Brasil.)

a boa mentira

André Dahmer

O melhor conselho que recebi quando estava grávida já não lembro quem deu, mas tenho repetido como um mantra nos últimos 14 anos. Alguma mãe mais sábia e experiente me disse apenas isso: “Confia no teu instinto”.

Seguir os próprios instintos obviamente não garante que se vá acertar sempre, mas assinala a importância de conceder aos pais a liberdade para criar seus filhos como lhes parece mais adequado e não conforme a cartilha que tias, vizinhas e amigas bem-intencionadas tão graciosamente ditam a partir do momento em que alguém anuncia que está grávida.

Uma das situações em que segui meu instinto – mais ou menos contra a corrente dominante – diz respeito a esta época do ano: nunca consegui mentir a respeito do Papai Noel. Pronto, falei.

Especialistas em psicologia infantil garantem que por volta dos oito anos, quando a maioria já percebeu que aquele Papai Noel magricelo que distribui presentes todos os anos é, na verdade, o tio Oscar metido em um traje ridiculamente inapropriado para o calorão de dezembro, as crianças já são capazes de distinguir dois tipos de mentiras contadas pelos adultos.

A “má mentira” é aquela que os pais contam para fugir de uma responsabilidade (“Não vamos ao Marina Park hoje, meu bem, porque eles fecham no dia de São Benedito”) ou de uma culpa (“Não fui na festinha na sua escola porque pegou fogo no escritório.”) A “boa mentira” é a que os pais inventam não para livrar a própria barra, mas para alimentar a imaginação dos pequenos – como no caso das histórias de Natal. A boa mentira ensina a fantasiar, a má mentira ensina a mentir.

OK, bacana, os especialistas apenas confirmaram o que todo mundo já sabia: ninguém precisa sentir-se culpado por inventar histórias sobre renas, trenós e duendes. Mas, quando minha filha me olhou com aquela confiança absoluta que apenas as crianças pequenas têm nos pais e me perguntou como, afinal, era possível que o Papai Noel soubesse, lá no Polo Norte, se ela se comportava bem aqui em Porto Alegre, não consegui recitar o texto recomendado pelo senso comum ou pelas propagandas de refrigerante.

Ali, diante de mim, estava uma nova navegante esforçando-se para entender como as coisas funcionam neste mundo estranho em que acabara de chegar. Uma aprendiz de cientista, testando hipóteses e pedindo apoio dos mais velhos para prosseguir decifrando outros, maiores, mistérios. Era justo reconhecer o seu esforço: “Não, não existem câmeras escondidas pela casa, e a única pessoa que sabe o que se passa na sua cabeça é você”.

Uma das graças da “boa mentira” é saber que ela nunca dura para sempre. É um jogo de esconde-esconde em que as crianças sempre ganham. Alguns pais curtem prolongar a brincadeira – e eles obviamente não estão errados. Outros preferem saborear a satisfação de ver uma criança perceber que há graça e encantamento não apenas no que se inventa, mas também no que se descobre através das magníficas e inesgotáveis estratégias da razão.

- Claudia Laitano, para o Zero Hora, 08-12-12 (via)


12 de dez. de 2012

o que aconteceu no seu mundo em 2012?


...e saiu a coletânea de imagens marcantes de 2012 feita pelo Google, dando a partida no momento "balanço de fim de ano". Este ano, temos uma mãozinha do Facebook, que liberou o novo recurso de "retrospectiva" - uma ajuda, mas não um substituto para o rico exercício de rememorar, rever, percorrer de novo as imagens, experiências, acontecimentos, sensações, encontros e escolhas que deixaram suas marcas em nós neste ano que está terminando. E tentar derivar daí sentidos, significados, entendimentos, e fazer um balanço da bagagem que carregamos e com o que vamos querer entrar em 2013 e o que vamos preferir deixar para trás.

E para você: o que ainda está sendo gestado? O que já atingiu "a plenitude dos tempos"? E para o que o tempo já passou?

choro de diplomata cala cúpula do clima


Com a voz embargada, os olhos cheios de lágrimas e um discurso sem os eufemismos comuns nas negociações diplomáticas, o chefe da delegação das Filipinas deixou ontem [dia 06-12] a cúpula mundial do clima em silêncio.

"Por favor, chega de desculpas e atrasos. Abram os olhos para a dura realidade que nós enfrentamos. Se não for agora, quando será?", apelou Naderev "Yeb" Saño na última plenária de discussões sobre a extensão do Protocolo de Kyoto na COP-18, em Doha, no Qatar.

A atitude do até então discreto diplomata filipino gerou, além de lágrimas pelos corredores, muitas palmas por onde ele passou. Mas é difícil dizer se a bronca de Saño, cujo país acaba de ser atingido por um grande tufão que deixou mais de 500 mortos e centenas de desabrigados, será suficiente para promover alguma mudança de rumo na conferência.

Faltando 24 horas para o encerramento do encontro, os pontos mais polêmicos da discussão foram, como de costume, empurrados para o último dia de negociação.

A questão do financiamento tem travado a agenda. Todos parecem concordar que o aquecimento global é uma questão urgente e perigosa, mas poucos são os países dispostos a pagar a conta.

Leia na íntegra aqui.

(E mais: Conferência do clima termina melancólica)


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Glub-glub-glub

Gelo, o mais abundante minério da superfície da Terra, talvez desapareça das paisagens antes do fim do século. Mas o degelo terá influência secundária na catastrófica elevação do nível dos mares prevista para o mesmo período (28 a 86 centímetros, variações locais dependentes de balouços das respectivas placas tectônicas).

Gelo e neve mal totalizam 3% da água mundial. E fusão de gelo flutuante acrescenta pouco ao nível do mar, apenas o correspondente à diferença de densidade entre água doce de icebergs e água salgada do mar. Segundo estudo publicado em novembro, o degelo representou apenas um quinto da elevação do nível dos mares nas últimas décadas. Fator principal foi a expansão térmica da hidrosfera. (...)

Você pode observar esse efeito-esponja no cotidiano. No calor diurno, o ar absorve vapor. Quando a noite a resfria, a esponja encolhe, espreme vapor e o deposita como orvalho. (Vapor d'água é invisível; o que você vê sair pelo bico da chaleira é um jato de gotículas.)

Estendendo o princípio: evaporação alimenta precipitação. Em média, água evaporada na atmosfera retorna ao chão em nove dias. Daí deslizamentos de encostas e alagamentos virem ganhando volume e frequência no mundo todo. (Embora a interação complexa de forças do desarranjo provoque também secas localizadas.)

Inchaços do mar e do ar condicionaram os estragos que a tempestade tropical Sandy impôs a Nova York e Nova Jersey em outubro. A maré daqueles dias intensificou, sim, a intrusão do mar. (Maré é uma onda que forças gravitacionais da Lua e do Sol arrastam pelos oceanos ao redor de toda a Terra.) Sandy chegou à costa americana surfando a crista duma preamar de lua cheia. (...)

Pondere um exemplo. O Estudo de Impacto Ambiental da usina nuclear Angra 3 dizia em maio de 2005 que não ocorrem furacões na costa leste do Atlântico Sul. Mas já em 27 de março de 2004 um furacão de categoria 1 havia aterrado em Santa Catarina. O estudo desconsiderava também projeções de probabilidade quanto a aguaceiros e escorregamentos de encostas um tanto próximas. Como, por exemplo, a precipitação de 142 milímetros em 24 horas que matou 52 habitantes de Angra dos Reis nos deslizamentos de 31 de dezembro de 2009.

Leia na íntegra aqui.

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Quatro motivos para se ter esperança no controle das mudanças climáticas

No estado atual das coisas, o mundo claramente não está nos trilhos para conter o aumento da temperatura global da mudança climática abaixo de dois graus centígrados, que é considerado como sendo o limiar de perigo do aquecimento global.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) disse na semana passada que, na melhor das hipóteses, os compromissos atuais nos levariam a apenas metade do caminho de uma trajetória climática segura; e um relatório do Banco Mundial publicado na mesma semana mostrou alguns dos riscos de um mundo 4ºC mais quente. Qualquer pessoa envolvida seriamente com a ciência tem razão em se preocupar.

Mas eu identificaria quatro motivos para manter a esperança. Primeiro, se agirmos, ainda podemos evitar os piores impactos da mudança climática. Tanto o relatório do Pnuma quanto um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE), publicado uma semana antes, dizem que o tempo está se esgotando, mas que 2ºC ainda estão ao alcance se conseguirmos reunir a vontade política.

Segundo, o processo internacional pode ser lento, mas está apresentando resultados. Desde a conferência de Copenhague em 2009, os países responsáveis por 80% das emissões globais fizeram promessas de ação abrangendo toda a economia. Nós concordamos em Durban no ano passado em trabalhar pelo prazo de 2015 para negociação de um novo acordo global legalmente vinculante, e eu acredito ser razoável buscar um progresso passo a passo na direção desse acordo, começando em Doha. (...)

Terceiro, nós estamos vendo uma ação séria por parte de muitos países, incluindo alguns dos maiores emissores. A Globe International relatou que as leis estão avançando em todas as maiores economias. O Brasil reduziu o desmatamento em cerca de dois terços desde o pico em 2004. A Coreia está gastando 2% de seu PIB em uma economia de baixo carbono. A China inseriu a eficiência em energia e metas renováveis em seu mais recente plano de cinco anos e está testando os mercados de carbono em sete de suas províncias. (...)

Quarto, essa mudança é escorada por mudanças importantes na economia real. Segundo a Bloomberg, o investimento em energias renováveis superou o investimento em combustíveis fósseis pela primeira vez no ano passado. Nós estamos vendo a entrada de novas tecnologias de energia renovável no mercado, competindo com sucesso. Sistemas solares fotovoltaicos apresentaram em média um crescimento anual global de 42% ao longo da última década; a energia eólica apresentou uma média de 27%.

Leia na íntegra aqui.

conflito institucional

Escultura: Alfredo Ceschiatti (via)

Do jornal Valor Econômico, via blog do Luis Nassif (aqui):

O Supremo Tribunal Federal (STF) deve decretar hoje a cassação dos mandatos de três deputados condenados no processo do mensalão. A decisão deve levar a um impasse entre Judiciário e Legislativo e, no limite, a uma crise institucional se o Supremo determinar a imediata prisão dos parlamentares, antes do trânsito em julgado das sentenças, o que só é esperado para meados de 2013.

Entenda o começo da crise aqui: A crise institucional e o caso da 'venda de voto' parlamentar

Ontem, os líderes partidários prestaram solidariedade ao presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), para quem a decretação da perda de mandato de parlamentar é prerrogativa exclusiva do Congresso. Entre eles o vice-líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ). O líder do partido, Henrique Eduardo Alves, estava em uma reunião partidária. Alves é o mais provável futuro presidente da Câmara e a tendência do deputado é procurar uma saída política para o conflito.

Marco Maia já declarou que não pretende acatar a decisão do Supremo, sobretudo porque a comunicação do tribunal deve ser impositiva: determinar à Mesa Diretora que declare a perda do mandato dos deputados João Paulo Cunha (PT-SP), Valdemar da Costa Neto (PR-SP) e Pedro Henry (PP-MT).

O mais provável é que Maia engavete o pedido, criando-se assim o impasse. O caso pode se transformar numa crise entre os poderes, de fato, se o Supremo ou algum ministro, no recesso, decrete a prisão dos deputados. Esse é um fato considerado pouco provável, porque a prisão, em tese, deveria ocorrer apenas após o trânsito em julgado das sentenças. Mas o histórico do julgamento do mensalão mostra que os ministros, em geral, têm recorrido a soluções heterodoxas.

Os ânimos estão exaltados. À exceção do PPS, todos os partidos manifestaram apoio a Maia. "Não há intenção de confronto com o STF, mas a obrigação de defender a Constituição é de todos e houve uma manifestação praticamente unânime nesse sentido", anunciou o líder do governo na Casa, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP).

"A prerrogativa da cassação cabe à Câmara, acompanhando raciocínio de metade dos ministros do STF que assim também entenderam", disse o líder do PT, Lincoln Portela (MG). No Congresso avalia-se que o placar de cinco a quatro tira força política da decisão do Supremo.

Até mesmo os principais partidos da oposição defenderam essa posição. "Defendo o respeito ao princípio constitucional. Há uma Constituição escrita em pleno vigor que, enquanto não for revista, cabe à Câmara cassar mandatos", afirmou o vice-líder do DEM, Pauderney Avelino (AM). Já o líder do PSDB, Bruno Araújo (PE), declarou que seu partido tem por princípio acreditar que sempre a última palavra é do STF, mas acha que, nesse caso, "o Congresso deveria ir ao encontro do STF e apresentar suas razões dentro do momento certo. Não pode se envolver no julgamento do mensalão". O PSOL também defendeu a posição de Maia, mas apresentou uma condicionante: aprovar uma proposta de emenda constitucional (PEC) que estabeleça o voto aberto nas votações de cassação.

O ministro Marco Aurélio Mello qualificou como incompreensível a posição de Maia: "Por não se estar numa época de exceção é que é incompreensível essa reação", disse. " O dia em que uma decisão da Suprema Corte não for observada, nós estaremos muito mal."

Marco Aurélio advertiu que o STF pode tomar uma atitude caso a decisão da Corte não seja respeitada. "Para toda a doença há um remédio", disse o ministro, sem explicitar qual medida seria adotada pelo tribunal, caso a Câmara não cumpra a decisão. "Eu só verifico que o prestígio dos deputados envolvidos é muito grande", ironizou Marco Aurélio.

Já o revisor do mensalão, ministro Ricardo Lewandowski, considerou precária a decisão que deve ser tomada hoje pela Corte. "Ao que tudo indica, a decisão será no sentido de suprimir uma prerrogativa do Congresso", disse Lewandowski sobre a possibilidade de o STF cassar os mandatos dos três deputados. "A decisão será tomada por maioria relativa e provisória", continuou o revisor, referindo-se ao placar dividido na Corte. Segundo ele, essa divisão de votos pode favorecer eventuais recursos dos réus. Lewandowski lembrou que novos ministros vão julgar esses recursos. Um deles é Teori Zavascki, que assumiu o cargo há duas semanas, e tem artigo acadêmico no qual defendeu a tese de que a condenação penal suspende os direitos políticos, mas não o mandato do réu. O outro ministro será indicado pela presidente Dilma Rousseff em substituição a Carlos Ayres Britto, que se aposentou em 18 de novembro. "A decisão é relativa e precária e poderá ser revista pelos novos ministros do STF", insistiu Lewandowski.

O ministro Gilmar Mendes afirmou que o STF tem mais do que maioria nesse caso. "Aqui, nós temos mais do que uma maioria eventual. Nós temos uma instituição que está decidindo. As pessoas têm que respeitar a dimensão institucional da decisão", disse Mendes, referindo-se à determinação do STF.

A expectativa na cúpula do Congresso é que o Supremo decida hoje e consuma o tempo até o recesso do Judiciário com a publicação do acórdão e a abertura dos prazos para os recursos cabíveis nessa fase. Na volta do recesso do Supremo, em fevereiro, os ministros já encontrariam na presidência da Câmara o deputado Henrique Alves, partidário da saída negociada. Mas o PMDB teme por uma ação que exalte ainda mais os ânimos, como uma ação monocrática de prender os deputados, tomada durante o recesso parlamentar.

E mais: Em 95, Mello defendeu que só o Congresso cassava, e Jornalistas e STF constroem versão bizarra de direito alternativo no Brasil (via Lair Amaro)

Em tempo: alegando uma forte gripe, Celso de Mello, que daria hoje o voto de desempate na decisão sobre a perda dos mandatos, precisou faltar e a sessão de hoje do julgamento do 'mensalão' foi cancelada. Saiba mais aqui.

Atualização em 13-12-12:
Vale ler e refletir sobre o editorial de hoje do jornal Zero Hora intitulado "Rejeição ao corporativismo":

"Mesmo entre quem reconhece o direito constitucional da Câmara Federal de decidir sobre a cassação dos deputados condenados no processo do mensalão, amplia-se o temor de que o histórico posicionamento corporativista dos parlamentares acabe prevalecendo mais uma vez, reforçando a impunidade.  (...) Percebe-se uma rejeição popular significativa ao compadrio político e partidário da maioria dos parlamentares. A consequência natural é que a sociedade, embora reconhecendo a prerrogativa dos deputados, não acredita na capacidade de punição a colegas, mesmo nos casos de confronto comprovado com a ética."

Leia na íntegra aqui.

a day in life

ouvir além das palavras


“O fenômeno da comunicação depende não do que é transmitido,
mas do que acontece com a pessoa que recebe a mensagem.”
Humberto Maturana

(...) As pessoas se comunicam em vários níveis. Tudo fala. As roupas, os olhares, a respiração, um jeito específico de se curvar ou se levantar, a forma como batemos as mãos ou os pés. Cada pequeno detalhe tem voz, toca uma música.

Assim como é preciso treinar os ouvidos para discernir timbres, tons e efeitos em uma música, também precisamos treinar para realmente ouvir, comunicar e gerar conexão.

Quem já teve a oportunidade de assistir uma orquestra tocando ao ar livre pode relatar como o ambiente inteiro se relaciona com o que está sendo tocado. Não é algo metafísico, nem fantasioso. O vento sopra de uma forma diferente, todos se olham, sorriem silenciosamente, as árvores balançam, os pássaros enlouquecem.

Quando uma pessoa fala, algo similar acontece. Há uma variedade de outras ações sendo executadas ao redor e isso pode facilitar ou dificultar o processo. Às vezes, ela pode estar querendo desabafar, mas o ambiente não é favorável. Algum ruído pode surgir ou pode ser que haja pessoas ao redor em outra sintonia. Um sujeito atento pode tomar uma ação simples como trocar de lugar, alterando os níveis de abertura e conforto.

Enquanto ouve, é importante não só estar atento aos sinais abstratos mas observar as reações físicas do outro. Será que está se distraindo? Está se mexendo demais, está desconfortável, tentando encerrar o assunto, está indiferente?

(...) Entrar no mundo do outro é sair de seus próprios preconceitos e limites pré-estabelecidos. Da mesma forma como fazemos ao visitar outros países. Não adianta chegar querendo feijoada, você acaba sendo obrigado a comer o que tem.

Ouvir é cocriar, fazer sentido, agir, enriquecer. Não apenas a habilidade de decodificar sons, mas também de dar importância, atenção, de se relacionar com o interlocutor.

De nada adianta entrar no mundo do outro e não se relacionar com ele de uma maneira positiva. É útil estimular a conversa, perguntar, valorizar trazendo outras referências, outras visões, ajudar o outro a se expressar, retomar o foco, ir construtivamente contra – e, acima de tudo, se envolver de coração.

(...) Repousar, observar a própria mente, entrar e enriquecer o mundo do outro, relacionar-se com a situação por completo. São todas atitudes que conduzem a ações cortantes, diretas.

Um homem capaz de ouvir é alguém que vive em um universo vasto, repleto de riquezas ainda não descobertas.

Eu mesmo queria encontrar mais pessoas assim. Capazes de atravessar minhas bobagens e me dizer o que preciso, não o que quero ouvir.

E vocês, estão realmente ouvindo? Estão sendo ouvidos?

- Luciano Ribeiro, para o Papo de Homem - leia na íntegra aqui

11 de dez. de 2012

estranha forma de vida

Salvador Dalí

Os tempos que correm, correm para onde? Pergunta que não cala quando se instala a contradição entre os instrumentos do bem-estar e o real bem-estar, minando a qualidade de vida de todos. Os engarrafamentos que paralisam a cidade e que pioram a cada dia são o sintoma mais visível desse paradoxo. (...)

No plano da psicologia individual, a corrida contra o tempo é o leitmotiv da vida urbana. Dorme-se pouco, come-se rápido, fazem-se várias coisas ao mesmo tempo — cozinhando, vê-se televisão e fala-se no celular — estratégia batizada de multitarefas. O sociólogo alemão Helmut Rosa, apoiado em estatísticas, constata que a depressão tornou-se uma doença urbana globalmente epidêmica. Na origem, a fome de tempo.

A obviedade, constantemente repetida, de que as novas tecnologias aceleram o ritmo do cotidiano encobre o fato que elas nascem de um fascínio pela rapidez que sempre fez parte das ambições humanas. O e-mail, sublime invenção, tornaria a comunicação mais rápida se o volume da correspondência se mantivesse estável. Porque mais rápida, cresceu exponencialmente.

A Web, contrariamente ao esperado, fez-se devoradora de tempo. Quanto mais esse fascínio pela rapidez é satisfeito, mais nos aproximamos de seu limite fatal, o esgotamento das 24 horas do dia, não só em sua dimensão de tempo em que se acotovelam atividades desejadas e tarefas a cumprir como também em sua dimensão de esgotamento psicológico, a capacidade humana de absorver e processar informação.

A internet propicia a presença simultânea em uma infinidade de universos, uma vivência múltipla e sem continuidade. Se por um lado isso abre horizontes, informa e diverte, por outro provoca uma indigestão mental ou, no caso extremo de viciados na rede, leva à overdose. Para esses, já está à venda um aplicativo que bloqueia o uso da rede depois de um tempo determinado.

Ver no telejornal as imagens de um show de rock enquanto corre embaixo da tela uma legenda noticiando a descoberta de centenas de corpos mutilados na Síria exige uma inusitada negociação de sentimentos. Instala-se uma não discriminação que tudo aplaina.

Canais de informação dividem suas telas em quatro para multiplicar a possibilidade de imagens e dados. Assim esperam acompanhar a performance das bolsas cuja unidade de tempo de operação é inferior a um segundo. Esse exemplo flagra a força do princípio da competição, pano de fundo da aceleração. Esse princípio que inspira a economia se alastra pelo conjunto da vida: a luta pelos empregos, pelos bens de consumo, pela posição social. Como o competidor não dorme, para ser competitivo há que ser insone. Como na prova de esforço, corre-se cada vez mais para não sair do lugar. Quem não aguenta o ritmo, enfarta.

Não se trata de demonizar a tecnologia que, indiferente, serve ao que as sociedades definem como necessidades. São instrumentos adaptados ao desejo de aceleração que todos, aprendizes de feiticeiro, imprimimos ao cotidiano.

Engarrafamentos de pesadelo, acampamentos nos aeroportos, depressões epidêmicas são sintomas de uma mesma disfunção, do esgotamento de um modo de vida a ser repensado, com a cabeça no futuro, sem saudosismos.

(...) Quando um sistema entra em colapso duas atitudes são recomendáveis: passar recibo de que se trata de um colapso e buscar soluções fora de sua lógica. Nenhum sistema se regenera usando os mesmos recursos e soluções que o fizeram degenerar. O que está em questão não é tanto este ou aquele aspecto da aceleração que afeta nossas vidas e sim a lógica dessa estranha forma de vida. Em tela de juízo, a lógica do sempre mais e mais rápido.

- Rosiska Darcy de Oliveira, para o jornal O Globo, 08-12-12 (leia na íntegra aqui)

direitos humanos seletivos

Escultura: Gehard Demetz

O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa do estado de Pernambuco concluiu que a morte de Lucas Fortuna, jornalista, ativista social e homossexual assumido, decorreu de latrocínio.

A Ministra Maria do Rosário, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, diz a agência O Globo, vai cobrar explicações da Secretaria de Justiça de Pernambuco.

Maria do Rosário, segundo a matéria, não descarta a existência de latrocínio. Mas se espanta diante da desproporção da violência diante de um único homem para roubar.

Os criminosos não se limitaram a matar e roubar. Lucas foi espancado, esfaqueado e afogado. Mas o seu aparelho de telefone celular foi deixado na praia, próximo onde o corpo foi encontrado. Também a sua carteira.

Maria do Rosário teria dito:

"Não descartamos que possa ter havido o latrocínio, mas a brutalidade do assassinato indica o componente de passionalidade e de ódio homofóbico. Se não assumirmos isso no Brasil, que temos uma grave situação de crimes contra homossexuais, não há como punir atitudes desta natureza."

Ainda segundo a matéria assinada por Isabel Braga, a Ministra teria explicitado o costume da sociedade brasileira em invisibilizar os homossexuais e sabotar o reconhecimento dos seus direitos:

- As instituições no Brasil se orientam a partir de posicionamentos na sociedade. Existe uma cultura de manter os homossexuais na clandestinidade, de não reconhecer seus direitos. Mas o Brasil não aceita a invisibilidade dos crimes por homofobia.

Além de, pela primeira vez com objetividade, o governo Dilma Rousseff ter colocado o dedo na ferida nacional da histórica prática de desqualificação de homossexuais, a matéria informa que Maria do Rosário

"irá se empenhar pessoalmente pela aprovação do projeto tornar crimes os atos de homofobia, da ex-deputada Ira Bernardi (PT-SC)."

"- Vou me empenhar pessoalmente para aprovar o projeto 122, dos crimes homofóbicos, seja aprovado. Vou fazer um acordo com os setores evangélicos que são contra a violência. Assim como enfrentamos os crimes raciais, os crimes contra a mulher, devemos ter uma lei que puna os crimes homofóbicos. Não se pode desconhecer como cidadãs brasileiras as pessoas que são homossexuais - disse a ministra."

Que acordo, Ministra, que acordo?

Marta Suplicy também tentou a lógica do acordo e o que tivemos? Qual foi o texto que ela tentou encaminhar, à revelia das diversas vozes representativas da população LGBT? Texto esse composto pela diminuta mas barulhenta e ameaçadora bancada evangélica, que depois deixou a própria Marta a ver navios, desmentindo que tenha participado da construção do substitutivo e tecido acordo com a senadora petista.

(...)

No Brasil, para que tenham validade os Direitos Humanos, cujos tratados internacionais o Brasil assinou e ratificou, é necessário fazer "acordo com os evangélicos"?

O PLC 122/2006 (oriundo de um projeto que é de 2001, ou seja, de onze anos atrás) encontra-se sem relator desde setembro, quando Marta Suplicy foi alçada a Ministra.

(Do blog Comer de Matula - leia na íntegra aqui)

formam-se opiniões

Foto: Nicolas Ruel

Outro dia um sujeito me perguntou:

– Que tal isso de ser formador de opinião?

Fiquei pensando. Formador de opinião. Uma função, um cargo. Poderia abrir uma empresa para essa atividade específica. Algo moderno, com nome em inglês: Formed Opinion S.A. Ou: Cia da Opinião. “Formam-se opiniões”, diria o meu anúncio. “Você está sem assunto? Não sabe o que pensar sobre economia, política, futebol? Nós temos uma opinião pronta para você.

Por um preço módico, você levará para casa uma opinião ponderada ou polêmica, engraçada ou dura, a opinião que mais combine com você, junto com toda a argumentação para defendê-la. Procure-nos! E faça sucesso social”.

Claro que poucos procurariam a empresa para adquirir opiniões sobre futebol. Todo mundo acha que entende de futebol. Mesmo assim, para os que quisessem ter opiniões exclusivas, nossos especialistas forneceriam algumas sobre novos jogadores africanos que estão atuando na Europa. Qualquer um que fale de novos jogadores africanos que estão atuando na Europa parece entender muito.

Na economia é mais fácil formar uma opinião. A economia passa a impressão de ser uma ciência, de que tudo nessa área é técnico, matemático, resultado de estudos profundos e inacessíveis. Nós, da Formed Opinion, sabemos que não. Sabemos que, ao contrário, tudo é vago em economia, tudo é especulação e que tudo muda, às vezes inesperadamente.

Sabemos mais: sabemos que Lulu Santos estava certo: a vida vem em ondas, como o mar. Assim, as crises se sucedem. Está tudo bem com uma economia? Não por muito tempo. Logo sobrevirá uma crise que a abalará. Portanto, em economia você deve fazer alertas: diga que o país está bem, mas que é preciso ter cuidado, que não se pode gastar tanto, que a bolha vai furar. Funciona.

Agora, complicado mesmo é a política. Claro, você sempre pode resmungar que todos os políticos são corruptos. Ninguém vai reclamar dessa opinião, embora nós, da Formed Opinion, saibamos que não é verdade, que os políticos são corruptos na medida da corrupção da sociedade. O problema, na política, são certos personagens. Lula, por exemplo. Lula é um carismático e, como todo carismático, ou é amado ou odiado. Quer dizer: não é possível tecer considerações racionais acerca de Lula.

Ou ele é todo ruim ou todo bom. Só que nós, no recôndito do relacionamento com nossos clientes, podemos dizer a verdade: que Lula tem predicados e defeitos, como qualquer um, e que seu governo os teve ambos, predicados e defeitos. Mas nosso conselho é que você não opine diretamente sobre Lula. Apenas faça observações espirituosas em cima da opinião de alguém. Como fazer observações espirituosas? Desculpe, vamos ter que refazer o orçamento. Ter opinião é fácil, fazer observação espirituosa custa muito mais.

- David Coimbra, para o Zero Hora
Via

10 de dez. de 2012

a sua voz importa


Hoje é Dia Internacional dos Direitos Humanos. O tema de 2012 é "My Voice Counts", que trata dos direitos de inclusão política e social de todas as populações.

Como afirma o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon: "O Direito Internacional é claro: não importa quem você seja, ou onde vive, a sua voz importa".

Não poderia haver melhor ocasião para compartilhar aqui o Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos para este ano de 2012 (que você pode ler e baixar aqui), abordando a situação de uma diversidade de grupos e populações no Brasil e temas tão variados quanto a questão agrária, o trabalho escravo, o direitos dos povos indígenas e quilombolas, a questão dos agrotóxicos, as remoções e especulação imobiliária, entre muitos outros.

"Nossa história está pontilhada de silêncios impostos aos fracos e oprimidos que, a partir de sua situação de sofrimento, buscaram organizadamente uma vida digna, humana e boa", observa Dom Tomás Balduíno no prefácio. Que a leitura desse documento ajude a despertar reflexões e conscientizar para a necessidade de construirmos um mundo em que cada vez mais vozes se façam ouvir.

Leia e faça o download aqui.

E mais:
Número de denúncias de violação dos direitos humanos cresce 77% em 2012
Os gritos que a gente não vê na 5ª maior economia do mundo
Direitos humanos seletivos
Marcha denuncia mortes na periferia paulistana

esse não é o melhor momento para ser jornalista se...


Você não gosta de mudar – porque mudança é tudo que a indústria tem a oferecer para você;

Você não tem paixão pelo assunto – porque as pessoas com paixão já estão falando sobre isso na web, e elas são mais interessantes;

Você quer continuar fazendo o mesmo trabalho que fazia há cinco anos – porque aquele trabalho já tornou-se história;

Você não gosta que os leitores comentem – porque eles têm inúmeros métodos de responder ao seu trabalho, permitindo ou não que deixem comentários nos seus artigos;

Você não gosta de linkar – porque os links são a nova economia dos conteúdos;

Você quer definir o que é importante – porque o poder de decisão está novamente nas mãos do público;

Você odeia tecnologia – porque esse é o futuro (de qualquer forma, a imprensa e a máquina de escrever já foram tecnologia um dia);

Você tem uma visão limitada de quais habilidades você precisa desenvolver – porque as habilidades que você precisa estão em constante evolução;

Você não gosta de concorrentes – porque o seu número de concorrentes está aumentando diariamente;

Você não consegue ouvir mais do que falar – porque se você não consegue fazer isso, você nunca será um completo jornalista.

- Adam Tinworth, publicado no blog One Man and His Blog e traduzido e reproduzido por Bruno Cardoso no blog oJornalista.com, 20-10-2009. Via

CID 10: FXX.X – Transtorno homofóbico


Do médico Drauzio Varella (leia na íntegra aqui):

A homossexualidade é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.

Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência à existência de mulheres e homens homossexuais. Apesar dessa constatação, ainda hoje esse tipo de comportamento é chamado de antinatural.

Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (ou Deus) criou órgãos sexuais para que os seres humanos procriassem; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).

Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?

Se a homossexualidade fosse apenas perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de espécies de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos. (...)

Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas rigorosas.

Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela simples existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por capricho individual. Quer dizer, num belo dia pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas como sou sem vergonha prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.

Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.

A sexualidade não admite opções, simplesmente é. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.

Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países fazem com o racismo. (...)

- Drauzio Varella (leia na íntegra aqui)

A propósito, não deixe de ver o vídeo Leve-me para sair.

* * *

Do psiquiatra Mardônio Parente (leia na íntegra aqui):


(...) Segundo Louis-Georges Tin, no Dictionnaire de l’homophobie, é possível que o termo homofobia já fosse usado na década de 60, mas foi após a publicação, em 1971, do artigo Homophobia: A Tentative Personality Profile, de Kenneth Smith, no Psychological Report, que o termo ganhou popularidade (Tin, 2003). Ainda segundo aquele autor, apesar de décadas de uso na língua francesa (aparecendo nela pela primeira vez em 1977), foi apenas em 1994 que a palavra entrou oficialmente no léxico francês.

A partir de conceitos extremamente restritivos como o de Weinberg (1972), (...) que definia homofobia como a sensação de se estar com um homossexual em um lugar fechado, o termo, em geral, vem ganhando novos conceitos ao longo de seus anos de uso, fazendo com que, atualmente, o termo sirva para denunciar não só práticas individuais, mas, sobretudo toda uma ideologia, que prescreve práticas coletivas, cujo discurso leva a hierarquização entre homossexualidade e heterossexualidade. Assim, a restrição legal para a união civil entre pessoas do mesmo sexo, a restrição quanto a adoção de crianças por casais homossexuais, todos os demais direitos que são negados aos homossexuais, algumas teorias psicanalíticas sobre a homossexualidade e etc. seriam fatos característicos dessa “ideologia homofóbica”.

Ao lado dessa cada vez maior abrangência do termo, vemos movimentos restritivos com a intenção de evitar abrigar sob o mesmo termo fenômenos completamente diferentes. Propôs-se, portanto, termos como lesbofobia, bifobia e transfobia, para designar práticas ditas homofóbicas relativas ao grupo de lésbicas, bissexuais e transexuais/travestis (Tin, 2003).

Usado principalmente para denunciar práticas e discursos baseados na hegemonia do ser humano heterossexual – e principalmente do macho heterossexual – assim como para denunciar práticas, muitas vezes violentas, que revestem a homossexualidade de um caráter negativo em nossa sociedade, esse termo nasce investido de uma significação política incontestável e um dos sinais de sua força é a gritante atualidade do termo, apesar dos anos corridos.

Acredito que, na raiz dessa força política, more uma poderosa característica. Ao introduzir a idéia do medo (fobia) na atitude que delega a um plano secundário a homossexualidade, essa palavra diz de forma sutil, mas com todas as letras, que “macho tem medo”. E como socialmente homem que é homem não tem medo, esse termo atinge as práticas machistas em sua própria essência. Portanto, a prática homofóbica não denunciaria raiva, conservadorismo ou sexismo apenas, mas medo.

Dessa sutileza, nasce o risco do uso do termo.

Se temos, por um lado, uma idéia de aversão, nojo e ojeriza, raiva e hostilidade – idéia referendada pela etimologia – temos, por outro, uma idéia de medo mórbido, doença, sentimento doentio incontrolável e, principalmente, involuntário – idéia referendada tanto pela etimologia como pela psicopatologia. O primeiro dos sentidos seria mais próximo do uso que a militância GLBTT e os teóricos da área emprestam ao termo homofobia, contudo não creio que esse seja o sentido de fobia a que mais correntemente não militantes e não teóricos são remetidos quando entram em contato com a expressão.

Assim, possivelmente influenciadas pelo discurso psi, através de termos mais populares como claustrofobia, fobia de altura, agorafobia e etc., as pessoas associam a fobia muito mais a um medo e a uma doença do que propriamente ao ódio e à hostilidade.

Perigosa dubiedade e importante contradição: quando se usa o termo homofobia, pelo menos no sentido não coletivo do termo, refere-se, em geral, à agressividade e ao ódio que se tem em relação a homossexuais, ao passo que quando se usa o termo fobia, refere-se, sobretudo ao medo exagerado de que alguém involuntariamente pode ser vítima. Se no primeiro sentido somos remetidos a algo ativo, dirigido para o exterior, algo que potencialmente vai contra o outro e visa seu aniquilamento, no segundo sentido somos remetidos a alguma coisa interna, a uma experiência emocional, algo ameaçador apenas para quem vivencia essa experiência.

Como visto acima, pelas características de irracionalidade e morbidez da fobia, assim vista através da ótica da psicopatologia e aceita pela maior parte das pessoas, o que impediria um movimento de desreponsabilização - tanto legal quanto moral - do homofóbico por suas atitudes hostis?

Assim, se a palavra traz à cena (e porque não dizer à cena do crime) o medo que estaria em jogo nas práticas ditas homofóbicas, perigosamente retira da cena – já que estamos falando do medo – a responsabilidade de quem a pratica.

As palavras andam, voam e adquirem sentidos diversos.

A psiquiatria, que se imiscui nos interstícios do cotidiano, histórica e repetidamente, tem mostrado seu poder fagocítico ao abocanhar o mundo e digeri-lo através de sua lógica patologizante (Birman, 1978). O que faltaria para a homofobia fazer parte do DSM-IV ou da CID-10?

Apenas recentemente a homossexualidade saiu da CID-10, mas não esqueçamos que constam ainda daquela classificação o travestismo, o voyerismo, transexualismo e etc (OMS, 1993)

Sobre a retirada da homossexualidade da CID-10, é interessante notar que ainda consta daquela classificação a orientação sexual egodistônica. Esse transtorno seria o quadro “patológico” de uma pessoa que estivesse descontente, sofrendo e não aceitasse sua orientação sexual. Ora, em uma sociedade normatizadora como a nossa – auxiliada na normatização pelo próprio saber psiquiátrico - é muito difícil conceber alguém com uma orientação homossexual que não passe por conflitos quanto a sua sexualidade. Interessante movimento. A psiquiatria abdicou da “doença” homossexualismo, mas não abdicou dos “doentes”.

A orientação sexual egodistônica pode ser entendida como a patologização da homofobia quando voltada para si mesmo. Assim, a partir desse transtorno, não vejo um caminho muito longo para a patologização da homofobia voltada para o outro.

- Mardônio Parente

Médico psiquiatra, fotógrafo e sócio fundador da regional tocantinense da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES/TO). Mestre e doutorando em Psicologia pela UNESP/Assis. Professor no curso de Psicologia do CEULP/ULBRA.

Leia na íntegra aqui


leve-me para sair


Da produção do vídeo:

Para esses jovens, ser gay, bissexual ou lésbica, é um grande problema? Qual a idade ideal para sair do armário? Eles sofrem homofobia, preconceito? O termo "opção sexual" faz sentido? O mundo está mudando pra melhor? Ser gay pode estar se tornando um traço de personalidade como outro qualquer, como ser moreno, gostar de rock ou saber imitar aquele apresentador engraçado da TV?

"Leve-me pra sair" retrata um grupo de adolescentes gays de São Paulo e suas visões de mundo. Os depoimentos de 10 jovens entre 16 e 18 anos chamam atenção para questões importantes e outras simplesmente divertidas. Através do discurso desse grupo, o filme dá voz à pessoas de uma nova geração e descobre o que eles pensam sobre identidade, sexualidade e preconceito.

O projeto terá continuação. Inscreva-se no canal dos produtores (aqui) para assistir a "pílulas" de conteúdo extra; comunidade no Facebook, aqui.

Talvez o filme pudesse apresentar um grupo com vivências socioculturais mais diversificadas, para não ficar uma coisa tão "estereótipo do gay limpinho", mas está valendo.

E mais: não deixe de ler Drauzio Varella, sobre a homossexualidade como algo natural, e uma reflexão sobre o uso do termo "homofobia", aqui




9 de dez. de 2012

as ameaças a dom pedro casaldáliga


O bispo Pere Casaldáliga, de 84 anos, se viu obrigado a deixar sua casa em São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, após receber ameaças de morte por seu trabalho em defesa dos índios Xavante e de comunidades pobres.

Francesc Escribano, biógrafo do bispo e diretor da produtora Minoria Absoluta, que prepara uma minissérie de TV sobre Casaldáliga, explicou que o religioso deixou sua casa a pedido da Polícia Federal.

As autoridades o levaram a um local desconhecido, onde conta com proteção policial, diante das ameaças de morte recebidas nos últimos dias por parte de colonos que ocupam ilegalmente as terras dos Xavantes. A Justiça está perto de decidir a favor dos índios na disputa por terra, o que vem aumentando a violência por parte dos ocupantes ilegais.

O Conselho Indigenista Missionário emitiu um comunicado em solidariedade com o bispo, no qual, junto com outras organizações locais, defende o compromisso do religioso com "a defesa dos interesses dos mais pobres e dos povos indígenas".

(...) Ligado à teologia da libertação, sofreu ameaças de morte e perseguições durante o regime militar e de latifundiários da diocese, que chegaram a matar um vigário confundido com ele.

Paulo VI, que o fez bispo em meio ao impulso reformador do Concílio Vaticano II, se viu obrigado a levantar a voz em Roma para deixar claro que Pere Casaldáliga era um dos seus. “Quem atingir Pere, atinge Paulo", disse, em frase memorável.

A ofensiva posterior de João Paulo II contra os teólogos da libertação, entre os quais o prelado catalão sempre foi uma referência, acabou mudando o panorama: Casaldáliga foi por décadas um estorvo para Roma, que o aposentou em 2005.

Leia na íntegra aqui.

E mais: Nota de solidariedade a D. Pedro Casaldáliga, que profetizou: "Eu morrerei de pé como as árvores". Se quiser saber mais sobre Pedro Casaldáliga, dê uma olhada nesta bela matéria do Outras Palavras.

das mulheres de tromba e das damas de paus


De Kamila Oliveira, no Minoria é a Mãe (vale a pena ler na íntegra, aqui - mas, se o tempo for curto, leia este depoimento. E só.):

Muita gente - muita mesmo - confunde sexualidade com identidade de gênero. Ou talvez seja mais preciso dizer que uma boa parte de certos preconceitos na nossa sociedade foi construída por cima dessa confusão - entre muitos outros fatores.

É essa confusão, que na realidade nem é tão sutil quanto possa se pensar, que faz com que, por exemplo, as pessoas achem que homens gays “querem ser mulher”, ou que mulheres lésbicas “querem ser homem”. A lógica desse raciocínio implica que se sentir atraído por mulheres é uma característica intrínseca ao fato de “ser” homem. Logo, um homem que não se sente atraído por mulheres só pode estar querendo “virar” mulher (e a invisibilização da bissexualidade mandou um beijo também).

Acontece que ser homem ou mulher não tem necessariamente a ver com o fato de ter cromossomos XX ou XY - que não são as únicas configurações possíveis em humanos, mas isso não nos ensinam na escola; não tem necessariamente a ver com ter sistema reprodutor masculino ou feminino - existe muita variação entre esses dois modelos que aprendemos a considerar normais; não tem necessariamente a ver com o modo como você se veste ou as cores que usa - isso é uma construção social e muda com o tempo; não tem necessariamente a ver com as pessoas pelas quais você se sente atraído - ou seja, nada tem a ver com sexualidade; e, principalmente, não tem necessariamente a ver com o gênero que lhe foi designado quando você nasceu. (...)

Pense sobre todas as vezes em que você ouviu alguém dizer (ou até mesmo disse) que homem e mulher “de verdade” são somente aquelxs com determinada configuração cromossômica; e lembre-se então que, quando vemos uma pessoa na rua, não estamos escaneando seus cromossomos pra saber com certeza se são XX ou XY ou qualquer outra configuração, estamos na verdade apenas nos baseando em características físicas ou de vestuário. Se você for cis, pense no fato de nunca ter precisado passar por um verdadeiro dilema toda vez que teve que ir a um banheiro público. Pense se faz mesmo sentido que tanta gente se ache no direito de invalidar as identidades de outras pessoas.

Agora, um convite: leia o relato desta mãe, aqui. Ou, para uma reflexão sobre a relatividade das representações de gênero: você já ouviu falar das virgens juramentadas da Albânia? Leia aqui. Mas, se o tempo for curto, leia este depoimento. E só. 

* * *

De Daniela Andrade, no Bule Voador (leia na íntegra aqui):

(...) Hoje em dia, apesar de vermos mais travestis e transexuais invadindo muitos espaços que até então, a nós era vetado, não podemos atestar pela qualidade de tudo quanto é dito ou escrito a esse respeito. (...)

Todos sabemos que está na moda não ter preconceitos, não é mesmo? Foi algo conseguido pelo movimento gay e pelo movimento negro, suponho: já que estiveram sempre mais evidenciados. Algumas pessoas já me procuraram e disseram que gostariam de ter uma amiga transexual e eu me senti quase como um animal exótico: “seria tão bom ter um protegido pelo IBAMA, que ninguém mais tenha, em casa: seria de uma originalidade só!”. Ora essa, quando não, muitos usam das premissas que se salientam a todo tempo: “tenho curiosidade de saber como é transar com vocês” ou “tenho curiosidade como ficam os genitais de vocês”. Afinal de contas, a que servem travestis e transexuais? Sexo! É o que vem à cabeça da maioria esmagadora.

Se travesti, automaticamente associam à prostituição. Se transexual, automaticamente associam àquela cirurgia que inadvertidamente propagandeou-se aos quatro cantos que se intitula “mudança de sexo”. A tal da “mudança de sexo” é a “opção sexual” do mundo trans. Termos que todos usam por todo o tempo, sem se importar se adequado ou não, seja como for, vamos dizer que são apenas… termos. Claro, por que não? E, vamos continuar seguindo com a visão de que orientação sexual é opção, é escolha, que um belo dia acordamos e pesamos na balança os prós e os contras de ser hétero, gay, bi… até que possamos nos decidir; ou de que uma cirurgia mudaria sexo de alguém, e sexo aqui não é entendido por grande parte apenas como genital, mas como toda a compleição e formação identitária de um indivíduo. É como se, num passe de mágica, alguém deixasse de ser homem e passasse a ser mulher.

Boneca, dama de paus, mulher de tromba… são apenas termos, digamos assim corriqueiros. Não fazem mal e quem o diz, logo lança mão do “não tem nada a ver com preconceito”.

Bem sabemos que as palavras têm força de lei, elas materializam atos e fatos. (...) Mas, curiosamente, muita gente se refere a nós (as travestis e as transexuais) com nomes e termos que SÓ se ligam ao fetiche, à zoomorfização, ao animalesco, à objetificação. É como se, ainda que soubessem que definimo-nos como travestis e transexuais, isso não importasse. O importante mesmo é o eco da turba, e a turba grita que a nós só é possível pensar quando relacionado a sexo. E se sexo pode ser feito com ninguém (masturbação), ou pode até mesmo se usar de objetos inanimados (e animados [!]) para ter como único fim o gozo do próprio sujeito, logo podemos associar sexo aos objetos e, se podemos dizer que sexo não é o mesmo que amor, então vamos continuar fazendo associais das mais grotescas e pejorativas ao nos referirmos a travestis e transexuais.

(...) Mulheres de trombas, damas de paus, bonecas não são tão humanas quanto as demais – ainda que seja necessário aqui frisar o quanto as mulheres não travestis e não transexuais ainda sofrem com as perversas sanções do patriarcado que impôs que mulheres são inferiores aos homens, não podemos deixar de verificar que as mulheres que não nasceram com uma vulva/vagina estão a um ou a muitos degraus acima da tabela daquilo que o homem (entendido aqui como humanidade) consegue conceber como real. Estamos falando de pessoas que não são vistas nem como homens e nem como mulheres, mas uma casta inferior, uma casta não humana, a casta dos animais de tromba – que possivelmente deveriam estar em um circo!

(...) Ser travesti e ser transexual é sofrer o que sofrem as mulheres já que, quando é conveniente, o machismo as vê como mulheres e, como mulheres, inferiores; é sofrer o que sofrem os gays, pois afinal de contas, quando convém, os homofóbicos as vêem como gays “que querem virar mulher” e isso é até pior que ser o “gay padrão”; é sofrer o que sofre o negro pois, assim como o negro não consegue esconder a cor da pele, grande parte das travestis e transexuais também não conseguem esconder o que são – as que chamamos de “passáveis”, e por “passável” entenda aquelas travestis e transexuais que “ninguém diria que é travesti ou transexual por ser tão parecida com mulher” (é o que dizem em êxtase os admirados com as mimetizações tão perfeitas “dessa gente”); é sofrer o que sofre o pobre excluído e vitimado, já que grande parte também dessas travestis e transexuais não nasceram em berço esplêndido e tiveram que ir à luta de alguma forma para não morrer de fome, e em um país como o Brasil em que travestis e transexuais só podem ser associadas à prostituição, raros empresários irão querer ter em seus quadros funcionários associados à prostituição e logo… o que lhes resta? Isso mesmo: a prostituição! E portanto, também é sofrer o que sofrem as prostitutas: usadas e abusadas por um sem-fim de homens que depois do gozo as dizem imundas.

(...) Temos fugido das desgraças vida afora, que nos cobrem das certezas dos jornais que mostram pais expulsando travestis e transexuais de suas casas, escolas excluindo ao não respeitarem a identidade e os nossos nomes, as empresas batendo as portas contra nossas caras de… prostitutas-nascidas, a sociedade rindo-se pelo canto da boca nos coletivos, nas ruas, nos clubes e nos shoppings, quando passamos, ou nos apontando e tecendo comentários dos mais comezinhos. Temos fugido de tudo quanto o ser humano nos permitiu: o covil de animais exóticos onde nos fizeram reféns. E, temos demonstrado a força que move uma pessoa que enfrentou exércitos, que sangrou de morte, mas que permaneceu lépida e altiva. Esperando o tempo todo, com toda a dor mas com toda a coragem o dia que não mais nos verão como excreções e secreções, esperando não imóveis, mas ousadas. Eu mesma, eu sou uma ousada de espírito, por me colocar a falar em espaços onde de antemão sou considerada doente mental – é assim não é? É assim que nos vêem, e se nos deixam falar é por que como todos sabemos, está na moda não ter preconceitos.

Daniela Andrade, redatora do Bule Voador (na íntegra aqui)

Fonte: Alegria Falhada

Em tempo: depois de muita discussão, a APA (Associação Americana de Psicologia Psiquiatria) decidiu tirar da próxima edição do DSM-V, seu manual de diagnóstico, a ser lançada no primeiro semestre de 2013, a classificação de transexualidade como "Transtorno de Identidade de Gênero". Buscando mais informações sobre o assunto, recebi da Kamila (autora do texto lá em cima) a dica deste depoimento. Não deixe de ler. 

Atualização em 10-12-12:
Finalmente encontrei (no blog Alegria Falhada, da Daniela Andrade, autora do texto acima - aqui) a informação e uma análise mais acertadas:

"Despatologizou no entender de alguns e continua psiquiatrizada para todos. Trocar transexualidade de categoria (foi de Transtorno de Identidade de Gênero para Disforia de Identidade de Gênero (GID) - detalhe que permanece o sufixo patologizante -ISMO) não significa despatologizar no entender de muitos psiquiatras, inclusive da academia americana. Os "famosos" psiquiatras Dr. Robert Spitzer e Dr. Paul J. Fink dizem que os comportamentos e as experiências que são vistas no "transexualismo" são anormais e constituivas de disfução. E há ainda os psiquiatras que ficam em cima do muro, Dra Katherine Wilson sugere que o diagnóstico deva ser feito para Disforia de Gênero sem ênfase na não conformação com o gênero.

A troca de lugares no DSM continua causando a mesma coisa: de que ser transexual é não ser um homem ou mulher normal."

Leia na íntegra aqui.

o fim da infância

Ilustração: Tim Parker

Quando as notícias comunicam o número de mortos e feridos num atentado, numa catástrofe ou numa chacina, nunca falta o número de crianças. Podemos não saber se morreram mais homens ou mulheres, mas, se houve crianças entre as vítimas, seremos informados. E, das imagens que a reportagem nos mostrará, a mais tocante será a de um pai ou de uma mãe, carregando o corpo inerte do filho ou da filha.

Menos de dois séculos atrás, a frase "houve 12 vítimas, entre as quais quatro crianças" produziria provavelmente um pequeno alívio, como se a perda das crianças fosse menos deplorável do que a dos adultos. Hoje, é o inverso.

Da mesma forma, hoje, se a imprensa escrevesse que houve, entre as vítimas, cinco idosos, reagiríamos pensando que é uma pena, claro, mas, menos mal: eles já estavam de saída. Ora, um hipotético leitor de dois séculos atrás pensaria que os idosos são a perda irreparável: afinal, uma criança, ninguém sabe no que ela vai dar, enquanto um idoso é patrimônio consolidado. Num incêndio, você prefere que queime um caderno quase virgem ou o outro, no qual você anota seu diário há décadas?

A mostra "The Century of the Child" (o século da criança), no Museum of Modern Art, de Nova York, fechou em 5 de novembro. Mas o catálogo (com o mesmo título, publicado pelo próprio museu) é melhor que a mostra: os documentos que foram expostos são todos reproduzidos e acompanhados por uma coletânea de ensaios excelentes.

A tese geral é que, de 1900 a 2000, foi inventado e construído um mundo especificamente destinado às crianças e a suas necessidades presumidas, na sala de aula e na casa, na hora de aprender, de brincar e de se divertir.

Ao longo desse século, as crianças deixaram de ser consideradas como adultos em miniatura ou incompletos para se tornar uma espécie autônoma e, supostamente, melhor do que a nossa -em tese, sem as más influências dos adultos, elas poderiam ser geniais, inocentes e puras como o bom selvagem.

Pouco importa se perguntar o que é realmente uma criança e de qual barbárie ela seria capaz sem a ajuda dos adultos. A invenção da especificidade da infância não diz nada sobre as crianças em si, mas revela algo sobre os adultos. Pois essas crianças, tão diferentes de nós, encarnam o que gostaríamos de ser. Dois exemplos.

1) O quarto de criança de classe média (o habitat infantil idealizado) é dominado pela estética do fofo. Os adultos se livram do desconforto da arte e das incertezas do gosto para "apreciar' sem culpa patinhos de madeira, bonecos, florzinhas e estrelinhas no teto. Eles também se livram da história: nenhum móvel e nenhum objeto antigos (a higiene é a desculpa). Com esse interior atemporal, de conto de fada, o adulto moderno, atormentado por um irremediável desamparo existencial (falta de pátria, de classe, de tradição, se não de família), inventa, para a criança, a caricatura do amparo que ele deseja para si.

2) Quase no meio do século da criança, em 1938, Johan Huizinga publicou "Homo Ludens" (o homem que joga - ed. Perspectiva) -o clássico, que, como se sabe, situa o jogo como atividade humana por excelência. Vale a pena lê-lo ou relê-lo pelo prazer, e também para entender quanto e como a proposta de Huizinga foi, por assim dizer, extraviada -resultando numa massa de escritos em favor do divertimento, do ócio, das férias, do brincar e do infantil como atividades muito mais humanas, produtivas e interessantes do que o trabalho, a concentração, a reflexão e a maturidade.

Entende-se que crescer tenha se tornado difícil para as crianças, pois elas não podem parar de brincar, ou seja, de encenar a "virtude" do jogo, que nós, supostamente, perdemos.

No começo do catálogo que citei, Juliet Kinchin, curadora, escreve: "Falando solenemente para a câmera em 1995, como parte do documentário ficcionalizado 'Children´s Video Collective', um menino faz a predição seguinte: 'No futuro, as crianças não existirão mais. Minha geração é provavelmente a última geração de crianças. Ou melhor, a última geração a ter a experiência da infância. Isso não significa necessariamente que chegou o momento de guardar as coisas da infância. Ao contrário, isso pode significar que o uso das coisas da infância talvez acabe sendo prolongado indefinidamente, até a morte'".

Ou seja, a infância não vai acabar, mas os adultos já estão em extinção.

- Contardo Calligaris, via

* * *


"O irmão mais velho assume a imagem de mentor outrora ocupada pelos pais; duas meninas demonstram poder desenvolver valores sem a necessidade de qualquer tipo de influencia de adultos; e em outro caso um personagem no papel de pai cuja autoridade é rebaixada pela sua absoluta incapacidade de lidar com as tecnologias que o cercam. Pesquisa da Universidade Anhembi Morumbi desenvolvida por alunos da graduação da Escola de Comunicação encontra nas animações infantis, adolescentes e adultas a recorrência não só do desaparecimento simbólico ou mesmo literal da figura dos pais como, também, do anacronismo ou deficiência em desempenhar os papéis que deveriam ocupar na formação social dos filhos. Além disso, personagens e narrativas expressariam a chamada "dialética da família" contemporânea: a crítica à autoridade patriarcal como anacrônica e autoritária ao lado de um modelo familiar igualitário e liberal foram historicamente emancipadores, mas, por outro lado, expôs as novas gerações às insidiosas e sedutoras novas formas de manipulação."

Leia mais aqui
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