14 de set. de 2012

o amor nos dias de hoje

Pedrinho Fonseca, via - em referência a isto

"Igor queria passar adiante um conselho por uma vida com mais amor. Mark, de tanto ver a mesma frase de Ygor pichada nos muros da cidade, inspirou-se e decidiu falar do sentimento na internet. Beta estava em Roma, sua cidade preferida no mundo, quando percebeu que os italianos gostam muito de fazer declarações românticas. Daniela tinha passado por um fim de namoro daqueles que deixam a gente sem chão e precisava descobrir com os outros, como lidar com aquela montanha-russa de sentimentos.

Na quadrilha do mundo, Ygor, Mark, Beta e Daniela acharam sua linha de pesquisa. Nas pichações de Ygor, no site criado por Mark (e alimentado por mais de 20 amigos), nas fotografias de Beta e nos vídeos de Daniela, todos parecem querer entender as nuances de um único tema: o amor, esse sentimento tão vasto e intenso que tira a gente do eixo. Na busca por essa compreensão, acabaram disseminando o objeto de estudo. E não foram os únicos.

Pela internet, principalmente, muitos outros passaram a transmitir mensagens dizendo que o amor é importante, e fazem isso por meio de fotografias, citações, canções… É como se, atualmente, muita gente quisesse resgatar o romantismo, declarar seus amores e até seus desamores, e também mostrar que o mundo pode ser um lugar mais feliz, menos caótico. Para mostrar isso, surgem campanhas como a Free Hugs, que propõe que você abrace um estranho, simplesmente para alegrar tanto a vida dele quanto a sua. Quer atitude mais cheia de amor do que essa? Aqui você vai conhecer algumas." E vale muito a leitura.

Via

espaços de construção de paz


Enquanto o número de mortos em atos anti-EUA após filme ofensivo ao Islã* chega a oito e a grande imprensa já começa a tratar os últimos acontecimentos de "outono árabe"...

“Muros que separam as pessoas são normalmente construídos com base em ignorância, ódio e medo. Eu tento criar fendas nesses muros. Quando percebi que minha dor era a mesma dor de um judeu, comecei a enxergar o quanto temos em comum”.

Aziz Abu Sarah é palestino e teve seu irmão morto por soldados israelenses. Hoje, é ativista pela paz no Oriente Médio. Semanalmente, apresenta o programa de rádio Changing Directions, e divide o comando do programa com Yitzhak Frankenthal, judeu ortodoxo que teve seu filho de 19 anos sequestrado e morto pelo Hamas. O programa é exibido pela All For Peace, única frequência de rádio criada por israelenses e palestinos, com o objetivo comum de ultrapassar as fronteiras e construir diálogos para a paz na região.

A rádio é difundida em cidades israelenses e palestinas e os programas são produzidos e apresentados por equipes mistas. Palestinos e israelenses que acreditam que a maneira de acabar com a intolerância é através da convivência. “Se nós, que perdemos pessoas próximas, podemos conviver e trabalhar juntos, então qualquer um pode”, diz Sammi Ibrahim, palestino e técnico de som da rádio.

Assim como a rádio All For Peace, o documentário Diálogos visitou outros espaços de integração entre árabes e judeus em Israel e bairros palestinos.

(...)

O média metragem tem como objetivo mostrar o que pouco se mostra: pessoas que, ao invés de incentivar a guerra, buscam a união, e a construção de uma linguagem comum a todos.

A paz não chega pronta. Experimentar a coexistência e lidar com as dificuldades apresentadas é trabalhoso. Se o conflito entre Israel-Palestina parece impossível de ser solucionado, iniciativas como as que Diálogos apresenta são alternativas otimistas e efetivas.

Peter Coleman, diretor do Centro Internacional para Cooperação e Resolução de Conflitos (International Center for Cooperation and Conflict Resolution) da Universidade de Columbia, pesquisa meios de solucionar conflitos aparentemente impossíveis de serem resolvidos.

Um dos pontos chave salientados pelo autor é que exista espaço para a interação, porque é através desta troca que se criam laços com aquele que seria o “inimigo”. Ao estabelecer contato, simplificações como “nós” versus “eles”, “bom” versus “mal”, deixam de fazer sentido. Coleman fala também da importância de reconhecer e apoiar o que já funciona. Diálogos apresenta exemplos que funcionam.


A criação de espaços de encontro é importante para pressionar os governos para um outro caminho que não o da separação ou da guerra.

Diálogos apresenta espaços de construção de paz – com muita discussão e debate – no Oriente Médio.

(Alice Riff - na íntegra aqui)

* * *



O que está bem próximo do "Nós te amamos, nunca vamos bombardear seu país" entre Irã e Israel (saiba mais aqui).O diálogo é muito mais plausível do que pode interessar aos partidários da lógica da guerra e do antagonismo. E, aliás, quem tem medo da paz?



(*) "Já há indícios de que o atentado ao consulado americano em Benghazi, na Líbia, estava sendo planejado há muito tempo, para coincidir com o 11 de setembro, e que a indignação quanto ao filme 'A Inocência dos Muçulmanos', que ofende o Islã, foi só um pretexto. Claro que não vou defender nenhum fanático religioso, mas o tal do filme é sério candidato ao título de pior de todos os tempos" - veja aqui, no Tony Goes.

breve manifesto contra as cirurgias íntimas


Parem as máquinas. A vontade dos Maias pode ser cumprida agora. Para que esperar o Reveillon? É o fim do mundo.

Sobre cirurgia plástica íntima já havia tomado conhecimento. O que me assombrou foi uma frase da moça, uma modelo, estampada no caderno “Equilíbrio”, hoje, nesta Folha:

“A vagina não é bonita, dá para ficar melhor”’.

Nem no julgamento do Mensalão ouvi tamanha ignomínia dos homens da toga preta.

Repito: “A vagina não é bonita…”

Como assim, minha filha? Como ousa falar da melhor obra de Deus! Tudo bem, você pode redesenhá-la à vontade, tem gente mal-agradecida no mundo. Mas daí dizer que não bela, alto lá, é a maior das infâmias.

Seja como for, é bonita, é sagrada, é divina e merece orações diárias. Rezas orais falando segredos baixinho só para ela.

Vocês estão indo longe demais, moças, com essas obsessões plásticas. Parem com isso.

Li outrora, no “El País”, que muitas espanholas buscavam a intervenção cirúrgica para resgatar a virgindade. Muitas garotas de programa passavam a faturar alto ao simples anúncio de que eram virgens Camencitas.

Bobagem, meus amores.

E tem mais: alguns médicos alertam para o perigo da mulher perder alguma sensibilidade nos mais íntimos lábios. Depois não digam que não alertei.

Se a vagina – prefiro chamar por outro nome mais sonoro e nada científico - não é bonita, o que seria obra-prima neste mundo? Não troco a da minha amada pela coleção completa dos quadros impressionistas.

A mulher é o meu d’Orsay.

(Xico Sá, para a Folha de S. Paulo, aqui)

 * * *

Ah, Xico, imagino o que você não deve ter pensado ao saber da mania dos jovens asiáticos de se submeter a cirurgias plásticas para ficar mais parecidos com personagens de anime.

é hora de desarmar deus


“Deus não é cristão, Deus não é judeu, nem muçulmano, nem hindu, nem budista. Isso tudo são sistemas humanos, criados pelos seres humanos para tentar nos ajudar a penetrar no mistério divino. Honro a minha tradição, trilho os caminhos da minha tradição, mas não creio que minha tradição defina Deus, apenas me aponta para Ele.”

- John Shelby Spong, bispo anglicano

* * *

"O grande problema de Deus é que não o conhecemos senão na mente e no coração dos homens. E os homens constroem a sua fé com a frágil experiência de seus limitados sentidos, suficientes apenas para o trânsito no mundo em que vivemos. Os olhos podem crescer nos telescópios e ir ao fundo dos universos, ou na perscrutação das moléculas e átomos, mas isso é pouco para encontrar Deus, e menos ainda para construí-lo.

Sendo assim, e desde que há comunidades políticas, o monoteísmo tem servido para identificar ou exacerbar as razões ou desrazões nacionais.

O Ocidente judaico-cristão não assimilou a chamada terceira revelação, a de Maomé, embora ela não tenha significado nenhuma apostasia essencial ao hebraísmo. O problema se tornou político, com a expansão dos povos árabes pelo norte da África e a invasão da Península Ibérica. (...)

Agora, um filme de baixa qualidade técnica e artística* – conforme a opinião de especialistas – traz novo comburente às velhas chamas. (...) Essa reação, que culminou com a morte do embaixador norte-americano na Líbia, ainda não se encontra contida, e é provável que ainda se agrave, apesar das declarações do governo norte-americano, que busca distanciar-se dos insultos.

Os republicanos, em plena campanha eleitoral, devem ter exultado. A morte do Embaixador (asfixiado no incêndio do Consulado em Benghazi) pode ter sido uma baixa para os seus quadros, mas representa um trunfo contra Obama: sua política não tem conseguido dar segurança absoluta aos cidadãos norte-americanos. (...) A resposta de Obama, enviando dois destróieres à Líbia, não foi a melhor para reduzir as tensões; ela pode intensificá-las.

O que o governo de Washington e os republicanos não dizem é que o apoio, incondicional, aos radicais de Israel, que pregam abertamente a eliminação dos muçulmanos do mundo — assim como os nazistas desejavam a eliminação de todos os judeus – estimulam os insultos infamantes ao Islã e a resposta espontânea e violenta dos fanáticos do outro lado contra aqueles a quem atribuem a responsabilidade maior: os norte-americanos. E há ainda a hipótese, tenebrosa, mas provável, diante dos precedentes históricos, de que as manifestações tenham partido de agentes provocadores dos próprios serviços ocidentais – ou israelistas, o que dá no mesmo.


A mentira de Blair e Bush – dois homens que o bispo Tutu, da África do Sul, quer ver no banco dos réus em Haia – custou centenas de milhares de civis mortos no Iraque e no Afeganistão, e muitos milhares de jovens norte-americanos mortos, feridos, enlouquecidos nos combates inúteis. Nada é pior para os capitalistas do que a paz – e nada melhor do que a guerra, que sempre os enriquece mais, e na qual só os pobres morrem."

(Marcos Santayana, aqui

(*) "Já há indícios de que o atentado ao consulado americano em Benghazi, na Líbia, estava sendo planejado há muito tempo, para coincidir com o 11 de setembro, e que a indignação quanto ao filme 'A Inocência dos Muçulmanos', que ofende o Islã, foi só um pretexto. Claro que não vou defender nenhum fanático religioso, mas o tal do filme é sério candidato ao título de pior de todos os tempos" - veja aqui, no Tony Goes.

13 de set. de 2012

avós, os novos solteiros


"Uma das maiores causas de mudança na composição das famílias é o envelhecimento da população. O duplo fenômeno da redução dos nascimentos e do aumento da expectativa de vida mudou a forma tanto das unidades familiares residenciais (aqueles que vivem debaixo do mesmo teto) quanto das redes parentais e das relações entre as gerações.

Aos muitos netos que, ainda na minha geração de 70 anos, não conheceram nenhum avô, se substituíram os pouquíssimos netos que muitas vezes têm, por longos trechos das próprias vidas, quatro avós e se tornam adultos tendo ainda algum deles. Não moram juntos, em geral, mas têm relações frequentes e muitas vezes intensas.

A redução do número de pessoas que compõem uma unidade familiar de residência deve ser lida sobretudo nesse contexto de profunda transformação demográfica. As famílias se tornaram pequenas não tanto porque não vivemos junto com os próprios avós, mas porque os 'vovôs' sobrevivem por muito tempo e, assim, aparecem nas estatísticas como 'casais sem filhos' (porque os filhos não vivem com eles), ou, se viúvos, como 'famílias unipessoais' (...).

Não há apenas o fenômeno da cada vez longa permanência dos filhos na família, o que retarda a possibilidade de que estes últimos façam a sua própria família. Mesmo quando saem de casa, os jovens muitas vezes se apoiam nas famílias de origem para aceder a uma casa ou para enfrentar imprevistos econômicos.

Os avós, e sobretudo as avós, (...) são um recurso indispensável para a organização de uma família jovem em que ambos os genitores, ou o único presente, trabalham. E os idosos frágeis ou não autossuficientes necessariamente devem contar com as filhas e noras, na ausência de uma rede de serviços capilar e acessível. Mesmo quando há um cuidador, muitas vezes quem detém a liderança é uma filha ou uma nora. 'Intimidade à distância' e interdependência mais ou menos forçada são dois lados da mesma moeda.

Não são apenas os fenômenos demográficos que transformam o modo de fazer família e modificam os limites entre as relações familiares e outros tipos de relação. A própria redução dos nascimentos é resultado de profundas transformações culturais relativamente à importância dos filhos ou, melhor, do seu número, para a autorrealização e, ao mesmo tempo, do maior investimento sobre cada filho. Separações e divórcios assinalam não apenas que nos tornamos menos capazes de fazer um bom casamento, mas também que mudaram as expectativas. E estamos menos dispostos/as a permanecer em uma relação que se tornou negativa ou sem sentido.

A essa maior, embora arriscada, liberdade nas relações familiares serve de contrapeso um afrouxamento dos limites entre relações familiares e não familiares. Não me refiro apenas às famílias de fato, hetero ou homossexuais, mas também às chamadas 'famílias de escolha', baseadas na escolha recíproca de solidariedade mais do que em estatutos institucionalizados. Pode assumir a forma da coabitação, mas o mais frequente é o de uma rede de autoajuda mútua e de socialidade cotidiana.

(...) A capacidade de construir famílias e redes 'familiares' continua sendo vital. Basta olhar para além do modelo único."

(via)

quem sou eu


Se as suas células são todas renovadas 
pelo menos anualmente, o que te dá a sua identidade ao longo da vida? (vídeo via)

Os oráculos gregos já aconselhavam, centenas de anos antes de Cristo: “Conhece-te a ti mesmo”. Seguidores de filosofias e religiões ou adeptos de práticas como meditação e ioga, por exemplo, sempre correram atrás da autoconsciência, uma entidade abstrata que, há pouco tempo, também começou a despertar o interesse da ciência. Principalmente no campo neurológico, entender o que faz uma pessoa saber que tem uma identidade única pode trazer implicações para pacientes que sofreram danos cerebrais e, com isso, perderam a memória ou o autocontrole.

Um estudo publicado na revista científica Plos ONE indica que esse fenômeno está relacionado a diversos circuitos neuronais e não pode ser atribuído a regiões específicas. A mente, já descobriram os pesquisadores, não é um conceito abstrato, mas um processo fisiológico. Ainda assim, bem mais complexo do que se imaginava, difundindo-se por todo o cérebro, em vez de se concentrar em algumas poucas localidades, como proposto por outros estudos.

(...)

De acordo com Henrik Ehrsson, pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Cérebro, Corpo e Autopercepção do Instituto Karolinska, na Suécia, novas pesquisas que investiguem a autoconsciência são muito bem-vindas, pois a compreensão do fenômeno tem importantes implicações clínicas. (...)

O homem não é o único animal autoconsciente. Estudos com outros primatas, elefantes e golfinhos mostraram que eles também conseguem se reconhecer no espelho, o mais forte indício de que um ser é capaz de compreender sua identidade e diferenciá-la da dos demais. Porém, no mês passado, sites e blogs anunciaram uma novidade, no mínimo, perturbadora: um robô humanoide teria conseguido reconhecer o próprio reflexo, afirmando: “Ei, sou eu!”.

(...)

Apesar de o feito realmente ser memorável no campo da inteligência artificial, isso não significa, porém, que o robô seja autoconsciente como o homem e outros animais. O que Hart e Scasselati conseguiram foi, por meio de um software de reconhecimento espacial, fazer com que o robô determinasse a localização de seu braço (interpretado pelo androide como um objeto), que estava refletido em um espelho. Já a fala de Nico, aparentemente muito satisfeito por se ver refletido, foi apenas a consequência de um comando programado.

(Na íntegra aqui)

quem tem medo do facebook?


É engraçado como estamos construindo nossas novas formas de amizade, pelo menos online. Não existe mais isso de que todo mundo que temos nas redes serem nossos amigos, se é que já existiu. Adicionamos as pessoas por que são interessantes de alguma forma: ela parece ser bacana ou mesmo escreve sobre coisas legais. Ainda, adicionamos porque acreditamos que alguém passou no nosso processo avaliativo sexual e pode se transformar em uma potencial rapidinha no fim de semana, evoluir para algo além e etc.

E isso não é de tudo ruim, porque abre um leque de coisas que talvez você não conhecesse por outro meio. É maravilhoso quando você se sente sozinho ou deslocado do mundo e encontra ali pessoas que são malucas exatamente como você. (...)

Falando assim parece que é tudo muito bom, mas também pode ser uma merda. Criamos cada vez mais relações pessoais rasas, nossos relacionamentos passam existir somente no tempo que gastamos frente ao computador. Ficamos sabendo cada vez mais de coisas que realmente não queremos saber, já que os nossos interesses na tela do computador nunca são 100% iguais aos da outra pessoa.

(...) E a partir desse filtro damos vida a nossa persona de internet, o personagem que nos representa tão bem nas redes sociais. Isso não parece imoral, pois de toda forma ainda é você. Aquela foto linda é você, mesmo que tenha sido repetida três, quatro vezes até o melhor ângulo. E aquela resposta bem formulada? Foi você quem deu, ué – mesmo que tenha ido ao Google pra construir o seu argumento um pouquinho melhor. Nossas personas nunca deixam de ser nós mesmos. É um “eu” que eu gosto mais. Um “eu” que é mais safadinho, mais inteligente, mais sagaz, mais irônico quando precisa. Aquele “eu” legal, que controla os sentimentos. Um “eu” que me dá orgulho.

O problema é que esse “eu” é um pouco distante do “eu” no cara a cara, do “eu” mesmo, do “eu” que não é tão bonito como na foto ou que demora um pouco mais pra dar uma resposta sagaz. Acabamos nos frustrando, e também as outras pessoas. Acho que é importante criar um balanço do que eu quero mostrar e do que eu sou de verdade. Temos de ter cuidado com essa tênue linha, onde em qualquer momento todos nós podemos nos perder.

Aprender dia após dia que aquele avatar sobre uma timeline não é sua vida de fato – apenas aceite isso como parte da sua vida, não como ela inteiramente. A vida é além disso! Há tantas outras coisas maravilhosas e legais para se aprender. Gente que realmente é interessante, ou não, fora da fria tela do computador. Saia um pouco do Facebook e veja como algumas pessoas soam desinteressantes na vida real, e aprenda com elas qualquer coisa que seja. Ainda tenho esperança de que estejamos conseguindo manter um lugar para que possamos ir quando não quisermos mais compartilhar nossas vidas num site esperando likes.

Porque se não estamos criando essa outra vida, antes chamada apenas de vida, para o nosso verdadeiro “eu”, vamos todos acabar velhinhos na frente de computadores e não sei vocês, mas eu não quero isso para mim.

(Ravel Brasileiro, para o Vestiário - leia na íntegra aqui)

* * *


"A internet trouxe muitas coisas boas e o 'stalking' não é uma delas. A prática de dedicar atenção obsessiva a uma pessoa, podendo resvalar em outros tipos de perseguição e conflitos, ganhou novos contornos com a tecnologia digital." (Aqui)

“'A forma como assediamos a vida uns dos outros hoje tem tudo a ver com o processo de celebrização da sociedade. Há um impulso de consumir a vida do outro, de usá-la como entretenimento, semelhante a um filme', explica Eugênio Trivinho, professor do programa de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP." (Aqui)

"O objetivo do [Facebook] é criar parzinhos, guetos, redutos de identificação plena. É por isso que não existe um botão de 'dislike'. Para quê? Para as pessoas discutirem, se excluírem mutuamente? Nada disso. Vamos nos amar loucamente e conferir a página um do outro sete vezes ao dia." (Aqui)

* * *

"Privacidade é daquelas coisas que, intuitivamente, nos parecem importantes. Mas todos temos dificuldade de explicar por quê. Não bastasse, privacidade é coisa fluida. Quando um finlandês pergunta ao outro qual seu salário, ele ouve uma resposta de pronto. Ninguém vê motivo para ser discreto. Numa praia árabe, as áreas entre homens e mulheres são separadas por paredes, e mesmo na ala feminina elas se cobrem todas. Alemães vão à sauna mista nus sem que qualquer conotação sexual exista. Os mesmos alemães se insurgiram quando o Google decidiu publicar, no Street View do seu sistema de mapas, fotos das ruas que incluem, naturalmente, as fachadas das casas. Foto da casa vista da rua, por lá, é coisa privada.

O que é privado e o que é público varia de cultura para cultura, mas em todas existe privacidade. Charles Fried, um jurista de origem tcheca que foi advogado-geral dos EUA durante o governo de Ronald Reagan, tem talvez a melhor definição. Privacidade é o que define nossas relações. Os graus de intimidade que temos com as pessoas. Com aqueles mais próximos de nós, compartilhamos detalhes os mais íntimos. A partir daí, vamos impondo discretas barreiras entre nós e amigos de escola, colegas de trabalho, parceiros de pelada. Nossa capacidade de gerenciar a informação sobre nós que os outros têm define como convivemos em sociedade. Privacidade é importante por isso. Porque, se nossa vida é um livro aberto, nada nos protege do mundo lá fora."

(Pedro Doria - na íntegra aqui)

* * *

...mas como faz para não nos perdermos na multidão?

de todo tipo


Bom dia, pessoas de todo tipo. :-)

12 de set. de 2012

um dia no afeganistão que não conhecemos


"Outrora eu era de aqui, e hoje regresso estrangeiro. Forasteiro do que vejo e ouço,
velho de mim, já vi tudo, ainda o que nunca vi nem o que nunca verei.
Eu reinei no que eu nunca fui."

- Fernando Pessoa

"meu vício é gostar de gente"


Em maio de 1964, Cecília Meireles concedeu uma entrevista-depoimento ao jornalista Pedro Bloch, publicada na revista “Manchete”, edição nº 630, em 16 de maio de 1964 (e, posteriormente, no livro “Pedro Bloch Entrevista”, Bloch Editores, em 1989). Seguem alguns fragmentos.

“Tenho um vício terrível. Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença. Em pequena (eu era uma menina secreta, quieta, olhando muito as coisas, sonhando) tive tremenda emoção quando descobri as cores em estado de pureza, sentada num tapete persa. Caminhava por dentro das cores e inventava o meu mundo. Depois, ao olhar o chão, a madeira, analisava os veios e via florestas e lendas. Do mesmo jeito que via cores e florestas, depois olhei gente. Há quem pense que meu isolamento, meu modo de estar só (quem sabe se é porque descendo de gente da Ilha de São Miguel em que até se namora de uma ilha pra outra?), é distância quando, na realidade, é a minha maneira de me deslumbrar com as pessoas, analisar seus veios, suas florestas.”

"Vivo constantemente com fome de acertar. Sempre quase digo o que quero. Para transmitir, preciso saber. Não posso arrancar tudo de mim mesma sempre. Por isso leio, estudo. Cultura, para mim, é emoção sempre nova. Posso passar anos sem pisar num cinema, mas não posso deixar de ler, deixar de ouvir minha música (prefiro a medieval), deixar de estudar, hindi ou o hebraico, compreende?"


"Se eu inventei palavras? Não. Isto nunca me preocupou. No inventar há um certa dose de vaidade. 'In­ventei. É meu'. O que me fascina é a palavra que descubro, uma palavra antiga abandonada e que já pertenceu a tanta gente que a viveu e sofreu!"

"Tenho amigos em toda parte. Mas sou feito o Drummond que é tão amigo quase sem a presença física. Esse meu jeito esquivo é porque eu acho que cada ser humano é sagrado, compreende? Eu sou uma criatura de longe. Não sei se me querem mas eu quero bem a tanta gente! Sou amiga até dos mortos. Amiga de muita gente que nem conheci. Você não imagina quanta gente eu levo ao meu lado."

"Cada lugar aonde chego é uma surpresa e uma maneira diferente de ver os homens e coisas. Viajar para mim nunca foi turismo. Jamais tirei fotografia de país exótico. Viagem é alongamento de horizonte humano."

"Meus amigos, é curioso, ou vivem longe ou estão distantes. Minha casa já é contramão. Gosto de estudar o que me dá conhecimento melhor das pessoas, do mundo, da unidade. Por meio dos idiomas e do folclore, vejo até que ponto somos todos filhos de Deus. A passagem do mundo mágico para o mundo lógico me encanta."


"Educação, para mim; é botar, dentro do indivíduo, além do esqueleto de ossos que já possui, uma estrutura de sentimentos, um esqueleto emocional. O entendimento na base do amor."

"Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul onde costumava pousar um pombo branco. Nos dias límpidos o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e me sentia completamente feliz. (...) Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Leia a entrevista na íntegra aqui.

habitações

Cortiços nos fundos dos predios 12 a 44 da Rua do Senado, 
no centro do Rio de Janeiro, 1906. Foto de Augusto Malta, via


"O problema da habitação para a população de baixa renda brasileira não é atual. Os cortiços se espalhavam aos milhares pelo Rio de janeiro do inicio do Séc. XX. Eram completamente insalubres, sujos e um foco de doenças, principalmente da febre amarela, sífilis e varíola. Seu extermínio era necessário. Durante a campanha de vacinação da febre amarela (comandada pelo médico sanitarista Dr Oswaldo Cruz), que tornou-se numa revolta popular (havia a ideia que se tratava de uma política de extermínio da população pobre), os cortiços tiveram seu óbito assinado. Foram destruídos milhares, entre outros focos de doenças, durante a reforma da cidade promovida por Pereira Passos. Com o desaparecimento dos cortiços, praças, jardins, ruas e avenidas, belas construções surgiram em seu lugar. Era necessário também separar a população negra, mestiça, pobre, da nova e elegante cidade que surgia. Com o despejo para longe do Centro, os moradores, completamente desamparados pelo poder público, foram procurar outros lugares para viver. Com isso, houve um rápido aumento das favelas que até hoje se multiplicam em velocidade vertiginosa em nossa cidade.

Os cortiços eram geralmente de propriedade de ricos comerciantes que rendiam uma boa soma em dinheiro a esse comerciante que cobrava aluguel por cada comodo usado. Apesar de ter licença para existerem pelo Codigo de Posturas Municipais, os cortiços viviam em noticias de jornais que retratavam a miseria dos que lá moravam. O suborno às autoridades minicipais permitia que essas pocilgas existissem."

(Via)



"Entretanto, a rua lá fora povoava-se de um modo admirável. Construía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas da noite para o dia; subiam os aluguéis; as propriedades dobravam de valor. Montara-se uma fábrica de massas italianas e outra de velas, e os trabalhadores passavam de manhã e às Ave-Marias, e a maior parte deles ia comer à casa de pasto que João Romão arranjara aos fundos da sua varanda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser tão afreguesada como a dele. Nunca o seu negocio fora tão bem, nunca o finório vendera tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos anos anteriores. Teve até de admitir caixeiros. As mercadorias não lhe paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais gasto. E o dinheiro a pingar, vintém por vintém, dentro da gaveta, e a escorrer da gaveta para a barra, aos cinqüenta e aos cem mil-réis, e da burra para o banco, aos contos e aos contos."

(Aluísio de Azevedo, "O Cortiço" - pdf na íntegra aqui)

* * *

Cortiço no centro do Rio de Janeiro, c. 1903 (via)

Habitação, esse problema sempre renovado:



"A habitação constitui um dos mais graves problemas sociais da cidade de São Paulo. Dentre os inúmeros fatores explicativos estão os baixos salários dos trabalhadores, o alto custo da terra urbanizada e a insuficiência de políticas públicas destinadas às favelas, aos loteamentos precários e, particularmente, aos cortiços. Consequentemente, as condições precárias de moradia têm reflexos perversos na vida das pessoas, pois a habitação é uma das bases fundamentais da estruturação da vida.

(...) Parece inacreditável a constatação de que os problemas que existiam nos cortiços no início do século 20, conforme estudos e jornais da época, sejam os mesmos dos dias de hoje. Dentre eles, destacam-se a grande concentração de pessoas em pequenos espaços; um único cômodo como moradia; ambientes com falta de ventilação e iluminação; uso de banheiros coletivos; instalações de esgotos danificados; falta de privacidade; e o fato de comporem um mercado de locação habitacional de alta lucratividade."

(Luiz Kohara, aqui)




"Quando esse tipo de interpretação do conceito de propriedade privada sobrepõe a dignidade humana, há algo de muito errado em nossa sociedade.

Quando uma prefeitura finge que não vê um número tão grande de pessoas e não as considera em sua gestão, há algo de muito errado com a política."

(Fabricio Cunha, aqui)




"Enquanto isso, mais uma favela queimou em São Paulo.

Essa limpeza pelo fogo leva às lágrimas muitas famílias. E abrem imperceptíveis sorrisos em alguns empresários e administradores públicos de olho no erguimento de bancos, salas de concertos e de exposições, teatros, sedes de multinacionais, escritórios da administração pública, restaurantes, equipamentos públicos. E apartamentos, para quem pode pagar, é claro.

A questão deveria ser central nos discursos dos candidatos à Prefeitura de São Paulo, mas não é. Até porque tem sido função do poder público em São Paulo tornar a vida dos moradores de favelas em áreas de interesse imobiliário um inferno até que eles saiam, seja por ação direta, seja por omissão.

E a desse pessoal, resistir. Eles sabem que não se encaixam no plano de desenvolvimento para a cidade. Sabe como é, né? Aquele bando de gente pobre só ia jogar o preço do metro quadrado para embaixo e afastar os 'homens de bem' de perto. Temos um constante Pinheirinho em São Paulo, mas como segue a conta-gotas, não vira manchete. Banalizou-se, como a corrupção ou a superexploração do trabalho.

Ao longo do tempo, fomos expulsando os mais pobres para regiões cada vez mais periféricas. Eles, que têm menos recursos financeiros, gastam mais tempo e mais de sua renda com transporte do que os mais ricos que ficaram nas áreas centrais – com exceção das Alphabolhas da vida. Cortiços e pequenas favelas em regiões de fácil acesso abrigam centenas de famílias. Sem o mínimo de saneamento básico, às vezes sem água e sem luz. A maioria dos moradores desses locais prefere continuar assim, pois transporte é o que não falta e a casa fica próxima ao trabalho – ao contrário do que acontece em bairros da periferia, onde o trajeto até o centro chega a levar três horas, dentro de ônibus superlotados.

Ao mesmo tempo, o Brasil está se tornando um imenso canteiro de obras.

O problema é que há gente morando nos locais onde se quer construir."

(Leonardo Sakamoto, aqui)



Um projeto colaborativo na Internet, o "Fogo no Barraco", é uma tentativa de mapear todos os incêndios em favelas de São Paulo, desde 2004, e também as regiões mais valorizadas dos últimos tempos. Juntando as duas pontas, há uma notável convergência. Saiba mais (e como participar) aqui. (Dica do prof.  Lair Amaro)



"A prefeitura implementou um programa de prevenção em 50 comunidades classificadas como de alto risco. Ainda assim, muitas delas já registraram incêndios.

Mesmo considerada 'modelo', a favela do Morro do Piolho mostrou que as medidas do Previn (programa de prevenção de incêndios), que incluíram um zelador com capacete, capas e botas de incêndio, não foram suficientes.

De acordo com os residentes, que tentaram conter as chamas com baldes, não houve treinamento, e extintores jamais foram entregues." (Aqui)



"As centenas de milhares de casas e apartamentos da supostamente exitosa política habitacional chilena produziram um território marcado por uma segregação profunda, onde o “lugar dos pobres” é uma periferia homogênea, de péssima qualidade urbanística e, muitas vezes, também, de péssima qualidade de construção, marcada ainda por sérios problemas sociais, como tráfico de drogas, violência doméstica, entre outros. Para se ter uma ideia, vários conjuntos habitacionais já foram demolidos (!) e muitos outros se encontram em estudo para demolição.

Deixada para o mercado a decisão de onde e como deveria ser produzida, encarada como um produto que se compra individualmente, como um carro ou uma geladeira, a cidade que resultou é simplesmente desastrosa. Nada nos leva a supor, que, em menos de dez anos, não estaremos enfrentando no Brasil o mesmo cenário com o programa 'Minha Casa, Minha Vida'."


(Raquel Rolnik, professora e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada, aqui)



"A maior crítica dos urbanistas ao programa Minha Casa, Minha Vida, lançado pelo governo federal em 2009, é a de que as necessidades do setor de construção civil foram mais importantes na construção do modelo do projeto do que o modelo de cidade que ele criaria."

("Minha Casa, Minha Vida é política de crédito, não de cidade", por Thalita Pires, Rede Brasil Atual, aqui)

renúncias


No passado a meditação era uma vida negativa: renunciar à vida e a tudo o que faz dela algo que vale a pena viver.

Para mim, a meditação é exatamente o oposto do que tem sido até agora.

"Meditação" é um coração silencioso, uma mente tranquila, que pode tornar a vida mais amável, mais suportável; que pode tornar a vida mais rica em todas as dimensões.

Não quero que você renuncie a nada. Quero que se alegre com tudo, seja o que for que estiver fazendo.


(Osho, em "The Forgotten Language of The Heart", aqui)

11 de set. de 2012

corpo e identidade


"Ninguém existe sem antes perceber o próprio corpo. Se nosso corpo constitui-se de vários 'pedaços', o movimento é o fator que nos possibilita juntar essas peças e criar unidade. O movimento nada mais é que uma tensão conduzida de um músculo a outro, organizando alavancas ósseas e permitindo a sensação de um braço inteiro, de uma perna inteira e, finalmente, de um corpo inteiro. É essa síntese motora que nos fornece a confortável sensação de unidade, de identidade.

Se nossas unidades estruturais não concorrem para a consciência de uma identidade, o psiquismo será novamente sobrecarregado nesse esforço da personalização. "

- Ivaldo Bertazzo, via

o 11/09 esquecido

Bombardeio do Palácio de la Moneda (via)

Chile, 11 de setembro de 1973:

"Não vou renunciar. Colocado no caminho da História, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E digo que tenho certeza de que a semente que deixamos na consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser ceifada definitivamente. Eles têm a força, poderão submeter-nos, porém não deterão os processos sociais nem com crimes nem com a força. A história é nossa e é feita pelo povo".

- Salvador Allende, em suas últimas palavras, transmitidas por rádio durante o cerco ao Palácio de La Moneda (via).

(Ah, a história latino-americana à qual os brasileiros em geral nos mantemos alheios... Ainda bem que nem todo mundo esquece.)

o ocidente caiu com as torres


Enquanto o ex-presidente Bill Clinton fazia seu discurso histórico na Convenção democrática, senti-me em uma viagem no tempo - parecia que estávamos antes do 11 de Setembro, com os EUA em superávit, com uma visão multilateral do mundo, antes da brutal recessão que o boçal do Bush causou com sua política para milionários e Wall Street. Há muito tempo eu não era tão feliz. Pude esquecer por uma hora as caras dos republicanos: homens com fuças de bandidos violentos e mulheres com seus cabelos louros de 'chapinha', com o sorriso fixo de peruas imbecis.


Clinton explicou com destreza literária e estratégica como os republicanos provocaram o horror atual da economia, como impediram no Congresso que Obama fizesse correções na 'herança maldita' que deixaram e agora querem voltar para errar mais, num momento delicadíssimo da agenda internacional. Emocionou-me a dignidade daqueles dois, o preto bonito e o branco bonito, homens de bem, cultos, contrastando com os animais que pululavam na convenção republicana, com o fascista Clint Eastwood fazendo piadinhas e desonrando o fim de sua vida. Nunca mais vejo filme dele.

A crise econômica de 2008 começou em 2001, no 11 de Setembro. O ataque do Osama às torres dissimulou a estupidez do governo Bush (lembram de sua cara abestalhada quando soube do atentado?) Naquela cara estava traçado nosso destino dos últimos dez anos. Como um 'presidente de guerra', a desregulação das finanças foi escancarada, ninguém prestava atenção a nada, a não ser o 'Cheney-Oil' (que passou a mandar) e os 'mestres do universo', como os moleques de Wall Street se chamavam.

Logo depois do 11/9, o 'patriotic act' que Bush assinou justificou qualquer loucura, qualquer gasto para combater o terror. Não teríamos uma crise tão forte, se os EUA não estivessem gastando cerca de um trilhão por ano no Iraque e Afeganistão. O dinheiro rolava em cachoeira com baixos juros e a bolha imobiliária cresceu, os 'derivativos' e alavancagens criaram para os americanos um consumo fictício compensatório, que acabou estourando, como as minas que matavam jovens nos desertos do Oriente.

Bin Laden armou uma armadilha infalível: obrigou os EUA ao contra-ataque e, com isso, uniu o Islã.

Além disso, Bin Laden produziu a grande ressurreição do século 21: Deus. Ressurgiu Alá para eles e o fundamentalismo cristão na América. Alá e Jesus, ambos armados. Bin Laden 'islamizou' a América. Hoje há cerca de 40 milhões de evangélicos nos EUA, que acham que Deus criou o mundo em sete dias, 6 mil anos atrás, e que o Islã tem de ser arrasado com bombas nucleares. Barack Obama pode ser derrotado por milhões de ignorantes religiosos. Bin Laden nos jogou na Idade Média, numa era pré-política. Os nazistas queriam um milênio ariano, os comunas queriam construir um paraíso sem classes, os fanáticos do Islã não querem construir nada. Já estão prontos. Já chegaram lá. Já vivem na eternidade. Querem apenas destruir o demônio - que somos nós. (...) Suas multidões jazem na miséria, conformados, perfazendo um ritual obsessivo cotidiano que os libertou da dúvida. Sua obediência ao Alcorão lhes ensina tudo, desde como cortar as unhas até como matar 'cães infiéis'. Como disse o mulah Muhammad Omar, com desdém: "Nós amamos a morte; vocês sempre gostaram de viver..."

Em um discurso que fez nas cavernas do Afeganistão, Bin Laden citou o tratado de Sèvres, quando o Ocidente acabou com o Império Otomano e com o sonho de unidade árabe, em 1920. Depois, declarou: "Nunca mais seremos humilhados como na Andaluzia". Ou seja, eles se vingam da expulsão da Península Ibérica em 1492. Osama nos odeia há 500 anos.

Osama Bin Laden inventou a única arma possível para os miseráveis: a loucura suicida. Queremos desesperadamente explicar Osama à luz da ciência ou da razão, mas ele se mantém imune a interpretações. Finalmente, entendi a velha frase de Camus: "O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo". Mas, não o suicídio raivoso de Mersault (v. O Estrangeiro) contra o mundo "absurdo". Não mais o suicídio da "náusea", mas o suicídio como manifestação de vida contra a dúvida e a diferença. Ai, que loucura!: o suicídio como esperança.

Além de incendiar a crise da economia, o ataque de 11/9 acabou com a fama de infalibilidade dos EUA. Acabou com a ideia de "finalidade", de "projeto". Acabou com a ideia de solução, com a ideia de vitória.

Ele trouxe de volta o que estava faltando ao Ocidente, desde o fim da guerra fria: o medo, a pulsão de morte que andava escondida, sublimada nos filmes, nos "hambúrgueres", na gargalhada infinita do entertainment. Acaba o happy end, a simetria, o princípio, o meio e o fim.


A arte revolucionária de Osama foi ter criado um fato. Hoje em dia não temos mais fatos; só expectativas. E ele nos trouxe um acontecimento em 2001, intempestivamente. E se o intempestivo acontece, Bin Laden atualizou a ideia do contemporâneo que, como disse Agamben, está dada numa relação de desconexão e dissociação com o tempo presente. E, para ele, "contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele ver não as luzes, mas o escuro". Bin Laden provou a morte das grandes narrativas e explicações. Pode estar pintando um horror à mudança, um tempo de conformismo deprimido. Ficaremos mais minimalistas, afirmando singularidades. Como disse Baudrillard: "O universal acabou; só resta o singular contra o mundial".

E depois de criar milhões de 'jihadistas' americanos, com os "tea parties" fascistas, com um Deus vingativo e reacionário, Bin Laden está no fundo do oceano. E pode ser que chegue agora sua vingança contra Barack Obama: do abismo gelado do mar, entre peixes luminosos, Bin Laden pode eleger o Mitt Romney em novembro.

- Arnaldo Jabor, na íntegra aqui

dois pauzinhos


Perguntar "quem é o homem" e "quem é a mulher" em uma relação homoafetiva é o mesmo que perguntar qual hashi é o garfo.

Fica a dica.

10 de set. de 2012

microbioma humano


Em nossa cosmovisão antropocêntrica, somos o resultado dos genes que se juntaram num óvulo fertilizado. A condição humana, no entanto, é muito mais complexa.

Recebemos de nossos pais cerca de 23 mil genes, número insignificante comparado aos 3,3 milhões de genes pertencentes às bactérias alojadas em nosso corpo.

Não imagine que elas são parasitas reles à espera de uma oportunidade para invadir o organismo. Entre outras funções nobres, as bactérias liberam micronutrientes essenciais, energia para o consumo diário, regulam o sistema imunológico e nos protegem contra germes virulentos.

Na visão moderna, o corpo humano é um ecossistema no qual as células descendentes do óvulo fertilizado constituem apenas um dos componentes. O outro é o microbioma, muito mais numeroso: para cada célula herdada existem dez bactérias.

Enquanto um homem de 70 quilos é formado por 70 trilhões de células, em seu intestino existem 100 trilhões de bactérias. Os outros 600 trilhões são encontradas na pele (10 mil em cada cm²), boca, cavidade nasal, seios da face e aparelho geniturinário.

Durante a gravidez, o bebê é mantido em ambiente estéril. Se ele assim permanecesse ao vir à luz, teria poucos dias de vida, devorado por germes agressivos e incapaz de obter no seio materno a energia necessária para sobreviver.

Ao passar pelo canal do parto, o bebê se infecta com as bactérias presentes na vagina e no aparelho urinário da mãe, ricas em Lactobacillus. Nos partos cesarianos, o microbioma é adquirido principalmente pelo contato com as bactérias da pele materna das pessoas que convivem com ela. A diferença na composição dos microbiomas entre os nascidos por via vaginal ou cesariana persiste por meses e deve ter implicações na saúde dos nenês.

A transição do leite materno para a dieta sólida está associada à aquisição de um microbioma mais semelhante ao da vida adulta, mas as doenças infecciosas, o uso de antibióticos e as características da dieta podem interferir com sua composição.

Daí em diante, os germes com quem dividimos o corpo serão adquiridos por meio do contato com os familiares e com os que nos cercam, de modo que o microbioma adquirirá características únicas que nos distinguirão dos demais seres humanos, tanto quanto nossa aparência física.

Em 2006, um estudo mostrou que a mucosa intestinal de indivíduos obesos era rica em bactérias do phylum Firmicutes, enquanto as dos magros pertenciam predominantemente ao phylum Bacteroidetes. Quando os obesos perdiam peso, a composição da flora adquiria as características dos magros.

Experimentos subsequentes demonstraram que o emagrecimento está associado à ação dos Bacteroidetes na inibição da síntese de um hormônio que facilita o armazenamento de gordura. Essa mudança da flora explicaria por que doses baixas de antibióticos ajudam o gado a engordar.

Da mesma forma, seria possível combater a subnutrição por meios de manipulações da flora intestinal.
Nos últimos cinco anos, tem sido demonstrado que o microbioma exerce papel importante em doenças cardiovasculares, esclerose múltipla, diabetes, infecções por germes patogênicos, doenças inflamatórias, como a doença de Crohn, que acomete os intestinos, processos autoimunes, como a asma, e até no autismo.

O caso do diabetes é especialmente ilustrativo. Pessoas com obesidade grave e diabetes submetidas a uma cirurgia conhecida como Y de Roux, na qual o intestino sofre um curto-circuito para reduzir a capacidade de absorção de nutrientes, perdem de 20 a 30% do peso corpóreo. O mais impressionante, entretanto, é que em cerca de 80% delas o diabetes desaparece em dias.

Diversas evidências sugerem que o Y de Roux facilita o aparecimento de bactérias que liberam fatores capazes de interferir com o controle da sensibilidade à insulina, mecanismo defeituoso nos que sofrem da doença.

A visão de que os germes são inimigos a ser combatidos, num mundo cada vez mais higiênico e estéril, pertence ao passado. Precisamos deles para sobreviver tanto quanto eles dependem de nós.

No futuro, manipularemos o compartimento bacteriano de nosso ecossistema, para tratar de enfermidades de forma personalizada. Infelizmente, os iogurtes disponíveis nos supermercados estão longe de cumprir essa tarefa.

- Drauzio Varella, aqui

degraus da ilusão

 Quino

Fala-se muito na ascensão das classes menos favorecidas, formando uma “nova classe média”, realizada por degraus que levam a outro patamar social e econômico (cultural, não ouço falar). Em teoria, seria um grande passo para reduzir a catastrófica desigualdade que aqui reina.

Porém receio que, do modo como está se realizando, seja uma ilusão que pode acabar em sérios problemas para quem mereceria coisa melhor. Todos desejam uma vida digna para os despossuídos, boa escolaridade para os iletrados, serviços públicos ótimos para a população inteira, isto é, educação, saúde, transporte, energia elétrica, segurança, água, e tudo de que precisam cidadãos decentes.

Porém, o que vejo são multidões consumindo, estimuladas a consumir como se isso constituísse um bem em si e promovesse real crescimento do país. Compramos com os juros mais altos do mundo, pagamos os impostos mais altos do mundo e temos os serviços (saúde, comunicação, energia, transportes e outros) entre os piores do mundo. Mas palavras de ordem nos impelem a comprar, autoridades nos pedem para consumir, somos convocados a adquirir o supérfluo, até o danoso, como botar mais carros em nossas ruas atravancadas ou em nossas péssimas estradas.

Além disso, a inadimplência cresce de maneira preocupante, levando famílias que compraram seu carrinho a não ter como pagar a gasolina para tirar seu novo tesouro do pátio no fim de semana. Tesouro esse que logo vão perder, pois há meses não conseguem pagar as prestações, que ainda se estendem por anos.

Estamos enforcados em dívidas impagáveis, mas nos convidam a gastar ainda mais, de maneira impiedosa, até cruel. Em lugar de instruírem, esclarecerem, formarem uma opinião sensata e positiva, tomam novas medidas para que esse consumo insensato continue crescendo – e, como somos alienados e pouco informados, tocamos a comprar.

Sou de uma classe média em que a gente crescia com quatro ensinamentos básicos: ter seu diploma, ter sua casinha, ter sua poupança e trabalhar firme para manter e, quem sabe, expandir isso. Para garantir uma velhice independente de ajuda de filhos ou de estranhos; para deixar aos filhos algo com que pudessem começar a própria vida com dignidade.

Tais ensinamentos parecem abolidos, ultrapassadas a prudência e a cautela, pouco estimulados o desejo de crescimento firme e a construção de uma vida mais segura. Pois tudo é uma construção: a vida pessoal, a profissão, os ganhos, as relações de amor e amizade, a família, a velhice (naturalmente tudo isso sujeito a fatalidades como doença e outras, que ninguém controla). Mas, mesmo em tempos de fatalidade, ter um pouco de economia, ter uma casinha, ter um diploma, ter objetivos certamente ajuda a enfrentar seja o que for. Podemos ser derrotados, mas não estaremos jogados na cova dos leões do destino, totalmente desarmados.

Somos uma sociedade alçada na maré do consumo compulsivo, interessada em “aproveitar a vida”, seja o que isso for, e em adquirir mais e mais coisas, mesmo que inúteis, quando deveríamos estar cuidando, com muito afinco e seriedade, de melhores escolas e universidades, tecnologia mais avançada, transportes muito mais eficientes, saúde excelente, e verdadeiro crescimento do país. Mas corremos atrás de tanta conversa vã, não protegidos, mas embaixo de peneiras com grandes furos, que só um cego ou um grande tolo não vê.

A mais forte raiz de tantos dos nossos males é a falta de informação e orientação, isto é, de educação. E o melhor remédio é investir fortemente, abundantemente, decididamente, em educação: impossível repetir isso em demasia. Mas não vejo isso como nossa prioridade.

Fosse o contrário, estaríamos atentos aos nossos gastos e aquisições, mais interessados num crescimento real e sensato do que em itens desnecessários em tempos de crise. Isso não é subir de classe social: é saracotear diante de uma perigosa ladeira. Não tenho ilusão de que algo mude, mas deixo aqui meu quase solitário (e antiquado) protesto.

(Lya Luft, aqui)

o parto da escrita


No "Equilíbrio" da última terça, Rosely Sayão veio em socorro de uma professora cujos alunos em fase de alfabetização se recusam a escrever manualmente.

De acordo com os diabretes, fazê-lo seria uma inutilidade, já que o teclado é hoje onipresente.

A colunista defende a escrita manual e, mais especificamente, a letra cursiva, afirmando que sua preservação é uma questão de cidadania, já que existem ainda muitas pessoas que não têm acesso à tecnologia.

Em grandes linhas, concordo com a psicóloga, mas tenho uma ou duas coisinhas a acrescentar. Rabiscar caracteres à mão - pode ser em letra de forma; eu não colocaria tanta ênfase na cursiva - parece ser um elemento importante para que as crianças dominem o código alfabético.

O problema é que, ao contrário da linguagem falada, que é um item de fábrica no ser humano (não há bando que não disponha de um idioma), a escrita, com seus 5.500 anos, é uma invenção relativamente moderna e rara. Não surgiu mais do que três ou quatro vezes ao longo da história.

Nossas mentes, forjadas para uma existência pré-histórica, não lidam tão bem com esse código. Trabalhos de neurocientistas como Maryanne Wolf e Stanislas Dehaene mostram que o ato de ler implica reprogramar o cérebro, integrando, com a criação de conexões neuronais, estruturas especializadas em percepção visual, processamento léxico e fonológico e cognição. Essas novas sinapses permitem que áreas tão diversas sejam cooptadas para trabalhar com harmonia e rapidez, nos dando a falsa impressão de que ler é natural.

Uma outra neurocientista, Karin Harman James, sustenta que a escrita manual, o desenhar das letras, ao acrescentar uma dimensão motora a essa sinfonia, contribui para catalisar o aprendizado e fixar melhor os elementos da escrita na memória.

A pergunta não é se jovens precisam escrever à mão, mas a partir de que idade podem deixar de fazê-lo.

(Hélio Schwartsman, aqui)

o poder da criação

 
"O estudo não se mede pelo número de páginas lidas em uma noite, nem pela quantidade de livros lidos em um semestre. Estudar não é um ato de consumir ideias, mas sim de criá-las e recriá-las."

"Dizer a palavra verdadeira é transformar o mundo."

(Paulo Freire)

9 de set. de 2012

o desenvolvimento que nos consome

Via

"O problema número 1 do mundo não é econômico, é ético. Perdemos a visão de bem comum, de povo, de nação, de civilização. O capitalismo infundiu-nos a perversa noção de que acúmulo de riqueza é direito, e consumo de supérfluo, necessidade."

(Frei Betto, explicando didaticamente que o PIB está muito longe de ser a medida ideal de desenvolvimento. Leia na íntegra aqui.)

* * *

"Hoje, no entanto, as noções dominantes de progresso e desenvolvimento, que condicionam nossas relações com o meio natural, encontram-se numa profunda crise. Os relatórios de agências e organismos internacionais apenas nos revelam os riscos iminentes e os limites que cruzam a civilização capitalista, sem reparar nas implicações que isto tem para a vida humana.

Pensando na Cidade do México, sua cidade imensa, essa 'acumulação de almas, de recursos naturais, corpos à deriva, edificações, instituições, ruas sobrepovoadas', Carlos Monsiváis, em seu livro 'Apocalipstick' (2009), questionou-se: 'A metrópole conseguirá olhar-se num espelho?'"

"O desenvolvimento que nos consome", aqui.

o inferno mora na alma


"O inferno são os outros."
- Sartre

De vez em quando o inferno se aproxima de mim, me envolve, me enreda. Fico com a alma dilacerada. Me desumanizo. Começo a lutar. E, com muito, esforço consigo enfraquecer as minhas trevas. Sei que não é uma vitória definitiva. O inferno me perseguirá outras vezes. Estarei, em outros momentos, à mercê de suas forças sutis e avassaladoras.

Houve um tempo em que eu tinha muito medo do inferno. Eu ficava aterrorizado com o cenário que os pregadores pintavam. Ficava ainda mais amedrontado quando alguém me dizia: “Se você continuar se comportando assim vai acabar indo para o inferno”.

Na minha infância, a ameaça de inferno era um expediente de controle muitíssimo eficaz. Quando a meninada se reunia e começava a aprontar, a expressão “cuidado com o inferno” era quase sempre suficiente para restaurar a ordem. Quando ouvia isso, a meninada ficava atônita; logo se lembrava de que Deus manda os desobedientes para um lugar bem longe, governado por Satanás. Lá os rebeldes são eternamente queimados; o fogo nunca apaga e bicho nunca morre.

Hoje, o inferno não me assusta mais. Aquele medo aterrador, quase sinistro, de ir para um lugar fétido, quente e comandado por um ser chifrudo que tortura suas vítimas com um tridente não me impressiona mais. Nenhuma pregação ou fala sobre o inferno me comove. O que mudou?

Descobri que o inferno não é um lugar para onde se vai depois da morte. Não, definitivamente não. O inferno mora bem aqui do lado; está entre nós, está em nós.

O inferno não é uma pessoa; ele está nas pessoas. O inferno não é uma coisa; ele está nas coisas. O inferno não é um lugar; ele está nos lugares; O inferno não é o mal; ele está no mal. O inferno não é uma entidade de outro mundo; ele está neste mundo. Não são as pessoas que vão para o inferno; é o inferno que vai para dentro das pessoas. Ninguém é torturado no inferno; é o inferno que, entrando nas pessoas, começa a impulsioná-las a um autoflagelo emocional e existencial. Ninguém é morto no inferno; é o inferno que, uma vez instalado nas pessoas, começa a matá-las por dentro.

O inferno não é uma categoria religiosa ou teológica. Sua existência não depende da anuência ou catalogação de uma determinada tradição e/ou dogma. Não é a religião que o institui; são as pessoas que o tornam real. O inferno existe porque pessoas existem. Ele está em todo lugar por onde o ser humano anda. O inferno mora na alma humana.

Embora não pareça, o inferno que a tradição religiosa pinta é muito menos terrível que o inferno que reside aqui. A postulação de um inferno fora do nosso mundo contribuiu, e muito, para que o inferno daqui atuasse livremente, se tornando cada vez mais infernal. A religião, ao fabricar um inferno em outras paragens cósmicas, como um ajuste de contas para depois da morte, mitigou o inferno daqui, tornou-o invisível. De certo modo, liberou as as pessoas para viverem no inferno se darem conta disso. Também deu liberdade para o homem infernal disseminar inferno sem que as forças anti-inferno possam constrangê-lo. Afinal de contas, o castigo está destinado para a vida no além. Pouco-se combate, reprime ou remedia aqui. É lá que tudo que tudo finalmente será pago.

Os religiosos e fundamentalistas também ganharam muito com essa história de construir um inferno no além. Com essa medida, eles puderam amansar, e maquiar ainda mais, os infernos e demônios que povoam a religião. Acabaram se livrando do risco de verem expostas as alianças espúrias que mantêm com os infernos e demônios que sutilmente governam as estruturas de poder da religião.

Hoje, o que sinto pelo inferno é uma enorme indignação. Sei que nem sempre percebo os infernos que existem no meu entorno, especialmente aqueles que estão sendo incubados dentro mim. Mas travo uma luta contínua para que o inferno jamais se torne comum, imperceptível. O inferno fica muito mais medonho, efetivo e devastador quando não é notado. Preciso lutar para que as cortinas que o envolvem e que o mascaram sejam destruídas. Preciso lutar para que as vísceras podres do inferno sejam expostas.

O inferno pode ser combatido tanto no plano pessoal e quanto no plano social. Contudo, em ambos os casos, a ação se constitui basicamente de plantar e cultivar amor. O que é o inferno senão uma ausência de amor, uma rejeição ao amor, um ódio declarado ao amor? O inferno se alimenta de tudo que mata o amor: indiferença, ódio, sadismo, presunção, ambição, inveja, ressentimento, mágoa etc.

O inferno nasce do fracasso do amor. Onde o amor floresce, o inferno morre. Onde o amor fracassa, o inferno finca raízes, se fortalece, constrói uma sede de governo, edifica repartições de comando.

A população do inferno não é feita de gente morta. São os vivos que vão para lá vivem aqui. Sempre que desprezamos o amor, passamos a engrossar as fileiras do inferno. E não há prática religiosa capaz de nos livrar do inferno. Apenas o amor pode pôr para fora o inferno que mora em nós.

O apóstolo João nos adverte: “Quem se recusa a amar não sabe o que mais importa sobre Deus, pois Deus é amor” [1 Jo. 1.8]*. Quando nos opomos a amar, plantamos no paraíso de Deus, o mundo em que vivemos, uma serpente semente de inferno. Não há oração, culto, louvor, campanha, novena, penitência, seja lá o que for, que mate essa semente. Tudo que importa para Deus é o amor. Sem amor, não há adoração que valha a pena. Sem amor, até as mais profundas preces se tornam sementes de inferno. A religião não pode destruir o inferno. Na verdade, em alguns casos, a religião faz é potencializar o inferno. Apenas o amor (Deus) pode aniquilar o inferno. Amemos.

(Sóstenes Lima, via)

(*) Fragmento citado de:  Eugene Peterson. A mensagem: a bíblia em linguagem contemporânea. São Paulo: Vida, 2011. p. 1748.

laços e nós familiares


Uma revolução sempre esconde outra. A transformação da família “pai, mãe e filhos” em um leque de possibilidades existenciais, revelada em pesquisa do IBGE, é uma porta de entrada para entender a complexa articulação entre família e trabalho e como nela se está gestando uma revolução invisível. No rastro da transformação da família está vindo a do mundo do trabalho.

Se metade das famílias brasileiras já não corresponde ao modelo casal com filhos vivendo sob o mesmo teto, nem por isso a família se desfaz. Ela resiste, assume formas inusitadas e afirma-se como o que de fato é: laço afetivo, uma realidade econômica e, quando há crianças, um espaço de transmissão de valores e comportamentos. Intimidade, gratuidade e solidariedade que caracterizavam a família tradicional ancoram, hoje, nessas novas configurações, multifacetadas.

Essa grande diversidade traz novidades: o menor número de filhos — ou nenhum filho — e o fato de que homens e mulheres exercem, ambos, atividades lucrativas e colaboram com suas rendas para o sustento da família. A criação dos filhos se dá nos interstícios de duas vidas profissionais. No cotidiano dos casais ou dos indivíduos, homem ou mulher, que sozinhos assumem essa responsabilidade, o tempo se torna um bem escasso e precioso.

O mundo do trabalho não estava preparado para acolher os problemas da vida privada. Enquanto o homem provedor dominou a cena conjugal, uma mulher nos bastidores carregava o peso das responsabilidades domésticas. Quando o provedor saiu do ar e as mulheres bateram à porta do mundo do trabalho esconderam a vida privada , temerosas de que este “defeito” lhes fechasse o acesso. E tomaram as devidas providências: em pouco tempo caíram as taxas de natalidade. Subiu a renda familiar, com dois salários onde que antes só havia um sustentando o consumo de uma família menor.

A renda das famílias aumentou na razão direta em que aumentava a carga e se acelerava o ritmo do trabalho das mulheres. Divididas entre a família e o trabalho, para essas eternas culpadas os laços de família se transformaram em um nó.

Não por acaso, como mostram os dados do IBGE, um número crescente de mulheres retarda ou renuncia à maternidade para levar à frente um projeto profissional. O que prova que o mundo do trabalho invadiu e, durante algum tempo, submeteu as escolhas privadas às suas regras. Mas, como o campo dos afetos é resistente, chegou o momento em que é ele que começa a invadir o mundo do trabalho, forçando-o a abandonar seu ideal de espaço esterilizado dos ruídos da vida real e a conviver com os vínculos que fazem sentido para pessoas de carne e osso, que ganham a vida sem que por isso estejam dispostas a vendê-la.

O que as estatísticas ainda não desvelam é como o mundo do trabalho em suas pontas mais modernas começa a se redesenhar para atender essa nova família. A organização do tempo, uma angústia generalizada, é hoje um problema no cotidiano das empresas. As mulheres e, cada vez mais, os homens estão afirmando que o desejo de melhor criar seus filhos ou de ocupar-se de si mesmos como condição de sobrevivência psíquica e aspiração à felicidade não significa desídia . Já não querem esconder o
privado. Querem debater o problema de sua articulação com o trabalho não mais na intimidade da família — onde que não há solução porque não é um problema doméstico —, mas dentro da própria empresa, que é parte do problema e da solução.

A vida privada que o mundo do trabalho ignorava perpassa, hoje, os departamentos de RH. Flexibilidade nos horários, possibilidade de trabalhar em casa alguns dias na semana, já não soa como uma aberração. Ao contrário, está sendo experimentada nas empresas como solução. As tecnologias da informação ajudando, a jornada de trabalho vai perdendo seu caráter fabril onde reinam o contramestre e o relógio de ponto, incorporando a virtualidade no desempenho profissional avaliado pelo cumprimento de metas e não pelo tempo de permanência nos escritórios. Não se trabalha menos, apenas de maneira diferente. O local de trabalho do século XXI será, cada vez mais, para muita gente, o ciberespaço.

Essas alternativas que aliviam a pressão do tempo colocam as empresas inovadoras no coração da modernidade, exemplo estruturante para a sociedade brasileira. Que ninguém se engane: as demais serão cada vez mais confrontadas a essa questão. Assim como a família mudou — e justamente porque ela mudou —, a maneira de trabalhar está mudando.

Quem viver verá.

- Rosiska Darcy de Oliveira

(via)

a lágrima viva


Llorar a lágrima viva.
Llorar a chorros.
Llorar la digestión.
Llorar el sueño.
Llorar ante las puertas y los puertos.
Llorar de amabilidad y de amarillo.
Abrir las canillas,
las compuertas del llanto.
Empaparnos el alma, la camiseta.
Inundar las veredas y los paseos,
y salvarnos, a nado, de nuestro llanto.
Asistir a los cursos de antropología, llorando.
Festejar los cumpleaños familiares, llorando.
Atravesar el África, llorando.
Llorar como un cacuy, como un cocodrilo...
si es verdad que los cacuíes y los cocodrilos
no dejan nunca de llorar.
Llorarlo todo, pero llorarlo bien.
Llorarlo con la nariz, con las rodillas.
Llorarlo por el ombligo, por la boca.
Llorar de amor, de hastío, de alegría.
Llorar de frac, de flato, de flacura.
Llorar improvisando, de memoria.
¡Llorar todo el insomnio y todo el día!

(Oliverio Girondo)
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