25 de set. de 2012
a crise do futuro
Gilles Lipovetsky, estrela da análise cultural, que detalhou com enorme precisão o esgotamento, o colapso dos velhos significados que fundaram a modernidade, como as ideias de progresso e vanguarda, bem como a fé na ciência e na democracia, esteve no México para falar sobre a importância da educação num momento de crise e foi entrevistado por Daniel Barrón, publicada no sítio Sinembargo, 01-09-2012. A tradução é do Cepat (via).
O que você considera que são as causas da crise, não apenas econômica, mas também cultural do mundo?
É uma pergunta muito ampla, porque as causas não são da mesma natureza. Neste momento, a crise econômica que a Europa atravessa é uma crise muito complexa, que tem a ver com um modelo que hipertrofiou o consumismo, colocando em crise o sistema financeiro. Isto prolongou uma série de crises cíclicas do capitalismo, que não pode ser concebido sem crises recorrentes. No entanto, vivemos num ambiente de crise muito mais amplo. A mais evidente é a crise ecológica, que apresenta problemas para o futuro de uma sociedade centrada no presente. O capitalismo financeiro se concentra em resultados a curto prazo, e o consumo tem uma lógica de eterno presente. O problema é que isso tem um impacto sobre o equilíbrio do planeta, e sabemos que as coisas não podem continuar deste modo por tempo indefinido.
Por outro lado, paralelamente à crise econômica do presente, há uma crise do futuro, uma crise cultural que tem a ver com o desmoronamento das estruturas antigas das sociedades tradicionais. Não é um assunto novo, desde que Nietzsche anunciou a morte de Deus, estamos constatando que as sociedades modernas estão embarcadas num ambiente sem garantias, onde não é concebível acessar a verdade das coisas, manter uma certeza. São sociedades que já não possuem fundamento teológico e que a partir deste fendimento das certezas, faz com que os indivíduos já não tenham perspectivas de futuro. Porém, desde Nietzsche muitas coisas aconteceram, e essa desorientação da qual falava, agora, cobre aspectos cotidianos da vida. A atual crise cultural não está relacionada apenas com a ausência de Deus, mas com uma sociedade cuja informação e valores estão em permanente colisão, e que resultam numa desorientação geral dos indivíduos que vivem neste contexto.
Por exemplo, o caso da alimentação, isso não tem nada haver com o problema nietzschiano da morte de Deus. O problema é que as pessoas não têm referências para saber o que devem comer e como devem comer, porque vivem em uma sociedade que por um lado prega o prazer de comer, o hedonismo pela boa comida, e por outro lado nos impõe estar magros, ter uma boa aparência e fazer dieta. (...)
A desorientação na realidade, a crise cultural, se assim quer vê-la, é que já não admite uma área livre, não tem limites, engloba tudo. Veja a política, existe uma grande instabilidade entre a oposição clássica de Direita e Esquerda, e um dos grandes desafios do futuro é que os cidadãos já não depositam confiança nos partidos políticos. Por outro lado, a ciência e a tecnologia ao resolverem problemas, criam alguns novos.
Embora a ansiedade e a desorientação sempre tenham existido, na modernidade havia uma série de referências e uma ideia de mundo que traziam certezas, em que se acreditava na democracia, na ciência, no socialismo, e pensava-se que todos esses valores nos dariam um sentido de progresso. O problema é que agora já não acreditamos nessas coisas. Em qual progresso pensar à luz do aquecimento global, e sem saber se poderemos habitar um ou outro ponto do planeta? (...) Estamos diante de uma situação em que as grandes esperanças, que abriram a porta à modernidade, perderam seu prestígio, sua consistência. Vivemos em sociedades que não param de se interrogar, de questionar a si mesmas; e que carecem de alternativa radical, isso é o que eu tenho chamado de hipermodernidade.
(...) A educação ainda pode ter algum papel no contexto da hipermodernidade?
Neste contexto, o campo da educação tem uma importância crucial. A sociedade moderna era uma sociedade que economicamente mantinha uma produção de mercadorias extremamente repetitiva. Era o método de produção fordista, que vemos em “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin, em que o operário repete os mesmos gestos ao longo de toda uma jornada de trabalho. Nessa sociedade, a educação tem um valor importante, mas como mero valor humanista, não como força produtiva. Para repetir um mesmo gesto, todo o dia, em uma linha de produção, não é necessário uma formação muito elevada.
No entanto, no contexto da hipermodernidade, as coisas mudam, passamos de sociedades de produção para sociedade de inovação. Precisamos criar, sem cessar, coisas novas e nos adaptar a uma sociedade globalizada, onde já não é viável repetir uma e outra vez o mesmo objeto. Nesse contexto, é importante investir de forma pontual na pesquisa e no desenvolvimento, para poder criar produtos novos e competitivos no mercado, e não se limitar a vender mais caro, como no antigo sistema em que o importante era reduzir os custos de produção e vender caro. Agora é necessário criar novidades. E por isso necessitamos de indivíduos motivados, que sejam capazes de se adaptar a esse contexto de perpétuo movimento. Daí a necessidade de um investimento coletivo e considerável no campo da formação.
A formação não é um gasto, é um investimento no futuro. Não haverá sociedades competitivas e suscetíveis de dar oportunidade às seguintes gerações, se não houver um investimento na educação. E penso que, provavelmente, não estamos a não ser no começo destes problemas, porque com a globalização cada vez mais são as economias que entrarão na arena de competência.
(...) Que ferramentas o indivíduo possui para se defender ou pelo menos se guiar diante da crise social, cultural e econômica que descreve?
Penso que quando se está comprometido na vida com certo número de projetos que são emocionalmente significativos, não se perde a confiança. Podemos lamentar, mas é certo que vivemos numa sociedade em que não podemos esperar tudo dos movimentos coletivos. Antes, a luta de classes e o socialismo nos davam alguma esperança; mas agora sabemos que a luta de classes não resolve os problemas fundamentais. Esse é um dos aspectos desta sociedade individualista, onde a solução dos problemas reside em si mesmo. Temos que formar indivíduos que sejam capazes de se fazer responsáveis por si mesmos. Serem responsáveis de si mesmos, requer capacidades para ter projetos, criar iniciativas, fomentar a criação pessoal.
Quando alguém tem a capacidade de adentrar por esse caminho, então, não perde a esperança. Todos nós conhecemos jovens que querem montar uma banda de rock ou gravar um filme e se veem animados por uma paixão admirável. Por certo, há uma crise econômica, há grandes dificuldades para conquistar projetos; mas apenas a vontade de criar, de fazer, permite que não se acabe imerso numa crise depressiva, onde toda a culpa é colocada nos problemas da globalização.
Falar de projetos não é falar de uma posição elitista, falo de projetos acessíveis para todo mundo, por exemplo, há jovens que se comprometem de maneira muito entusiasta nos movimentos humanitários, ou que criam uma pequena empresa com microcréditos ou meios relativamente elementares. Além disso, devem encontrar novas vias de responsabilidade individual e novas formas de solidariedade. Uma solidariedade inteligente que favoreça todas as pessoas que queiram realizar coisas novas. A novidade deste mundo é que já não temos certezas de que a história esteja se desenvolvendo no sentido correto; mas se podemos oferecer aos jovens as ferramentas que lhes permitam ter uma formação, e não se converterem em meros consumidores, poderão criar uma identidade mais complexa e resistir a hipermodernidade.
(Fonte: Unisinos. Leia na íntegra aqui)
24 de set. de 2012
mestres
"Os melhores mestres são aqueles que mostram para onde você deve olhar, mas não dizem o que você deve ver."
- Alexandra K. Trenfor
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Adora Svitak acha que o mundo precisa de “ideias infantis”, arrojadas, criativas e otimistas. Que os grandes sonhos das crianças merecem altas expectativas, começando com a boa vontade dos adultos em aprender com as crianças tanto quanto ensiná-las. (Via)
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Creio que quase todo mundo acompanhou o feito de Isadora Faber, uma aluna de 13 anos que, por meio de uma rede social, colocou em evidência suas reclamações sobre a escola que frequenta.
A iniciativa da garota gerou uma enorme repercussão social: reportagens em todos os tipos de mídia, produção de análises... Em sua página, Isadora conseguiu milhares de seguidores que compartilham suas publicações, com ou sem fotos e vídeos.
O que esse fato pode nos fazer pensar? Isadora nos deu uma excelente oportunidade para refletirmos a respeito de algumas questões. Quero ressaltar uma delas: a falta de voz dos nossos alunos nas escolas.
Em todas, é importante assinalar: nas públicas -como no caso de Isadora- e nas particulares.
Você já se perguntou por que tantos pais comparecem às escolas tantas vezes?
Claro que muitos vão porque têm uma ânsia enorme, exagerada até, de participar da vida escolar do filho; querem evitar que ele sofra pequenas injustiças que costumam acontecer no espaço escolar e, principalmente, querem garantir a todo custo um excelente desempenho do filho na vida escolar.
Mas muitos vão porque percebem, com clareza ou às vezes só por intuição, que os alunos -seus filhos- podem ter muito o que dizer na escola, mas dificilmente serão escutados, levados a sério. E note, caro leitor: eu disse escutados, e não atendidos.
A esse respeito tenho um bom exemplo contado por uma mãe. Sua filha de nove anos precisou faltar um dia porque os pais tiveram de viajar repentinamente para resolver um problema familiar e a levaram junto com eles. Só que, justo nesse dia, havia um trabalho para ser entregue.
No dia seguinte, a filha foi à aula, explicou o ocorrido à professora e pediu para entregar o trabalho fora do prazo. A mãe da garota já havia alertado a filha de que ela poderia ter de arcar com alguma consequência pela entrega atrasada da tarefa, mas que isso seria justo.
A professora não quis aceitar o trabalho e ainda respondeu ao pedido da menina fazendo um comentário irônico, que insinuava o caráter "providencial" daquela viagem familiar.
Em casa, a menina contou à mãe o ocorrido e esta decidiu reagir. Foi à escola e conversou com a professora que, prontamente, aceitou o trabalho atrasado da aluna.
Por que é que a situação só se resolveu com a palavra da mãe, se esta apenas repetiu o que a aluna já havia dito? Porque não faz parte da cultura escolar ouvir aquilo que os seus alunos têm a dizer a respeito de aspectos de sua vida de estudante.
Não foi isso o que aconteceu com Isadora? Por que muitas de suas reclamações finalmente foram consideradas legítimas e passaram a ser atendidas? Foi a fala da aluna na rede social que mobilizou a administração escolar a tomar providências e atender suas demandas?
Não, caro leitor. Foi a reação dos seguidores de Isadora na rede, em sua maioria adultos, e não estudantes como ela. As pressões efetivas foram a deles e a da mídia -voz adulta-, que conseguiram legitimar o "Diário de Classe" de Isadora.
Isso nos mostra que temos duas tarefas importantes a realizar. A primeira é a tarefa de cobrar a escola para que ela ensine seus alunos a ter participação ativa no próprio processo escolar. É um direito deles que precisamos garantir.
Muitos alunos falam apenas bobagens, pedem futilidades? Sim, claro. Por isso é preciso que a escola ensine aos estudantes o significado verdadeiro de participar.
Outra tarefa é a de renunciar a falar pelo filho no ambiente da escola. Em vez disso, precisamos encorajar o filho a falar por ele mesmo e cobrar da escola que resolva os problemas diretamente com os alunos.
Já é um bom começo no processo de tornar os alunos protagonistas de sua vida escolar, não é?
- Rosely Saião, aqui
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"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende."
- Guimarães Rosa
23 de set. de 2012
catedráticos do simples
Não aguento mais comer falando de comida. Já faz algum tempo, resolvi cuidar da minha alimentação. Decidi seguir os passos de uma amiga, excelente nutricionista, e confesso que vejo claramente os benefícios que o arroz integral e a quinua vem trazendo à minha vida.
Dia após dia, vejo aumentar a prateleira de orgânicos no supermercado -e isso me deixa feliz. Sinto que eu e a humanidade estamos no caminho certo. Mas, no outro dia, num almoço de família, onde eu esperava escutar deliciosas histórias e fofocas familiares, vejo minha sogra, dona de uma feijoada sem igual, falando de carboidratos e antioxidantes. Até tu, Brutus! Confesso: tem me dado um certo enjoo saber que estou comendo uma coisa que tem vitamina A ou selênio.
Desencanta um pouco a comida. Você está prestes a abocanhar uma garfada de salada fresquinha e o comentário ao lado lhe faz mastigar fibras e ácido fólico.
Acho muito boa toda esta evolução dos últimos anos em direção ao bem viver. Todo mundo tem uma receita de saúde para dar. Mas, a todo momento, sem que você peça, despejam mais um item na lista do número de coisas que você precisa fazer pra viver melhor. E dá-lhe ansiedade. Você se sente mal por não conhecer a farinha de chia e mal por ter que fazer tanta coisa para se sentir bem.
Voltar a ser natural exige grande esforço. Às vezes, sinto que o mundo virou do avesso e que, agora, precisamos fazer mestrado e doutorado para tentar nos aproximar do que seríamos em essência.
O alimento é orgânico, mas nossa forma de tê-lo em nossa mesa não é mais. Viramos especialistas do viver, catedráticos do simples, complicamos tudo e agora nos estressamos para desestressar. Comemos falando de comida, brincamos com nossos filhos falando de pedagogia, fazemos ginástica falando de anatomia e, quiçá, amor falando de sexo.
Podemos saber de tudo. Um clique para o selênio, outro para a pedagogia, outro para o orgasmo. É fascinante. Vivemos navegando num mar de informação. Mas sobre o que queremos saber? Tudo? Tudo o que nos rodeia? O que comemos, o que fazemos, o que amamos? Na escola do futuro, talvez a grande matéria a ser ensinada seja mesmo o autoconhecimento, para que possamos ter meios de reconhecer nossas agulhas nesse palheiro.
Outro dia ouvi uma frase que me flechou o peito: "Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar". Será que um dia vamos ter que fazer curso de intuição?
- Denise Fraga, aqui
dick tracy, as distopias e a crise
Se todas as previsões feitas no passado sobre como seria a vida hoje dessem certo, cada um de nós teria um helicóptero – ou coisa parecida – na garagem, e para viagens mais longas só usaríamos aviões supersônicos. (...) Em compensação, o futuro previsto no passado não incluía uma palavra, uma pista, uma sugestão que fosse da grande revolução que viria e ninguém sabia, a da informática. Quer dizer, o futuro imaginado no passado já era um futuro obsoleto. O único tênue presságio do que viria era o rádio de pulso do Dick Tracy, lembra? O próprio Tracy não sonhava que um dia ele teria no seu pulso, para combater o crime, um dispositivo que receberia e emitiria imagens e mensagens, calcularia, fotografaria e diria como estava o tempo em qualquer lugar do mundo.
- Luis Fernando Veríssimo, aqui
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A ideia era procurar descobrir alguém que vê o futuro como um campo completamente virgem. Talvez uma oportunidade para ouvir a voz de sujeitos para quem 2030 seria seu espaço de direito. Espaço que, a princípio, poderiam moldar a partir da soberania de sua vontade.
Mas, aos poucos, sua descrição foi assemelhando-se a uma distopia de cidades à beira de um colapso, pessoas obesas por não fazerem exercícios e celulares de hologramas.
A primeira reação foi acreditar que tinha forçado um pouco a mão na ideia de uma educação baseada no desenvolvimento do senso crítico. Não deixa de ser surpreendente ouvir alguém tão novo e tão crítico a respeito das possibilidades de transformação do futuro.
Mas talvez tal fenômeno deva ser compreendido de outra forma. Ver o futuro como uma distopia é a expressão mais simples de desconforto com o presente. Há algo no presente que parece se esgotar rapidamente. Como ainda não temos a imagem do novo, a figura do futuro problemático aparece como sinal de respeito pelo que ainda não é possível.
Muitas vezes, a verdadeira esperança não está na crença radiante em um mundo reconciliado. Essa crença, quando aparece muito cedo, acaba por matar toda reconciliação possível. Por isso, a verdadeira esperança sempre é precedida por uma profunda recusa. Dessa recusa vem a abertura para realizar o que ainda não sabemos como fazer. (...)
Por caminhos os mais insuspeitos, a vida sempre consegue resolver os problemas que ela coloca para si. Às vezes, ela tenciona as expectativas ao máximo, pois sabe que só isso coloca a criatividade em movimento. Por tudo isso, creio que, mais uma vez, minha filha tem razão no que diz.
- Vladimir Safatle, na íntegra aqui
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Normalmente pensamos em "crise" como algo instável, um processo de transição entre uma situação que não mais se sustenta e uma nova, em que as contradições se resolvem e a estabilidade se restabelece.
Mas será que a crise não se tornou a nossa normalidade? Podemos imaginar a crise não como processo, mas sim como estado, um processo que se autoalimenta e assim se sustenta?
Gostaria de defender essa tese sobre a crise que estamos vivendo. A crise que enfrentamos, em sua essência, não é uma anormalidade que devemos procurar superar. Na verdade, ela define os tempos que vivemos. Isso não implica, necessariamente, que estejamos condenados a um mal-estar permanente. Na etimologia original da palavra na língua grega, "krisis" também significava decisão e poder de escolha. Vou defender a ideia de que isso ocorre na situação atual.
- Tony Volpon, na íntegra aqui
22 de set. de 2012
qual espiritualidade para 2050?
Em 2050 eu terei 98 anos. Isso significa, de forma muito verossímil, que eu não estarei mais aqui. Isso me coloca em uma boa disposição para sonhar com uma espiritualidade que poderia, então, se eu chegar a viver até lá, me satisfazer.
O primeiro ponto seria que ela me prometesse algo diferente a uma sobrevivência pessoal. Agarrar-se ao próprio pequeno eu, naquela idade ou na minha (60 anos), o que há de mais compreensível – porque morreremos – e de mais irrisório? Eu sonho com uma espiritualidade que me ajude, pelo contrário, a amar a vida até o fim, assim como ela é – única, insubstituível, efêmera – e, portanto, a aceitar serenamente a morte, como um convidado satisfeito ao fim de um banquete, como dizia Lucrécio, em todo caso sem pedir nenhuma ração suplementar de prazer ou de amor. Já não se teria o suficiente? Eu sei muito bem, e é isso que equivoca Lucrécio talvez (a saciedade é improvável, senão impossível).
Aprendamos a aceitar isto também: a insatisfação última, a amargura, os lamentos, os remorsos, a nostalgia, o sentimento doloroso de ter vivido tão pouco e tão mal. Ter sucesso na vida? É só uma ilusão do ego. Uma espiritualidade digna desse nome deve visar a mais alto, ter horizontes mais amplos, libertar-nos do ego, tanto quanto possível, ao invés de nos encerrarmos nele. Para que ter um espírito que nos abre ao universal, se é só para nos preocupar com a salvação da nossa pequena alma?
O segundo ponto seria que essa espiritualidade não se limite a uma moral, nem, portanto, ao humanismo. "Fazer bem o homem", como dizia Montaigne, certamente é uma dimensão essencial da nossa existência. No entanto, isso pode não nos bastar. O que é a espiritualidade? É a vida do espírito, especialmente na sua relação com o infinito, com a eternidade, com o absoluto. A humanidade é apenas um parte ínfima dele, que só é grande pela capacidade que tem de saber e de aceitar isso.
Olhe o céu estrelado em uma noite serena: isso não abole nenhum dos nossos deveres, mas os redimensiona, os coloca em seu lugar, no todo imenso, no tempo sem fim, no eterno devir. É isso que se tenta habitar e que é o verdadeiro ápice da espiritualidade: a nossa relação finita com o infinito, a nossa relação temporal com a eternidade, a nosso relação relativa – evidentemente relativa – com o absoluto. Mística da imanência, para os ateus, em vez da transcendência; da unidade, em vez do encontro: abertos no Aberto, como diziam Rilke e Heidegger, passantes na passagem, eternamente fugazes na eterna "impermanência".
Tudo passa, salvo a verdade do que é ou do que foi, que não passa: que vivemos, isso eternamente permanecerá verdadeiro. A morte só pode nos tomar o resto, que não é nada, e não o tomará de ninguém, porque não estaremos mais aqui.
Essa sabedoria, que poderia se referir a Heráclito ou a Spinoza, no entanto, vista do nosso mundo, tem como que um sabor do Oriente. Mas qual espiritualidade poderia nos satisfazer, hoje ou amanhã, que não fosse aberta ao mundo, à pluralidade das crenças, das experiências, dos percursos?
Ecletismo? Cada um pode julgar, de acordo com o que considera verdadeiro e crível, e, no entanto, sem renunciar à coerência, ao rigor, com tudo o que isso implica, quase inevitavelmente, de escolhas ou de recusas. A tolerância não é negação. O ecletismo, para aqueles que tendem a ele, não é confusão.
Não é mais o tempo ou, melhor, não deve mais ser o tempo em que as espiritualidades guerrearão, pretendendo cada uma deter somente ela a chave do Reino ou da salvação.
É o terceiro ponto. Eu sonho, para 2050, com uma espiritualidade pacificada, lúcida, e por isso tolerante. Talvez seja mais fácil para o ateu, que não tem nem dogmas nem ritos a defender. Mas deve-se lembrar que o ateísmo, exceto mentindo sobre si mesmo, nada mais é do que uma crença dentre as outras, cheia de dúvidas como todas as outras. Há muitas moradas na casa do Pai, talvez até mesmo para os órfãos, os órfãos que somos todos nós.
- André Comte-Sponville, filósofo francês, autor de Le sexe ni la mort, trois essais sur l'amour et la sexualités (Ed. Albin Michel, 2012).
Artigo publicado na revista Le Monde des Religions, 01-09-2012. Tradução: Moisés Sbardelotto, aqui
20 de set. de 2012
estímulos supernormais
Deu na Folha que jogos on-line podem estar virando uma nova forma de dependência.
Meu alarme cético dispara sempre que uma nova doença psiquiátrica aparece na mídia, mas é preciso reconhecer que a possibilidade existe. Devido a um improvável complô entre nossa competência técnica e nossas vulnerabilidades neurológicas, essa situação está ficando mais comum. São os estímulos supernormais.
O conceito surgiu a partir de trabalhos dos etólogos Konrad Lorenz e Niko Tinbergen, que mostraram que animais frequentemente se deixam enganar por sinais manipulados para parecer mais exagerados.
Num experimento com perus selvagens, pesquisadores queriam saber qual a "unidade mínima" de perua que os excitaria. Testaram a resposta dos machos a manequins, dos quais iam retirando cauda, pés, asas etc. Descobriram que bastava espetar uma cabeça num pau para encorajar os machos. Eles até preferiam a cabeça sozinha, que lhes provocava reações mais intensas do que as despertadas por uma perua real.
Em "Supernormal Stimuli", Deirdre Barrett mostra que o fenômeno não está restrito a aves. Humanos somos vítimas preferenciais desses estímulos hiperbólicos. Na alimentação, fomos programados para acumular gorduras e carboidratos. Funcionava bem no paleolítico, mas, depois que aprendemos a fazer Baconzitos e quindins, conhecemos níveis inauditos de obesidade e diabetes.
De modo análogo, a destilação do álcool e a biossíntese da cocaína agravaram nossos problemas com essas drogas. Era relativamente difícil tornar-se alcoólatra ou cocainômano consumindo só cerveja pouco fermentada e chá de folhas de coca.
Jogos on-line, ao oferecer um ambiente onde tudo o que acontece são coisas que nossos cérebros estão programados para apreciar, acabam tornando o mundo real um lugar bem menos estimulante que o virtual. É quase uma concorrência desleal.
- Hélio Schwartsman, aqui
19 de set. de 2012
é natural
O pensamento do filósofo Baruch (abençoado, em hebraico = Benedito = Bento) Spinoza sobre a liberdade poderia ser definido assim: "ela consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam". Repare que ele não reconhecia a liberdade como coisa de existência verdadeira, mas poderíamos ampliá-la um pouco se aliviássemos, ao conhecê-los, os puxões dos cordéis.
Outro grande, Schopenhauer (bem lembrado por um leitor), disse que podemos até ter vontades, mas não podemos escolher nossos desejos. Tenho escrito sobre a natureza humana para que saibamos como somos manipulados.
O que me lembrou a portuguesa avó Lucia, de uma amiga querida, que a tudo reagia com o mesmo bordão: "É natural", por mais estapafúrdia que a coisa fosse. "Vó, o padre fugiu com a vizinha!" "É natural, pois..."
Ela se defendia dos sustos da vida com o uso sistemático da naturalização. A naturalização não tem nada a ver com constatar as forças da natureza sobre nós. Ela é o processo da formação do senso comum, talvez o cordel mais forte que a cultura usa para mandar em nós.
Minha mãe quis ter oito filhos (teve sete). Por que tantos? "Porque em 1937 era bonito ter família grande, minhas amigas tinham". Era "natural". Tão natural quanto hoje ter dois. Se você quiser mais, o senso comum vai te patrulhar, "que absurdo, você tá louca?". O feminismo naturalizou a tripla jornada de trabalho para a mulher (ganhar dinheiro; gerenciar a casa, marido e filhos). Nascido em 1948, cresci tendo que cumprir uma linha de montagem: escolaridade, formatura (médico, engenheiro ou advogado), casar, ser provedor e ter filhos. Era natural. Eu me perguntei se queria isto? Claro que não. Tinha medo de ir "contra o natural". É a surda ditadura do senso comum. Hoje ela se estende ao "politicamente correto", um meio de formar rebanhos. A coisa está ficando afrodescendente...
Então este é um aviso: você é manipulado, sua inteligência é posta de lado em favor da obediência ao "que todo mundo faz". Ao mesmo tempo, é sedutora a ideia de que há manipuladores, superiores aos manipulados, e que é bom ser um deles. Mas você já é um manipulador/manipulado, todos o somos.
Um general manda na tropa, mas a mulher manda nele. Manipulação existe. Somos todos seus agentes e pacientes. Se eu for menos ativo e passivo dela, a manipulação diminuirá.
Desconfie do "é natural", que "a vida é assim mesmo". Discuta regras ocultas da ficância, do namoro, do casamento, para ver se você as cumpre por gosto ou por obrigação. Escancare-as!
Atenção com o implícito, com a alusão. As regras do senso comum nunca são faladas abertamente, ou saberíamos discuti-las. A patrulha se dá por punições sutis (suspiros, trombas e gelos). Também valem adjetivos reducionistas, "Isto é fascismo! Você é neoliberal!" (quem os usa já está dominado).
Claro, a patrulha também pode ser explícita, matar e espancar gays, porque eles são excessivamente não "naturais", entende? Mas vir dizer que "a diferença é linda" também é outra tentativa de naturalização que eu não aguento.
- Francisco Daudt, aqui
despertar
"Conhecer a sua própria escuridão é o melhor método para lidar com a escuridão dos outros."
- C.G. Jung
"Se quiser eliminar o sofrimento do mundo, elimine tudo o que há de escuro dentro de você. Na verdade, o maior presente que você tem para oferecer é o da sua própria transformação."
- Lao-Tsé
"Não há despertar de consciências sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo, para evitar enfrentar a própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por se tornar consciente da escuridão."
- C.G. Jung (sim, outra vez)
18 de set. de 2012
o facebook como espelho
Ainda me lembro da época em que o público de um espetáculo musical estava lá para ouvir música, talvez para cantar e dançar, certamente não para fotografar e ser fotografado. Silenciosamente algo mudou. A popularização das câmaras e das redes de compartilhamento parece ter despertado até nos mais tímidos uma compulsão por mostrar tudo o que é vivido, mesmo que seja um acontecimento banal.
"Se não fotografou e não publicou, então não existe." O exibicionismo é expresso em páginas, video-casts, perfis e linhas do tempo que parecem relatórios clínicos de narcisistas compulsivos, em suas várias formas: fotografias com caras e bocas, opiniões rasas a respeito de praticamente tudo, vídeos em que nada de interessante acontece e a triste alegria coletiva com o grotesco e a humilhação.
A exposição é razoavelmente recente. Uma das primeiras autobiografias dedicadas ao registro do cotidiano é "Confissões", de Rousseau. Arrojado e provocador para o século 18, o iluminista francês ficaria chocado com o tamanho da exibição de hoje. Desde os anos 1980, quando yuppies, computadores pessoais e o culto ao corpo abriram canais para a expressão individual, o particular é cada vez mais público e amplificado.
Celulares e redes de compartilhamento transformaram os 15 minutos de fama em uma espécie de "Show de Truman" universal, em que registros banais e confissões diversas tornaram todos um pouco inseguros, verificando a composição de sua figura no espelho do Facebook e corrigindo seu discurso e conduta de acordo com as menções e aprovações recebidas.
Nem o Narciso mitológico seria tão autocentrado. Aquele que morreu afogado ao se apaixonar por sua figura refletida em um espelho d'água poderia argumentar que não sabia que via um reflexo. Como muitos usuários de redes sociais, ele se apaixonou por uma tela e sucumbiu ao confundi-la com a realidade.
Essa confusão entre o real e o fictício publicado é uma das faces mais assustadoras do narcisismo digital. Muitos têm uma visão de realidade tão distorcida pela percepção alheia, tão fragmentada e amplificada pelos perfis e grupos a que pertencem, que geram especulações maiores do que pode supor sua vã fenomenologia.
A vida na vitrine da interface, livre da moderação e da compostura que qualquer grupo social demanda, cria uma gigantesca câmara de eco, em que mensagens são referências de referências de referências, perdendo significado e substância no processo.
O sucesso de uma trilogia pornô, derivada de uma fantasia de fã da série "Crepúsculo", que por sua vez é derivada das clássicas histórias de vampiros, é o exemplo mais recente. Impulsionado pela indicação do amigo do amigo do amigo nas redes sociais, "50 Tons de Cinza" se transformou no maior best-seller do país que um dia foi de Shakespeare e Charles Dickens.
Há uma certa melancolia na situação. Ambientes que permitem tanta exposição e manifestação de identidades múltiplas demandam coerência de pensamento para que seus atores não se tornem reféns das personagens que representam.
Sem contar que todo esse egocentrismo é muito, muito chato.
- Luli Radfahrer, aqui
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(...)
— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.
— Ah! fez Antenor.
— Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim...
— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.
(João do Rio, "O homem de cabeça de papelão", aqui)
progresso
“Há os que acreditam sinceramente que o progresso é uma máquina trabalhando feito louca, no meio de operários miseráveis, para fazer bugigangas para crianças ricas.”
- Millôr (via)
17 de set. de 2012
somos menos do que sonhamos
O sonho é uma aptidão da alma que nos permite voar. Foi o que fez uma menina, quando sonhou em ser a rainha do mundo. Perguntei a ela se não sofria ao terminar o sonho e disse que não. Questionei, então, se não preferia que o sonho fosse verdade. Falou que imaginar ser rainha é mais alegre que ser na realidade. Fiquei quieto diante da sabedoria infantil de quem pode simbolizar. Aliás, nós, adultos, iríamos melhorar se fôssemos reeducados pelas crianças. Por exemplo: ninguém melhor do que elas para ensinar a arte de brincar de faz de conta! Na verdade, somos menos do que sonhamos, o que não é negativo, pois o sonho é tempero indispensável no processo criativo.
Por outro lado, há sonhos que, se postos em prática, podem se transformar em pesadelos. Algumas fantasias de sociedades quase perfeitas, de todos os matizes, se revelaram autoritárias e cruéis. Sonhei, como tantos, com um mundo de plena igualdade, justiça social, sem guerras, quase um paraíso. Há muitos anos descobri que havia idealizado, mas foi bom sonhar, assim como é bom conhecer melhor a condição humana. Aprendi que a utopia está no horizonte e serve para caminhar. Portanto, diante das desilusões que doem, há os que se deprimem decepcionados. Já outros aprendem e se recuperam das ilusões perdidas. São os que enriquecem com novos conhecimentos tanto de si como do mundo.
Os sonhos vivem em nós, até os que se perderam pelo caminho. Comigo caminham todos os sonhos, os reveses que sofri, os amigos que perdi, os dias felizes que voaram. Na verdade, o passado são memórias enriquecidas com o tempo e sempre ganham novas versões. O doloroso desafio é aceitar os fracassos, sem esquecer que eles nos constituem. Suportar os dissabores nos faz mais humildes. A humildade, a base das virtudes, é brincar como a menina que desejava ser rainha, pois somos menos que nossos sonhos. Por sua vez, a raiz principal dos sonhos ambiciosos é a vaidade. Foi o que Bertrand Russell escreveu sobre o pesadelo dos matemáticos, quando os números falaram. O primeiro número disse, orgulhoso: eu sou ímpar; já outro falou que era um número primo. E o mais bobo desprezava todos os demais números, pois ele era o número perfeito. Os números humanizados deliram soberbos como todos nós.
Mas podemos imaginar que existem os números solidários. A solidariedade é gerada pela compaixão, pela capacidade de ver mais além de si. É a melhor resposta a uma sociedade onde crescem as competições desenfreadas. São, entre tantos, os anônimos doadores de sangue, os que dão o seu próprio sangue ao próximo. Sempre é reconfortante aprender dos que conseguem partilhar com os demais. São os que não empobreceram cuidando somente de seu jardim. São momentos em que a condição humana transcende na graça. São luzes fraternas que aquecem e aliviam o peso da existência. É quando a luz resplandece nas trevas e o coração se transforma em poeta. É quando, finalmente, somos mais do que sonhamos.
(Abrão Slavutzky, aqui)
gay demais?!
Este texto foi publicado originalmente no blog Mãe, eu sou gay, escrito pela mãe de um rapaz homossexual, mas chegou aqui pelo Tales Tagliaferri.
O atual sistema de proteção racial que temos no nosso país, que se não é perfeito tornou-se um passo importante no resgate de uma dívida histórica com uma parcela explorada de nosso povo, não nasceu do nada. A Lei Caó, a transformação de racismo em crime inafiançável, as cotas em universidades e o resgate da cultura negra e africana nesse país são frutos de um movimento organizado. São consequência de um movimento, lá nos anos 80 de resgate do orgulho de ser negro, do orgulho das tradições legadas ao país, de uma identidade de COMUNIDADE, que unida é mais forte que separada. E que foi as ruas exigir isso. Não apenas em passeatas ou protestos, mas numa revolução silenciosa e diária. No assumir características raciais marcantes, como penteados afro, ou usar roupas com cores da África, movimentos culturais e de arte e se posicionando enquanto grupo consumidor, que exigiu produtos e serviços voltados a sua especificidade.
Ninguém, nenhum órgão ou político, vai legislar para um grupo invisível. Diferente de negros, que não podem fingir ser brancos para serem aceitos, gays tem essa possibilidade. Podem se "heterossexualizar" senão assumindo uma vida hétero, mimetizando essa vida num discurso que fala em ser discreto para ser aceito. Heteronormatizar o movimento gay tem sido um discurso recorrente dentro da própria comunidade. Ele aparece quando se diz que não é preciso beijar na rua e ofender ninguém. Ou quando se defende que não é preciso esfregar a sexualidade na cara de ninguém. Aparece no desprezo aos afeminados que sujam a imagem sendo gays demais. Vem embutida nesse discurso discreto que prega que você desapareça na multidão e passe a ser parte da paisagem. Agindo e pautando sua vida por regras da sociedade heteronormativa.
O que muitos não percebem é que ao fazer isso, se reproduz dentro da comunidade gay, um padrão machista da sociedade. Que diz que o feminino (ou afeminado) é inferior, menos importante. Que despreza o passivo como menos macho e mais gay que o ativo. Que cria castas onde, quanto mais heterossexualizado eu parecer, melhor. Seja gay, mas suma na multidão hétero sem que ninguém perceba que você gosta mesmo é de trepar com alguém do seu sexo! Só que é ISSO QUE INCOMODA ELES. E é isso, trepar com alguém do mesmo sexo, a ÚNICA coisa que TODOS os gays tem em comum. Não importa se você é macho alpha, barbie, bombadão, travesti, afeminado, bicha louca...invente o termo que você quiser. No fim, a única coisa que importa para homofóbicos é que você trepa com alguém do seu sexo!
Ah, eles podem fingir aceitar você. Desde que você aceite uma troca. Eu finjo que não me importo que você dorme com alguém do mesmo sexo e você faz o favor de restringir sua vida afetiva e emocional as quatro paredes da sua casa. Longe dos olhos da sociedade civilizada. Você finge que está tudo bem e eu vou fingir que não acho você uma aberração que deve ficar longe dos olhos dos bons cidadãos Sacou? Essa é a troca que você está fazendo!
Não. Você não precisa ser fã de Madonna e falar gírias para ser gay de verdade. Mas alguns falam. E alguns são afeminados. E eles NUNCA vão sumir na multidão. E eles estão no mesmo barco que você! Eles não são os inimigos. Eles não estão sujando a imagem da comunidade gay. Eles são TÃO GAYS COMO VOCÊ. Sem tirar nem pôr. Quem faz o que na cama não devia importar a ninguém, além dos dois envolvidos. E nem determina quem é mais gay.
Protestos, sites, paradas e afins são super necessários. Importantes e fundamentais para que possamos conseguir legislação adequada. Mas você quer fazer uma revolução hoje? Então seja gay. Não apenas dentro da sua casa, escondido nas boates ou atrás de portas fechadas. Mas seja você. Homem ou mulher, profissional, filho, amigo, jornalista, professor, afeminado ou não, masculinizada ou não, GAY. Na vida, como na cama. Por que só assim é possível sair da invisibilidade e dizer em alto e bom som: Eu existo. Viva com isso!
(E esse tanto de amigos cercando esses garotos? Podem me chamar de utópica,
mas eu SEI que tudo vai melhorar. #ItGetsBetter)
* * *
"Essa é um pouco da minha história. Com isso, quero mostrar a quem possa achar-se em condições insustentáveis, a quem possa achar que suas dificuldades são impeditivas para prosseguir, que nada no mundo é impossível quando você é uma pessoa que possui retidão, que não luta pela destruição dos outros, que levanta-se da sua cama e dá sua cara para bater e mais do que tudo: ousa ser quem você é, mesmo morrendo de medo dos ataques. Só que, também sei que o medo é um demônio, e eu não acredito em demônios." ("Eu sou mais do que você pode ver", na íntegra aqui)
comer ou não comer, quem decide?
Como serpente que morde o próprio rabo, o sistema alimentar industrial – que é o principal causador da mudança climática global - se sacode pelas perdas de colheitas devido a intensas secas nos Estados Unidos. Em algumas partes, apesar de haver colheita, esta não pode ser utilizada porque por falta de chuva as plantas não processam os fertilizantes sintéticos e tornam-se tóxicas para o consumo. Tudo isso está relacionado com o mesmo sistema industrial: sementes uniformes, sem biodiversidade, com agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, com uso de transporte, energia e petróleo -portanto, grande emissor de gases de efeito estufa-, e controlado pelas transnacionais.
No caso do milho, a escassez se exacerba porque 40% da produção nos Estados Unidos destinam-se ao etanol, ou seja, para alimentar carros em vez de gente.
Por os Estados Unidos serem um dos principais exportadores mundiais de milho, soja e trigo, juntamente ao fato de que 80% da distribuição global de cereais está em mãos de quatro multinacionais que administram o abastecimento de modo a obter mais lucros, a baixa de produção nesse país tem efeito dominó sobre o mercado global, onde os preços dos alimentos estão disparados. Além dos grãos, sobem os preços das aves, dos porcos e do gado, já que mais de 40% da produção de cereais do mundo é usada como forragem para a criação industrial confinada de animais. O que é outro absurdo do mesmo sistema agroindustrial, já que seria muito mais eficiente usar os cereais para a alimentação humana e consumir menos carne, ou que a criação fosse em pequena escala, com forragens diversificadas. A criação industrial confinada e massiça de animais também dá origem a epidemias, como a gripe suína e a gripe aviária, que, por sua vez, geram escassez e aumento de preços, como vimos recentemente no México, com o aumento do preço dos ovos devido a um brote de gripe aviária.
Os que mais sofrem com os aumentos de preços são os mais pobres, principalmente os que vivem em zonas urbanas, que gastam 60% de seus ingressos em alimentos.
Ao contrário, as poucas transnacionais que controlam o sistema alimentar e agroindustrial (da Monsanto até a Wal-Mart, passando pela Cargill, ADM, Nestlé e algumas mais), que controlam as sementes e pés de criação, os agrotóxicos, a compra, distribuição e armazenamento de grãos (também para biocombustíveis), os processadores de carnes, alimentos e bebidas, bem como os supermercados, são os responsáveis pela crise; porém, se blindaram contra seus efeitos, trasladando as perdas para os pequenos produtores, para os consumidores e para os cofres públicos. Para elas, o caos climático e a escassez não significam perdas, mas aumento nos lucros, como acontece com as sementes, com os agrotóxicos e fertilizantes que voltam a ser vendidos, ou a empresas que armazenam cereais, os acaparam e especulam, vendendo-os mais caros; ou os produtos em supermercados, cujo preço aumenta muito mais do que a proporção no início da cadeia produtiva.
(...) Se as políticas públicas protegessem a produção agrícola e pecuária diversificada e de pequena escala, com sementes próprias e públicas nacionais, se diversificariam os riscos –inclusive climáticos- e teríamos produção alimentar suficiente, acessível e de melhor qualidade.
(Leia na íntegra no Adital)
* * *
Falar nisso, já viu a foto do Ronald McDonald original? Era ainda mais assustador do que o atual. Aqui.
16 de set. de 2012
homenagem ao tédio
Tirinhas dos anos 10, André Dahmer
Gosto de dispor de tempo para entediar-me à vontade. Entediar-se é fazer contato com a própria interioridade e abrir-se às nossas cismas. É romper relações com a mesmice do ambiente e entregar-se a um diálogo imaginário. É dar-se conta daquela multiplicidade de facetas tão nossas, que colocamos de lado, que não deixamos que venham à tona em um mundo que só tem tempo para desperdiçar. Entediar-se é não fugir à tristeza, é aceitar que existem, em nosso interior, dimensões escuras, estranhas aos outros e nós, mas nem por isso menos a gente mesmo. É olhar-se de frente no espelho mágico que não sabe mentir. Tédio é tempo de colar o que foi fragmentado, é tempo de arredondar os cantos lascados pela vida. Sem disfarces.
Entediar-se é ausentar-se dos outros. É tempo para ser vivido, e não para ser desperdiçado com gente que se esvazia de si, que vive de presentes. Sem passado que nos dê sentido, perde-se significado. Desaparecemos, assimilados pela opinião, compartilhando apenas o que é comunitário. A solidão aterroriza, mas não devia. Há tantas vozes disputando nossos ouvidos que não é difícil nos flagrarmos, em dado momento, a repetir alguma coisa simplesmente por repetir. Como se fôssemos obrigados a falar, mesmo sem ter nada a dizer. De algum modo, pressinto discursos que se constroem a partir do eco. Sua fonte se perdeu. Como se reflexos se tornassem autônomos. Dou com algumas imagens de mim por aí às vezes, mas nem por isso sou eu. Então percebo que é hora do culto. Que é hora de buscar conforto no tédio, na deriva de alma. Hora de imitar o flâneur, só que percorrendo minha própria interioridade.
Percebo como é difícil pensar a vida sem unidades de medida. É que antigos valores não há mais. Tudo tem preço. Instituíram-se moedas de troca que capitalizam relações entre diferentes tribos, estas que hoje se substituem às extintas classes sociais. Temos apenas faixas de consumo, cuja medida de escala é a quantidade de eletrodomésticos, de banheiros, de suítes, de metros quadrados disputados centímetro a centímetro. Também vale contabilizar maridos e mulheres que se substituem por modelos mais novos, mais adequados a um vir a ser midiático de efeito hipnótico, multiplicado pelos espelhos das vitrines, esses altares, onde os produtos, como os santos, são objeto de adoração. Cobiça e desejos nos guiam e amesquinham nossas ambições recheadas de sabores que ainda não provamos, de substâncias que ainda não tocamos, de brinquedos com que ainda não brincamos. Tudo isso nos afasta de nós, e nos aproxima de miragens que desaparecem, mal a gente consegue tocá-las. A saída é o tédio, a alternativa possível diante dessa fatalidade que se autorregula automaticamente.
Prescinde-se de valores que não sejam aqueles expressamente monetários. A atualidade nos põe preço, e isso sequer nos escandaliza, porque nosso tempo é tão-somente o tempo da emergência do sensacional, da manchete hiperbólica, da banalização de tudo. A fama e o prestígio legitimam qualquer conteúdo. Elas são a alquimia do sucesso. A ingenuidade torna-se cretina. Importa apenas o sensacional, o que pode ser taxado, comprado e vendido. Persegue-se a reparação indenizatória como forma de ajuste, numa atualidade que é sem ligação com o passado e que se vê apenas repetida no futuro, mecanicamente, produtivamente.
(...) Não consigo gostar muito dessas maravilhas todas que a gente só pode ter se comprar. Desconfio dessas coisas que nos tornam felizes, atraentes, inteligentes e que garantem nosso sucesso. Isso não me soa bem. (...)
Um garoto chinês vendeu um rim para poder comprar um iPad. Há uma jovem que investe seus melhores anos em sucessivas operações para substituir próteses mamárias por outras cada vez mais volumosas. Ela deseja ter os maiores seios do mundo. Não sei se conseguiu. Implanta-se tanta coisa no corpo! Ele está cada vez mais tatuado, colorido, transformado. Um rapaz cortou a língua, para que ela ficasse bifurcada como a de um lagarto. Descubro algo novo nisso. O tédio me faz pensar.
Ora, os artistas sempre representaram a figura humana conformada a valores de época. A rigidez das madonas medievais deu lugar às carnes rosadas da Renascença. A isso sobrevieram as sombras e os contrastes do Barroco. El Greco redimensionou as imagens, esticou as figuras para ao alto. A Arte nos conta a história dos homens, economizando palavras. Ah! Os impressionistas coloriram nossas sombras. O ser humano já perdia forma e diluía-se no fundo das telas. Aliás, desde então, fundo e forma se confundem, porque não mais se vai desvincular um do outro. Depois mudamos ainda mais. Desesperamos. Van Gogh resgata o louco. Os corpos começam a ser retorcidos. Basta folhear um livro de arte qualquer para dar-se conta disso. Na modernidade, Portinari conferiu a pés e mãos um peso excepcional, ao retratar um homem que era só força física empregada no trabalho braçal. Anita quase suprimiu a cabeça em Abaporu, um anencéfalo que sobreviveu perfeitamente bem; aliás, como muitos, até hoje.
Por que digo isso? Porque era só arte. Era uma figura humana limitada ao espaço plástico da tela ou do material tornado escultura. Era apenas faz de conta. Não passava de metáfora, de uma interpretação. A pós-modernidade inovou. Hoje é o corpo que recebe esses impactos. Não se trabalha mais a imagem em abstrato. Fazemos isso concretamente no próprio corpo-objeto. Confesso meu susto. Eu me refugio no tédio, bem aqui, entrincheirada por entre livros e velharias. De fato, olhando assim, parece que o corpo se transforma em suporte físico de manifestações só fazem sentido por muito pouco tempo. Percebo algo de assustador em tudo isso.
(...) Produzir, consumir, deixar-se assimilar corporalmente como fetiche. Percorrer o tempo esvaziando-o de significação. Ser o melhor, o maior, o mais ágil, o mais rápido, o recordista. Ser por ser. Bater um recorde qualquer. (...) O banal torna-se profundo. É preciso aplaudir e delirar, sob pena de ser decretada nossa insensibilidade. É preciso ser estúpido, para alcançar a profundidade inaudita do que é óbvio. Por isso talvez eu insista em permanecer tão superficial.
Confesso que fujo. Eu me entrego ao tédio, busco a solidão que me ensina a lidar com o tempo. Preciso fazer valer meu próprio ritmo e preservá-lo como algo profundamente individual. O meu tempo é o meu tempo, e eu gosto de conferir-me a prerrogativa de escolher como usá-lo. É um grande luxo gastar meu tempo com tédio. Saborear o meu café, sentir o cheiro de mofo de cada um dos meus livros, não fazer nada a não ser ouvir o que tenho a dizer a mim mesma.
Deixar-se falar. Talvez tenhamos mais a dizer a nós mesmos do que todos esses discursos de sucesso ou de salvação. Entediar-se. Permitir-se entristecer. Tédio é solitário, é lacônico, é modulado pelo silêncio. Nem alegre nem triste, mas existencial. Tédio é sem consolo, sem compreensão, porque nele não penetra a palavra divina que salva, nem a tentação do demônio que condena, nem a pregação do marqueteiro que quer vender aquilo que todo mundo já tem, menos a gente. Solidão é grátis. É despedida sem adeus. Sem nada. É apenas nossa presença, permanecendo ainda, não obstante todas as coisas que nunca foram aquilo que queríamos ou que pensávamos que elas fossem.
É bem quando descubro que, apesar de tudo, eu ainda sou eu.
(Maristela Bleggi Tomasini, na íntegra aqui. Se dê o tempo de degustar o texto inteiro.)
o caso fox
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
(Drummond)
Meu colega João Pereira Coutinho publicou na terça [04/09/2012] uma interessante coluna (aqui) em que criticava o estilo tortuoso de muitos textos das ciências humanas. Como estou convencido de que mesmo ideias sutis podem ser expostas de forma clara, concordo com Coutinho em gênero, número e caso.
Receio, contudo, que ele tenha sido levemente injusto para com as humanidades. Não há dúvida de que elas abusam do jargão e da impenetrabilidade. Prova-o um célebre caso de 1996, em que o físico Alan Sokal, disposto a demonstrar a falta de rigor das ciências humanas, submeteu à revista "Social Text" um artigo-embuste que foi aceito e publicado. O texto era uma coleção de disparates em linguagem empolada, argumentando que a gravidade quântica é uma construção social e linguística. Diga-se em favor da "Social Text" que, à época, ela não contava com sistema de revisão por pares.
O problema é que esse tipo de coisa não é exclusividade das ciências humanas. Num experimento mais antigo e menos famoso, pesquisadores da Universidade da Califórnia criaram o Dr. Myron L. Fox.
Também era um engodo. Não existia nenhum Dr. Fox. Para representá-lo, contrataram um ator, Michael Fox, que deu uma aula sobre teoria dos jogos aplicada à educação médica. A exposição não tinha amparo na lógica. Eram frases de duplo sentido sobrepostas a contradições e palavras difíceis. Mas o ator tinha charme e dizia as bobagens com autoridade.
A plateia, composta por psiquiatras e psicólogos, não percebeu o logro. Na verdade, avaliou o desempenho do Dr. Fox muito positivamente. Vídeos da aula foram exibidos a outros públicos sempre com os mesmos níveis de sucesso.
Hoje, o caso Fox é usado em livros de psicologia para ilustrar as várias formas pelas quais nossos cérebros se deixam seduzir por elementos não racionais. O problema, no fundo, é a arquitetura de nossas mentes.
(Hélio Schwartsman, aqui)
zen
“O ódio não cessará pelo ódio, mas pelo amor apenas. Essa é a lei ancestral.” (Buda)
“Os ódios não cessam neste mundo pelo ódio, mas pelo amor, superando-se o mal com o bem." (Dhammapada 1,5)
"(...) Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos." (Mt 5, 45)
"Pois quem julga de forma estreita mal enxerga a si mesmo, pensa que possui a verdade e exclui a possibilidade de outras formas de percepção da realidade." (Bernardo Sorj, aqui - e aqui também.)
"Doçura é a maestria dos sentidos. Olhos que vêem no fundo das coisas, ouvidos que escutam o coração das coisas, lábios que falam apenas a essência das coisas. Doçura é o resultado de uma longa jornada interior ao âmago da vida e a habilidade de lá permanecer e observar. A doçura procura pelo bem nas coisas, pois no seu coração reside a convicção de que o bem existe em algum lugar em tudo, é só ter paciência para descobri-lo." (Brahma Kumaris)
15 de set. de 2012
olho que vê
Como o sol que se põe, o ano risca o horizonte de mais um ciclo.
E a cada volta entendemos mais sobre o que é a vida.
Sobre a passagem e a fila da existência que anda.
(...) Neste dia umbilical nos espreita um olhar paternal e
nos pressiona lembrando que a vida não é incondicional:
ou a vivemos plena ou o livro se fecha; ou renovamos com ela
compromissos ou ela nos escapa na ausência de sentido.
(Via)
Um engenheiro amigo que ia construir em Portugal, por desconhecer a legislação e as idiossincrasias locais, contratou um arquiteto que trabalhava no setor de aprovação de projetos da prefeitura. Como a licença demorava a sair, cobrou do arquiteto e este se defendeu dizendo que ela não fora aprovada. “Mas foi você mesmo que projetou”, arguiu o engenheiro, que ouviu como resposta: “Ora, pois, eu o projetei, mas eu não o aprovo!”
Para além de uma piada de estereótipos, fica aqui revelada uma condição particular de nossa humanidade: tantas coisas fazemos e que nós mesmos não aprovamos. Diante do Novo Ano e o fim de um ciclo, a tradição judaica vincula a passagem do tempo com julgamento. Tempo para um ser humano é a passagem de sua existência contraposta às escolhas feitas nesse período. Há um rastro humano numa dimensão que outras espécies não conhecem. O humano não só vive na dimensão espacial e temporal, mas na dimensão do certo e do errado. E seja lá por onde nosso destino passou no ano que termina e seja lá o que levamos a cabo como nossas ações, sempre há as que aprovamos e as que desaprovamos. Isso porque há um Olho que vê e uma Mão que escreve no decorrer do tempo humano. Há tempo e há registro.
Isso não é imaginário ou ilusório, como desdenham racionalistas, mas a essência da humanidade. A mesma natureza que escolhe é a natureza que audita e a cada parâmetro espacial e temporal da existência haverá uma coordenada de “certo ou errado” a ele associada. Esse é o campo da espiritualidade que não está nem de longe excluída do território da inteligência como muitos pensam, mas voltada para uma área específica da realidade. Enquanto a ciência se ocupa do micro e macrocosmo, a espiritualidade se volta ao mesocosmo, à experiência de exercermos nossa existência.
Tal qual a ciência teve que criar espacialmente um LHC, um acelerador de partículas para visualizar na colisão de partículas o que não pode ser observado de outra forma, a espiritualidade humana produziu tradições e religiões que ampliam temporalmente em muitas gerações a experiência humana para observar o que não pode ser registrado de outra forma. E as várias gerações revelaram coisas que não podem ser vistas sem esse instrumento. Revelou-se que existe um vínculo entre criatura e Criador, que há um céu e um inferno, que há um julgamento constante e que se intensifica à medida que a vida vai sendo concluída — enfim, que há um Olho que vê e uma Mão que escreve. Claro não há Olho ou Mão no micro ou no macrocosmo, mas no mesocosmo a coisa é diferente. Ai daquele que não considerar a interface entre seu ser e seu existir! Ora, pois, é tempo de reconhecer que eu escolhi e eu fiz, mas eu não aprovo. Não como um exercício de culpa vazio ou como um recurso para uma moral repressora, mas como um expediente para equalizar tempo e existência. Mais do que o tempo particular de um grupo, Rosh Hashana, o Ano Novo Judaico, é um fragmento, uma peça do quebra-cabeças da consciência coletiva humana...
(Nilton Bonder, aqui)
homens-livro
(desconhecido)
“Fahrenheit 451”, o clássico de Ray Bradbury, escrito em 1953, está acima da costumeira disputa sobre a qualidade do original e da adaptação: o filme homônimo de François Truffaut, de 1966, também é uma obra prima. Essa história me toca em particular, pois deu forma literária à subjetividade do mundo em que nasci. Um tempo é melhor retratado por seus temores e esperanças do que pela realidade, são as fantasias que desvelam esses bastidores, a subjetividade dos fatos. Nesse sentido, a literatura é fonte fidedigna de pesquisa histórica.
A Guerra Fria, assim como o modo de vida do pós-guerra, são metaforicamente retratados no livro como se fossem um futuro distante. Se hoje dizemos que os jovens são parcos de esperanças, isso certamente deve tributo ao tratamento que as gerações anteriores deram às utopias, moradas das expectativas e dos sonhos coletivos. Foi uma época triste, onde anseios de um mundo melhor encontraram no totalitarismo seu destino trágico.
A derrota bélica e política do nazismo não foi o fim, nem a única expressão, da determinação de transformar o estado em um deus, que, como tal, não devia explicações a ninguém. Havia um empenho global, e nisso o estalinismo foi certeiro, em fazer da alienação do homem comum uma regra. Seja qual for o tipo de governo que o século passado concebeu, mais à esquerda ou direita, as coisas importantes costumavam acontecer além da alçada do cidadão. Este que ficasse quieto, sua opinião era menos que bem vinda. Nas ditaduras o pensamento é cerceado, enquanto que nas democracias indignas do seu nome a astenia política é incentivada. Hoje, num mundo onde a liberdade conquistou muitos espaços, os regimes totalitários sobrevivem, prova de que há algo na condição humana que ainda anseia por esse modo de vida. É tão mais fácil não pensar…
Acabamos de perder Ray Bradbury [em junho deste ano], aos 91 anos, o autor dessa que é uma das mais belas fantasia distópicas, metáfora genial do ocaso da esperança. Mas, longe de ser um pessimista, deixou-nos, com “Farenheit 451”, uma nota para nunca ser esquecida: a ficção contém os sonhos mais preciosos, a riqueza e complexidade que nos tornam potencialmente revolucionários. Melhor que isso, mesmo quando o ambiente é adverso há homens dispostos a dar a vida em defesa da arte, das boas histórias. Quando tudo nos é retirado, percebemos que na beleza do encadeamento das palavras, na genialidade de uma trama, resiste nossa essência. Enquanto ela existir, sobreviveremos.
A literatura sempre foi considerada perigosa para os regimes totalitários, porque em seu interior os homens se compreendem melhor, tornam-se mais sábios, críticos e corajosos. Quanto mais escrevermos e lermos, mais nos pareceremos com uma civilização e menos com uma boiada. Isso vale para todas es formas da arte.
Bradbury projetou, para um futuro não muito distante, uma sociedade alienada, onde a população idiotizada era mantida distante de qualquer coisa que pudesse gerar angústias, dúvidas ou tristezas. Uma sociedade de semi-analfabetos, alimentados cotidianamente pela ilusão de participar de uma programação televisiva simplória e realista. Contentavam-se com metas medíocres, como a aquisição de objetos da moda, o aumento da capacidade de consumo, o cuidado com a auto-imagem. Também se dedicavam à vida social, baseada em conversas fúteis, principalmente sobre TV. Para garantir um estado de espírito compatível com essa rotina bovina tomavam remédios regularmente. Sentimentos e emoções eram proibidos, nenhuma manifestação artística era suportável. Os livros, remanescentes clandestinos de um passado recente, quando ainda era permitido viver intensamente dores, amores e desejos, eram caçados e queimados. Farenheit 451 é a temperatura na qual eles entram em combustão.
Qualquer evocação da nossa sociedade vinda da descrição anterior não é mera coincidência. Detalhe: nesse quadro montado pelo autor havia uma ditadura que submetia a população a horizontes tão estreitos. Bondoso da sua parte, pois já devia saber que entramos na fila dos pobres de espírito alegre e espontaneamente, sem necessidade de ser subjugados para tanto.
Os revolucionários de Bradbury não são guerrilheiros ou resistentes no sentido clássico, eles apenas defendem a existência da vida interior representada pela leitura. Trata-se de um grupo rebelde de homens no exílio, na clandestinidade, que se empenha na sobrevivência do acervo literário da humanidade. Eles decoram obras literárias e se incumbem de contá-las e preservá-las. Cada um torna-se um homem-livro. Ao deserto de referências simbólicas eles contrapõem seu apego à leitura. É interessante que a escolha da obra é feita por cada revolucionário, ele passa a ser esse livro, será identificado com ele, atenderá por seu nome, fará das palavras dele as suas. Existe melhor representação do tipo de relação que temos com nossas histórias prediletas?
Porque esse valor todo dado aos livros? Ler pode e deve ser aprazível, não necessariamente nos faz felizes, mas certamente porque nos enriquece, nos traduz. A fruição solitária e portátil de um livro não requer instalações, nem equipamentos. Basta a imaginação de outro ser humano, escrita no código de uma língua que conheçamos bem, e a viagem está garantida. Naquela sociedade a leitura foi banida porque faz dos cidadãos seres pensantes.Todo aquele que lê complica as coisas, no bom sentido. Na resistência imaginada por Bradbury, cada indivíduo preserva um pedacinho do acervo cultural da humanidade para fazer diferença no futuro.
Nessa história, há uma contraposição quase caricatural entre cultura e barbárie que é verdadeira e profética. Para nossa sociedade hipocondríaca, vidiota, consumista e narcisista, mais livros fariam diferença. Talvez quanto mais homens-livro houvesse, menos homens-bomba seriam necessários. E você, se pudesse salvar um livro da destruição, já pensou qual seria?
(Diana Corso, aqui)
cadeia, o fetiche social do Brasil
Não sou advogada, não estudei Direito. Me espanta, mesmo assim, a ideia torta de justiça que vejo – e leio, e ouço – por aí. Essa noção bizarra de que quem comete qualquer crime “tem que pagar”, que atribui à Justiça a função quase exclusiva de punir, “dar o troco”, ou “vingar” as vítimas, me parece um tanto equivocada. Em geral é esse tipo de interpretação sobre o papel da Justiça na nossa sociedade que naturaliza a categoria “crime” e reproduz uma série de fantasias quase fetichistas sobre a figura de um “criminoso”.
(...) O “crime” não é um dado da natureza. É uma categoria inventada na nossa sociedade. Nem toda quebra de lei é crime. É a legislação que define o que é crime e o que não é. Essa legislação é feita inteirinha por pessoas, que têm interesses, posicionamentos políticos, moral religiosa, moral laica; que foram criadas nessa mesma sociedade que se estrutura por meio de classes sociais, categorias raciais, e de uma matriz heterossexual de comportamento que é bem opressiva. Decorre disso que existe sempre um embate pela definição das leis. Nesse embate, as ideias que propagamos, reproduzimos e defendemos sobre o que deve ser a justiça, qual deve ser seu papel, pra que serve o sistema prisional, etc. são essenciais. Elas forjam os termos mais práticos da lei.
(...) No Brasil, o Conselho Nacional de Justiça conta que mais de 40% da população carcerária é composta de gente que não foi considerada culpada, que não teve julgamento. Como socióloga, não sei explicar exatamente por que isto acontece, mas imagino que a mentalidade punitivista da população, em geral, tenha algo a ver com isto. As pessoas parecem sempre mais preocupadas em que se bote gente na cadeia do que em que de fato haja um processo justo. Os argumentos, circunstâncias e minúcias pouco importam: o que a população normalmente brada pelos quatro cantos (da internet, inclusive) é que o acusado tem que ir preso e pronto. Já compra-se imediatamente a ideia de que acusados são culpados, o que é deveras problemático.
O julgamento do mensalão é um prato cheio para observar a expressão deste tipo de pensamento. Pergunte às pessoas na rua: não lhes interessa quem é de fato culpado de algum crime, quem se enquadra na lei e quem não se enquadra. A população julgou, seguindo a mídia de massas, que se jogue todo mundo na cadeira e fim. A mesmíssima população que, enquanto posta cartazes “contra a corrupção” no Facebook, sonega seus impostos, transfere suas multas de trânsito por altíssima velocidade (e reclama de uma inexistente “indústria da multa”), entre outros pequenos atos de corrupção cotidianos. Colabora, ainda, para que a corrupção política no Estado continue. Como? Defendendo que o voto continue obrigatório, votando em qualquer candidato para vereador, ou “deixando a política para os políticos”. Pra ficar em exemplos corriqueiros. “Detesto política” ou “sou apolítico” vêm em geral das mesmas bocas que se dizem “contra a corrupção”. Assim fica difícil.
Você não é menos criminoso por ser branco e de classe média/alta. Só tem mais dinheiro e mais recursos pra não ser preso sem julgamento. Aproveite a oportunidade de ter o mensalão sendo julgado (...) e eleições municipais assim, no mesmo ano, uma coisa pertinho da outra, e pense no que é que significa, de fato, “justiça”. Assim, com “j” minúsculo.
(Marília Moschkovich, na íntegra aqui)
* * *
onde há amor, há heróis
Quem pariu que embale!
Este é um antigo ditado que atribuiu exclusivamente à mãe todos os encargos com relação ao filho.
Afinal, antes era assim. A mulher era a única responsável pela criação e educação dos filhos. Também a ela cabia as lides domésticas e o cuidado para com os idosos e os doentes. Claro que ainda precisava atender ao marido, pois ele tinha, como único dever, assegurar o sustento do lar.
Mas há um tempo, tudo vem mudando. No momento em que a mulher entrou no mercado de trabalho houve um embaralhamento de papéis. Dos homens passou a ser exigida a participação nas questões familiares e eles acabaram descobrindo as delícias da paternidade.
Não é por outro motivo que, de forma cada vez mais frequente, quando do rompimento do vínculo conjugal, eles buscam a guarda exclusiva dos filhos ou a guarda compartilhada.
No entanto há novidades outras. O próprio formato da família mudou e agora se fala em Direito das Famílias. Antes, só era reconhecido o vínculo do casamento. Depois a união estável ganhou o a condição de entidade familiar. E, há uma década - por honra e graça da Justiça - também os vínculos homoafetivos passaram à condição de união estável. Um punhado de direitos é assegurado à população LGBT, inclusive a possibilidade do casamento.
Todas estas mudanças, no entanto, não tiveram o condão de mudar a antiga concepção de que é a mãe a beneficiária da licença maternidade, sendo concedido ao pai escassos cinco dias. Tal, inclusive, impõe alguma restrição às mulheres no mercado de trabalho. Muitas vezes não são aceitas por haver a possibilidade de engravidarem e permanecerem longo tempo afastadas.
Esta disparidade não mais pode prevalecer, pois não atende à realidade dos dias de hoje. Primeiro por que se está vivendo a era da paternidade responsável e é preciso assegurar direitos iguais a pais e mães. Ao depois pode acorrer o falecimento da mãe, o que não pode retirar do filho do direito a ser cuidado pelo pai.
Também a adoção de filhos por casais do mesmo sexo pode gerar alguns impasses. Fazem ambas as mães direito à licença maternidade? Se forem dois pais, depois de cinco dias, ambos voltam às atividades profissionais?
Daí o enorme significado da concessão, pelo INSS, de licença paternidade a um pai que, juntamente com o seu parceiro, adotou uma criança recém-nascida. Só que a licença foi concedida quando o filho já tinha dois anos de idade.
Em face dessa demora, quando a criança tinha apenas 15 dias teve que ser deixada na creche. Esta falta da presença de um cuidador, nos primeiros meses de vida, não há como ser suprida.
Assim, está mais do que na hora de se instituir a licença natalidade. Afinal, trata-se de um benefício a favor do filho e não a sua mãe. Esta é a proposta do Estatuto da Diversidade. Assegura licença natalidade de 180 dias, independente da orientação sexual dos pais. Durante os primeiros 15 dias o benefício é usufruído por um. No período subsequente, por qualquer deles, de forma não cumulativa, e fracionada da forma desejada pelos pais.
Inquestionavelmente um enorme avanço para assegurar a todas as crianças o direito de serem cuidadas por quem tem mais disponibilidade de tempo, ou maior desejo de se dedicar, com exclusividade, para dar-lhes o que elas mais precisam: a segurança de ter alguém que as embale, que as acalente, que as alimente. Enfim, que lhes assegure o direito de crescerem com a certeza de ser muito amadas.
(Maria Berenice Dias, aqui)
14 de set. de 2012
o amor nos dias de hoje
Pedrinho Fonseca, via - em referência a isto
"Igor queria passar adiante um conselho por uma vida com mais amor. Mark, de tanto ver a mesma frase de Ygor pichada nos muros da cidade, inspirou-se e decidiu falar do sentimento na internet. Beta estava em Roma, sua cidade preferida no mundo, quando percebeu que os italianos gostam muito de fazer declarações românticas. Daniela tinha passado por um fim de namoro daqueles que deixam a gente sem chão e precisava descobrir com os outros, como lidar com aquela montanha-russa de sentimentos.
Na quadrilha do mundo, Ygor, Mark, Beta e Daniela acharam sua linha de pesquisa. Nas pichações de Ygor, no site criado por Mark (e alimentado por mais de 20 amigos), nas fotografias de Beta e nos vídeos de Daniela, todos parecem querer entender as nuances de um único tema: o amor, esse sentimento tão vasto e intenso que tira a gente do eixo. Na busca por essa compreensão, acabaram disseminando o objeto de estudo. E não foram os únicos.
Pela internet, principalmente, muitos outros passaram a transmitir mensagens dizendo que o amor é importante, e fazem isso por meio de fotografias, citações, canções… É como se, atualmente, muita gente quisesse resgatar o romantismo, declarar seus amores e até seus desamores, e também mostrar que o mundo pode ser um lugar mais feliz, menos caótico. Para mostrar isso, surgem campanhas como a Free Hugs, que propõe que você abrace um estranho, simplesmente para alegrar tanto a vida dele quanto a sua. Quer atitude mais cheia de amor do que essa? Aqui você vai conhecer algumas." E vale muito a leitura.
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